terça-feira, setembro 10

Tanques de deprivação sensorial

Já existem em Lisboa.
Servem para descontrair de uma forma bastante mais profunda do que habitualmente e para nos conhecermos melhor. Estou com vontade de experimentar...

sexta-feira, junho 21

Tony Soprano

Os Sopranos quebrou uma das regras fundamentais do drama televisivo: o protagonista não pode ter falhas sérias de carácter. Ao deixarmos James Gandolfini entrar em nossas casas uma vez por semana, abrimos a porta para encarar um pouco mais de frente as nossas falhas de carácter. Os Sopranos nunca teria êxito sem  o talento do Tony. Obrigado!

sábado, março 23

2

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)

quinta-feira, março 21

Sócrates na TV

As autárquicas estão à porta e os portugueses vão adorar penalizar o PSD (e o CDS, já agora). As autarquias são a base da estrutura dos partidos e os resultados vão deixar marcas nos partidos do poder durante pelo menos uma década. Nesta situação vale tudo. Lembrar os portugueses que os "sócios" do PS achavam Sócrates o máximo e nunca se demarcaram dele é uma jogada genial. Fazê-lo na televisão pública é uma sem-vergonhice que ultrapassa todos os limites, e é um problema de saúde pública. Não tenho de aturar a cara do Sócrates a seguir ao jantar.
Vendam a RTP, mas vendam mesmo! Amanhã.

Coitados dos Cipriotas?

A banca cipriota é treze vezes maior do que o resto da economia. Ou seja, a economia real da ilha representa 7% da sua economia. Chama-se a isto viver no fio da navalha. Se os bancos cipriotas fizerem uma asneira, não há maneira de a economia cipriota resolver o problema.
O povo cipriota escolheu este caminho? Sabia dos perigos que estavam a correr?  Não escolheu, mas sabia o que se estava a passar: o afluxo de dinheiro lavado e de dinheiro que não paga impostos deu aos cipriotas durante décadas uma vida bem mais confortável do que que eles poderiam esperar. Não existem almoços grátis... Nunca se perguntaram como era possível? Não havia lá nenhum Medina Carreira a avisá-los? Provavelmente até havia.
E agora? Se os cipriotas não são capazes de resolver o problema, quem tem obrigação de o resolver? É agradável imaginar que todas as pessoas, países e instituições possuem um anjo da guarda ou um pai que lhes resolve os problemas. No mínimo, podemos usá-lo como bode expiatório quando as coisas correm mal. A União Europeia tem a obrigação de pagar? Bem, tem alguma obrigação de ajudar...
A economia cipriota pode esperar que os outros paguem para resolver as complicações que eles arranjaram? Sendo a economia real 7%, onde é que se pode ir buscar o dinheiro?
Provavelmente não me apercebi de algum aspecto do problema. Agradeço qualquer esclarecimento que me possam prestar.

Chipre não é caso único. O Luxemburgo tem o nível de vida mais elevado da Europa. Em grande parte à custa do dinheiro que para lá fugiu para não pagar impostos, do dinheiro que por lá é lavado. O peso da banca na economia do Luxemburgo é dez vezes o da economia real, cem, mil?
Felizmente a Suiça não faz parte da União Europeia. Mas a Bélgica faz. Qual é a cota parte do sector financeiro no milagre económico belga?  Os islandeses não gostaram nada da brincadeira que lhes aconteceu, mas beneficiaram durante décadas da sua banca sobredesenvolvida.
A senhora Tatcher livrou os ingleses das industrias antiquadas, criando o mito de que um país pode sobreviver à custa do sector de serviços. Estamos agora a ver como isso é verdade. A Inglaterra sobrevive à custa da dos bancos da City, o maior centro financeiro do mundo. Quando Bush resolveu atacar o Iraque, Tony Blair nem pestanejou. Seguiu todas as ordens de Bush, sabendo perfeitamente que estava a destruir a sua carreira e comprometer para sempre a sua reputação. A verdade é que meia dúzia de telefonemas de um presidente dos estados unidos podem destruir numa semana a City e arruinar a economia inglesa durante várias décadas. Nenhum inglês educado pode dizer em consciência que ignora este facto.

