terça-feira, dezembro 30

"O mundo é ininteligível, mas é bom"

É o novo subtítulo do blog da Maria da Conceição. Vale a pena gastar umas linhas a analisar este aforismo de uma senhora simpática chamada Adélia Prado.
Inintelegível porquê? Porque não se pode saber de que são feitos as estrelas e os planetas? Nem por isso, até já se foi à Lua... Mas levou muito tempo a se descobrir que havia umas luas a andar à volta de Júpiter. A partir daí foi mais fácil acreditar que a Terra girava em volta do Sol. Foi um senhor chamado Galileu que se deu ao trabalho de construir um telescópio. Devia ter juízo.
Foi o que se pensou durante muito tempo. Agora já não. No entanto há muito quem continue a ignorar a eviedência: as fronteiras do conhecimento movem-se.
Ininteligível porquê? Porque não se pode compreender a mente humana? Nunca se desvendará o mistério do livre arbítrio? Quem quiser acreditar que assim é, está no seu direito. Não é algo que se compreenda sem empenhamento. Não é algo se explique nos comentários de um blog. Daqui a umas décadas uma nova geração crescerá com duas ou três novas palavras, a destilação de décadas de trabalho. Para eles nada haverá a explicar sobre o livre arbítrio. É assim que as novas ideias se propagam. poucas pessoas notam os progressos essenciais.
Afinal, Ininteligível porquê? Porque se quer acreditar que o mundo é bom, que existe um deus bom. Na verdade,

O mundo só pode ser bom se for inintelígivel.

Como se pode aceitar de outra forma a morte de uma criança?
Qual é o preço que se paga por acreditar no tal aforismo? Acabamos por nos fechar ao mundo. Estou a ouvir o clamor da indignação: eu sou bom, estar aberto ao mundo é bom, logo eu estou aberto ao mundo. Não é assim tão simples. Definimo-nos pelas nossas acções, não pelas nossas intenções. Ou pelas intenções que julgamos ser as nossas.

segunda-feira, dezembro 15

sexta-feira, dezembro 5

Bombaim

Não posso concordar com a citação do Lutz acerca dos actos de terrorismo cometidos em Bombaim. Talvez as opiniões de dois cidadãos do mundo, um paquistanês, outro indiano, nos possam dar uma visão mais profunda das coisas. A Índia e o Paquistão são dois gémeos siameses que não podem progredir um sem o outro. Já vai sendo tempo de compreenderem isso.

quinta-feira, agosto 21

Nelson Évora na TV espanhola

Quando os atletas eram focados e se referia as suas possibilidades, o comentador esqueceu-se do nosso saltador. Não se esqueceu de mais ninguém. Só tinha a décima marca do ano? Tudo bem. Mas por acaso até era o campeão do mundo. Quando ganhou, teve direito a um comentário. Lembraram o azar da Naide Gomes. Lá teve direito a uma entrevista. Pediram-lhe justificações. Afinal tinha só a décima marca do ano. Como se atreveu? Évora explicou-lhe que o ano passado tinha sido a mesma coisa nos mundiais. O sonho dele são os 18 metros. Os meetings ele deixa para os outros.
Que fique bem claro: não é nada de pessoal contra nós. Se forem no anel de Madrid e quizerem ir para Barcelona, procurem Zaragoza. Barcelona, nunca ouviram falar.

terça-feira, agosto 19

Fazer um artigo sózinho (2)

A aprendizagem de um amtemático tem tudo a ver com uma quantidade: o tempo que somos capazes de dedicar de forma eficiente a resolver um problema. É algo semelhante ao folego de um nadador. Quantas piscinas consegue nadar? Um miudo da escola primária não passa de uns minutos: ou sabe ou não sabe. Um aluno do primeiro ano da universidade deveria ser capaz de pensar uns quinze minutos num problema. Pouco a pouco esse tempo vai aumentando. Começa-se a saber partir o problema em fatias.
O aumento da quantidade (do tempo) provoca variações qualitativas. Os alunos particularmente dotados aprendem a tirar proveito de pensar num problema e voltar a ele no dia seguinte. A solução aparece-lhes com facilidade no dia seguinte. Que fenomenos estão a ocorrer?
- O cerebro está a reorganizar-se, de uma forma até certo ponto semelhante ao que acontece aos músculos de um levantador de peso. A criação de novas sinapses substitui o crescimento das fibras. (PS: Este processo de reorganização do cérebro exige trabalho regular. Não acontece a quem só estuda para os exames.)
- O cérebro está a trabalhar no problema independentemente da nossa vontade consciente.
Despoletar este tipo defuncionamento é o acontecimento mais importante da vida académica de um estudante universitário. Infelizmente, normalmente é substituido pelo queimar de uma fita ou uma bebedeira.

A matemática é ensinada colocando o enfase na importancia do raciocinio dedutivo. Esta forma de pensar é essencial para verificar se o nosso raciocínio é correcto. Mas não é assim que chegamos às soluções. Este caminho, normalmente o estudante tem de o percorrer sózinho. Muitos jovens escolhem a matemática porque está tudo muito bem organizado. Sentem-se seguros. Quando começam a investigar, o espaço a percorrer entre a formulação do problema e a sua solução aumentou um pouco mais. É preciso encontrar novas armas para ganhar um pouco mais de folego e poder transpor distãncias um pouco maiores. E há que encontrar essas soluções sózinho. Quais foram as soluções que encontraram?

segunda-feira, agosto 18

The reluctant fundamentalist

Changez é mais um filho de uma família aristocrata caída na decadência. Jurou trazê-la de volta ao seu explendor. O primeiro lugar da sua classe em Princeton e a mulher por quem se apaixonou abriram-lhe as portas da elite de Manhatan. Estava quase a cumprir a sua promessa quando o 11 de Setembro lhe veio lembrar que tinha nascido em Lahore.
Duas páginas da novela de Moshin Amid na FNAC foram mais do que suficiente para não ser capaz de a largar. Agora vou ver se compro a outra.

Entretanto

podem compor uma novela à vossa vontade.

domingo, agosto 17

Mais do que compreender o mundo, é preciso transformá-lo?

Ron Suskind escreveu The Price of loyalty, a biografia de Paul O'Neill, secretário do tesouro durante a primeira administração de George W. Bush. Entre outras coisas, apresentou provas de que Bush tinha planeado a invasão do Iraque em janeiro de 2001. A Casa Branca não gostou. Uns anos depois descreveu na New York Times Review uma conversa que teve com um alto colaborador de Bush, provavelmente Karl Rove. Disse-lhe esse senhor que individuos como Ron pertenciam àquilo a que ele chama uma comunidade baseada na realidade. Pessoas que acreditam que as soluções dos problemas surgem a partir de um estudo judicioso da realidade discernível.
Suskind concordou.
O tal senhor explicou-lhe que já não é assim que o mundo funciona. Agora somos um império e quando actuamos criamos a nossa própria realidade. Enquanto você estuda essa realidade - judiciosamente - nós agiremos de novo, criando novas realidades, as quais você terá de estudar de novo. Nós somos os actores da história ... e vocês, a todos vocês caberá apenas estudar o que nós fazemos.
Parece que o tal senhor tinha uma visão incompleta acerca do funcionamento do mundo. Como entretanto se provou.
Temos aqui um exemplo particularmente explícito acerca de duas visões do mundo. Alguns procuram começar por o compreender, outros preferem a acção. Mas à misturas interessantes: Karl Marx, que passou a vida a contemplá-lo, escreveu a frase que aparece no título deste post. Sem ponto de interrogação, claro. Karl Rove e George W. Bush estão de acordo, mas acham mais facil manipulá-lo. Será esta atitude um exclusivo da direita? Olhem que não, olhem que não. Mas isso fica para uma próxima oportunidade.

sexta-feira, agosto 15

Fazer um artigo sózinho

Uma das coisas que o Hugo quer fazer antes de morrer. Afinal, o que é que o Hugo quer? Assinar um artigo sózinho? Ter a ideia para o artigo? Pode acontecer uma vez, por um golpe de sorte. Acho que ele quer mais, ou vai querer mais. Vai querer ter ideias para fazer artigos. Ser independente. Será que ele já sabe que quer isto tudo?
Como é que se chega lá? Não é necessariamente a forma mais rápida de progredir na carreira...
Trata-se naturalmente de um novo salto em frente. Parecido com o que é preciso dar para passar de bom aluno a investigador. Já agora: em que consistiu essencialmente esse salto?

