sábado, dezembro 24

Que mais nos podem roubar?








Things fall apart;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.


W. B. Yeats escreveu estas linhas na sequência do fim da primeira guerra mundial. Encontro algum consolo na sua leitura. No mínimo lembram-nos que as coisas já estiveram tão mal ou pior que agora e depois melhoraram.

Que mais nos podem roubar?
A lucidez de resistir ao primeiro quick fix que algum aprendiz de feiticeiro nos quiser vender.
A satisfação de fazer o nosso trabalho bem feito.
A certeza de que somos em ultima instância os responsáveis pelo nossa vida.
Não deixem.

Nada mudará sem luta, mas lutar só vai produzir resultados quando alguma direcção se tornar clara ao olhos de um grupo suficientemente grande de pessoas. Se ainda têm um emprego e razoaveis perspectivas de o manter, não delapidem demasiadas energias sem uma bússola que vos oriente.
O melhor Natal possível para cada um de nós.

segunda-feira, novembro 14

No tempo da outra senhora ouvia-se a BBC

A RTP e os jornais eram censurados, era a única fonte razoavel. Agora temos uns quantos sites na net e meia dúzia de forums onde se pode saber o que se passa. Televisão? De que serve ter cento e tal canais? Bem, ainda há dois ou três onde se pode saber o que se passa e ouvir algumas verdades sobre o mundo em que vivemos. A melhor é sem dúvida a Aljazeera English. A Russian Television, também não é má. Se quiserem saber algo sobre os protestos nos Estados Unidos, experimentem o Press TV (iraniano?).

segunda-feira, outubro 10

O voto secreto garante a democracia?

Repetia ontem um convidado de um dos muitos programas sobre as eleições na Madeira: lá toda a gente tem vários familiares que dependem de uma forma do governo regional, logo o voto não é livre. Pergunta a locutora: mas o voto não é secreto? O convidado não responde.
No entanto a resposta não é assim tão complicada, apenas demasiado subtil para passar na televisão.
Quanto pesa um segredo? Quanto pesa votar A e dizer que se votou B perante toda a gente? Durante quatro anos, ou durante quarenta anos? Muito mais do que parece. Esse peso é maior para umas pessoas do que para outras. Nunca é negligenciavel e para a maior parte das pessoas é insuportavel.
Já agora quanto pesa admitir perante si próprio que até queriamos votar A e votámos B pelas razões referidas acima? Demasiado. Viver essa contradição a longo prazo é mais do que incómodo.
Que mais nos resta do que admitir que o Alberto João até tem graça?
Jardim recriou na Madeira as condições que garantiram a Salazar e Marcelo vitórias em muitas das eleições do nosso ancien regime. Agora vamos pagar a factura.

sábado, julho 23

Protesto

Uma das coisas que me chateia mesmo nesta crise é ela sobrepor-se a quase tudo.
Entra-nos pela cabeça dentro e é difícil evitá-la. Estejamos nós a tentar minorar os seus efeitos, a tentar exorcizá-la, ou simplesmente ignorá-la, rouba-nos o espaço para outras coisas bem mais fundamentais.
Chegou a hora de a deixar a falar sózinha.

sexta-feira, junho 24

A luta de classes


Um pequeno grupo social controla os meios de produção e explora “os outros”.

Marx fala em controlar ou deter a propriedade? Nem fui verificar. Se no passado controlar e deter eram equivalentes, deixaram de o ser. Os accionistas de uma empresa dificilmente dão ordens ao CEO. O management da empresa acaba por absorver uma parte dos lucros que é comparável, ou superior à que acaba por chegar aos accionistas. Os nossos líderes políticos atribuem impunemente de um dia para o outro vários pontos percentuais do PIB aos credores do BPN. Afinal, toda a gente faz isso um pouco por todo o lado.

Finalmente, a coberto das antigas leis contra os exploradores, os pilotos da TAP arriscam a sobrevivência da companhia para sacar mais meia dúzia de privilégios e manter os antigos. Contra a opinião dos outros trabalhadores. Com o apoio dos muitos que ainda não perceberam que eles estão do outro lado da barricada. Será a atitude da Ryanair tão execravel assim?

terça-feira, junho 21

Um diálogo Pos-moderno: um interdito linguistico em abismo

Muito se tem falado do pos-modernismo agora que o Nuno Crato vai tomar conta do ministério da educação. Normalmente ele traduz a influencia pos-modernista na educação por "eduquês". Para quem nunca dialogou com um pos moderno, relembro aqui um dialogo que tive uma vez com um digno representante desta ideologia no falta de tempo.

