sábado, abril 16

Carta Aberta ao José Luís Sarmento

Caro José Luís Sarmento,

considero-o um homem inteligente e tenho seguido mais ao menos regularmente o seu blog. Só por isso me dou ao trabalho de escrever o que se segue. Muitas outras pessoas não mereceriam que eu me desse a este trabalho. Compreendo parcialmente o desgaste a que está sujeito. A avaliação dos professores do ensino secundário é um insulto à profissão e a todos os seus profissionais. É verdade que muitos professores contestariam qualquer forma de avaliação, mas esta de avaliação só tem o nome.
É verdade que o sistema educativo mentiu aos jovens e lhes deu uma visão completamente errada do mundo. Que tornou quase impossível eles compreenderem uma série de valores que para a nossa geração eram bem claros. Que o seu desinteresse e indisciplina durante as aulas é completamente desmotivante, que não foi para fazer "isto" que decidiu seu professor. Sei disso porque alguns desses efeitos já chegam à universidade onde dou aulas.
É verdade que vivemos numa cleptocracia e que estamos a ser constantemente roubados. Pelos nossos governantes, pelos especuladores, pelas empresas petrolíferas, por todos os que o podem fazer. Também acho que vivemos vários anos acima do nível de vida que podíamos suportar. O que nos roubaram foi apenas uma parte daquilo que pediram emprestado para nós pagarmos.
Compreendo que lhe apeteça mandar tudo às malvas, pedir a reforma e partir para uma segunda adolescência. Começo por lhe fazer notar que esta decisão pode ter consequências imprevistas. Boa parte das pessoas que se reformaram antecipadamente no princípio da década de 70 acabaram na miséria envergonhada. Mesmo os que tinham altos cargos na administração pública. As reformas não foram actualizadas e a inflação comeu rapidamente o seu poder de compra. Agora a inflação é baixa? É verdade, mas tudo isso pode mudar de um dia para o outro. Uma saída do euro envolveria desvalorizações da moeda da ordem dos 50% em poucos anos. Mesmo sem sair do euro muito coisa mudará. As pessoas acreditam que o Estado é uma pai que toma conta de nós. Apesar de tudo o que aconteceu, ainda não mudaram de opinião. Custa-me perceber como é que, numa situação destas, pode escrever um post tão leviano. Acha mesmo que se vai safar? Quem lê o seu escrito fica a pensar que vivemos num país maravilhoso em que um tipo se pode reformar aos cinquenta e tal e gozar a vida despreocupadamente. A menos que não nos tenha contado a história toda. Quando voltar da sua viagem vai dar aulas num colégio privado ou montar um negócio de explicações? Isso já seria mais realista.
Seja como for, tem o direito de mandar isto tudo às malvas e deixar nas minhas mãos pagar uma parte da sua reforma. A lei permite-o. Não espere porém que eu vá lutar pelos seus direitos, OK? De alguma forma o senhor é só mais um dos que, porque a lei o permite, me vai complicar um bocadinho mais a vida.

PS: Como eu disse antes, não me daria ao trabalho de escrever esta carta a uma pessoa qualquer. Espero que isto possa ser um ponto de partida para um diálogo constructivo. Gostava de compreender melhor as suas motivações.

121 comentários:

Anónimo disse...

Cortes nos reformas?

Anónimo disse...

Cortes nos reformas?

Anónimo disse...

FMI vai mexer nas reformas

Anónimo disse...

FMI vai mexer nas reformas

maria disse...

pois...enquanto for só aos outros...mas parece que o barco tem cada vez mais passageiros/navegantes. Não tarda temos o Noé e meia dúzia de espécimes...que faremos, então?

on disse...

Que tal começar por discutir a situação, deixando de fora alguns tabus?
Exemplo de um tabu: é feio dizer a alguém "é pá, se tu também pagasses impostos, sobrava menos para mim".
Só é razoavel discutir o assunto em abstracto. Noutras culturas não é bem assim.
Durante várias gerações as pessoas reformaram-se bastante cedo. A piramide etária e a situação economica permitiam esse tipo de comportamentos. Agora já não é bem assim. No entanto continua a nem ser razoavel discutir o assunto em abstracto.

on disse...

Quando uma empresa tem problemas e não os consegue resolver chama uma consultora. As pessoas da empresa conhecem os problemas da sua empresa muito melhor do que os consultores. Acontece que o tecido social da empresa não permite sequer que certos problemas sejam mencionados, quanto mais discutidos.
A única solução é trazer alguém de fora que corta a direito, não necessariamente da forma mais justa ou mais eficaz. Depois quem se lixa é o mexilhão.

on disse...

A prova de que temos os políticos que merecemos são os resultados elitorais da Manuela Ferreira Leite. Com todas as suas limitações, falou dos problemas bem antes de todos os outros. Naquela altura podíamos ter sido nós a resolver os nossos problemas. Agora...
Ela só queria interromper a democracia por seis meses.
Impossível? Agora vão ser seis anos...

on disse...

Não estou a defender interrupções da democracia. Apenas a lembrar que a democracia e a independencia nacional não segarantem através da proclamação da constituição ou da carta dos direitos do homem mas sim através das nossas acções.

maria disse...

Bem, cada um tem a sua experiência e visão sobre o assunto...eu não me parece que a questão seja de "tabus".

Analisando um pouco a massa comum da nossa sociedade:

1. dose exacerbada de individualismo.

2. falta de responsabilidade pelos próprios actos. (O mal é sempre dos outros. Eu não passo umas facturas...mas, se todos fogem. E o mal é provocado pelos "grandes". É assim a maior parte do nosso empresariado).

A corrupção e fuga aos impostos é uma das grandes causas da nossa situação.

Depois, os políticos que temos...e desculpa lá, mas MFL não lhe basta para ser honesta e verdadeira dizer que Sócrates é aldrabão. Aliás, essa polarização na bondade ou desfaçatez de um único político é uma tolice. MFL enquanto ministra das finanças também ajudou ao buraco onde estamos (dívida, juros altíssimos).

E voltando à economia: para além das nefastas políticas liberais que não estão confinadas ao nosso país (pois é, pois é a globalização)a maioria do nosso empresariado é uma lástima:

O nosso país tem uma percentagem de mais de noventa por cento de pequenas e médias empresas. Com empresários que não têm vocação para gerir coisa nenhuma, não inovam, não investem, que acham que apresentar lucros ao final do ano é abrir a porta aos ladrões: Estado.
Em contrapartida (e no caso dos Agricultores)o Estado tem de estar sempre pronto a acudir-lhes em todas as dificuldades.

E este Governo até soube aproveitar alguns algusn recursos das TIC. A Segurança Social, por exemplo, está bem agilizada na cobrança de dívidas. Finanças, idem.

Isto são apenas alguns aspectos, há muitos mais, claro.

Mas não oponhas a carta Universal do Direitos do Homem a acções políticas concretas (e que nos cabem a todos).

Enfim, é uma discussão com muitas vertentes.

on disse...

A MFL, com quem eu não simpatizo especialmente, não se limitou a dizer mal do Socrates. Disse que não tinhamos dinhiro para TGV e explicou o que ia acontecer se se continuasse a gastar à maluca. Poucas pessoas gostaram de ouvir isso.

Acho optimo a Declaração dos direitos humanos. Limito-me a dizer que lá por estar escriro algures que todos tem direito a uma casa isso não faz as casas crescerem nas árvores.

Não se perde a independencia nacional por chamar o FMI. Perde-se a independencia nacional usando dinheiro emprestado para consumir.

Não sei como é que vou votar nas proximas eleições. A forma como o PC e o Bloco ignoram a realidade ultrapassa todos os limites.