domingo, agosto 3

The Bucket List 2

Que tal em vez de fazer uma lista das coisas que queremos fazer até morrer, fizermos listas das coisas que queremos fazer hoje, esta semana, este mês, este ano, esta década. E olhar de vez enquanto para lá, para ver depois o que aconteceu. Podemos acabar por aprender alguma coisa acerca de nós mesmos. Podemos também começar a ser um pouco mais eficientes.
É claro que é muito menos excitante do que fazer a lista das coisas que queremos fazer até ao fim do próximo ano, altura em que o nosso aneurisma cerebral nos vai fazer bater as botas. Mas nem toda a gente tem essa sorte.

sexta-feira, agosto 1

The Bucket List

O filme que provavelmente inspirou um amigo do Hugo a propor que cada um de nós faça uma lista das coisas que não queremos deixar por fazer até ao dia when we kick the bucket. O dia em que alguns dirão que vão desta para melhor.
Aqui está uma lista que dá azar revelar. Já o Morgan Freeman pensava mais ou menos isso. Que se trata de um exercício que cada um de nós teria muito a ganhar em fazer, não tenho dúvidas. Recomendo.

segunda-feira, julho 21

Cortar o melao em fatias

Sempre acreditei que a melhor estratégia para resolver um problema é parti-lo em vários. Uma variante consiste em substitui-lo por um mais facil, mas que tenha algo a ver com o outro. Funciona sempre, para resolver um problema de matemática, para aprender a fazer um salto mortal ou para ... o que quiserem. Desde que o nosso engenho e arte saiba por onde meter a faca.
Até que se me deparou o seguinte problema. O sr. Hermenegildo zangou-se com o filho há muitos anos. Quer reatar relaçoes com ele. É o que mais quer na vida. A prima Hermengarda, sempre conciliadora, arranjou-lhe o número do telemovel. O Hermenegildo sabe que o filho tem bom feitio. Vai receber bem o seu telefonema. Só falta engolir aquele orgulho absurdo que o sufoca e ser capaz de marcar o número. Ele nem consegue levantar o auscultador. Também nao pode ligar ao filho num estado alterado. Aí o seu orgulho acabaria por traí-lo.
Como é que se corta este melao em fatias?

quinta-feira, julho 17

O avião

Depois de mil peripécias, que maravilha é fazer o check-in. O avião não parte sem nós, agora que já lá estão as nossas bagagens. Podemos passear calmamente pelas free-shops, sabendo que nos esperam umas horas de volta ao útero materno. Que maravilha voltar a ser irresponsável e inimputável. Se o avião cair, não é por minha culpa. Trazem-me a comidinha ao lugar com um sorriso. Só falta meterem-na na minha boca. Mas ainda era bem melhor nos bons velhos tempos em que não havia linhas low cost onde se tem de pagar a sandes. Nem comissários de bordo.
É claro que há os outros, aqueles que não gostam de abdicar da ilusão de controlarem as suas vidas. Os que dizem que têm medo de andar de avião.

sexta-feira, julho 11

A Rainha de Copas

Crescer ao princípio é facil. É a biologia que nos lança desafios todos os dias. Aprender a andar, a falar, a namorar. Enquanto nós nao atingimos um dominio razoavel, embora ilusório, das forças da natureza, os desafios da biologia continuavam sempre: sobreviver aos animais que nos podiam caçar, às secas que nos podiam matar à fome, aos outros humanos que nos queriam escravizar. Até que um frigorífico cheio e uma conta bancária nos permitiram o luxo de vegetar em frente à televisao.
Quando a biologia deixa de nos obrigar a crescer, sociedade toma conta desse trabalho. O emprego, o doutoramento, a tropa. Até que chega o dia em que só continuamos a crescer se nos dermos a esse trabalho. Podemos increver-nos num curso de pintura (funciona por uns meses), fazer psicanalise (talvez funcione por uns anos) ou fazer paraquedismo.
Pois, mas porque é que nos havemos de dar a esse trabalho? A verdade é que a alternativa ao crescimento nao é o nao crescimento, é começar a definhar. A vida é um grande funil. Por muito sucesso que tenhamos o número de possibilidades em aberto tem tendencia para decrescer. Deixamos de poder vir a ser ginastas de competiçao, jogadores de futebol, engenheiros, treinadores de futebol. Porque somos outras coisas, claro. Ter dinheiro para descer o elevador, entrar no automovel e larga-lo no estacionamento do nosso trabalho também significa que cada vez vemos menos pessoas que pensam de outra maneira e têm outros problemas. O tipo de movimentos que fazemos vai sendo também cada vez menor. As celulas do nosso cerebro que vao morrendo nao sao um grande problema. Bem pior sao as sinapses que se perdem por deixarem de ser usadas, e as poucas novas que sao criadas. É aí que começamos a definhar. Mesmo que ao principio nao se veja nada por fora. Somos como a rainha de copas: temos de correr muito, mesmo que seja só para ficar no mesmo sítio...

segunda-feira, julho 7

Crescer


Recuso-me a tal coisa! As jeans de quando andava no liceu ainda me servem. Ou ainda continuo a aguentar-me ao lado dos miudos no ginásio. Ou pelo menos o meu carro anda mais do que o teu. Crescer identifica-se a cair nas armadilhas em que caíram os nossos pais. A começar a ficar igualzinho ao pior lado deles. A envelhecer.

A estratégia da negaçao nao se aguenta por muito tempo. Que tal reinventar a palavra? Afinal crescer nao tem nada a ver com aquelas cicatrizes que às vezes a vida nos inflige e nos torna um pouquinho mais amargos. Cresecer afinal é bom. É saber mais. O suficiente para cair nas armadilhas em que caíamos a década passada. Mas será que aquelas em que caímos agora sao assim tao diferentes?

E afinal, qual foi a última vez que alguma coisa mudou em nós? Para melhor.

domingo, julho 6

sábado, julho 5

Crescer

Como é que a nossa vida cresce? Como é que se mede esse crescimento? Pergunta a Sofia. Será que nós crescemos? Claro que sim, até ao fim da adolescência. Depois, a maior parte do tempo, só envelhecemos. Porque desistimos de crescer. Durante alguns anos podemos distrair-nos vendo os nossos rebentos crescer. Julgamos que crescemos como eles. Mas esse é o tipo de crescimento que compartilhamos com os vegetais.
Medir aquilo que crescemos ao longo da vida adulta é muito facil. Bastam os dedos de uma mao. Nem sequer é obvio que vamos precisar de todos os dedos.

quinta-feira, junho 26

Futebol e Borboletas

Com certeza que sim, meu caro Joao Pinto e Castro, mas apesar de tudo, ainda existe a estatistica. Podemos fazer previsoes e depois ver quem acerta um numero razoavel de vezes. E essa a grande vantagem do futebol sobre a economia. O primeiro e um toy model da segunda. Podemos fazer previsoes mais vezes e ver os resultados mais depressa.
Muita gente comparou quatro treinadores de sucesso:Mourinho, Rijkaard, Mancini e Grant. Mourinho ganhou dois campeonatos, mas tinha muito dinheiro. Rijkaard ganhou la Liga e a Champions. Mancini ganhou tres escudetos e Grant quase ganhou varias coisas. Foram todos despedidos. Mundo cao. Pela logica dos resultados, nao sao assim tao diferentes.
Eu discordo desta ultima afirmacao, mil vezes repetidas nos jornais. Afinal Mourinho na terceira epoca escolheu um plantel bastante reduzido e quando houve uma serie de lesoes, Abramovitch puxou o tapete, nao o deixando ir buscar reforcos que teriam provavelmente feito toda a diferenca. Rijakaard tem um passado de grande jogador que impos respeito durante alguns anos As estrelas do Barca, mas nunca mostrou mais nada. Quando o adjunto Ten Cate se foi embora, foi o que se viu. O primeiro escudeto de Mancini resultou de uma decisao judicial no fimdo campeonato, que se propagou aos dois campeonatos seguintes. Grant pegou na equipa de Mourinho com a pre epoca ja feita, nao lhe mexeu muito, e aquilo resistiu ate ao fim da epoca.
Agora seria a altura de fazer a prova dos nove, ver o que estes senhores sao capazes de fazer nos seus novos clubes. So que a economia veio em socorro do futebol. Ninguem apostou em tres destes senhores. Afinal, parece que sempre existe alguma logica no futebol.

terça-feira, junho 10

Puro Sangue, raça lusitana

O dia da Raça

Senhor Presidente, o que é que isso quer dizer?

Já agora, ouviu aquele senhor que diz que Viana do Castelo não se pode comparar a Viana do Alentejo, mas tão só a Viena de Austria?
e que lembrou que el rei fulano de tal dormiu uma vez lá na terra? e que repetiu esse tipo de idiotices durante vários minutos?
O que é que ele estava lá a fazer?