Devo dizer que eu não considero que alguma corrente filosofica importante seja pura e simplesmente um erro. Teve as suas razões para aparecer e alguma contribuição dará. Derrida, Foucault e sobretudo Heidegger não são imbecis. Mas alguns dos seus seguidores são loucos perigosos á solta.

O interlocutor pos-moderno é o anónimo. Eu aqui rederencio-o por "PM".
Numa discussão desta acaba-se por dizer sempre umas parvoices. Eu também devo ter dito algumas...

PM A sua apreciação crítica releva com muita pertinência o desnorte da conceptualização dos programas e da sua aplicação nos curricula do ensino secundário. Todavia, não passa desapercebido o nihilismo e negativismo que subjazem ao seu discurso. In limine, ao recusar o horizonte de expectativas do chamado pós-modernismo, anula qualquer lugar que permite o exercício do pensamento, na medida em que a contemporaneidade não se compadece com o imobilismo e a obsessão por paradigmas caducos. Por outro lado, a intolerância excessiva face a determinadas práticas discursivas pode ter como corolário a criação de um vazio, como efeito de um interdito linguístico em abismo.

Lino Alguma razão terá. Talvez eu esteja obsecado por algum paradigma caduco. Mas os pontos de vista que critico constituem um paradigma que nem merece esta designação: vazio de conteúdo, reduz-se a fórmulas e frases feitas, procurando dar corpo aos desejos e intenções (aparentemente) boas dos que as utilizam.

ON gostei do "interdito linguistico em abismo". Já agora: o que é que isso quer dizer?
O resto podia ser dito emduas frases.
Só que assim fica fica claro até que ponto a quantidade de informação transmitida é diminuta.

PM Prezado On,
1. Não vou explicar-lhe o sentido da expressão aludida. Revela, pela sua questão, pertencer à classe de pessoas que, por mais que se expliquem as coisas, nunca chegam lá.
2. "O resto podia ser dito em duas frases." Sim, de facto foi dito em duas frases. Não sabe o que é uma frase? E já agora, não sabe contar?
3. "linguístico" é uma palavra acentuada por dois pressupostos gramaticais. Também quer que lhe explique, ou prefere consultar a gramática?

O Jorge Buescu acabou por citar este diálogo no Rerum Natura.
A coisa durou dias.

Entretanto cheguei à conclusão que as minhas opiniões da época sore o Heidegger eram um bocado ... idiotas.

sábado, junho 18

O Melhor, o Pior e o Logo se vê

O melhor do próximo governo:
O Nuno Crato, com uma tarefa ciclópica à frente. Boa Sorte.
O Alvaro Santos Pereira, ministro da Economia. Teve um percurso semelhante ao do Nuno Crato: escreveu e pensou durante anos a área para que foi convidado. Escreveu vários livros sobre o tema e previu à bastante tempo onde é que isto ia parar. Quem quiser saber o que ele pensa, só tem de ir ao blog dele e está lá tudo. É reconfortante saber que alguém que pense um assunto e vá dizendo umas coisas desagradaveis de forma consistente pode chegar a ministro. Pelo menos quando as coisas apertam. Não quer dizer que seja suficiente para ter uma chanche. Provavelmente é também indispensavel desenvolver uma grande grande rede de contactos.

O Pior:
Paulo Macedo, o ministro da Medis.

As caixas de chocolates, como diria o Forrest Gump:
A Leonor Beleza, (agora chama-se Paula Teixeira da Cruz?) merece toda a sorte no mundo na Justiça.
O Francisco José Viegas, um gajo porreiro e inteligente vai fazer na secretaria de estado da cultura o que o Rui Costa anda a fazer no Benfica? Alguém sabe o que é que o Rui Costa faz no Benfica, para além de ser o escudo invisivel do el Presidente?