Anónimo disse...

Todos os limites? Acho que não estás a ver bem quais são os limites.

O que achas do IVA a 6% aos clubes de golf? Justificada porque a industria precisa de competir (num bem de luxo, portanto altamente "elástico"...e como se as outras industrias não precisassem) e porque traz tanto dinheiro ao pais (e portanto o estado prescinde dos imposto que podia daí tirar?).

Todas as narrativas são parcialmente verdadeiras em cada momento. Eventualmente a ferrugem vai destruir o meu carro - mas eu não me preocupo muito com a ferrugem quando o meu carro está parado na linha do comboio.

Ainda que me arrepie usar o termo, a narrativa principal neste momento é a luta de classes. O PCP/BE parece mais irracional porque usa a cassete estridente do costume - mas olhando para os argumentos e não para o tom, acho que vejo muito mais insanidade nos senhores responsáveis do PDS/PS do que nos comunas ensandecidos. E a cassete, agora, até se aplica, e se calhar nem é estridente que chegue.

on a related note: nos EUA estão a reduzir a idade em que os adolescentes podem trabalhar, e sem limite mínimo de ordenado. Não sei se estás a ver bem ao que estamos a voltar. Para quê evitar o trabalho infantil se de qualquer forma a ralé não vai ter dinheiro para a universidade? Precisamos de uma nova sub-classe para baixar os ordenados dos que agora tabalham no macdonalds. Entretanto a GE pagou 0 de impostos, e os gestores ganharam mais 20 e tal por cento este ano; o sistema financeiro está ainda mais too big to fail, a regulação continua bloqueada, e estima-se que o sector precisaria de um bailout ainda maior desta vez. O ultimo arruinou os estados, o que fará o próximo?

Quem é que está doido?

A.

on disse...

É obvio que os capitalistas estão cada vez mais greedy e há que pô-los na ordem. Quem tem hipoteses de o fazer?
Na prática o PC e o Bloco ocupam o espaço da contestação, travam a hipótese de um grupo que poderia constestar de forma mais eficaz o sistema se afirmar e acabam por ser um dos ingredientes essenciais da manutenção do status quo.
Compreendo que ao pé disto tudo um tipo passar alegremente à reforma aos 60 te pareça peanuts. A mim preocupa-me:
- o JLS nem está a perceber o que lhe vai acontecer. Se um gajo inteligente que tem interesses parecidos com os meus não consegue perceber o que se está a passar, estamos todos muito mal. Se cada um de nós puxar numa direcção diferente vamos anular-nos uns aos outros.
-Lá por haver uns sacanas que andam aí a roubar-nos isso não nos iliba de todas as responsabilidades. É nestas alturas que a cidadania é mais importante. Cada um de nós que não faz a sua parte está a afundar o barco um pouco mais. Sempre houve e sempre haverá alguém a roubar. O que separa um país que se deixa colonizar de outro que não deixa é a percentagem dos cidadãos que continuam a fazer a sua parte.

É muito facil usar os outros sacanas como desculpa para também fazer a nossa sacanice. Pode-se daí concluir uma coisa: se calhar não fazemos o que o outros fazem porque não tivemos a oportunidade. Nesse caso, de que nos andamos a queixar?

on disse...

Um amigo meu ficou todo contente porque o governo do Socrates ter caído. Dessa maneira ainda não foi desta que perdeu 10% da sua reforma. Ele sabe perfeitamente que eu perdi os ditos cujos e que ele se reformou alegremente aos 60 anos. E quer que eu o oiça discorrer sobre estes factos sem lhe fazer alguns comentários menos agradáveis. Ele até sabia que com a inevitável vinda do FMI ia perder mais do que os 10%. Mas isso é amanhã, não é hoje.

Tenho colegas que pediram ao mesmo tempo a passagem à reforma e uma licença sabática (um semestre sem dar aulas). Não se pode ter tudo não é?

Esses colegas sabem perfeitamente qual é o aumento de serviço que recai sobre os desgraçados que por cá ficam. Estão no seu direito. Agora, não podem esperar a nossa solidariedade, pois não? Mas esperam! É claro que eu não lhes vou dizer nada. Isso só ia piorar as relações de trabalho.

on disse...

Resumindo, não são só os greedy capitalists que estão loucos, estamos todos. Grande parte do que está a acontecer tem a ver com o facto de o pêndulo estar a balançar demasiado para a dominância do hemisf´rio esquerdo no ocidente e isto vai acabar de forma natural no dia em que o mundo passar a ser dominado pela China, a India e o resto da Ásia. O que está em jogo é um pouco mais do que a luta de classes, mas também.

maria disse...

"Acho optimo a Declaração dos direitos humanos. Limito-me a dizer que lá por estar escriro algures que todos tem direito a uma casa isso não faz as casas crescerem nas árvores."

Acabaste de ganhar o prémio das coisas óbvias!!! :)

Mas talvez nunca seja demais lembrá-lo. Nisso tens razão.

Tenho o link para um texto no meu blogue que também perspectiva isto.

E só mais uma coisinha: não chega que se unam (também não digo que penses assim)os que têm interesses comuns, temos de perceber definitivamente (era bom) que tem de haver lugar para todos, começando por vigiar o nosso ego. E agindo em conformidade.

Bem, vou gozar a minha tarde sabática e cuidar do jardim. ;)

on disse...

se nem os que tem interesses comuns se unem...

Anónimo disse...

Mas porque é que o homem não se há de poder reformar? Porque vai fazer a vida mais difícil aos que trabalham? Isso é o mesmo que o Miguel Sousa Tavares dizia sobre as mulheres que não queriam ter filhos. Que depois não tinham ninguém para lhe pagar as reformas e tinha de ser ele. Ora, On.

Anónimo disse...

O anónimo sou eu. Sara Monteiro

Anónimo disse...

E se ele quiser viver uma pobreza (envergonhada ou não)? Que é que isso tem?
Sara

Anónimo disse...

Quer dizer que as pessoas já não podem ter opções individuais. Têm de estar todas submetidas ao bem comum.
Sara

Anónimo disse...

Logo vindo de quem vem. Isto está cada vez mais difícil.:(
Sara

Anónimo disse...

Desculpem, não li comentários. Só reagi ao post.
Sara

on disse...

Sara,
A minha interpelação é um pouco bruta. Ok.
Concordo que as pessoas podem fazer as opções que quiserem. Depois assumem as consequências dos seus actos. Apenas quero alertar o JLS para duas coisas:
- Está a correr riscos sérios. Acredito que uma pessoa que passe vinte anos na reforma arrisca-se a acabar com um rendimento real igual a UM QUARTO do que tinha no dia que se reformou. Por três motivos: somos roubados todos os dias; numa economia em implosão, com menos pessoas a entrar, mais a sair, menos crianças a nascer, há cada vez menos gente para pagar mais reformas. Muitas pessoas que pediram a reforma por irem perder 10% do salário e as reformas não serem afectadas vão-se arrepender amargamente da sua decisão. Cá estaremos para ver quem tem razão. Lê o primeiro post deste blog, escrito há cinco anos. Eu tenho muito jeito para Cassandra… Preferia não ter.
- O JLS não pode esperar a minha solidariedade. Considero a sua atitude anti-social . Embora legal. Não é a lei que diz o que é ou não moralmente aceitável. Ao aproveitar a lei o JLS está a fazer o que muitos capitalistas fazem. Porque podem. O JLS passa a vida a criticá-los. O que é que o distingue deles?
Nota: acho o JLS uma pessoa decente e alguém que poderia muito bem ser meu amigo.

É sempre bom ouvir a tua opinião!

Anónimo disse...