Ahhh...
E é assim que vai aproximar os jovens da política?

Porque é que esta vez o Pinto da Costa não se safa?

Quando vi Pinto da Costa na SIC ainda pensei que ele se podia dar a volta ao castigo da UEFA. A lata com que este senhor "reinterpretou" os acontecimentos é realmente impressionante.
Pinto da Costa afirmou que o Conselho de Justiça da FPF lhe ia dar razão. Tal faria o juri d'appel da UEFA voltar atrás na sua decisão de afastar o Porto da liga dos campeões. Mas Pinto da Costa está a fazer bluff. Se não estivesse, tinha pedido ao Conselho de Justiça que tratasse o assunto com o urgência. Não o fez. Como tal o juri d'appel não vai mudar a sua posição.
Dirão alguns: mas se o Conselho de Justiça deliberar antes da decisão do Tribunal Desportivo Europeu, este tribunal ainda poderá levar em conta a sua decisão. Não é bem assim. Este tribunal não se pronuncia sobre matéria factual mas apenas sobre algum erro processual das deliberações da UEFA. Que pretende Pinto da Costa com tudo isto? Conseguir que o Euro e as férias do verão dêem tempo aos sócios do Porto para se habituarem à ideia.
Caro Jorge Nuno, os sócios do seu clube veneram-no. Já está perdoado. Mas para a próxima, vai ter um pouquinho menos crédito. Ganhe mais três campeonatos e tudo será esquecido. Se for capaz. Antes da era Mourinho o Porto passou três anos sem ganhar um campeonato. quando Mourinho partiu deixou tanto dinheiro em caixa que o Porto pode passar a ter orçamentos iguais à soma dos orçamentos do Benfica e do Sporting. Perdendo trinta milhões de euros com a decisão da UEFA, de forma directa e indirecta, as coisas vão mudar.
Que fique bem claro que em Portugal o clube mais bem organizado teve quase sempre a melhor equipa de futebol e o controle da arbitragem. Não fazer batota era dar mostras de não amar o clube acima de todas as coisas. É por isso que é especialmente importante acabar com a corrupção no futebol. Porque demasiadas pessoas honestas cruzaram a linha uma primeira vez por causa do seu clube. E uma segunda por outras razões.

sábado, junho 7

Lembram-se do Poborsky?

Os checos são o nosso grande rival. Dava jeito que os suiços se safassem com o 0-0.

Lembram-se do Paolo Rossi?

Com menos partidas nas pernas, Deco é o jogador que está em melhor condições para explodir neste europeu.

quarta-feira, junho 4

Não! Não! Não!

Não se lembram que da outra vez eu também não tinha pago a viagem ao Brasil àquele senhor arbitro que até nunca foi à minha casa.
Foi a agência de viagens que mandou o bilhete lá pró Futebol Clube do Porto e nós pagámos por engano.
Mas isso até nem aconteceu porque eu até já devolvi o recibo à Cosmos e até já me devolveram o dinheiro, carago!
Penso eu de que!

domingo, junho 1

Parabéns Manuela!

Quando eu era miúdo não seriam de esperar grandes proezas atléticas de alguém acima dos quarenta. Em compensação um político só podia ter aspirações sérias a partir dos cinquentas. A televisão quer pôr todos aqueles que não são modelos fora da ribalta. Afinal não é assim tão poderosa. Agora temos uma avó com a idade de Harrison Ford a liderar um partido político.
O grande problema da deslocação de apoiantes do PS para o Bloco de Esquerda é o espectro da renovação do Bloco Central. Com a MFL o problema é um pouco (só um pouco) menos grave.

sexta-feira, maio 30

Não adianta

Durante séculos foi proibido dissecar cadáveres. Quantas vidas se perderam devido a este interdito idiota? Agora é sobre as células estaminais que se procura exercer um tabu. Não interessa se essa investigação podia vir a curar doenças como Parkinson e a diabetes. Outros valores mais altos se alevantam. Os líderes religiosos parecem não querer aprender nada com os erros do passado. Acontece que é impossível na sociedade globalizada de hoje brincar à inquisição por muito tempo, mesmo que a rebaptizemos com um nome mais apelativo. O supremo tribunal brasileiro autoriza a investigação utilizando células estaminais. Curiosamente, a igreja católica brasileira resolveu ter juízo. Os países que mantiverem o interdito vão abdicar de desenvolver esta nova e lucrativa indústria. A Grã-Bretanha já percebeu isso.
Repete-se esta rábula mais uma vez (via Que treta!).

terça-feira, maio 20

John William Waterhouse - Hylas and the Nymphs, 1896

segunda-feira, maio 19

O sr. Fritzl e os seus vizinhos

Referi aqui um artigo de um austríaco sobre a sociedade austríaca, que deu depois origem a uma longa polémica no quase em português. Será que a cativeiro de Elisabeth Fritzl podia ter sido evitado se os seus vizinhos prestassem um pouco mais de atenção ao que se passava? A Helena acha que não. É difícil provar que alguém tinha razões para suspeitar de que se passava algo estranho e se calou. É pouco provavel que essa pessoa o admita.
Podemos no entanto exercitar o nosso bom senso. A Elisabeth foi violada durante vários anos pelo seu pai. Nunca se queixou a ninguém? Nunca emitiu sinais que a permitissem identificar como sendo uma criança em perigo? Fugiu de casa. Ninguém se perguntou porquê? Ninguém falou com ela sobre o assunto? A mãe é apresentada como sendo uma mulher que viveu toda a vida aterrorizada pelo marido. Sabe-se agora que na semana em que a neta se deslocou ao hospital estava de férias em Itália. Passava todos os anos uma semana de férias sem o marido no estrangeiro. Ao que parece a sra. Fritzl gozava de um grau de autonomia pouco compatível com a imagem que temos dela.
Fala-se muito contra a bisbilhotice. Ao mesmo tempo que as vendas das revistas cor de rosa continuam a aumentar. Não são só os dentistas que as compram. Melhor seria que todos nós assumamos o nosso lado negro. Eu pratico sistematicamente uma certa forma de bisbilhotice. Gosto de andar informado somo como evoluem os meus sobrinhos adolescentes e outras pessoas em posições de mais fragilidade. Não suspeito de nenhum caso de pedofilia mas conheço bem demais uma série de padrões que se estabeleceram em gerações anteriores e a sua tendência para se reproduzir. Uma vez por outra intervenho. Umas vezes de forma directa e relativamente agressiva, para aí uma vez de três em três anos. Outras de formas mais subtis. Arrisco-me a cometer erros imperdoaveis, a contrair responsabilidades pesadas, a criar inimizades inconvenientes. Acho que não tenho o direito de não o fazer. So far so good. Se existisse algum senhor Fritzl na minha família, acho que ele não se safava.

domingo, maio 18

São Jorge e o Dragão

Os descendentes de Felix Klein

Faz agora 130 anos que Felix Klein completou a sua tese de doutoramento. Um acontecimento raro na época. Foi o único aluno de doutoramento dos ilustres Julius Plucker (coordenadas) e Rudolf Lipschitz (funções). Klein distingui-se pela sua célebre garrafa, pelo seu programa para relacionar a teoria dos grupos com a geometria e pelos seus 58 alunos de doutoramento. Um feito único. Eu sou um dos mais de 30.000 descendentes do sr Klein. Em média cada descendente do sr. Klein teve um pouco mais de três alunos de doutoramento. Ou seja: a cada duas gerações (de doutorandos) o número de descendentes do senhor Klein multiplicou-se por dez. Em 130 anos chegámos aos 30.000. Se os matemáticos se continuassem a reproduzir a esta velocidade dentro de 130 anos existiriam 1000 milhões de descendentes do sr. Klein. Como nem todos os matemáticos são descendentes do Felix, todos os habitantes da terra seriam matemáticos.
Sempre que o crescimento anual de uma grandeza é uma percentagem constante dessa grandeza estamos perante um crescimento exponencial. A certa altura torna-se explosivo. Não pode continuar. É a velha história do sábio que inventou o xadrez para ocupar as horas de tédio do seu marajá. O marajá ofereceu-se para lhe realizar um desejo. O sábio pediu-lhe que colocasse um grão de trigo na primeira casa do tabuleiro, dois na segunda, quatro na terceira e assim sucessivamente. O marajá perguntou-lhe por que não lhe pedia algo mais valioso. A verdade é que não existe trigo suficiente neste planeta para satisfazer este pedido.
Sendo assim, por que é que os matemáticos reagem tão mal quando o número de matemáticos para de crescer numa determinada parte do globo? Eles, mais do que ninguém, deviam compreender o crescimento exponencial. O que é que nos leva a querer sempre crescer ao nível da população, do produto nacional bruto, dos gastos de energia, apesar de sabermos que as coisas não podem continuar assim indefinidamente?