quarta-feira, março 20

1

A maior parte de nós não tem mais do que uma vaga ideia do que seja “pensar”, transformar em “pensamento” o bric-à-brac, o refugo e o lixo da nossa corrente mental. Adequadamente concebida – quando paramos para pensar no assunto? -, a instauração de um pensamento de primeira ordem é tão rara como a composição de um soneto de Shakespeare ou de uma fuga de Bach. Talvez na breve história da nossa evolução, não tenhamos ainda aprendido a pensar. Excepto para um punhado entre nós, talvez a designação de homo sapiens não passe de uma vanglória injustificada. 

sexta-feira, março 15

Contos de Fadas

Todos nós assistimos ao aparecimento dos telemóveis. Agora a nossa vida é muito mais cómoda. Por outro lado tornou-se mais difícil estarmos sós. Ter uma tarde para executar uma tarefa mais profunda, sem interrupções. Estamos mais longe de nós próprios.
O miúdos não entendem muito bem do que estamos a falar. Não conheceram uma sociedade sem telemóveis. Era bom haver uma maneira de lhes explicar estas mudanças. Os ganhos e as perdas. Não ter telemóvel não é grande solução. Ter consciência das mudanças que estes instrumentos provocam nas nossas vidas e tentar minimizar os seus inconvenientes, talvez valha a pena.
Só tive televisão em casa a partir dos sete anos. Tenho uma vaga ideia dos tempos antes da caixa que mudou o mundo. A vida era por vezes mais enfadonha mas havia mais tempo para ler um livro, falar com os outros, estar a sós com a nossa pessoa. A telefonia não se apoderava de nós com tanta facilidade. Acontece ir a casa de alguém e a televisão estar sempre ligada, mesmo sem ninguém a estar a ver. Serve para evitar o silêncio e espantar algum pensamento ligeiramente perturbador.
A nossa sociedade muda continuamente fruto de mudanças tecnológicas e sociológicas. A um ritmo cada vez mais vertiginoso. A nossa vida é agora mais cómoda e segura, pelo menos enquanto não acabarmos de destruir o planeta.
A historia da donzela sem braços foi criada por alguém que presenciou o primeiro moleiro a ter um moinho de vento e as mudanças que esse moinho provocou na sua vida e na vida dos que o rodeavam. Exprimiu-se da única forma ao seu alcance, uma forma simbólica. Podemos aprender alguma coisa com ela. O senhores Fernando Ulrich e António Borges passaram a maior parte da vida a olhar o mundo como um objecto que tinham de manipular. Acabaram por deixar a parte mais terna do seu ego perder as mãos. A parte que dá valor às coisas, a todas as pequenas e grandes coisas. O autor da historia viu acontecer algo de semelhante ao moleiro. A outra escala. Estes senhores não são capazes de saborear aquilo que ganharam bem ou mal.
Só conseguem sentir-se bem a ganhar mais dinheiro ou a tirar o dinheiro aos outros. Quando conseguem que os outros se sintam miseráveis, conseguem sentir-se um pouco miseráveis eles próprios. Pelo menos melhor durante algum tempo.
A Donzela que perdeu as mãos pode ser interpretada de várias formas: fala sobre as mudanças que ocorreram numa sociedade, sobre as mudanças que ocorreram numa mulher, sobre as mudanças que ocorreram na parte feminina de um homem. Podemos aprender algo com ela se a relacionarmos de alguma forma com a nossa vida.

quarta-feira, fevereiro 27

Historia de embalar

O senhor Joaquim todos os dias moía a farinha, com a ajuda de um burro manco. Naquela tarde rodava a mó sozinho. O velho jumento só fazia companhia. Recebeu uma visita do diabo. Joaquim, queres uma mãozinha para moer a farinha? só quero em troca alguma coisa do teu quintal. No quintal só havia a figueira seca, usada para estender a roupa. Não disse que não. O diabo construiu um moinho e prometeu voltar no dia seguinte.
Que me dizes, Joaquim, agora a tua vida vai de vento em popa? O Joaquim nem respondeu, só fazia contas ao que podia comprar com as seis sacas de farinha que ia vender todas as semanas.
Ao terceiro dia o diabo voltou para acertar o preço. O Joaquim ouviu um grito e correu ao quintal. A filha que estendia a roupa chorava as suas mãos desaparecidas. Joaquim corre de volta para o diabo. Olha  uma vez mais o moinho e hesita. O diabo desaparece numa nuvem de fumo.