Não é bem uma opinião. É mais um espernear.
Sara

Anónimo disse...

Se as pessoas não puderem decidir e assumir as consequências dos seus actos que é que nos resta?
Sara

Anónimo disse...

Podemos sempre ser santos, claro.
Sara

on disse...

Sara,
mas onde é que eu estou a impedir alguém de decidir ou a exigir a alguém que se comporte como um santo?

Uma das consequências dos actos é ouvir umas criticas e um avisos. Quem te avisa teu amigo é...

Não chateei por aí além o JLS: Deixei-lhe um comentário no blog dele. Ele veio ao meu, leu o meu post, decidiu não comentar, não publicou o meu comentário.
Tudo bem, não voltei a incomodá-lo.

Anónimo disse...

:) Mas não deixa de ser curiosa essa vontade de esclarecer os outros sobre as suas escolhas.
Sara

on disse...

Sara,

Não é isso que fazemos todos os dias quando dizemos uns aos outros que se não reciclarmos lixo vamos ter problemas graves para resolver no futuro?

Em Portugal já é menos aceitavel dizer "se tu não pagas os teus impostos sou eu que vou pagar por ti". Noutros países nem por isso.

Não me parece que a atitude em si seja assim tão "curiosa". Não será antes que o que considerado razoavel comentar ou não comentar é que muda de lugar para e de época para época?

Anónimo disse...

Aí é que bate o ponto. Eu acho que não temos nada de andar a dizer uns aos outros o que devemos fazer, mas apenas a nós próprios. Até porque não serve de nada, só serve mesmo para nos chatearmos. Assim como assim, os outros sabem o que devem fazer, se não fazem devem ter as suas razões, sejam elas quais forem. Até porque essa avalanche de coisas que queremos que os outros façam é infindável e se começamos num ponto nunca mais se acaba. E mesmo que eu faça tudo perfeito haverá sempre alguém que há-de encontrar alguma coisa onde se falhei. Não. Devemos calarmo-nos por mais que nos custe. Fazermos o que está certo e ponto final. Fazer o errado e aguentar as consequências. E se não nos quisermos calar, então devemos tornar-nos militantes activos para mudar as leis e criar mais multas. Tornarmo-nos vigilantes e fiscalistas da vida dos outros. Com todas as consequências.

Anónimo disse...

Sou eu, Sara.

Anónimo disse...

No meio disto tudo, não percebi se o JLS se vai reformar antes do tempo ou não. Porvavelmente sim, mas então há uma questão que não me é muito clara. O ON diz que:

"Boa parte das pessoas que se reformaram antecipadamente no princípio da década de 70 acabaram na miséria envergonhada. Mesmo os que tinham altos cargos na administração pública. As reformas não foram actualizadas e a inflação comeu rapidamente o seu poder de compra."

Imaginemos que o JLS se reforma daqui a 3/4 anos. Será que a reforma dele não vai desvalorizar imenso na mesma, tornando esta questão completamente irrelevante?

Hugo

on disse...

Sara,
pelo menos a mim, dizes o que fazer:)
Não que eu me importe...

Também não está certo fazer notar ao vizinho de cima que não devia fazer barulho depois da meia noite?

on disse...

Hugo,
provavelmente não assististes às conversas a que eu assisti sobre passagens à reforma durante os dois últimos anos. As pessoas mais bem informadas tomam decisões irreversíveis sobre o resto das suas vidas com base em razões absolutamente secundárias. Durante toda a sua vida viram o sistema de reformas a funcionar bem e os preços das casas a subir. Porque é que isso há-de mudar? Lá por o Sol nascer todos os dias, sabemos que um dia tal não vai acontecer. Criou-se a ideia de que quando uma pessoa se reforma sai do jogo e os problemas são para “os outros”. Acreditas nisso?

on disse...

Racicionar sobre acontecimentos alietórios é bastante complicado. O livro "Fooled by Randomness" ajuda a perceber que o risco de ruina é completamente contra-intuitivo. O preço de minimizar o risco de tudo correr mal é bastante alto e parece que estamos a deitar dinheiro (ou prazer, ou descando) à rua. Só se dá pelo seu valor se as coisas correrem mesmo mal. Depois é tarde de mais.

Neste momento de mudanças bruscas das regras do jogo passar á reforma é um risco considerável. Se eu tivesse 60 anos e estivesse numa boa forma física esperava por uma estabilização da situação. O cenário actual é insustentável. Ou alguma coisa muda nas regras da União Europeia, ou nós saímos do Euro, ou nós pura e simplesmente paramos de pagar as dívidas. O período de rotura pode ser muito duro. Acho que é mil vezes menos arriscado estar a trabalhar nessa altura do que estar reformado.
Cá estaremos para ver o que acontece. Até pode ser que as coisas corram bem e eu serei o primeiro a abrir uma garrafa de espumante nacional.

Anónimo disse...

Quem começou?:(


Sara

Anónimo disse...

Eu não vou ter reforma, sou daquelas pessoas que nunca se preocuparam com isso. Nem pouco nem muito, creio que nada. Espero arranjar uma maneira de viver sem reforma. Mas não consigo preocupar-me, por mais que me digam que devo.
Por isso não compreendo bem o teu post.
Quanto ao barulho do vizinho de cima: a minha família demorou 7 anos a fechar o bar debaixo da casa. E é algo que prejudica directamente e na hora o outro. Mesmo assim demorou 7 anos. Durante 7 anos não conseguíamos conversar à noite lá em casa.
Não tem comparação com um futuro distante que não consegues prever. Nem sequer sabes se estarás cá para sofrer as consequências.
E mesmo assim que importa? Há tanta gente no mundo, dispostos a viver de maneira diferente. Não se pode formatar o ser humano na totalidade. O que postulas é um mundo em que o individualismo se afoga no meio do bem comum, em que toda a gente faz o que deve, sempre a pensar nos outros, no futuro dos outros. Pessoas tão correctas que não me apetece conviver com elas ou convidá-las para minha casa. Sempre atentas, prontas para intervir, chamar a atenção cheias de boas intenções, a fazerem-e sentir mal porque não faço assim ou assado.
Eu sei que este é um assunto delicado e que provavelmente eu já não posso dizer isto numa sala de comentários, o políticamente correcto hoje é tudo. Mas que fazer?
Sara

Anónimo disse...

E que dizes às pessoas que se alimentam mal, ao alcoólicos e fumadores inveterados que preparam futuros cancros, doenças prolongadas e tratamentos dispendiosos que irás pagar?
Sara

Anónimo disse...

E que dizes àqueles que fazem desportos radicais arriscando a propria vida só porque lhes apetece (por futilidade) e ficam paraplégicos a precisar de apoio do estado, gastando rios de dinheiro dos nossos bolsos até à morte?
Sara

Anónimo disse...

E que dizes dos que decidem ter filhos in vitro tentando 20 vezes em vez de adoptar os que vivem em instituições?

Sara

Anónimo disse...

e os que de todo em todo não trabalham nem querm trabalhar?
Sara

Anónimo disse...

e os que andam de carro quando podem ir de transportes públicos?
Sara

Anónimo disse...

E que fazes ao canalizador simpático (arauto da saúde e dos ginásios, fanático da vida e da alimentação saudável) que vai a tua casa arranjar as torneiras e o descobres na praia completamente tatuado (da cabeça aos pés)com símbolos nazis? Continua a arranjar-te as torneiras? Denuncia-lo por estar a promover a violência e a xenofobia?
Sara

Anónimo disse...

E aos que Os QUE DÃO MILHO AOS POMBOS?
Sara

Anónimo disse...