Clicando na figura vai-se parar ao Mathematics Genealogy Project. O matemáticos que por aqui passarem podem procurar lá a sua árvore genealógica. É mais do que uma simples curiosidade.

sábado, maio 17

Les Nymphes et le Satyre - William Bouguereau, 1873.

Medicina e globalização

Dezenas de milhares de portugueses perdem o emprego por causa das deslocalizações das fabricas de texteis, calçado e componentes automoveis. Nada se pode fazer, é o sacrossanto mercado. Quando os oftalmologistas perdem 0,005% da sua cota de mercado para a mesma globalização, um governo atento desvia verbas para garantir que tal não acontece. Mesmo que continue a ser mais barato ir a Cuba, com avião e tudo.
Ficamos agora à espera da Junta de Freguesia que envie para a India três senhoras à espera de uma prótese auditiva há dois anos e da Camara que pague a meia dúzia de municipes os tratamentos dentários a que nunca teriam direito cá no burgo. Por um terço do preço, na Costa Rica. Nesse dia acabam-se as listas de espera no Serviço Nacional de Saúde.
As ideias que expresso neste post parecem-me razoáveis e não especialmente originais. É possível encontrar nos artigos de opinião dos nossos jornais de referência as opiniões mais dispares. Por que é que ninguém manifestou até agora uma posção vagamente parecida com esta?

terça-feira, maio 13

Nota para o dia das eleições

As regras são para os outros...
Mais um ponta do iceberg. Por isso mesmo, não posso deixar que o Socrates tenha maioria absoluta pró ano.
Votar em quem? Talvez bloco de esquerda, se não estiverem com mais de 10%.

segunda-feira, maio 12

Manuela Ferreira Leite e os outros (2)

[...] esta semana houve a entrevista de Manuela Ferreira Leite a Judite de Sousa na RTP. Tudo foi bizarro no tratamento televisivo da entrevista, de tal maneira que todos se aperceberam de que havia qualquer coisa pouco habitual. Não me lembro de nenhuma [entrevista], nenhuma, que tivesse sido feita quase do princípio ao fim com um grande plano, um enorme plano do rosto de Manuela Ferreira Leite. Durante grande parte do tempo, o rosto nem cabia no ecrã, de tão próximo estava o olhar da câmara. Isto é objectivo; é só comparar as entrevistas.

Eu percebo muito bem a intenção do realizador. Não havia ruga, veia, movimento do olhar que não enchesse o ecrã, e o mais cruel dos planos escrutinava aquele rosto para lhe mostrar a fragilidade. É o mais violento dos olhares que a televisão é capaz, aquele que não permite que nada escape, que desapareça toda a reserva do corpo na sua parte mais exposta, a face. Aquele plano era todo um programa, tinha como objectivo mostrar uma mulher velha e cansada, com rugas, com o tempo na cara. Mostraria o mesmo em quase toda a gente, menos nos modelos de plástico que passam por homens e mulheres e que nasceram ontem com a pele limpa dos bebés. Mas não era toda a gente que estava ali, era Manuela Ferreira Leite. Aquele grande plano, excessivo e brutal, é todo um programa, insisto. Não há inocência.

Aquela face desprovida de qualquer defesa, exposta ao escrutínio quase incomodado dos espectadores, transmutou-se numa beleza muito especial, muito rara - a da verdade. É que debaixo daquela luz não há mentira que não se perceba, nem verdade que não se agigante.

Quando se lamenta muito a crise dos valores na nossa sociedade, aquela mulher frágil como todos nós, a quem chamam "de ferro", faz a melhor das pedagogias - a do exemplo.

Por tudo isto, agradeço aqui ao realizador da entrevista da RTP que não sei quem é. Fez a melhor das propagandas, mais rara, a mais difícil de fazer, a que não se encomenda, a que não se coreografa, a que não se imita. Fez da fragilidade uma força imensa. Não sei se chega para ganhar eleições no PSD, estou até mais convicto que chega mais facilmente para ganhar eleições no país, tão grande está o divórcio entre o partido e o país, mas estou de bem com esta maneira de ser. É o que mais faz falta.

quinta-feira, maio 8

Manuela Ferreira Leite e os outros

Pedro Passos Coelho lança uma frase e depois vê se pega. Será que ele acredita em alguma coisa? Santana Lopes já conhecemos, obrigado. Ontem Manuel Ferreira Leite lembrou-nos que ainda existem pessoas que fazem política e que têm convicções. Que até sabem do que falam. Que uma tal pessoa seja candidata à liderança do partido mais sem vergonha do nosso espectro político é uma daquelas ironias da vida que não sei explicar.

Californication

Às segundas na RTP2, pelas 23h10m.

quinta-feira, maio 1

A suspeita

Com aquele orçamento e aqueles jogadores, qualquer lateiro teria feito o que ele fez?
É claro que sim, meu caro João Pinto e Castro, desde que tivesse sido Mourinho a programar a pré-época e a estabelecer o modelo de jogo. Pró ano tiramos as dúvidas.

The Most IMPORTANT Video You'll Ever See

Oftalmologia e Globalização

Depois de a Globalização roubar ao Dr. Pedro Nunes, insigne bastonário da Ordem dos Médicos, umas dúzias de clientes, esta senhora resolveu invadir o Hospital do Barreiro.

domingo, abril 27

O caçador desempregado 2

A Hermengarda estava insatisfeita com o Prudêncio. Chegava a casa e só lia o jornal. Enquanto ela fazia a comida, limpava a casa e tratava dos filhos. Educá-los era especialmente complicado porque ele não era um grande exemplo para as crianças. Ainda a desautorizava uma vez por outra quando ela os mandava para a cama às dez horas ou os mandava arrumar os brinquedos.
Foram a um centro de aconselhamento para casais. O Prudêncio pouco tinha a dizer. Resistia como podia às invectivas da Hermengarda, fazendo por não incentivar a sua ira. A psicologa pediu-lhes que fizessem um diário durante a semana onde especificavam que tinham feito a cada hora e o grau de satisfação que obtiveram de cada actividade. É claro que o Prudêncio só escrevinhou alguma coisa durante os dois primeiros dias.
A Hermengarda acabou por pedir o divórcio. Passou a ser mais facil educar os filhos sem os maus exemplos do marido. Passou a ter algum tempo para ela quando os miudos iam passar o dia com o pai. O Prudêncio parece ter tido mais dificuldade em se adaptar à vida de solteiro. Quando se convenceu que a decisão da Hermengarda era irreversível, começou a sair com uma colega de escritório. Mudou-se rapidamente para casa dela, voltando aos velhos hábitos.

sexta-feira, abril 25

Depuralina

A depuralina voltou hoje ao mercado. Foi encontrado um nexo causal entre o uso deste suplemento alimentar (!) e as reacções alergicas encontradas. Como ocorreram poucos casos, tudo ficou na mesma. Terão decidido bem as autoridades sanitárias?
Não acho que haja razões para proibir a venda deste produto mas é ridículo e irresponsavel classificá-lo como suplemento alimentar.
Várias correntes da medicina alternativa defendem que o nosso organismo vai acumulando detritos ao longo dos anos em vários orgãos. Para além da gordurinha. Consideram que o intestino grosso está cheio de matéria fecal branca em estado de pós putrefacção, que o fígado e a vesicula biliar acumulam detritos que prejudicam o seu funcionamento. Acham que se nos livrarmos desses detritos o funcionamento desses orgão melhorará consideravelmente e isso se reflectirá na nossa vitalidade e na nossa capacidade de resistir às doenças. A medicina oficial é ceptica em relação a estas afirmações. A medicina não se preocupa por aí além com a nossa saúde. Normalmente concentra-se mais em eliminar os sintomas das nossas doenças, da forma mais lucrativa possível para as grandes empresas farmaceuticas. É natural que não se preocupe com o tipo de questões referidas acima.
Como é que se podem eliminar esses resíduos? Existem vários processos de limpeza que envolvem dietas e a ingestão de alguns produtos que devem ser ingeridos com certos cuidados, como o psyllium. Um laxante particularmente forte. Qualquer corrente séria de medicina alternativa que proponha este tipo de tratamentos aconselha que a pessoa em questão comece por adoptar uma alimentação mais saudavel, tendencialmente vegetariana, que inicie um processo de desintoxicação do organismo. Só depois se parte para uma segunda fase onde se procura eliminar os tais resíduos. Se se saltar a primeira fase podem surgir todo o tipo de problemas.
A empresa que comercializou a depuralina pegou num processo de limpeza com várias fases, eliminou as primeiras, que não são apelativas para o grande público, e apresentou-o como um novo processo de perda de peso. Não se deu ao trabalho de explicar aos consumidores os riscos envolvidos porque a tal não estava obrigada, uma vez que tinha conseguido que o produto fosse apresentado como um suplemento alimentar. Também não se deu ao trabalho de referir que a medicina oficial não reconhece qualquer valor a este tipo de produtos. Esta empresa age assim porque pode. E nós deixamos.

