sábado, dezembro 10

Cultura

Para muita gente cultura é mais ou menos sinónimo de gostar de música clássica e de literatura. Se entendermos a cultura como sendo o conjunto de instrumentos que nos ajuda a nos compreendermos a nós próprios e ao mundo que nos rodeia, é preciso mais qualquer coisa.
Ter uma ideia de como funciona um computador. Não ser aldrabado pela primeira manipulação de números que ocorre ao economista de serviço do partido X. Saber qual é a diferença entre um vírus e uma bactéria. Saber detectar uma falácia num raciocínio.
Cultura é sobretudo autoconhecimento. O João afirma: a mulher do não sei quantos dormiu com o António. Se fosse comigo, já estava com as malas à porta. Depois o João descobre que a mulher dele também dormiu com o António. Descobre também que não consegue prescindir da camisa lavada e do jantar na mesa. Como reagimos em situações extremas? Como podemos sabê-lo? Este tipo de autoconhecimento é precioso.
As situações extremas estão quase sempre relacionadas com algum tipo de violência e algum tipo de dor.
Actualmente existe um grande desconhecimento da violência e da dor. Nada é mais angustiante do que o desconhecido.
Quando era miúdo estive uma ou duas vezes em risco de levar uma valente sova de miudos mais velhos. Não havia adultos por perto. Não foi lá muito agradável mas deu-me um ponto de referência que ainda hoje me é util. Quando estou numa situação de stress dou comigo a pensar: se me safei daquela vez, também me safo desta...
Se tivesse apanhado, ficava a saber como era. Sempre é menos mau do que o desconhecido.

Não estou a recomendar que participem em excursões ao Intendente às duas da manhã. Existem muitas formas seguras de criar alguns pontos de referência.
Praticar uma arte marcial. Fazer paraquedismo ou escalada. Mais do que aprendermos a lutar, passamos a encarar a vida com outra atitude. Deixamos de fazer dramas de pequenos problemas que nada significam. Distinguimos melhor o essencial do acessório. Não é o carro novo nem o cortinado que vão resolver os problemas da nossa vida.
Mais suave: praticar yoga ou fazer longas caminhadas. É incrivel como alguns machos latinos reagem mal à perspectiva de um pequeno desconforto numa posição menos habitual.
Na verdade, basta não fugir dos problemas com que a vida nos confronta.

Vivemos numa sociedade que evita a dor. Evitamos a nossa dor, a dor dos outros, a ideia de dor. Quanto a própria ideia de dor se torna insuportável, a dor acaba por vir em nosso socorro e cura-nos da nossa doença.

5 comentários:

Calvin disse...

Quanto a própria ideia de dor se torna insuportável, a dor acaba por vir em nosso socorro e cura-nos da nossa doença. Estás a falar da autocomiseração, suponho?

on disse...

Calvin,

Quando passamos muito tempo sem sentir qualquer desconforto, deixamos de conseguir ver o sangue dos outros. Ficamos agoniados quando o outro faz um corte no dedo. Achamos insuportável que o nosso filho passe por todos aqueles problemas que ajudam a construir a sua personalidade: ficar fora da equipa de futebol, o pedido de namoro falhado, a luta para arranjar um emprego. Tornamo-nos hiperprotectores.

Achamos insuportavel que alguns animais domésticos sofram. Tornamo-nos vegetarianos por razões éticas ou entramos para a Sociedade Protectora dos Animais. Inventamos problemas com a pessoa com que vivemos.

Algumas pessoa conseguem manter um equilíbrio precário deste tipo durante muitos anos. Noutras o processo radicaliza-se.
Então arranjam um problema sério: um divórcio ou um cancro. Têm então uma boa hipótese de se libertar dos seu problemas imaginários.

Não devemos fugir do desconforto.

MaDi disse...

:)

Odeio coitadinhos. Gosto de pessoas que caem, que não têm medo de cair, e que conseguem levantar-se. Gosto de ver jogos dos paralímpicos. Não tenho dó, tenho admiração. São pessoas que conseguem utilizar os instrumentos que têm em mão para construir qualquer coisa.

Gosto de sofrer, não procuro o sofrimento, mas quando ele aparece, gosto. Aprendo imenso...é quando aprendo mais ;)

M disse...

Eu diria que a dor, física e da alma, humaniza. Mas, apesar de a sentir assim, a tentação é tão grande para poupar os filhos.

on disse...

M,
eu não iria tão longe:)
Um duche frio de vez em quando, um pouco de exercício e uns cafés sem açucar já é melhor do que nada.
A tentação de poupar as crianças é um problema sério.