A minha irmã levou uma bengalada dos ditos velhinhos quando ela um belo dia, animada de óptimas intenções, lhes tentou falar da necessidade de parar com a alimentação dos pombos em nome do bem comum:)
Sara

Anónimo disse...

Levarias tabaco a alguém que te pedisse sendo tu um antitabágico convicto? Há quem não leve...

Anónimo disse...

Sou sempre eu. Ninguém me ajuda...:)
Sara

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Quando voltar não vou para nenhum externato. Vou trabalhar de borla, como fazem muitos reformados. Isto é, produzir riqueza que não conta para o PIB mas que o beneficia a si, como a todos nós.

Anónimo disse...

Outra saída, viram? Ainda bem que alguém me ajudou.
Sara

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Não vai ser o meu caso (a minha intenção é dar aulas gratuitas de literatura comparada a gente que gosta de ler), mas imagine um reformado que se dedica a recolher animais vadios e a dá-los para adopção. Em que é que isto beneficia o contribuinte? À primeira vista, em pouco: apenas no dinheiro que o Estado evita gastar na execução da mesma tarefa ou no extermínio dos animais. Mas imaginemos que para o fazer tem que entrar num bairro problemático. Para ser aceite e não correr perigo, terá de travar relações com os habitantes - e a certa altura estará a fazer o trabalho dum assistente social. De graça. Não fui buscar este exemplo muito longe, acredite.
Ou imaginemos um casal de reformados que toma conta dos netos de modo a permitir aos filhos funcionar num mercado de trabalho cada vez mais competitivo. Alguém ousará dizer que estas pessoas fazem parte do problema? Será de todo impossível que façam parte da solução?

Não quero com isto dar uma de David Cameron ou do seu discípulo Passos Coelho, que vêem no voluntariado um truque para que o Estado se exima às suas responsabilidades. Para ser socialmente útil e produzir riqueza, o trabalho voluntário gratuito não deve concorrer com os empregos de que as pessoas precisam para viver. É por isso que tenciono ensinar literatura comparada e não, por exemplo, inglês técnico. Por isso, e porque me dá muito mais gozo, coisa a que um sexagenário já vai tendo direito.

on disse...

Olá José Luis,
é bom vê-lo por aqui!
É a falar que as pessoas se entendem...

on disse...

Sara,
quando eu era miúdo o dinheiro entrava lá em casa de uma maneira um bocado alietória. Umas vezes mais, outras menos. Disse a mim próprio aí pelos oito anos que comigo não ia ser assim. Estas escolhas são definidoras e limitadoras. Cada um é como é. Ao menos tenho consciência disso. Para mim o maior luxo é bater com o carro se traduzir numa simples subtracção na minha conta bancária. Fora isso até sou bastante frugal nos meus gastos. Cada um tem a sua relação com o dinheiro e com a segurança financeira.

on disse...

Sara,
eu escrevo num blog que é lido por meia dúzia de pessoas. Se escrevo alguma coisa sobre alguém, mando-lhe uma mensagem de cinco linhas, por que não falo nas costas das pessoas. Quem não quer ouvir, é só não aparecer cá. Achas que sou assim um perigo tão grande para a Liberdade?

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Além disso, fiz as minhas contas. Primeiro: se esperar mais uns anos, arrisco-me a receber menos logo à partida, e não mais, Não quero ser apanhado pela law of diminishing returns. Segundo; calculei quanto poupei em média por mês nos últimos anos, quanto poderei ainda poupar e quantos anos vai demorar até que a diminuição do meu rendimento real torne qualquer poupança impossível. Quarto: entrei num acordo com a minha mulher sobre até que ponto estamos ambos dispostos a baixar de nível de vida - desde já, sem esperar pelos tais anos da pobreza envergonhada.

Ainda assim corro um risco? Pois corro, mas corrê-lo-ia em todo o caso. Não +posso contar com a sua solidariedade? Compreendo a sua posição, mas quem sabe? Talvez o senhor a reveja se quando vir que pode contar com a minha.

Anónimo disse...

On
Gosto muito do teu blog.
Mas o politicamente correcto é a minha "tecla assassina".
Mesmo assim é um prazer discordar de ti.
Sinceramente:)
Sara

on disse...

José Luís,
lembro-me perfeitamente de termos cruzado uns argumentos no blog do Lutz. Ficou escandalizado com as minhas posições, depois até nos entendemos. Já sabe que o acho uma excelente pessoa e um homem inteligente. Um bocado naive...
Também terás as suas opiniões sobre mim!
Em tempos este blog teve por lema "insulte primeiro, leia depois".
Os comentários da Sara só me deixam feliz. Há quantos anos que este blog não tirava alguém do sério. Em tempos que já lá vão, era todos as semanas. Que saudades...

Acho optimo que se dedique a essas actividades. Apesar de tudo acho que fazia mais falta junto dos jovens, que é onde se faz a diferença e se constroi o futuro.
Sexagenário? Acabou de completar os sessenta. Se vir alguns dos meus posts mais recentes, sobre a Ginger Rogers e o Michael Athyiah, vai ver que ainda é um miudo. Pela sua fotografia dá para perceber que está são como um pero. Ainda vai a tempo de mudar de ideias...

on disse...

Sara, se eu fosse capaz de me indignar com alguém (a sério, não sou, é uma grande limitação minha) era com essa informação.
POLITICAMENTE CORRECTO? A sério?
Já alguma vez leste o que eu escrevo?

Anónimo disse...

Não és só tu, Sara, eu também não estou convencido.

On, as decisões desse género dependem de muitas variáveis. Uma coisa é fazeres uma afirmação estatística do tipo "em geral acho que..." ("integrate out nuisance parameters"), mas ao particularizares a uma pessoa particular lixaste o argumento. Uma pessoa específica pode ter muitos planos que desconheces, e muitas razões que não podes imaginar. Pode por exemplo ter actividades em mente cuja utilidade muito supera a de permanecer num trabalho que está repleto de restrições idiotas (eu passo tanto tempo a ensinar como a preencher papelada imbecil). Ou pode ter uma espectativa diferente em relação à sua esperança de vida; ou pode ter-se preparado muito diligentemente para a reforma, etc, etc...e tudo isso tem um peso muito maior do que o efeito que tal saída terá na distribuição de serviço dos colegas (que conta, mas apenas como um factor entre muitos)...

Não foi o exercer dos nossos "direitos" o que nos arruinou. E estabeleces uma simetria errada entre um cidadão comum fazer valer os direitos que a lei lhe concede (e pelos quais se guiou, tal como pelas obrigações) e os grandes lobbies exercerem os seus direitos...que foram adquiridos por compadrios e manipulações fraudulentas do sistema, e contra a vontade geral no que é suposto ser uma democracia, e que para mais são alterados sempre que convém para os favorecer descaradamente à custa de nós todos.

Sim, se estivessemos no lugar deles talvez fizessemos o mesmo. E depois? O que me choca é que, não estando, façamos o que fazemos, que é repetir a conversa do aperta-o-cinto enquanto nos roubam de tudo o que conquistámos desde o sec. XIX e ainda nos convencem que a culpa é nossa. Não sei se reparaste mas não foi o estado social faliu, apesar disso ter sido previsto tantas vezes: foram os bancos! foram as empresas financeiras! Foram as especulações ruinosas dos mesmos tipos que agora te querem gerir, avaliadas como excelentes pelos mesmos tipos que avaliam a solvência do Estado.

Não estou aberto a ouvir falar de como o meu colega do trabalho podia ser mais eficiente ou sacrificar mais enquanto me deparo com o roubo descarado da economia inteira para manter de pé especuladores falidos. É absurdo. E muito menos considerar se uma escolha perfeitamente legal de um cidadão comum corresponde ou não aos padrões mais elevados de altruismo que se poderão imaginar, enquanto que as bestas mais gananciosas que de facto consigo imaginar não só são salvas da ruina com o meu dinheiro como aproveitam para eliminar na mesma jogada todos os nossos "direitos", essas tais ficções que muito custaram a conquistar.