A jovem donzela não se queixa. Agora que a família é rica outras mãos estendem a roupa por ela. Afinal para que é que ela precisa delas? Cada vez é mais difícil esconder a infelicidade. Na falta de melhor solução, foge de casa, embrenhando-se na floresta. Depois de vaguear todo o dia acaba por encontrar um jardim. A um canto do jardim encontra-se uma pereira. Todas as noites como uma pêra, que a vai mantendo viva. Acaba por ser apanhada pelo jardineiro, que a leva à presença do rei. O rei, maravilhado pela sua beleza, apaixona-se por ela.
Agora que é uma rainha e vive num palácio, ainda menos precisa das mãos. Mas no essencial, nada mudou. O rei consciente da sua tristeza, ordena ao mágico que lhe construa umas mãos de prata.

As mãos de prata são muito belas. Algumas damas da corte trocariam sem hesitar as suas mãos por aqueles apêndices que não servem para nada, mas dão status. O nascimento da filha só veio piorar as coisas. Como vai uma mãe dar carinho à filha com aquelas mãos frias? Desesperada, rodeada de pessoas que lhe invejam a sorte, a donzela volta a fugir para a floresta, levando a filha nos braços. Ao atravessar um ribeiro a filha cai à água. A donzela grita pelas criadas. Na floresta não há criadas... Lança-se à água e tenta agarrar a filha, prestes a afundar-se. As suas mãos, que sempre lá estiveram, agarram-na no último momento.

quinta-feira, fevereiro 21

Famílias e como (sobre) viver com elas

John Cleese é conhecido sobre tudo por ter sido um dos membros mais importantes dos Monty Python. Mais recentemente foi o "Q"  em dois James Bonds. Nos intervalos da sua carreira artística foi reitor da Universidade de St. Andrews, com assinalável sucesso. Quando passava por um período de maior tensão e os seus problemas respiratórios resistiam ao tratamento médico, recomendaram-lhe terapia de grupo com Robyn Skinner. Segundo ele foi uma das experiências mais divertidas e estimulantes da sua vida. Pelo menos a maior parte do tempo. Alguns anos depois matou as saudades escrevendo dois livros a duas mãos com o seu antigo terapeuta.
Famílias e como (sobre) viver com elas encara uma família como um sistema em que cada um dos participantes faz o que pode para ajudar a família a sobreviver. Até pode "aceitar" fazer o papel de ovelha ranhosa, mais que não seja para que os outros membros da família esqueçam as suas desavenças, unindo-se contra eles. Dois dos temas fundamentais são discutir as razões que nos levam a escolher alguém para viver connosco (escolhemos sempre alguém com uma estructura familiar algo semelhante à nossa, acreditem que é verdade...)  e a influência que a forma como fomos criados tem na nossa vida futura, levando-nos a reproduzir de alguma forma os padrões da geração anterior.
O livro é fácil de ler. É mesmo bastante divertido. No fim até parece tudo senso comum do mais básico. O mais dificil é perceber em qual dos retratos é que encaixamos e tirar daí as consequências. Ainda não cheguei lá...

