domingo, abril 10

Razões científicas para pagar menos aos gestores

Atenção, não estamos a falar de alguma investigação manhosa feita por um cientista comuna mas sim de estudos pagos pelo Fed. Estudos que justificam a prática de empresas como o Google.
As conclusões são as seguintes: quando estamos a falar de problemas que exigem soluções criativas pagar grandes quantias não só não melhora a performance como até a pode piorar.

As formas mais efectivas de motivar alguém que faz um trabalho criativo passam por:
- Dar-lhe autonomia. Na Google os investigadores dedicam 20% do seu tempo a fazer o que querem. Muitos dos projectos mais importantes são incubados desta forma.
- Dar-lhe a capacidade de ser bom a fazer o que faz.
- Garantir que esse alguém sente que faz parte de algo maior do que si próprio e que o seu trabalho tem um sentido.
Este comentário ao livro de Dan Pink sumariza o tema de uma forma brilhante.

7 comentários:

Anónimo disse...

Esse argumento é válido e bem conhecido...mas parece-me que há outro mais importante...estou-me a lixar para quanto é que eles ganham, ou se isso é produtivo. Seja produtivo ou não, eles irão para onde o mercado pagar mais, tal como os jogadores de futebol. E tu não queres colocar barreiras artificiais aos mercados...

A questão importante é: Ganhem eles o que ganhem, porque é que os deixamos ficar com tanto? Por mim podem pagar ao gestor que arruinou o banco (mas que por algum motivo continua a ser um "especialista" cobiçado) o que quiserem, e podem pagar ao Ronaldo o que quiserem, mas não vejo porque é que o estado não vai lá buscar uma percentagem bastante maior do que a corrente. Supõe que por hipótese os Estados ("os"-tem que haver aqui coordenação) passavam a sacar 90% do ordenado do Ronaldo. Achas que ele deixava de jogar futebol? Não. Ele continuava a competir para obter o melhor ordenado possivel. Qual era a alternativa dele? Se calhar era ir servir ao balcão do MacDonalds.
E o Gestor? Podias tirar a esses tipos 90% do ordenado que eles continuavam a ser muito bem pagos e a competir ferozmente para serem o melhor da matilha, que é o que lhes interessa.

A maioria das pessoas, e os tipos ultra-competitivos em particular, não olham a valores absolutos, o que eles querem é estar bem colocados *no pelotão*. Qualquer estado racional deveria já ter percebido que está a jogar mal no mercado - tem ali uma receita fácil de obter, a quem a maioria esmagadora dos eleitores não objectaria, e que lhe renderia grandes receitas. A questão será então porque é que o Estado joga tão mal o seu papel no mercado. É porque não percebe essa ineficiencia? Duvido. É porque está no bolso, não dos eleitores, mas precisamente desses grupos que estão no topo dos rendimentos.

Sendo assim isto é algo que poderia ser corrigido com informação - apesar de tudo a maioria ainda pode votar. Uma força que se comprometesse a agir nesse sentido, se tivesse acesso a um eleitorado informado dos seus verdadeiros interesses, e capaz de pressioná-la a cumprir as suas promessas, poderia executar esta reviravolta.

São muitos e grandes "se"'s. Mas houve pelo menos um caso em que algo semelhante ocorreu, e o publico nem estava tão bem informado, apenas suficientemente farto: estou a falar do Roosevelt. Paradoxalmente (ou na verdade não), isso deu origem, segundo o Krugman por exemplo, ao grande apogeu do capitalismo e do sonho americano da classe média próspera.

O Keynes já dizia que a ameaça ao capitalismo não vem dos sonhos irreais dos comunistas, vem precisamente daqueles que têm o capitalismo sempre na boca (mas só na boca).

Neste momento em que nos falam tanto dos mercados, o que o capitalismo precisa para sobreviver é precisamente do regresso de sindicatos a sério, de greves, de pressão popular, e sim - de "populismo". Essa palavra que tornaram feia porque convém. Como sabes o Julio César era do partido populista, que quer dizer que defendia os direitos do povo, por oposição aos da nobreza. É por isso que a palavra tem que ser denegrida, equacionado-a com "demagogia", sendo que essa equação é precisamente um exemplo desta última.

A.

Anónimo disse...

O Capitalismo não funciona sem regulação. Os mercados só por si são altamente eficientes...na maioria das vezes...mas é sabido que entram em espirais de feedback. E é sabido que por natureza fazem tudo para se libertarem de externalidades.