Eu acho que não te apercebeste ainda até que ponto é que os parametros do jogo estão a mudar. Estás a ver correctamente que estamos lixados, mas acho que não te apercebeste até que ponto. Estão a querer reconstruir um sistema de duas castas, e tu estás a reclamar porque a casta de baixo não está a sacrificar o que chegue. Isso é auto-flagelação católica? Culto da carga? Se eu for bonzinho que chegue Deus vai descer dos céus e punir os maus?

Que se lixe o razoável. Está na hora é de exigir e não de conceder. Precisamente porque estamos encostados à parede.

A.

on disse...

José Luís,
suponho que as minhas inquietações sobre o futuro das reformas não o preocupam. Já agora, gostava de conhecer o seu ponto de vista sobre o assunto.

Anónimo disse...

E eu também acho que cada um é como é. Dei alguns exemplos. Mas não podemos mudar os outros. Ou podemos? E se sim, como? Tornar a vida numa cruzada?
Sara

Anónimo disse...

On
Eu leio o que escreves. Por isso mesmo é que fiquei siderada com o post.
Mas não sou exemplo para ninguém, nem sei o que hei-de fazer ao meu canalizador:)
Sara

on disse...

Não A,
não é autoflagelação católica, é vontade de vencer. Não é com manifestações que vamos lá. É criando um partido que tome o poder. Esse partido tem de ter os pés bem assentes na terra e ver os vários lados da questão. O PC e o Bloco vivem na Lua e ao tapar o caminho á criação de alternativas acabam por consolidar o sistema.

Os países levantam-se com toda a gente a trabalhar no duro. Foi isso que os alemães e os japoneses fizeram. É claro que é preciso que além lidere o processo. Mas esse alguém sai das massas, se as massas assobiarem para o aldo, só saiem de lá políticos que assobiam para o lado.

on disse...

"Tornar a vida numa cruzada?"

Sara, a minha vida não é uma cruzada. Sou bastante individualista. Tenho muitos objectivos pessoais. Faço a minha parte para isto andar para a frente. Podia fazer melhor, todos podíamos, com um pouco mais de motivação e liderança. Até faço por não chatear os meus vizinhos que fazem barulho à noite, a menos que aquilo passe mesmo dos limites.

Ahh, e tenho um blog onde de vez em quando digo umas coisas em que acredito. Se não tenho nada para dizer que mexa com as pessoas, fico calado...

Quando comecei o blog queria "educar as massas".
Ridículo, não é?
Depois percebi que isto servia para aprender umas coisas sobre mim próprio com as respostas que as pessoas me dão.
Por exemplo, podia ter expresso as ideias deste post de uma forma mais equilbrada. Sou um bocado elefante numa loja de porcelanas. Ando a ver se aprendo a comunicar melhor com as pessoas mas sou mesmo mau nisso.
Espero melhorar nos próximos tempos. Ando a ler uns livros...

Anónimo disse...

:)
Eu explico: alguém me aborreceu com a reciclagem anteontem.
Eu moro no campo. A minha reciclagem é diferente da de Lisboa. Faço reciclagem para os cães; para as galinhas e patos e porcos.
Vidros, plástico e papel... azar! Vai tudo para o mesmo saco. Depois li o teu post. E logo a seguir deste MESMO o exemplo da reciclagem.
Estás a ver? É tudo uma questão pessoal.
Sara

Anónimo disse...

Mas umas coisas puxam outras. O José Luiz Sarmento já se redimiu dizendo que vai fazer voluntariado.Por mim, podia não fazer nada,não teria nada a ouvir de mim, mas vai trabalhar sem ganhar nada.
Eu conheço tanta gente que não trabalha que nem imaginas! Boas pessoas até. Que fazer? Encostá-los à parede e disparar? Convencê-los a mudar de ideias? Outra coisa?
Mandá-los para a lua? Eu não sei. Que faço ao canalizador?:)
Sara

Anónimo disse...

Uma amiga minha (francesa, boa pessoa, gosto imenso dela) acha que quem não trabalha não tem direito a nada e que ela não quer contribuir para quem não faz nada. Que fazer então a quem não trabalha?
Sara

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Caro on, as suas inquietações sobre o futuro das reformas preocupam-me muitíssimo. Só não me preocupam excessivamente no que toca o meu caso pessoal: venho do arroz com feijão e não me assusta excessivamente voltar ao arroz com feijão.

A minha preocupação começa pelo meu filho, pela minha nora, pelas minhas sobrinhas, por pessoas que conheço que aos quarenta anos de idade e quinze de trabalho ainda não descontam para a Segurança Social. E alarga-se a partir daqui para o âmbito nacional, europeu, mundial.

As reformas tendem a baixar, é um facto. Por múltiplas razões, de entre as quais é frequente ouvir citar o factor demográfico. Este factor, usado como argumento a favor da inevitabilidade da diminuição não só das reformas, mas de todas as prestações sociais, nunca me convenceu. Convencer-me-ia se se tratasse da única variável na equação; mas a equação tem outras, muitas das quais podem ser geridas desde que haja vontade política para tal.

A principal destas variáveis é, quanto a mim, a relação de forças: a boa e velha luta de classes. Se conseguirmos mudar a relação de força, o que será "inevitável" não será a diminuição das reformas, mas o seu aumento.

PS. Obrigado por me considerar "um pouco naïf". Se me considerasse muito naïf, tomaria a sua opinião como um insulto. Mas sendo apenas um pouco, é elogio.

on disse...

"Mas sendo apenas um pouco, é elogio."

Era essa a ideia!

Anónimo disse...

>Os países levantam-se com toda a >gente a trabalhar no duro. Foi isso >que os alemães e os japoneses >fizeram.

O que é que aconteceu aos japoneses entretanto? Ficaram preguiçosos? Pelo visto há outros factores além de trabalhar duro. O que eles arranjaram foi uma geração de escravos voluntários que mal conheceram os filhos e que se matavam a trabalhar para estourar tudo em trampas (que agora já nem podem comprar).

Não sei quantas vezes é preciso repetir. Não é isso que se está a passar. Não é a ladainha dos alemães trabalhadores e dos preguiçosos do sul. Os alemães têm o controle do Euro, achas que se Portugal passar a uma semana de 6 dias, se cortares o subsidio de desemprego, se passares a receber metade, passas a poder inflacionar o euro para seres competitivo nas exportações?

O PC e o BE são unilaterais. E depois? O sistema é adversarial, tudo o que tens são forças que puxam em sentidos diferentes. Não há ninguém a puxar para o equilibrio, e isto porque uma força desse tipo em geral não sobrevive. Tu precisas de alguem que não seja razoavel - não que aponte ao ponto de equilibrio mas meramente na direcção deste. Quando voltares a passar pelo ponto de equilibrio e começares a cair demasiado para a esquerda, então deixas de votar no BE e no PC, e passas a votar nos outros sacanas. Não me agrada, mas não estou a ver o que se pode fazer além disto. Tu dizes que é preciso formar outro partido. Vais-te candidatar? Se não, então não estou a ver que isso seja um plano de acção. Votar no PC ou no BE é um plano que dá para executar agora. Sair à rua e atirar cocktails molotov também pode ser feito agora. Aterrorizar os Europeus com um voto "irresponsável", com greves, com desacatos nas ruas - como forma de pressão, como forma de "tomar reféns" (tomarmo-nos a nós próprios como reféns pode asustar os outros porque se Portugal cai, Espanha cai, etc)- pode ser feito agora. O teu partido vai existir quando?