Da fragilidade das nossas ilusões

Roma continuou a ser Roma depois da queda de Roma. Quem tinha que aturar um imperador despótico passou a ter de hospedar em sua casa um dos lugares tenentes do último chefe barbaro que conquistou a cidade. Alguém tão belicoso e imprevisivel como alguns membros da família imperial, mas sem as suas boas maneiras. Fora isso nada tinha mudado, excepto que agora era mais dificil arranjar escravos. Até que um dia um desse barbaros resolveu destruir o aqueduto. Como ninguém teve a vontade e a capacidade de o reconstruir, todos os que o puderam fazer abandonaram a maior cidade da cristandade, que se transformou de um dia para o outro numa aldeia.
A nossa civilização é um pouco mais fragil do que parece. As nossas cidades e as nossas vidas estão organizadas como se o petroleo fosse um recurso inesgotavel. Algumas das medidas que têm sido tomadas para contrariar essa dependência têm efeitos colaterais que podiam ter sido antecipados. Veja-se por exemplo o caso da produção de biodiesel a partir de arroz, soja, trigo e milho, que nos trazem de volta o espectro da falta de alimentos. Pois é, há por aí muito rico que se tiver de escolher entre a sua gasolina e a comida do outro, prefere a sua gasolina. Alguém tem dúvidas sobre isso? A Constituição pode garantir tudo aquilo que nós quizermos, mas ninguém come a Constituição.
Pode-se discutir à vontade se o aquecimento global é a sério ou a brincar, mas só um louco pode usar esse debate para se tentar esquecer de que não podemos continuar a poluir o planeta impunemente.
Se queremos ter um mínimo de controle sobre o nosso futuro e o futuro dos nossos filhos não podemos deixar que as instituições democraticas continuem a degradar-se, se é que ainda funcionam. Se a democracia formal não está em risco, o que é que existe para além da ilusão da escolha? A aprovação do tratado cá na terrinha sem consulta pública e, pior que isso, sem discussão, não é perigosa por pôr em risco a soberania nacional, que há muito deixou de existir. É perigosa porque as instituições europeias não estão a ser controladas pelos europeus. A democracia é cada vez mais uma ilusão.
A crise do PSD pode dar vontade de rir, mas não tem graça nenhuma. Num sistema em que pouco mais se pode fazer do que escolher entre dois partidos e usar os outros como depositários do voto de protesto, se um entra em coma ficamos nas mãos dos dirigentes do outro.
É por isso que o 25 de Abril não é mais um feriado para comemorar uma vez por ano.

quinta-feira, abril 24

O caçador desempregado 1

Aproveitando-se da omissão legal sobre o sexo do chefe de família, Carolina Beatriz Ângelo - médica, viúva e mãe de duas crianças - faz prevalecer a sua condição de chefe de família para depositar o seu voto nas eleições para a Assembleia Constitucional de 1910. Em consequência, a lei foi modificada de forma a estabelecer claramente que só os homens podem exercer o direito de voto. Em 1931 o direito de voto é concedido às mulheres com o ensino secundário concluído. Os homens podiam votar desde que soubessem ler e escrever. Em 1946 as restrições ao direito de voto das mulheres são diminuídas, mas só são completamente eliminadas em 1974. Comemora-se este ano o trigésimo aniversário da revisão do Código Civil que assumiu que os dois cônjuges gozam de direitos iguais.
As mulheres conseguiram agora uma igualdade ainda imperfeita. Começam mesmo a ser a maioria em alguns sectores importantes, como por exemplo a Universidade. Não estão porém seguras de ter feito um bom negócio. Trabalham tanto como os homens fora de casa, continuando uma boa parte delas a desempenhar o grosso das tarefas domésticas. Os casos de depressão multiplicam-se. Suspeitam que foram enganadas. Uma vez por outra usam o seu novo poder, mais as manhas antigas, para se vingarem dos preguiçosos que as exploram. Ou limitam-se a pô-los na rua.

quarta-feira, abril 23

Vou a Cuba enquanto o Diabo esfrega um olho

O Dr. Pedro Nunes, bastonário da Ordem dos Médicos exprimiu ontem a sua raiva perante o facto de quatro camaras municipais portuguesas terem estabelecido protocolos com o governo cubano no sentido de enviarem a Cuba os seus municipes com cataratas e outros problemas oftalmologicos. Acusa as camaras de eleitoralismo. Até se esquece que está a tentar ser juiz em causa propria.
A globalização é um fenomeno inevitavel ao qual nos temos de resignar quando fecha uma fabrica de texteis no vale do Ave. Quando belisca os previlégios da classe dominante, já é outra história. Actualmente um americano pode ir à India fazer uma operação ao coração num hospital de luxo, com equipamentos da última geração, operado por médicos conceituados, passar a convalescença num resort cinco estrelas junto às aguas quentes do oceano Indico, fazer a viagem de ida e volta em primeira classe e mesmo assim gastar metade do dinheiro que teria de pagar só pela operação nos Estados Unidos. Por causa dos seguros contra problemas judiciais e por causa dos preços inflacionados a que a saude é vendida nos EUA. As portuguesas já descobriram que com o euro cada vez mais forte, os aviões cada vez mais baratos e os médicos cada vez mais caros, vale mesmo a pena ir passar uma férias ao Brasil e voltar de lá a fazer inveja às amigas. Com os empréstimos loucos que a banca faz(ia), nem foram só as ricas que o fizeram.
Quem necessitar de um tratamento dentário mais sério, colocar uma protese num joelho ou na anca, ou quiser fazer um check up completo, talvez valha a pena considerar a hipótese de o ir fazer à Argentina, à Costa Rica, à Malásia ou à África do Sul. O turismo médico é uma industria em explosão. Cuba atrai vinte mil turistas da saúde por ano. Não são todos enviados pela Camara Municipal de Vila Real de Santo António.
O estrangulamento das entradas nos cursos de medicina tornou o próprio governo refém da classe médica. As reformas antecipadas de medicos e/ou a sua passagem para o sector privado colocam em risco o funcionamento do serviço nacional de saude tal como o conhecemos. Não é muito bom, mas pode vir a tornar-se bem pior. Alguma coisa tem de ser feita. Quatro camaras municipais romperam o monopólio do Dr. Nunes. Que outras lhes sigam o exemplo.

segunda-feira, abril 21

Ensino-Aprendizagem 2

A antropologa Margaret Mead reparou que os nativos de Bali, embora fossem capazes de executar danças extremamente complexas, não eram capazes de passar o peso de um pé para o outra através de um pequeno salto. Será possível ensinar-lhes a executar este movimento tão simples? Só vejo uma forma de o fazer: mostrar como se faz e pedir-lhes para repetirem. Acontece que esta demonstração não ajuda nada.
Um dia Mead perguntou a Moshe Feldenkrais qual poderia ser a razão desta incapacidade. MF respondeu-lhe que provavelmente durante os primeiros meses de vida os nativos de Bali não tiveram oportunidade de aprender a rastejar. Mead respondeu-lhe que efectivamente durante os primeiros sete meses de vida os nativos de Bali não deixam as suas crianças tocar o chão. Ao que parece saltar de uma perna para a outra é algo que não pode ser ensinado mas apenas aprendido através de um longo e complexo processo que nos é estranho.
O longo processo de aprendizagem que nos leva a ser capazes de pensar racionalmente e de resolver problemas tem algo de semelhante ao longo processo que nos leva a aprender a andar e a fazer outros movimentos particularmente difíceis. O bébé necessita de passar um longo tempo a arrastar-se pelo chão e a gatinhar para desenvolver todas as conexões neuronais que lhe virão a permitir descer uma escada, andar de bicicleta ou dar um salto mortal. Não interessa aprender a gatinhar mas sim aprender a gatinhar de várias formas. A curiosidade ajuda a desenvolver novas sinapses que interligam diferentes movimentos. Se esse processo for encurtado por aplausos perante os seus progressos ou por necessidade de ser precoce para agradar aos familiares o resultado final será uma coordenação neuro-motora deficiente.
Como é que se ensina um aluno a resolver um problema de matemática? Na verdade, não se ensina. O pedagogo pouco mais pode fazer do que descobrir qual é o faixa do desenvolvimento intelectual do aluno em que um certo problema já está ao seu alcance e por outro lado ainda pode estimular o seu desenvolvimento. Como é que o aluno aprende? Experimentando, muitas vezes, de muitas formas. Há dez maneiras de multiplicar 36 por 15 e convem conhecê-las todas. Vamos aprender assim o que são as propriedades associativa, comutativa e distributiva. Se derem ao miudo uma maquina de calcular, nunca vai aprender a "gatinhar". E não vai perder mil oportunidades de aprender. De desenvolver o conjunto de ligações cerebrais que se iluminará quando o tal problema que não se ensina a resolver lhe é apresentado. É trágico que aqueles que defendem as maquinas de calcular sejam exactamente os mesmos que defendem o ensino-aprendizagem.
O bébé necessita de um ambiente de carinho à sua volta para ter condições de explorar o seu corpo com curiosidade. Aprender deve ser facil, não pode ser acompanhado de qualquer tipo de crispação. Daí concluem alguns pedagos que também o jovem que frequenta o ensino secundário necessita do mesmo tipo de ambiente. Até certo ponto, é verdade. Esquecem-se porém que, para além de necessitar de aprender, o jovem também precisa de ser ensinado. Esquecem-se de que as condições de aprendizagem para um adolescente podem ser um pouco diferentes. O stress que acompanha o processo de aprender a andar de bicicleta não só é indispensavel como nos permite aprender a aprender doutra forma.
Cada parte de nós que é menos utilizada fica velha quando deixa de aprender. Aprenda qualquer coisa um destes dias que necessite de tanto stress como aprender a andar de bicicleta. Stress can be fun.