segunda-feira, junho 6

O Pantano

Quem vai ser o próximo líder do PS? Seguro é um balão de ar quente que se esvaziará na primeira oportunidade. Sócrates reduziu Assis a um cão raivoso. Os dois únicos políticos de um partido de poder a quem eu daria o benefício da dúvida seriam Rui Rio e António Costa. Costa acha que o primeiro milho é para os pardais e guarda-se para mais tarde? Não me parece.
A demissão de Guterres ao perder as autarquicas foi o acontecimento mais importante desde a nossa entrada na CE. Um homem honesto, inteligente, com conhecimento do aparelho e capaz de passar uma rasteira ao parceiro e até gostar, Guterres já não controlava a canalha. Ou renegava todos os seus princípios ou então tinha de se ir embora.
A canalha são todos aqueles gajos da minha geração que foram colar cartazes e fazer claque para as juventudes partidárias. Nada os move para além da luta pelo tacho. Foram ganhando poder e começaram a tolerar um tipo decente como cabeça de cartaz, desde que lhes garantisse os tachos. Depois quiseram mais. Quiseram tudo. Costa nunca será lider do PS. Com um pouco de sorte, pode vir a ter a chance de concorrer a presidente. Caso contrário, paciência.
Nessa noite todos os interessados perceberam que as regras tinham mudado. Guterres falou no pantano mas não podia ser mais explícito. Queria uma cargo internacional longe da sargeta e só o seu silêncio o podia garantir.
Demasiada coisa terá de mudar para voltarmos a ter um tipo decente à frente de um partido do poder.

quarta-feira, maio 25

O passeio aleatório

Hoje fazem uma sondagem, amanhã fazem outra. Que podemos concluir da variação dos resultados? Absolutamente nada.
O erro normal do processo é várias vezes superior à mudança que ocorreu na opinião das pessoas. A variação não tem qualquer significado.
Vai ser divertido compilar as explicações idiotas que os nossos comentadores políticos vão encontrar para justificar os resultados obtidos. Eu prefiro mudar de canal.

quinta-feira, abril 28

Etapas de uma neocolonização

1. O 25 de Abril de 1974. Provavelmente o acontecimento mais importante da minha vida. Ganhámos a liberdade de expressão. Ganhámos a possibilidade de nos juntar à Comunidade Europeia. Entrámos no jogo de ilusões da democracia, onde os governos se sucedem, só se pensa no presente e ninguém é responsável por nada.

2. A entrada na "CEE". Deixa de ser humilhante passar a fronteira da França ou da Inglaterra. Ainda passei por isso.

3. Os fundos estruturais. Entra muito dinheiro no país. As regras são bem claras: é difícil usar o dinheiro para tornar a nossa economia mais competitiva. Boa parte do dinheiro tem de ser propositadamente mal gasto ou gasto em obras de fachada. As regras facilitam o encher dos bolsos dos corruptos. Apesar de tudo cria-se um ambiente de prosperidade em que seria possível tomar decisões difíceis sem grandes custos para a população. Cavaco Silva prefere a solução mais facil, que lhe dá maiorias absolutas. Em vez de se estimular a produtividade, premeia-se deixar de produzir.

4. Criação do Euro. Uma moeda que não poderia nunca servir os interesses de todos os membros. Uma moeda que foi desenhada para servir os interesses dos mais fortes.

5. Alargamento ultra rápido da comunidade. Assim não havia hipóteses de assimilar os países menos desenvolvidos e fazê-los crescer. também não era isso que se pretendia.

6. Liberalização do comércio internacional. As vantagens para a economia portuguesa de ter livre acesso dos seus produtos aos países da comunidade desapareceram. Passamos a competir com países que usam mão de obra semi escrava e não têm quaisquer preocupações ambientais. Sabíamos que o problema estava ali a esquina e ignorámo-lo completamente.

7. Novas regras de voto dentro da comunidade. A comunidade ficaria ingovernavel se se continuasse a votar por unanimidade. Sobretudo, nada do que está a acontecer agora poderia ter acontecido, não é?

8. Os deficits orçamentais, consequências inevitáveis pelas regras estabelecidas pela criação do euro, obrigam os países periféricos a ajoelhar e perceber de uma vez por todas quem são os Senhores e quem são os servos. Nada nos prende à União Europeia. Podemos sair quando quisermos. Só que as condições da saída não foram pré-estabelecidas e serão decididas pelos Senhores.

9. ...?