A auto-critica é muito bonita mas não serve de muito agora. Tu devias era estar a perguntar porque é que os gestores não podem trabalhar mais por muito menos. Não é que os salários dos gestores façam a grande diferença pelos seus valores, mas fazem pelos incentivos a que correspondem. A pressão tem que ser feita onde pode fazer diferença - chatear os funcionários que nada mandam não serve de muito neste momento, a não ser como bullying a pessoas que já estão aterrorizadas que chegue.

As pessoas estão pobres. Ser pobre não é ter pouco dinheiro. É saber que amanhã podes não ter nada. É viver no medo. Queres saber o que lixa a produtividade? É não conseguir pensar no trabalho porque estás a considerar sempre de quantas maneiras te podes lixar amanhã e em como reagir em cada caso. Estamos pobres. E convém aprendermos como se age quando se é pobre - não se toma a posição dos ricos, e não se argumenta a seu favor. O que os pobres conquistam, é através do medo que causam aqueles que os pisam.

Até agora os únicos que agiram com alguma força testicular foram os Islandeses. E portaram-se como "pobres": disseram "não pago as contas dos ricos". E então? Até agora os gregos e Irlandeses não se safaram melhor. Os credores bufaram e ameaçaram, mas atá agora nada. Quando deves mil contos ao banco tens um problema, quando deves um milhão o problema é do banco. Temos que saber onde está a nossa força. Em Portugal a nossa unica força está em que podemos falir e atirar a Europa toda a baixo. Que tal jogarmos um bluff que ficaria na história? Ou vamos continuar a ser bons alunos e borra botas?

A.

Anónimo disse...

Ser pobre não é exactamente não ter dinheiro nem saber que amanhã podes não ter nada. É viver obcecado com isso. É claro que eu que agora me mudei da cidade para o campo e tenho terra para plantar não tenho medo nenhum. Aqui crescem alfaces e coisas que se comem. Mas também é verdade que me mudei por um acaso. E já não tinha medo na cidade, muito menos no campo. Não há crise financeira nenhuma que me meta medo. Escusam de tentar.
Sara

Anónimo disse...

(Arroz com feijão é do melhor que há.)
Sara

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Caro anónomo:

Intuo que o ciclo do trabalho como inexorabilidade e valor moral, que durou dez mil anos, está a chegar ao fim. Num futuro próximo ou longínquo, o trabalho e o rendimento deixarão de estar relacionados: todo o trabalho será voluntário e gratuito e o rendimento será distribuído de acordo com as necessidades de cada um. E então, se a sua amiga francesa ainda for viva, achará perfeitamente natural contribuir para quem não trabalha.

Quem ler o que acabo de escrever reconhecerá a vulgata marxista na sua veia mais utópica, mas eu não gostaria de me ficar por esta banalidade. Nem digo o que digo só para dar mais razões ao on para me considerar naïf. Digo-o porque acho incontornável (e por enquanto irrespondível) a pergunta com que fecha o seu comentário: Que fazer com quem não trabalha?

Este sempre foi um problema em todas as sociedades, e cada uma tentou resolvê-lo a seu modo: erigir conventos e mosteiros dedicados à vida contemplativa; criar forças armadas tão numerosas e poderosas que nunca tivessem que actuar - e fazer nascer, desta elite guerreira, uma aristocracia ociosa; deixar o lumpen morrer de fome e de peste; criar uma classe sacerdotal; subsidiar uma elite cultural, por vezes menos genial do que se poderia depreender da sua auto-imagem.

Tudo isto funcionou enquanto os não-trabalhadores foram relativamente poucos, mas hoje o mundo defronta-se com um problema inédito: nunca se produziu tanta riqueza e nunca foi preciso tão pouco trabalho para a produzir.

Pode-se adiar por algum tempo a sociedade do ócio prolongando artificialmente a escassez; e a escassez prolonga-se criando necessidades artificiais. Se for possível continuar a fazer isto para sempre, o Homem continuará condenado ao trabalho; caso contrário, ficará condenado ao ócio (que para alguns não será menos pesado).

O que vai acontecer se e quando todo o possível se tornar impossível e só restar o utópico? Gostaria de viver o suficiente para ver respondida esta pergunta. Para já, o que tenho visto acontecer é o seguinte: o impossível realiza-se todos os dias, mas nunca é o impossível que esperamos. Não sabemos se estamos condenados ao trabalho ou ao ócio, mas podemos ter a certeza de que estamos condenados ao espanto.

Anónimo disse...

Vê o que se passa nos EUA. Nós só estamos um bocado atrasados no porcesso. Nas ultimas décadas o poder de compra desceu enquanto as horas de trabalho subiram. Cada vez mais sacrifícios deram resultados cada vez piores para os trabalhadores. Mas não porque as empresas estejam a perder...os salários de topo subiram vertiginosamente no mesmo periodo!

A narrativa não é que temos que competir mais. Se o fizeres vais ter finalmente que competir ao nivel dos chineses. Nos EUA, estão agora a baixar a idade minima de trabalho, num dos estados (não recordo qual) para terem uma nova sub-casta para competir abaixo do salario minimo. Querem os putos da escola a trabalhar no Mac em vez de estudar. Queres descer ao nivel do trabalhador chines? Porquê? Porque tal é ditado pelo mercado livre? Mas não percebeste que as leis do mercado so se aplicam a ti, e que os tipos do topo as ignoram? Não podes ganhar o jogo pela produtividade, é impossivel sem perderes os direitos que tens desde o seculo XIX. E esse é precisamente o plano. A abertura dos mercados à China permitiram as empresas exportar as externalidades proibidas pelas regras Ocidentais, evadir as regras de trabalho, as regras de sergurança, as regras ambientais. E agora dizem-te que tens que competir com isso. A unica forma é eliminar tambem aqui essas regras. Cair nesse jogo é de uma cegueira catastrófica. Se tivesses um pais com trabalho escravo, achavas-te na obrigação de competir nos mesmos termos? É isso que te pedem, mas pedem devagarinho, uma concessão de cada vez, como se cozinham as rãs sem que elas reparem.

Quanto mais tempo esperarmos para nos revoltarmos mais fracos estaremos quando o fizermos. É preciso estourar com tudo agora, derrubar a união das empresas financeiras com o poder político, partir as empresas too big to fail, punir os responsáveis pela crise, taxar os lucros da banca, taxar os salários dos gestores, instituir o temor - pela desobediência, e, se for preciso, pela desordem; e, pelo nosso voto, desalinhar os interesses dos politicos com o dos seus donos. Quebrar esse alinhamento é possivel votando deliberadamente naqueles que não estejam alinhados, o que muda os incentivos de quem queira ser eleito. Um governo deve sempre temer os governados. Nós podemos descarrilar o comboio com o voto "irresponsável" e com as acções "irresponsáveis". E é aliás a unica coisa que podemos fazer para que nos respeitem minimamente.

"Seja agressivamente irresponsável" - eis o lema do "meu" partido.

A.

on disse...

Há quem possa arriscar essa "irresponsabilidade agresiva" e se a coisa correr mal, partir para outras paragens. Há pessoas que arriscariam muito mais do que tu. E nem estou a pensar em mim.
Não acho que de essa estratégia tenha hipoteses de atrair muita gente. Se for generoso, talvez aceite dizer que tem tantas chances como a minha...

TN disse...

vou votar PC pela primeira vez na vida.

De nada serve, mas entre votar em alguém, em branco, ou nao votar, é a unica escolha que me deixa de consciencia tranquila.