sexta-feira, abril 18

Entrevista com um carjacker

A vida dos ladroes de automoveis esta dificil. O tempo das ligacoes directas ja passou. A SIC resolveu entrevistar outro dia um profissional obrigado a reconverter-se. Com cara tapada e voz destorcida, claro.
- Então como e que o senhor escolhe as suas vitimas?
- Olhe, prefiro assaltar homens. Sabem comportar-se.
As mulheres, nunca se sabe o que vao fazer.
Algumas ate tentam tirar-nos a mascara, veja la.

quarta-feira, abril 16

Para que serve o poder?

Ter poder serve, entre outras coisas, para que não o exerçam indevidamente sobre nós.
Eu costumava pensar que estava acima dos patéticos jogos humanos. Costumavam repugnar-me. Tentava ficar do lado de fora, e apesar disso (na verdade por causa disso) eles acabavam sempre por "encontrar-me", e atingiam-me ainda mais do que àqueles que me rodeavam e que pareciam abraçar mais naturalmente "a ordem natural das coisas". Eu costumava achar isso estranho. Agora percebo que mesmo que estejamos deles conscientes, e mesmo que nos repugnem e nos pareçam despreziveis...mais vale saber jogá-los. Às vezes a unica forma de ficar fora deles é jogá-los muito bem. É uma lição estranha que, no final de um longo percurso, por vezes acabamos por descobrir que o melhor mesmo é fazer as mesmas coisas que as outras pessoas...e jogar os mesmos jogos...mas melhor, e, acima de tudo, por motivos diferentes.
Eh, eu não digo que gosto disto, mas ninguem disse que eu tinha que gostar...

OMWO, comentário ao post A Mulher de Bath.

segunda-feira, abril 14

domingo, abril 13

A mulher de Bath


Uma MULHER de BATH havia em cena;
Mas era meio surda, o que era pena.
De bons tecidos era fabricante,
Chegando a superar Yprês e Gante.
Tirar-lhe alguém na igreja a precedência
No beijo da relíquia era imprudência,
Porque ela abandonava as boas maneiras
E perdia de vez as estribeiras.
Em sua vida digna e benfazeja
Cinco vezes casara-se na igreja —
Fora os casos de sua juventude
(Falar disso, porém seria rude).

A mulher de Bath é um dos Contos de Canterbury. Chaucer narra a história de vinte e nove peregrinos que saem de Londres rumo à cidade da Cantuária, a fim de visitar o túmulo de Tomás Beckett. Para que os peregrinos se distraiam e tornem a viagem mais amena, o Taberneiro sugere que cada um dos peregrinos conte duas histórias na ida e duas histórias na volta, e que a melhor história será por ele premiada com um lauto jantar. O conjunto dos peregrinos, que retrata num amplo painel da sociedade medieval, está composto por tipos variados, homens e mulheres de diferentes ofícios e originários dos diferentes extratos sociais. Participa deste grupo uma exuberante e alegre viúva. Alice conta a história de seus cinco maridos, das suas contendas com cada um deles e apresenta a sua receita infalível para um casamento feliz. As mulheres devem manter o comando da relação. Terminado o prólogo, conta-nos a sua história.

Era uma vez um jovem da corte do Rei Artur que caçava na floresta. Encontra uma donzela e num impulso violento arrebata-lhe a virgindade. O rei decide que o jovem deverá morrer decapitado. Dado o veredicto, a Rainha dá-lhe uma possiblididade de escapar com vida. Será poupado se for capaz de explicar a todos dentro de um ano e um dia o que é que as mulheres mais desejam.
O jovem não encontra nenhuma explicação satisfatória: para uns o que as mulheres mais desejam é casar, para outros, belas roupas e adornos, cortesia e adulação masculina, ou ainda o desejo de ser livres e fazer o que bem entenderem. O jovem desesperado, já no caminho de volta, teme pela sua vida.
Encontra na floresta uma velha que oferece a sua ajuda e sabedoria. Em troca ele deverá realizar-lhe um desejo. Sussurra-lhe a resposta em segredo e ele parte ao encontro da Rainha. Majestade, o que as mulheres mais ambicionam é mandar no marido, ou dominar o amante, impondo ao homem a sua sujeição. Vossa Majestade agora pode fazer comigo o que quiser: estou a seu dispor.
O jovem é absolvido pela Rainha. Neste momento a velha entra em cena e pede à rainha que seja feita justiça. Quer que o rapaz se case com ela. A Rainha e o rapaz concordam. O jovem chora sua desgraça e parte com a velha. E ela, no entanto, faz com que ele pense nos valores verdadeiros e na superficialidade das aparências. Pergunta-lhe o que ele prefere: que ela seja uma mulher feia e velha, mas submissa e fiel ou que ela seja jovem e atraente, mas que receba visitas em sua casa. O jovem resignado diz que confia na sabedoria da velha e que, certamente, ela poderá escolher o melhor para eles. Se ela pode escolher, ele concorda que é ela quem deve mandar? O jovem concorda. Então a velha beija-o e transforma-se numa jovem deslumbrante. Garante-lhe também que nunca usará da prerrogativa de lhe ser infiel.

quinta-feira, abril 10

Aqui ao lado

Ouve-se por aí que o boom da indústria da construção em Espanha é algo totalmente anormal. Uma imagem vale mil números. A distância a percorrer desde que se entra na cidade de Valladolid até chegar ao centro, quando se vem de Portugal, triplicou em 10 anos. Pergunta-se: quem é que vai comprar aquilo tudo? Uma boa parte está por vender.

Entretanto muito espanhois andam loucos com la Bola. Não tem nada a ver com o futebol. É um esquema em piramide em que se entra com dez mil euros e se vem a ganhar setenta mil se conseguirmos convencer um número suficientemente grande de pessoas a fazer o mesmo. Fazem-se reuniões semanais para analisar a evolução do negócio. Os participantes são avisados por telemovel do hotel em que vai decorrer a reunião seguinte com meia dúzia de horas de antecedência. Depois eu conto como é que isto acabou.

Muito se especula sobre quais as razões que levam a que Ronaldinho e Deco não joguem no Barcelona. Lesões, problemas disciplinares? Fontes bem informadas dizem que eles estão cheios de cocaína até ao pescoço. Que chatice, o control anti-doping.

segunda-feira, abril 7

Subprime: o pior já passou?