Como vamos descalçar esta bota? Haveria soluções de curto prazo, caso tivéssemos outros políticos ou outra classe média. As que tenho visto até agora são pouco mais do que atitudes destinadas a conservar algum do nosso amor próprio. Quem não estiver a pensar em tentar arranjar um passaporte alemão, australiano ou brasileiro, deverá começar a pensar a médio prazo. A neocolonização é muito mais subtil do que as anteriores formas de dominação. Só uma mudança estrutural da consciencia social da classe média pode mudar alguma coisa.
Não há condições para isso? A austeridade vai mudar muita coisa...

Não vale a pena culpar os alemães pelo que está a acontecer. O homem é o lobo do homem. Se nós abrimos o flanco, os outros aproveitam. Como é possivel que nenhum dos principais candidatos a primeiro ministro tenha uma licenciatura por uma universidade decente ou tenha feito alguma coisa na vida para além de chafurdar na política? É agora a altura de deixar o conforto da poltrona e encontrar um caminho que nos dê alternativas em quem votar. Ou deixar que as poucas dezenas de milhares de pessoas que são membros dos principais partidos continuem a decidir por nós.

sábado, abril 16

Carta Aberta ao José Luís Sarmento

Caro José Luís Sarmento,

considero-o um homem inteligente e tenho seguido mais ao menos regularmente o seu blog. Só por isso me dou ao trabalho de escrever o que se segue. Muitas outras pessoas não mereceriam que eu me desse a este trabalho. Compreendo parcialmente o desgaste a que está sujeito. A avaliação dos professores do ensino secundário é um insulto à profissão e a todos os seus profissionais. É verdade que muitos professores contestariam qualquer forma de avaliação, mas esta de avaliação só tem o nome.
É verdade que o sistema educativo mentiu aos jovens e lhes deu uma visão completamente errada do mundo. Que tornou quase impossível eles compreenderem uma série de valores que para a nossa geração eram bem claros. Que o seu desinteresse e indisciplina durante as aulas é completamente desmotivante, que não foi para fazer "isto" que decidiu seu professor. Sei disso porque alguns desses efeitos já chegam à universidade onde dou aulas.
É verdade que vivemos numa cleptocracia e que estamos a ser constantemente roubados. Pelos nossos governantes, pelos especuladores, pelas empresas petrolíferas, por todos os que o podem fazer. Também acho que vivemos vários anos acima do nível de vida que podíamos suportar. O que nos roubaram foi apenas uma parte daquilo que pediram emprestado para nós pagarmos.
Compreendo que lhe apeteça mandar tudo às malvas, pedir a reforma e partir para uma segunda adolescência. Começo por lhe fazer notar que esta decisão pode ter consequências imprevistas. Boa parte das pessoas que se reformaram antecipadamente no princípio da década de 70 acabaram na miséria envergonhada. Mesmo os que tinham altos cargos na administração pública. As reformas não foram actualizadas e a inflação comeu rapidamente o seu poder de compra. Agora a inflação é baixa? É verdade, mas tudo isso pode mudar de um dia para o outro. Uma saída do euro envolveria desvalorizações da moeda da ordem dos 50% em poucos anos. Mesmo sem sair do euro muito coisa mudará. As pessoas acreditam que o Estado é uma pai que toma conta de nós. Apesar de tudo o que aconteceu, ainda não mudaram de opinião. Custa-me perceber como é que, numa situação destas, pode escrever um post tão leviano. Acha mesmo que se vai safar? Quem lê o seu escrito fica a pensar que vivemos num país maravilhoso em que um tipo se pode reformar aos cinquenta e tal e gozar a vida despreocupadamente. A menos que não nos tenha contado a história toda. Quando voltar da sua viagem vai dar aulas num colégio privado ou montar um negócio de explicações? Isso já seria mais realista.
Seja como for, tem o direito de mandar isto tudo às malvas e deixar nas minhas mãos pagar uma parte da sua reforma. A lei permite-o. Não espere porém que eu vá lutar pelos seus direitos, OK? De alguma forma o senhor é só mais um dos que, porque a lei o permite, me vai complicar um bocadinho mais a vida.