A., os paises do norte da europa n vivem como os chineses, nem o farao tao cedo.

N havera outras solucoes para o futuro do nosso pais? No passado ja crescemos bastante.

john doe

Anónimo disse...

TN, parece-me que o futuro planeado para o nosso país é uma espiral deflacionária com cada vez mais concessões -apertas o cinto, perdes poder de compra, o estado perde receitas, apertas mais o cinto, perdes direitos ("pelo menos tenho um emprego, por isso não faço ondas!"), perdes poder, finalmente perdes o emprego...- até que - como já acontece para algumas pessoas jovens que eu conheço - a solução será migrar para os tais países do Norte, que precisam de mão de obra barata para cuidar das necessidades dos seus cada vez mais numerosos idosos. Quem cuidará depois dos *nossos* idosos, isso ninguém se pergunta. Sim, os poderosos fazem o que querem e os fracos sofrem o que lhes calha; o fantástico é que os fracos se permitam a ser postos nessa posição quando ainda podiam lutar.

> Há pessoas que arriscariam muito >mais do que tu

Eu por acaso até estou entalado. Essas pessoas que têm mais a perder também têm mais meios para sair. Mas em vez de perceberem as suas vantagens têm medo de perder o que ainda preservam. Em vez disso vão ser cozinhados lentamente. Vão ver os filhos dos outros a serem lixados mas não dizem nada porque não querem agitar o barco e arriscar os seus. Se calhar passado um tempo vão notar que os seus também estão lixados, e que entretanto perderam o poder para fazer ondas.

Quanto ao "meu partido", eu estou a dizer o que gostaria de fazer, não o que acho que poderá ser feito, com as pessoas que temos. Quando ao que de facto posso fazer, já te disse, posso votar na melhor aproximação que tenho disponivel, que são os nossos comunas. Pelo menos se tiverem alguma expressão poderão puxar um pouco na direcção certa e obter algumas miseras concessões para o lado da plebe. Não quer dizer que os adore - o PC é quase uma religião, o BE é um bando de betos arrogantes; mas no momento histórico eles estão do lado certo, e têm fundamentalmente razão. São mais uns filhos da puta, mas de momento são os nossos filhos da puta.

Não é de excluir totalmente, no entanto, que alguma coisa do tipo que eu referi possa suceder noutras partes. Há algumas movimentações no reino unido que são interessantes. Foi-me agradável ver as multidões furiosas a destruir sedes de bancos e de partidos. Pela primeira vez na vida aplaudi o caos. Gostei do facto de que o alvo não foram pessoas, mas a propriedade privada. É preciso fazer perceber que se o mito dos direitos humanos ou o mito da democracia forem sacrificados então também não será respeitado o mito da propriedade privada ou o mito da lei.

O vandalismo pode ser um acto político. Se a sociedade nos for roubada, prefiro ve-la ruir do que ver os ladrões a fruir dela. Não eras tu que gostavas do César? Vais aceitar a injustiça em silêncio ou vais cruzar o Rubicão? Demasiadas vezes na História os interesses de um homem levaram à desgraça de milhares. Parece-me bem que de vez em quando os interesses de milhões possam desgraçar uma meia duzia. É preciso pelo menos fazer sentir o odor ténue das guilhotinas, para avivar a memória e fazer recordar quais são os verdadeiros motivos pelos quais alguma vez as massas tiveram alguns direitos: porque somos muitos e podemos ficar irritados.

A.

Anónimo disse...

"Last year, America's top thirteen hedge-fund managers earned an average of $1 billion each. One of them took home $5 billion. Much of their income is taxed as capital gains -- at 15 percent -- due to a tax loophole that Republican members of Congress have steadfastly guarded.

If the earnings of those thirteen hedge-fund managers were taxed as ordinary income, the revenues generated would pay the salaries and benefits of 300,000 teachers."

...e no entanto, lá pelas americas ouve-se a mesma conversa que aqui: o que é preciso é baixar os ordenados dos professores, que estão a sugar o tutano ao país. O problema são as reformas, a segurança social, o subsidio de desemprego. O que é preciso é cada um ser mais frugal, mais contido, mais responsável.

Para podermos todos, com o nosso esforço conjunto, e prescindindo dos nossos luxos irrealistas (como uma vida decente), financiar as reais necessidades do país, como o golfe com iva a 6%.

Estão a pedir-te que subsidies os desportos dos ricos com os impostos que pagas nos bens essenciais, e tu achas que o que é preciso é regatear dois ou três anos na reforma de um professor? Achas que os explorados é que ainda têm que se vigiar a si próprios no exercício dos direitos que legalmente ainda possuem? Parece-me que estás com as prioridades um bocado invertidas. Talvez essas sejam as coisas em que tu reparas mais de perto, porque como tu dizes estás a ver as birras deste e daquele, mas não quer dizer que lá por isso sejam essas as questões relevantes. E se nos focamos no irrelevante neste momento damos munição ao lado errado. Estamos no meio de uma guerra pelo nosso futuro. Não vês o outro lado a fazer concessões, pois não? Defendem zelosamente cada milimetro de terreno: O golf é essencial para o bem do país!! Manter o estado social será o fim do universo!! Qualquer uma das suas conveniencias é imperiosa. E tu queres defender-te argumentando que somos razoaveis, que permitimos a amputação dos nossos dedos, desde que nos deixem ficar os cotos?

Mas vai dizer que queremos reduzir os ordenados dos deputados, ou dos gestores, e dizem-te que isso são migalhas e que estás a ser populista!!!!

A primeira arma que temos é social. Todo o ser humano tem necessidade de se justificar, e de se sentir admirado. Retire-se isso desde já a estes pulhas. É preciso recuperar o ódio antigo para com a plutocracia. Deixemos de sorrir aos senhores gestores, de comprar revistas com o Buffet na capa. São todos um bando de falidos em todos os sentidos, sejam votados ao desprezo e ao ódio. Que os arrumadores lhes risquem os carros, que os criados lhes caguem na sopa, que os jardineiros lhes comam as filhas, que os enfermeiros lhes mijem no soro fisiológico. Se se fecham nos seus condominios fechados, que se fechem apavorados. Que aprendam como antigamente a temer quem esmagam. Foi assim, historicamente, que se estabeleceu o estado social, não foi a votar de novo nos socialistas porque queres cuidadosamente evitar a maioria absoluta de uns ratos, contendo-os com os outros ratos. Vou votar nos comunas porque não há anarquistas em quem votar. Se houvesse lunáticos, votava nesses. O único propósito é forçar o equilibrio pelo terror.

A.

on disse...

Já passei por duas intervenções do FMI. Vivi no tempo da outra senhora. Quantas vezes a situação pareceu sem esperança. Depois, um dia, as coisas começaram a melhorar va-se lá saber porquê. Não me parece que se possa excluir a possibilidade de que tal volte a acontecer. As coisas mudam.

Acho optimo que se deixe de comprar revistas com o Buffet na capa. Qualquer tentativa de mudar a situação passa pela criação de um consenso sobre o que fazer. Se nem sequer conseguimos chegar a um consenso os dois, então isto está mesmo muito mal.

É bem possível que vá votar no PC, sem ilusões. Como consenso, é pouco.

Anónimo disse...

A propósito dos agressivamente irresponsáveis Islandeses (e se eles podem...):

"O que importa ver, agora, é como é que a União Europeia (UE) vai reagir, e o próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) que está a prestar a ajuda financeira. A Holanda já afirmou que bloqueará a adesão da Islândia à UE e a continuação do apoio do FMI. E que imporá inclusive sanções comerciais", sublinha Jon Danielsson. Gylfi Zoega junta que a "reação dos países nórdicos será também importante".