Temos o fim da crise ao virar da esquina? O gráfico do Nasdaq pode levar alguns a querer acreditar que sim. O novo livro de George Soros, The New Paradigm for Financial Markets: The Credit Crisis of 2008 and What It Means, apresenta-nos um cenário um pouco diferente. Ver também o seu artigo no Financial Times.
Ao que parecem existem várias bombas semelhantes ao Subprime Lending prontas a rebentar a qualquer momento. Duas delas são os Credit Default Swaps e os Rising Foreclosures.
Os SL são revendas de hipotecas feitas a pessoas cuja capacidade de as pagar não é propriamente solida. Os CDS são revendas de créditos de todos os tipos. Estas revendas são feitas várias vezes. Um inocente investidor português que comprou um produto supostamente de risco muito baixo pode na prática estar a comprar também CDS's. O valor dos CDS em circulação equivale a metade do valor do mercado imobiliário dos EUA. Se este mercado rebenta, a bolsa vai por aí a baixo e muitos bancos irão à falência. O problema vai ser essencialmente nos EUA, mas algo sobrará para nós. Não tive pachorra para perceber o que são os RF. Se alguém se quiser dar a esse trabalho, explique-me. Estes derivados do crédito foram feitos para não serem percebidos. Devem ser suficientemente obscuros para poderem ser vendidos aos orfãos e às viuvas como algo tão seguro como um fundo de obrigações. O único ponto positivo destes produtos é darem tranbalho aos alunos dos mestrados de Matemática Financeira.
GS acha que o risco de rebentamento dos CDS teve algo a ver com a ajuda do Fed ao Bear Stearns, que de outra forma teria falido, iniciando a queda de um castelo de cartas. Entretanto os reguladores continuam a pretender que acreditam na tese da capacidade auto-reguladora dos mercados, limitando-se a reagir aos acontecimentos. O próximo presidente dos EUA que apague depois os fogos.

Um comentário final sobre o livro do Soros. Só se encontra à venda numa versão pdf que não pode ser copiada nem impressa. A versão hardcover só vai sair daqui por uns tempos. É claro que neste caso ele tem a faca e o queijo na mão. Não podemos é deixar que a moda pegue.

sábado, abril 5

Ensino-Aprendizagem

Quando ensino uma cadeira de matemática começo por explicar aquilo que vou ensinar durante o semestre. Algumas vezes pergunto aos alunos para que é que lhes parece que vão servir esses ensinamentos. Após o silêncio habitual explico-lhes que para a maior parte deles aquilo que lhes vou ensinar não lhes vai servir para grande coisa, talvez para coisa nenhuma. Noto então dois ou três sorrisos na audiência do tipo pois, eu até já suspeitava disso.
Tal acontece em grande parte dos cursos universitários. Muitos engenheiros dedicam-se à gestão, muitos advogados ao jornalismo. Acabam por esquecer a maior parte das coisas que lhes ensinaram. Um engenheiro civil acaba por usar meia dúzia de tabelas, podendo dispensar boa parte das teorias com que lhe encheram a cabeça durante todos aqueles anos da sua vida. A maior parte dos licenciados só usa alguma vez na vida um terço daquilo que lhes foi ensinado. Falta então explicar porque é que as pessoas continuam a frequentar uma universidade. Porque é que as empresas preferem contratar pessoas a quem foram ensinadas todas essas coisas inúteis. O que é que os meus alunos têm a ganhar em frequentar a minha cadeira.
Vale a pena eles virem assistir às minha aulas porque podem aprender lá muita coisa extremamente importante. Podem aprender a identificar um problema, a formulá-lo, a estimar a sua dificuldade, a parti-lo em problemas mais faceis de resolver, a comunicar a sua solução. Podem aprender também a saber o que sabem e o que não sabem fazer, a extrair da informação que vos é comunicada por outrem aquilo que é ou não relevante, a ajudá-lo a formular melhor um problema e muitas outras coisas que só um número assustadoramente pequeno de pessoas sabe fazer.
Podem aprender essas competências nas minhas aulas porque eu aprendi a fazer essas coisas e sei criar condições para que os alunos as possam aprender. Não sei é ensiná-las. Ninguém sabe.
Ninguém sabe ensinar outra pessoa a ser criativo, embora muita gente ganhe bom dinheiro a pretender que o ensina. Acontece que há pessoas que sabem criar condições que facilitam aos outros desenvolver a sua criatividade num campo específico quando ensinam esse campo específico. É possível que algumas dessas pessoas aprendam mais tarde a ser mais criativas noutros campos que conheçam razoavelmente bem. Mais nada.
Como é que isso se faz? Tem tudo a ver com a maneira como se ensina aquilo que se ensina. A forma é mais importante do que o conteúdo. Mas a forma não existe independentemente do conteudo. Se a cadeira funciona com minitestes e os professores carregam com os meninos ao colo, conseguem maximizar a relação entre aquilo que se ensina e os esforço feito pelos alunos. Conseguem ser bons ensinadores. Mas os alunos perdem uma oportunidade de aprender alguma coisa. E é só isso que importa.
É vulgar um professor sobravaliar a importância de um determinado assunto. Normalmente um assunto que gosta de ensinar e um assunto que lhe permitiu aprender muitas outras coisas enquanto lho ensinavam. Se esse assunto não for incluido no curriculum, acha que a qualidade do curso está ferida de morte. O Eduquês conclui do facto de a forma ser mais importante que o conteúdo que se pode descartar o conteúdo e que não é necessário ser especialmente conhecedor do assunto que se está a ensinar.
A cair nalgum dos erros, prefiro cair no primeiro. Mas o melhor é evitar os dois.

sexta-feira, abril 4

Educar o Jaime

Uma boa parte dos posts deste blogue tinham algo a ver com evangelizar ou provocar. Provocar foi-se tornando cada vez mais difícil. A epiderme dos blogonautas mais susceptiveis mudou para que tudo o resto pudesse ficar na mesma. As minhas tentativas de evangelização também não têm tido grande êxito.
Analisemos por exemplo a tentativa de educar o Jaime. Os leitores deste blogue que se dedicaram a esta nobre tarefa demonstraram um admiravel poder de argumentação e as mais louvaveis intenções. É claro que o Jaime poderia ter tido uma atitude um pouco mais aberta. Seria mais compatível com o seu interesse pelo assunto, que o levou a voltar ao tema regularmente no seu blog. Acontece que os educadores do Jaime são suficientemente sofisticados para terem obrigação de saber que daí nunca poderia advir algo mais do que coisa nenhuma. Já agora, terá o autor destas linhas tido um comportamento a roçar o cobarde, lançando a cruzada e não participando depois na luta?
Boas razões para esquecer o affaire Jaime e guardar a evangelização na gaveta.
É provavel que esteja a acontecer exactamente o contrário.

quinta-feira, abril 3

O Monstro

O jovem Adso foi encarregado pelo seu abade de acabar com a teimosia dos camponeses. Recusam-se a ceifar o trigo por causa dos monstros verdes que nasceram na planície. Bem tentou o piedoso Adso lembrar-lhes as escrituras, ensinar-lhes que o diabo sempre veste de vermelho, convencê-los de que nada havia que temer. Dois dias depois o abade envia o despenseiro, homem prático mais habilitado para falar com gente simples. O despenseiro caminha para um dos monstros armado com a sua enorme faca de cozinha. Corta-lhe o pescoço de um só golpe. Dirige-se em seguida à aldeia com o monstro esquartejado debaixo do braço, enquanto lhe come as entranhas vermelhas e lhe cospe os dentes. Compreendem agora que não há nada a temer? Os aldeões fogem aterrorizados daquele novo monstro manchado de sangue, até que uma pedrada na cabeça o derruba. Minutos depois pouco resta do homem que comeu o monstro e como tal só podia ser também um monstro, esquartejado em tantos pedaços quanto as fatias em que tinha dividido a melancia.
Perante a confusão do Abade, Adso atreve-se a sugerir-lhe que chame o seu antigo mestre, um frade franciscano bem conhecido pela sua codícia. Frei Guilherme pede a hospitalidade do chefe da aldeia. Também ele partilha do temor pelos monstros. Roga a todos os camponeses que o acompanhem numa prece ao Senhor para que os alivie daquele tormento. Todos os dias repetia a oração e cada dia a faziam um pouco mais próximo dos monstros. Criou assim as condições para que os pobres aldeões aprendessem por eles próprios aquilo que ninguém lhes podia ensinar. Ensinou-os depois a semear melancias, cuja frescura lhes passou a mitigar a sede durante a ceifa.

domingo, fevereiro 10

Paul Klee - Highway

5 Livros

1. O Capital, Karl Marx
2. Diálogos sobre Física Atómica, Werner Eisenberg
3. O Quarteto de Alexandria, Lawrence Durrell
4. Tipos Psicologicos, Jung
5. I Ching

Quando comecei a blogar já as listas mais interessantes tinham percorrido a blogosfera. Quais foram os cinco livros que mais me marcaram? Escolhi só livros que li no fim da adolescência, a época em que o nosso intelecto ganha forma.
Quando pus a pergunta a mim próprio, O Capital era a única resposta obvia. Foi a primeira vez que entrei dentro de uma grande construção intelectual, podendo examinar todos os seus pilares, a qualidade das suas fundações, a beleza das suas cupulas. Descobrir passados uns anos que havia um erro logo ao princípio, só tornou a experiência ainda mais relevante.
Heisenberg mostra-nos que fazer ciência tem tanto a ver com dialogar com os outros como tem a ver com estar sentado a olhar para uma folha de papel em branco.
O romance de Durrel e o tratado de psicologia de Jung mostram-nos que a vida é um quadro cubista: cada facto pode ser sentido e interpretado de mil maneiras diferentes. O mesmo se aplicando a cada uma das nossas acções.
Quando a racionalidade se esgota, existem várias opções. O I Ching é uma das poucas que não nos exige ajoelhar primeiro e sacrificar a nossa racionalidade logo a seguir.