PS: Como eu disse antes, não me daria ao trabalho de escrever esta carta a uma pessoa qualquer. Espero que isto possa ser um ponto de partida para um diálogo constructivo. Gostava de compreender melhor as suas motivações.

quinta-feira, abril 14

domingo, abril 10

Razões científicas para pagar menos aos gestores

Atenção, não estamos a falar de alguma investigação manhosa feita por um cientista comuna mas sim de estudos pagos pelo Fed. Estudos que justificam a prática de empresas como o Google.
As conclusões são as seguintes: quando estamos a falar de problemas que exigem soluções criativas pagar grandes quantias não só não melhora a performance como até a pode piorar.

As formas mais efectivas de motivar alguém que faz um trabalho criativo passam por:
- Dar-lhe autonomia. Na Google os investigadores dedicam 20% do seu tempo a fazer o que querem. Muitos dos projectos mais importantes são incubados desta forma.
- Dar-lhe a capacidade de ser bom a fazer o que faz.
- Garantir que esse alguém sente que faz parte de algo maior do que si próprio e que o seu trabalho tem um sentido.
Este comentário ao livro de Dan Pink sumariza o tema de uma forma brilhante.

sexta-feira, abril 8

Está tudo dito...

Lembro-me perfeitamente de ter lido esta cartoon há muitos anos. Na altura achei graça. Agora, nem por isso...
Via Carlos Albuquerque.

domingo, abril 3

Cinco Atitudes perante a Vida

1. A vida é uma merda.
2. A minha vida é uma merda.
3. Eu sou bom, tu és uma merda.
4. Nós somos bons, os outros são uma merda.
5. A vida é boa.
Quem vê o mundo ao nível um difícilmente fará algo mais notavel do que roubar um banco.
O nível dois dá-nos acesso a todas as mediocridades a que temos direito.
O nível três é muito comum. Todos vocês são uma merda e não aprendem nada com do que eu vos quero ensinar neste blog.
Nós somos optimos e vamos andar para a frente. ELES que fiquem onde estão.
Só um grupo que acredita que todos podem fazer a diferença pode mudar o mundo.

O pior da crise actual é corrermos o risco de regredirmos todos para o nível dois.
Do mal o menos, continuemos a achar que só os outros são uma merda.
Não deixem que isso vos aconteça. Vejam o vídeo e enviem-o a alguém.
Nota: a parte interessante do vídeo começa ao fim de quatro minutos.
Via John Doe.

quarta-feira, março 30

Geometric models of matter - Athiyah na Gulbenkian

Da outra vez que o Sir Michael veio a Lisboa, fiquei impressionado com a sua energia extraordinária. Chegou de manhã, deu um seminário, falou com toda a gente que tinha alguma coisa para dizer. Continuou a falar a uma velocidade louca durante todo o jantar, sem se preocupar com as horas. No dia seguinte tinha um avião para apanhar às sete da manhã, onde um dia ainda mais agitado o esperava em Barcelona. O conteúdo científico de seminário não me ficou na memória. Afinal o Athiyah tinha setenta anos e a Matemática é suposta ser um young man's game.
Fui até à Gulbenkian sem grandes expectativas. Aos 82 anos o Athiyah passou a falar à velocidade de uma pessoa normal. O seu seminário, esse não tinha nada de normal. Deu uma das palestras mais loucas e belas a que assisti em toda a minha vida. O homem quer asssociar a cada particula elementar uma variedade de dimensão quatro e por as ideias do Donaldson a render. As partículas de carga nula são variedades compactas. As ideias são tão belas e complexas que é difícil não ficar entusiasmado. O objectivo: refundar a Física Nuclear. Compreender a fissão e (suponho eu) a fusão nuclear. Trata-se de um tema tabu falar na fusão, mas não acredito que ele não sonhe com isso.
Está claro que no fim foi bombardeado pelos físicos: então e os quarks? e o neutrino? Ele tinha resposta para quase tudo. Só o Tom Girard é que conseguiu marcar um ponto quando levou o Athiyah a reconhecer que ainda não sabia muito bem que fazer com o fotão, embora tenha apresentado boas razões para que essa seja a última peça do puzzle.
Caramba, o homem ainda nem publicou o primeiro artigo. O mais impressionante é ver um gajo de 82 a falar de um projecto para vinte anos (a primeira fase!) com a energia de um pos-doc. Não é caso único: este ano vou à conferência dos oitenta anos do Hironaka, que continua a correr atrás do teorema de resolução de singularidades em caracteristica positiva com se de tal necessitasse para obter a tenure.
Velhos são os trapos!