Por exemplo, grande parte do comércio com a China é um exemplo de externalidades a serem atiradas para debaixo do tapete. As companhias chinesas devem grande parte da sua competitividade ao facto de que não seguem as regras ambientais que o Ocidente segue, nem as regras laborais consideradas mínimas. Se não aceitamos lidar com empresas locais que poluem demasiado ou que escravizam os seus empregados, é absurdo comprar os produtos que são produzidos sob essas condições - a conclusão inevitável é que para podermos competir teremos que eliminar os direitos básicos adquiridos pelos nossos trabalhadores, e passar a aceitar as externalidades que agora têm que ser compensadas pelas empresas.

Mas de novo, talvez seja esse precisamente o plano: a aniquilação de todo o progresso que foi feito desde o sec XIX. O que está em causa é se os teus netos vão ou não brincar ao Charles Dickens.

É preciso regular. Claro que para regular precisamos de uma força politica que seja ortogonal aos regulados. Precisamos disto: Uma força politica que seja amigavel para com o capitalismo mas hostil aos capitalistas.

Acho que era isso que tinhas no Rooselvelt.

Neste momento o que tens é pelo contrario um mecanismo de feedback, porque os estados estão alinhados com o capital. (ena, estou a falar como um comuna)

Por agora, na falta de um FDR, eu contento-me em votar no Pc ou no BE, tendo em conta as escolhas de merda em cima da mesa.

A.

Anónimo disse...

nota: não estou a propor que não se compre nada aos chineses - o proteccionismo nao leva a nada, e é valido o argumento de que apesar de tudo a exploração que eles sofrem eleva-lhes o nivel de vida. Não entremos em falsas dicotomias. A questão é sempre de grau. A questão é sempre, comprar o quê, em que condições. Não sei se acredito que no mundo de hoje seja possivel à mão invisivel obter o melhor resultado.

Para o que dizem que não há condições mínimas, então aceitam que compremos tijolos feitos por trabalho literalmente escravo? Se aceitam comprá-los então aceitem a escravatura nos nossos países também. não há absolutamente diferença nenhuma e pelo menos poupava-se o custo do transporte. De novo, é alias esse provavelmente o plano.
A unica diferença é que comprar aos outros eleva-lhes o nivel de vida e eventualmente reduz as tais condições nefastas (ao mesmo tempo que piora as nossas até chegarmos a um equilibrio a meio termo). Mas então estamos a fazê-lo por caridade? É muito estranho saltar da mão invisivel para a caridade. Parece-me que se usa os argumentos que convém para chegar à conclusão que se quer. Parece-me que a caridade esconde o facto de que uma secção da nossa população está a lucrar com isso desmesuradamente (os tais que evadem as externalidades) e a maioria da população está a pagar a conta. Assim já faz algum sentido...

A.

on disse...

Chateia-me que os imbecis do PC e do Bloco não se tenham entendido. Odeiam-se mais uns aos outros do que aos capitalistas. Acredito que a culpa tenha sido mais do PC que do Bloco. Ainda só decidi não votar PSD, se é que isso é uma decisão.

on disse...

O título foi motivado pela situação actual.

on disse...

Uma das coisas que mais me chateia na situação actual é ver a quantidade de energia que está no ar e a forma como ela se está a disspar sem consequências. Cada um caminha numa direcção diferente e anulamo-nos uns aos outros. Depois há aquelas muitas centenas de milhar que votam sempre no mesmo partido. É por estas e por outras que os nossos políticos continuam a dormir descansados.
Sem o catalizador que consiga por-nos a todos em sintonia, não vamos a lado nenhum.

Anónimo disse...

eu conheço uns tantos membros do PC. Posso garantir que eles odeiam o BE muito mais do que odeiam a direita. Aliás, eles consideram que o BE *é* um partido de direita.

Lembra os judeus do Life of Bryan.

Eu nao espero grande coisa deles excepto que sejam consistentes. O PC tem uma cassete que neste caso aplica-se bem à situação, e tem uma certa dificuldade bem conhecida em sair dela (dissonancia cognitiva e tudo isso). Isso pode dar jeito. Não serão os tais tipos que gostam do capitalismo e odeiam os capitalistas, mas serão metade disso. Quanto ao BE sou mais ignorante, mas do pouco que sei temo que sejam mais faceis de virar. Aquilo está cheio de meninos betos (tb conheci alguns) que sao comunas só para chatear o papá (talvez daí a posição do PC face ao BE), e temo que virem "on a dime" assim que virem para que lado calham os seus interesses reais (Olhe que bem, Zezé, está na assembleia - olhe, o amigo do papá, aquele sr. que foi connosco esquiar, tem um pedido para fazer ao menino...)

A.