Fica a proposta a todos os que passam por aqui: publiquem as vossas listas. No vosso blog ou na caixa de comentários.

13. Quem me dera ter feito aquilo. Então FAZ!

O mundo está dividido nos que olham para os outros com inveja e nos que os encaram como um instrumento de motivação.

sábado, fevereiro 9

12. Sem Medo, Sem Surpresa, Sem Hesitação, Sem Dúvida

Qualquer que seja o seu medo, olhe-o de frente e vença-o.

A vida surpreeende-nos porque normalmente andamos meio a dormir.
Ao longo do caminho surgem pistas do que vai acontecer. Acorde!

Pese os prós e os contras. Depois vá em frente.
Muitas vezes, o pior é não decidir.

Depois de tomar uma decisão, não a remoa.

sexta-feira, fevereiro 8

11. Escute a sua voz interior

Quando temos um problema para resolver, ajuda bastante esperar que o nosso ego se cale. É nessa altura que uma voz que fala um pouco mais baixo tem oportunidade de se fazer ouvir.

quarta-feira, fevereiro 6

As guerras do copyright

Continua a greve dos argumentistas de Hollywood para receberem royalties resultantes da venda do seu trabalho através da net. E afinal as lei do copyright destinam-se a defender os interesses das grandes empresas ou a estimular e defender o trabalho intelectual? Se alguém tinha dúvidas sobre a resposta, acho que já está esclarecido.
A partir de 2006 a Suécia passou a ser o epicentro das guerras do copyrigth. A Pirate Bay poderá tornar-se brevemente no equivalente da Green Peace em questões de copyright e liberdade de expressão na net. A sua principal criação é o server do mesmo nome, destinado à partilha de ficheiros. Mantém também o um site onde podemos guardar fotos livre de censura, o BayImg. E o SlopBox, um serviço de e-mail descartável. Se lhe pedirem um endereço electronico, invente um na altura: kalkerkoisa@slopsbox.com. Quando desejar ler as respostas ao mail que inventou, basta ir ao site da Slopobox e escrever kalkerkoisa. As respostas são guardadas durante 24 horas. Privacidade e anonimato garantidos. A PB lançou recentemente The Video Bay, um server de vídeos livre de censura, ainda em fase experimental. O You Tube tem retirado vídeos apenas porque alguém fez contra eles uma vaga acusação de quebra de copyright, algumas vezes completamente ridícula. Tal não é suposto acontecer no VB.
A sede da Pirate Bay foi invadida pela polícia, que deitou o site abaixo durante três dias. O efeito principal desta acção foi a descentralização dos servidores e uma onda de apoio à Pirate Bay por grande parte da sociedade sueca. No dia 1 de Janeiro de 2006 Rickard Falkvinge lançou uma página web destinada a angariar assinaturas para a criação do Piratpartiet.

We have a lot in common with the environmental movement," he says. Where environmentalists see destruction of natural resources, the pirates see culture at risk. "(We) saw a lot of hidden costs to society in the way companies maximize their copyright.

Este partido concorreu às eleições nesse ano, tendo obtido 0,5% dos votos. A criação do partido teve várias consequências práticas imediatas: O partido ecologista mudou radicalmente de posição sobre as leis de copyright. Os partidos de esquerda mudaram de posição sobre a ilegalidade dos downloads da internet. Ambos os candidatos a primeiro ministro afirmaram que os downloads da internet feitos por jovens não deviam ser criminalizados. Entretanto o movimento pirata têm-se espalhado um pouco por todo o mundo.

9. Só os peixes mortos se deixam levar pela corrente

Aceite os obstáculos. É mesmo verdade: bem aproveitados, tornam-nos mais fortes.
A vida é uma sucessão de esforços e pausas. As pausas só sabem bem se forem isso mesmo:
pausas entre esforços.

terça-feira, fevereiro 5

segunda-feira, fevereiro 4

Analfabetismo

A taxa de analfabetismo em Portugal é de 9%. O triplo da taxa de analfabetismo nos países nórdicos no final do século XIX. Existe um concelho onde um terço da população é analfabeta. Existem 30.000 analfabetos abaixo dos trinta anos. Existem adolescentes urbanos analfabetos.
Não vale a pena andar a encher as escolas de portateis para os miúdos andarem a namoriscar na net nem levar os alunos ao colo até ao 12º ano. Não enganamos ninguém.
Tenho pena de ter perdido o programa que a SIC passou ontem. Não sei até que ponto é que os números são afectados pela imigração. De qualquer forma, eles vivem cá, é um problema nosso. E a imigração é apenas uma parte do problema. Via da Literatura.

O efeito Nixon

Jimmy Carter foi o mais improvavel dos presidentes americanos das últimas décadas. A guerra do Vietnam e o caso Watergate tornaram este agricultor que dava aulas de catequese aos domingos no homem certo no lugar certo. As mentiras de George W e o atentado das Torres Gémeas recriam na sociedade americana a necessidade de tomar um duche que a lave da imundice. Só assim se compreende que um tipo decente como John McCain tenha praticamente assegurado a nomeação republicana. Um facto que me parece mais importante do que saber se o Obama vai ganhar à Hilary. Embora eu bem gostasse que tal acontecesse.

domingo, fevereiro 3

Tribal Wars

Os meus sobrinhos andam loucos com este jogo. Convém saber o que eles andam a fazer. Aqui fica o relatório. É um típico jogo de estratégia. Temos de construir uma cidade, resolver problemas logísticos, criar um exército, conquistar um império. Tem a novidade de funcionar online, ser interactivo e ser gratuito. Quem quiser algumas comodidades suplementares e umas pequenas vantagens, pode ter acesso à versão premium por cerca de vinte euros/ano. O jogo funciona na filosofia tamagochi: temos de executar tarefas a intervalos regulares. O jogo pode durar anos, exigindo dois ou três minutos, meia dúzia de vezes por dia.
Este tipo de jogo atrai miúdos com capacidades intelectuais acima da média, desfiando-os a resolver problemas relativamente complexos e a tomar decisões. Aprendem aqui coisas úteis que ninguém lhes ensina na escola. Neste jogo aprendem algo mais. Aprendem que a sua capacidade intelectual só por si não chega para ganhar. Têm de desenvolver uma política de alianças com os vizinhos que lhes garanta mais hipoteses de sobrevivência. Podem assim investir menos na criação de exercitos, crescendo mais depressa. Bem gostaria eu de ter aprendido esta lição aos doze anos.
Cada nova geração sabe coisas novas melhor e mais cedo do que a anterior. Por outro lado deixa cair capacidades e conhecimentos a que as gerações anteriores dão grande valor. Platão salientava a influência nefasta da escrita, que desvalorizou a capacidade de saber longos textos de memória. Convém fazer um esforço para não olhar só para o que eles perdem, tendando vislumbrar o outro lado da moeda. Não desdenhemos completamente as telenovelas, que dão aos miúdos a possiblidade de já saberem de antemão todas as voltas e reviravoltas que os esperam nos labirintos do amor. Que preço estariam os adolescentes da minha geração dispostos a pagar pelo acesso a essa informação?

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sábado, fevereiro 2

7. FLEXIBILIDADE! Nas atitudes e no pensamento

A vida é também uma sucessão de aventuras onde nos podemos divertir.
Leia outros livros, conheça outras pessoas. Considere outras visões do mundo.

sexta-feira, fevereiro 1

Milton Friedman versus John Maynard Keynes

O Fundo Monetário Internacional exporta para todos os países as teorias da escola de Chicago: quando há crise, aperta-se o cinto. Bush acha bem. Mas para os Estados Unidos, a um ano das eleições, mostra-se um bom Keynesiano. O João Pinto e Castro expressa a sua indignação. Até concordo com ele, mas o mais importante é ver se a terapia usada por Bush funciona ou não. Cá estaremos para ver os resultados.

6. Descubra dentro de si um objectivo a que valha a pena dedicar a vida

Ganha assim uma identidade. E uma fita métrica para medir os resultados.