sábado, abril 5

Ensino-Aprendizagem

Quando ensino uma cadeira de matemática começo por explicar aquilo que vou ensinar durante o semestre. Algumas vezes pergunto aos alunos para que é que lhes parece que vão servir esses ensinamentos. Após o silêncio habitual explico-lhes que para a maior parte deles aquilo que lhes vou ensinar não lhes vai servir para grande coisa, talvez para coisa nenhuma. Noto então dois ou três sorrisos na audiência do tipo pois, eu até já suspeitava disso.
Tal acontece em grande parte dos cursos universitários. Muitos engenheiros dedicam-se à gestão, muitos advogados ao jornalismo. Acabam por esquecer a maior parte das coisas que lhes ensinaram. Um engenheiro civil acaba por usar meia dúzia de tabelas, podendo dispensar boa parte das teorias com que lhe encheram a cabeça durante todos aqueles anos da sua vida. A maior parte dos licenciados só usa alguma vez na vida um terço daquilo que lhes foi ensinado. Falta então explicar porque é que as pessoas continuam a frequentar uma universidade. Porque é que as empresas preferem contratar pessoas a quem foram ensinadas todas essas coisas inúteis. O que é que os meus alunos têm a ganhar em frequentar a minha cadeira.
Vale a pena eles virem assistir às minha aulas porque podem aprender lá muita coisa extremamente importante. Podem aprender a identificar um problema, a formulá-lo, a estimar a sua dificuldade, a parti-lo em problemas mais faceis de resolver, a comunicar a sua solução. Podem aprender também a saber o que sabem e o que não sabem fazer, a extrair da informação que vos é comunicada por outrem aquilo que é ou não relevante, a ajudá-lo a formular melhor um problema e muitas outras coisas que só um número assustadoramente pequeno de pessoas sabe fazer.
Podem aprender essas competências nas minhas aulas porque eu aprendi a fazer essas coisas e sei criar condições para que os alunos as possam aprender. Não sei é ensiná-las. Ninguém sabe.
Ninguém sabe ensinar outra pessoa a ser criativo, embora muita gente ganhe bom dinheiro a pretender que o ensina. Acontece que há pessoas que sabem criar condições que facilitam aos outros desenvolver a sua criatividade num campo específico quando ensinam esse campo específico. É possível que algumas dessas pessoas aprendam mais tarde a ser mais criativas noutros campos que conheçam razoavelmente bem. Mais nada.
Como é que isso se faz? Tem tudo a ver com a maneira como se ensina aquilo que se ensina. A forma é mais importante do que o conteúdo. Mas a forma não existe independentemente do conteudo. Se a cadeira funciona com minitestes e os professores carregam com os meninos ao colo, conseguem maximizar a relação entre aquilo que se ensina e os esforço feito pelos alunos. Conseguem ser bons ensinadores. Mas os alunos perdem uma oportunidade de aprender alguma coisa. E é só isso que importa.
É vulgar um professor sobravaliar a importância de um determinado assunto. Normalmente um assunto que gosta de ensinar e um assunto que lhe permitiu aprender muitas outras coisas enquanto lho ensinavam. Se esse assunto não for incluido no curriculum, acha que a qualidade do curso está ferida de morte. O Eduquês conclui do facto de a forma ser mais importante que o conteúdo que se pode descartar o conteúdo e que não é necessário ser especialmente conhecedor do assunto que se está a ensinar.
A cair nalgum dos erros, prefiro cair no primeiro. Mas o melhor é evitar os dois.

6 comentários:

Sofia disse...

A primeira coisa que me ocorre, quando acabo de ler este post, é:

Há ensino em boas mãos.

lino disse...

A forma não é mais importante que o conteúdo. Simplesmente, ela tem o poder de o desvendar ou de o esconder, dependendo da sua qualidade e das características da plateia.

on disse...

Sofia, o Dr. Benjamin Spock, que ensinou gerações de pais a tratar as suas criancinhas de com mais bom senso e amor, era um pai frio e distante.

Do que eu escrevi só se pode concluir que sei juntar umas linhas sobre assuntos relacionados com a educação.

on disse...

Lino, a forma não é mais importante do que o conteúdo quando queremos ensinar algo. Quando queremos dar oportunidade aos alunos de aprender uma coisa ...

Sofia disse...

On, Freud fumava...

E as conclusões sobre o vínculo mãe/bébé só puderam tirar-se com o sacrifício dos grupos testados (aqueles em que se fazia com que o RN só regressasse aos braços da mãe mais de sete horas depois do parto, pelo menos).

E parece que até Madre Teresa... enfim.

Esse facto não te tira o mérito.
Saber juntá-las já é muito. Publicá-las, mais ainda.

Hugo disse...

Só se percebe a forma após estudar muitos conteúdos.