segunda-feira, abril 21

Ensino-Aprendizagem 2

A antropologa Margaret Mead reparou que os nativos de Bali, embora fossem capazes de executar danças extremamente complexas, não eram capazes de passar o peso de um pé para o outra através de um pequeno salto. Será possível ensinar-lhes a executar este movimento tão simples? Só vejo uma forma de o fazer: mostrar como se faz e pedir-lhes para repetirem. Acontece que esta demonstração não ajuda nada.
Um dia Mead perguntou a Moshe Feldenkrais qual poderia ser a razão desta incapacidade. MF respondeu-lhe que provavelmente durante os primeiros meses de vida os nativos de Bali não tiveram oportunidade de aprender a rastejar. Mead respondeu-lhe que efectivamente durante os primeiros sete meses de vida os nativos de Bali não deixam as suas crianças tocar o chão. Ao que parece saltar de uma perna para a outra é algo que não pode ser ensinado mas apenas aprendido através de um longo e complexo processo que nos é estranho.
O longo processo de aprendizagem que nos leva a ser capazes de pensar racionalmente e de resolver problemas tem algo de semelhante ao longo processo que nos leva a aprender a andar e a fazer outros movimentos particularmente difíceis. O bébé necessita de passar um longo tempo a arrastar-se pelo chão e a gatinhar para desenvolver todas as conexões neuronais que lhe virão a permitir descer uma escada, andar de bicicleta ou dar um salto mortal. Não interessa aprender a gatinhar mas sim aprender a gatinhar de várias formas. A curiosidade ajuda a desenvolver novas sinapses que interligam diferentes movimentos. Se esse processo for encurtado por aplausos perante os seus progressos ou por necessidade de ser precoce para agradar aos familiares o resultado final será uma coordenação neuro-motora deficiente.
Como é que se ensina um aluno a resolver um problema de matemática? Na verdade, não se ensina. O pedagogo pouco mais pode fazer do que descobrir qual é o faixa do desenvolvimento intelectual do aluno em que um certo problema já está ao seu alcance e por outro lado ainda pode estimular o seu desenvolvimento. Como é que o aluno aprende? Experimentando, muitas vezes, de muitas formas. Há dez maneiras de multiplicar 36 por 15 e convem conhecê-las todas. Vamos aprender assim o que são as propriedades associativa, comutativa e distributiva. Se derem ao miudo uma maquina de calcular, nunca vai aprender a "gatinhar". E não vai perder mil oportunidades de aprender. De desenvolver o conjunto de ligações cerebrais que se iluminará quando o tal problema que não se ensina a resolver lhe é apresentado. É trágico que aqueles que defendem as maquinas de calcular sejam exactamente os mesmos que defendem o ensino-aprendizagem.
O bébé necessita de um ambiente de carinho à sua volta para ter condições de explorar o seu corpo com curiosidade. Aprender deve ser facil, não pode ser acompanhado de qualquer tipo de crispação. Daí concluem alguns pedagos que também o jovem que frequenta o ensino secundário necessita do mesmo tipo de ambiente. Até certo ponto, é verdade. Esquecem-se porém que, para além de necessitar de aprender, o jovem também precisa de ser ensinado. Esquecem-se de que as condições de aprendizagem para um adolescente podem ser um pouco diferentes. O stress que acompanha o processo de aprender a andar de bicicleta não só é indispensavel como nos permite aprender a aprender doutra forma.
Cada parte de nós que é menos utilizada fica velha quando deixa de aprender. Aprenda qualquer coisa um destes dias que necessite de tanto stress como aprender a andar de bicicleta. Stress can be fun.

6 comentários:

Sofia disse...

Eu estou, pela primeira vez, a ler dois livros ao mesmo tempo. :)

MC disse...

dançar, por exemplo.

mendigo disse...

No Gai-jin, um novela de James Clavel sobre um marinheiro holandês no Japão feudal que deu origem a uma série de televisão, há uma história semlhante. O holandês faz uma dança em que balança lateralmente as pernas saltando de uma para a outra. O samurai japonês não é capaz de o imitar, apesar da sua extraordinária destreza em todo o tipo de lutas.

lino disse...

Concordo a partir do 3º parágrafo. A Margaret Mead não é citação de confiança. É embuste travestido de ciência.
http://www.newsweekly.com.au/books/0813336937.html

Como outros, mais recentes: ciências da educação ou aquecimento global.

on disse...

Já conhecia essa controvérsia. A wikipedia mostra que não é assim tão obvio que essas criticas sejam relevantes. É natural que as mulheres
de Samoa não falassem aos setenta anos com um homem com aa mesma liberdade com que falaram com uma mulher aos vinte.
Não há razões que nos levem a pensar que Margaret Mead estivesse a defender uma tese pessoal sobre como devia ser a sexualidade. Toda a vida foi uma cristã anglicana que seguia um padrão de vida irrepriensivel mesmo se alnalisada à luz dos padrões mais puritanos.

Há outros casos diferentes, como os famosos relatórios Hite sobre a sexualidade dos americanos, que são totalmente forjados. Aí as intensões eram claras. Mead escreveu para um público científico. Provavelmente nunca lhe passou pela cabeça que as suas publicações teriam as repercursão pública que tiveram.

on disse...

Já conhecia essa controvérsia. A wikipedia mostra que não é assim tão obvio que essas criticas sejam relevantes. É natural que as mulheres de Samoa não falassem aos setenta anos com um homem com aa mesma liberdade com que falaram com uma mulher aos vinte.
Não há razões que nos levem a pensar que Margaret Mead estivesse a defender uma tese pessoal sobre como devia ser a sexualidade. Toda a vida foi uma cristã anglicana que seguia um padrão de vida irrepriensivel mesmo se analisada à luz dos padrões mais puritanos.

Os famosos relatórios Hite sobre a sexualidade dos americanos são totalmente forjados. Aí as intensões eram claras.

Mead escreveu para um público científico. Provavelmente nunca lhe passou pela cabeça que as suas publicações teriam as repercursão pública que tiveram.