domingo, março 27

Regicídios

Quando as cheias do Nilo não eram propícias durante vários anos, nada como matar o Faraó. Um rei é um símbolo da Vida. Quando deixa de encarnar esse princípio, havia que substitui-lo. O Sol tem de se por para voltar a nascer. O rei morreu, viva o rei. Em muitas civilizações mais primitivas procedia-se ainda à morte ritual do rei ao fim de um número fixo de anos do seu reinado. Algumas vezes era o próprio rei que se suicidava em frente dos seus subditos. O assassínio do rei Carlos e do principe herdeiro é uma manifestação tardia dessa mesma crença. Afinal Buiça era um monarquico.
Há muito tempo que os reis arranjaram maneira de se livrar desse incómodo. As eleições são um ritual que apazigua as massas. Em último caso os verdadeiros reis até deixam que os seus testas de ferro vão parar à prisão. Se for absolutamente necessário. Isto tudo para dizer que não partilho o entusiasmo que tenho entrevisto nas palavras de pessoas que deviam ser capazes de ver mais longe. Substituir Sócrates por Passos Coelho não vai resolver nada. Garantida a derrota do PS, até considero a hipótese de votar neles para evitar uma maioria absoluta.

domingo, janeiro 23

E viva a abstenção!

Pela primeira vez na vida, não vou votar numas eleições. Nem é por o Cavaco ter a vitória garantida. É que não vale mesmo a pena. Nenhuma candidatura me diz o que quer que seja.
Não venham os comentadores depois discorrer sobre a minha farta de dever cívico. Se não estou satisfeito com nenhum, devia ter feito algo para ajudar a lançar um candidato? No sistema actual, não há condições para fazer tal coisa.
Eu faço pelo meu país aquilo que sei fazer melhor.
Não votar é de momento aquilo que pode ajudar a criar condições para que da próxima vez as coisas mudem um pouco.

sábado, janeiro 1

A primeira década

Qual foi o homem que mais influenciou esta década e as próximas?
George W ganha a qualquer outro. Sem ele o acontecimento da década (o roubo descarado dos povos para pagar as falências dos bancos que só foi possível devido às desregulamentações que ele criou) nunca teria acontecido. Ao pé de Bush Richard Nixon parece um menino de coro. Afinal que fez ele? foi um pouco mais longe do que era costume em certas práticas habituais na época. No fundo o Watergate pouco mais foi do que o pagar da factura do Vietnam.
O mais grave de tudo é que normalmente o pêndulo oscila depois de chegar a um extremo. Tal não aconteceu. Obama limita-se a umas tímidas medidas. As leis criadas por Bush não foram revogadas. Afinal, dão jeito a qualquer presidente.
Nós ainda temos o nosso George W. A seguir a ele vem mais um clone de si próprio. O facto mais grave da política nacional acaba por ser a total incapacidade de dos partidos da extrema esquerda em se tornarem adultos e aceitarem os compromissos do poder, com os dilemas morais que lhe estão associados. Tornam impossível o aparecimento de alternativas e não são um alternativa. Acabam por fazer parte do Sistema.
Também aconteceram coisas positivas, mas essas acontecem de mansinho: o crescimento da internet, com a sua capacidade de resistir aos poderes instituídos. O Conhecimento é uma das armas mais importantes. A Wikipedia arrisca-se a ser a instituição do século. Ter ao nosso dispor uma fonte de conhecimento onde podemos encontrar quase tudo, que é imune às pressões de quem realmente manda, que nem sequer depende da publicidade, é algo a que apenas podemos dar o justo valor se a perdermos.
Sem a partilha de ficheiros não é possível potenciar as novas oportunidades criadas pela net. Os "direitos de autor" são essencialmente um meio de de apropriação pelas empresas distribuidoras do trabalho criativo desenvolvido pelos autores. Se a chamada pirataria é uma forma de combate contra as instituições que tudo querem controlar, é fundamental desenvolver novas formas de financiamento para as actividades que nos interessam. Por exemplo: dar uns dolares de três em três anos para a Wikipedia, se a usamos com regularidade. Mea culpa, ainda não me habituei a este novo conceito. Finalmente dei hoje o meu apoio à Wikipedia.
Do que é que eu me esqueci?