domingo, janeiro 27

Dietas

Afinal o que é que se pode comer numa dieta? A dieta X proíbe o alimento Z, que se pode comer à vontade na dieta Y. Quem tem razão? Algumas (muitas) dietas não funcionam mesmo. Mas há muitas que funcionam, apesar se defenderem opções que contradizem totalmente outra dietas. Como colocar alguma ordem neste caos?
Se duas dietas funcionam, porque não tomar algumas ideias de uma e de outra e ver o que dá? Pensar assim significa tomar o ponto de vista ecléctico  Não é boa ideia.  Uma dieta tem uma logica interna e não convém brincar com ela.
Se eu fosse um nutricionista, advogava o ponto de vista pluralista. Propunha aos meus clientes que seguissem a dieta que eu acreditava ser a melhor. Se não funcionasse ou eu achasse por experiências anteriores que naquele tipo de pessoa a minha dieta não funcionava lá muito bem, propunha um dieta da concorrência, seguindo fielmente o espírito dessa outra dieta.
As nossas crenças são mapas da realidade que não abarcam toda a realidade. Não quer isso dizer que não se acredite sinceramente naquilo em que acreditamos.
Podemos saltar das dietas para a psicoterapia. Um analista Freudiano que conheça outras técnicas pode experimentar um método alternativo, ou propor ao analisando que experimente outro tipo de terapia, o que vai dar ao mesmo.
Na política quem tem razão? Os conservadores ou a esquerda? (Muitos países, entre eles Portugal e os EUA, permitiram que uma classe corrupta dominasse o aparelho de estado. Criam um jogo de sombras em que supostamente a esquerda e a direita vão alternando. Vamos ignorar esses detalhes...)
Se uns estivessem certos e os outros errados, um dos lados já teria eliminado o outro. Por uma lado nunca votei à esquerda do PS, embora não exclua essa hipótese. Estou claramente de um dos lados. Em certas situações, aceito que a visão global do outro lado funciona melhor.
Deus existe? Eu sou ateu. No entanto, quando se trata de certas questões descubro em mim uma grande religiosidade. E não aceito uns detalhes de uma certa atitude religiosa. Aceito uma lógica diferente.
Não divido a verdade ao meio, como Salomão ameaçou fazer. Matávamos a criança. A maior parte das semanas a criança fica melhor com a mãe. Outras, nem por isso.

sábado, dezembro 24

Que mais nos podem roubar?








Things fall apart;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.


W. B. Yeats escreveu estas linhas na sequência do fim da primeira guerra mundial. Encontro algum consolo na sua leitura. No mínimo lembram-nos que as coisas já estiveram tão mal ou pior que agora e depois melhoraram.

Que mais nos podem roubar?
A lucidez de resistir ao primeiro quick fix que algum aprendiz de feiticeiro nos quiser vender.
A satisfação de fazer o nosso trabalho bem feito.
A certeza de que somos em ultima instância os responsáveis pelo nossa vida.
Não deixem.

Nada mudará sem luta, mas lutar só vai produzir resultados quando alguma direcção se tornar clara ao olhos de um grupo suficientemente grande de pessoas. Se ainda têm um emprego e razoaveis perspectivas de o manter, não delapidem demasiadas energias sem uma bússola que vos oriente.
O melhor Natal possível para cada um de nós.

segunda-feira, novembro 14

No tempo da outra senhora ouvia-se a BBC

A RTP e os jornais eram censurados, era a única fonte razoavel. Agora temos uns quantos sites na net e meia dúzia de forums onde se pode saber o que se passa. Televisão? De que serve ter cento e tal canais? Bem, ainda há dois ou três onde se pode saber o que se passa e ouvir algumas verdades sobre o mundo em que vivemos. A melhor é sem dúvida a Aljazeera English. A Russian Television, também não é má. Se quiserem saber algo sobre os protestos nos Estados Unidos, experimentem o Press TV (iraniano?).

segunda-feira, outubro 10

O voto secreto garante a democracia?

Repetia ontem um convidado de um dos muitos programas sobre as eleições na Madeira: lá toda a gente tem vários familiares que dependem de uma forma do governo regional, logo o voto não é livre. Pergunta a locutora: mas o voto não é secreto? O convidado não responde.
No entanto a resposta não é assim tão complicada, apenas demasiado subtil para passar na televisão.
Quanto pesa um segredo? Quanto pesa votar A e dizer que se votou B perante toda a gente? Durante quatro anos, ou durante quarenta anos? Muito mais do que parece. Esse peso é maior para umas pessoas do que para outras. Nunca é negligenciavel e para a maior parte das pessoas é insuportavel.
Já agora quanto pesa admitir perante si próprio que até queriamos votar A e votámos B pelas razões referidas acima? Demasiado. Viver essa contradição a longo prazo é mais do que incómodo.
Que mais nos resta do que admitir que o Alberto João até tem graça?
Jardim recriou na Madeira as condições que garantiram a Salazar e Marcelo vitórias em muitas das eleições do nosso ancien regime. Agora vamos pagar a factura.