Mas há uma "lição" que fica, diz Gylfi Zoega, "um país pode ter um colapso total do seu sistema monetário e sobreviver. Isto não tinha acontecido antes". Espera-se uma retoma económica já este ano e no próximo. A balança comercial tem excedentes desde 2010. A Islândia saiu do radar da bancarrota - em 2008 estava no TOP 3 desse "clube" de países de maior risco de default. Hoje tem um nível de risco similar ao de Espanha e da Hungria, com um custo dos credit default swaps (cds, seguros financeiros contra o risco de incumprimento) na ordem de menos de metade dos em vigor para a dívida portuguesa. Há três anos tinha um custo dos cds na ordem dos 1500 pontos base, superior inclusive ao custo atual do campeão do risco de bancarrota, a Grécia.

(...)

Dada a relativa rapidez com que os islandeses estão a sair da sua grave crise financeira e económica (2008-2011),tendo sobrevivido ao colapso total do seu sistema monetário, começa a fazer algum sentido acreditar numa solução política que combine uma "destruição criativa" com uma forte participação cívica e democrática onde se faça ouvir a voz do povo, contrabalançando o caráter antidemocrático das instituições financeiras."

http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/645075

A.

Carlos Albuquerque disse...

Embora esteja de acordo com o A. em que existe todo um movimento de retrocesso a nível global, penso que o problema português se agravou por razões diversas e para sairmos dele temos que atentar nessas razões.

Ao contrário da Irlanda ou Islândia, em que as decisões que levaram ao descalabro foram tomadas pelos bancos privadas e aparecem agora cobradas a todos, em Portugal uma grande parte das decisões que levaram ao descalabro foram tomadas em público, pelos governos. Houve avisos de que se estavam a violar leis naturais, mas muita gente preferiu ignorar os avisos. Quando o On fala da necessidade de trabalhar para recuperar, creio que se refere a esse princípio básico que consiste em não se poder consumir mais do que aquilo que se tem ou se produz.

Ao nível individual nem todos os portugueses beneficiaram e alguns ficaram com quase tudo, mas os défices mostram que nos últimos anos foi posta à disposição do país muito mais riqueza do que aquela que o país produziu.

Atirar com essa responsabilidade para quem emprestou e ignorar a responsabilidade dos cidadãos nas escolhas dos governos não me parece responsável e mostra que, se não houver mudanças, qualquer que seja a saída deste aperto financeiro (mais empréstimos, default, revolução, anarquia, etc.), ele poderá voltar a breve prazo e com consequências ainda piores.

Os partidos de esquerda mostraram-se particularmente irresponsáveis com as finanças públicas, mesmo quando era óbvio que já havia um risco grave para a independência do país, como foi o caso na última votação sobre o TGV em 2010. A afinação de posições entre PS, BE, PCP e Ricardo Salgado chocou-me bastante.

O aproveitamento do estado das finanças por quem quer impor uma agenda como a denunciada pelo A. é agora patente e tem que ser combatida.

Creio que uma saída decente desta situação tem que passar pelo reconhecimento dos dois problemas: irresponsabilidade financeira dos governos e ameaça de uma agenda neoliberal. Infelizmente a esquerda só vê um dos problemas e a direita só vê o outro.

on disse...

A.,
conheço mal a realidade islandesa.
Parece-me que há pelo menos duas diferenças em relação à situação portuguesa:
- os islandeses não precisam de empréstimos para manter o nível de vida actual;
- os demagogos que se safam cá, lá não teriam grandes hipóteses.
Isso permite à Islandia ter outra margem de manobra.
É sempre mais facil achar que a culpa é só dos outros. Qualquer solução que funcione passa por encarnar as contradições e ultrapassá-las. É claro que numa guerra essa posição é pouco eficaz. Mas não estamos a falar de um guerra mas de construir algo.
Nisto a minha posição é bastante semlhante à do Carlos.

on disse...

Agora percebo melhor porque é que andavas a implicar comigo a propósito do post das cinco atitudes. De momento está perto do "life sucks":).

Anónimo disse...

On, pelo que julgo saber a Islândia não é, para esses efeitos, uma ilha :p :) ... mas posso estar enganado...isto porque, e isso é algo que me perturba, estamos todos a discutir com muito poucos números - o que quer dizer que falamos mais de acordo com os nossos preconceitos individuais do que de acordo com a medida do exequível. Se tiveres números a contribuir, agradeço. Infelizmente eles são muito mais dificeis de obter acerca de PT do que dos EUA.

Mas já agora queres um número engraçado? Vai ver a dispersão dos rendimentos em Portugal e compara com a Alemanha (vê o Gini index na wiki por exemplo). Agora diz-me lá porque é que ninguém nunca diz que temos que nos equiparar urgentemente a esse nível. Pelo contrário, empurram na direcção oposta.

Em qualquer caso a minha proposta não tem a ver com o que podemos ou não suportar em termos económicos, tem a ver com a arma que temos para apontar. A ideia não é usá-la, é fazer com que nos impeçam de a usar. Já agora, aos Islandeses também disseram que estavam loucos. E esses nem tinham a nossa arma. Fizeram-no por principio, e à base de força testicular. Agradam-me mesmo aqueles fulanos.

>É sempre mais facil achar que a >culpa é só dos outros.

Isso é uma generalidade. Em que é que eu estava errado especificamente? Foste tu que faliste os sistema financeiro? Foi o teu colega porque entrou tarde ao trabalho? Alguém te fez um bailout? Trabalhavas para uma agencia de rating? De que é que te sentes tão culpado? Já agora, se a culpa é do teu colega irresponsável e não tua, então tecnicamente ainda estás a culpar os outros :). De que é que *tu* és culpado?

> Qualquer >solução que funcione passa por >encarnar as contradições e porque é que andavas a implicar <comigo a propósito do post das <cinco atitudes

Nope. Eu implico com isso porque é mais um exemplo de um sistema arbitrário que não pode ser testado, e que essencialmente serve para aquele senhor vender seminários. Não digo que não tenha interesse, mas no mínimo deve ser temperado com uma dose de escárnio para não o levarmos demasiado a sério. É uma sugestão, uma divagação semi-poética que alguém inventou ao almoço (daqui a mil anos apenas poderá tomar o carácter místico inassaltável do I-ching e afins, pois o almoço em que foi inventado terá sido esquecido, como o nome do inventor, que será apenas "um antigo sábio que sabia coisas que já esquecemos" ;)). Podia facilmente consistir de 4 ou 6 atitudes, e é quase um milagre que não consista de exactamente 7 :p.

Quanto ao "life sucks", discordo que esteja nesse nivel. Nesse "nível" não propomos acções, porque não há nada a fazer. Life sucks é aceitar os bailouts dos bancos porque senão o mundo vinha abaixo, aceitar o FMI porque senão Portugal vai abaixo. Já viste que consiste tudo em aceitar o medo do desconhecido? A minha proposta foi sempre a oposta - deixem cair os bancos, quero ver que fim do mundo é esse; deixem cair a dívida, quero ver o que acontece. Isto é "life sucks"? Isto é "life is an experiment - let's go out and have some fun!"

A.

ps: CA, concordo plenamente que cada uma das facções só vê um lado. O teu plano consiste em iluminá-los antes das eleições? :) O que é que se consegue fazer em tempo útil? A não ser que me arranjes um Janus a tempo, só me resta escolher a frente que é mais importante no momento. Entre pintar o carro ou tirá-lo da linha do comboio...

on disse...

A.,
em tempo útil nenhum dos nossos projectos vai seja onde for.
Infelizmente, não estamos a discutir estratégias de acção mas os nossos sonhos. Uma forma de terapia...

Anónimo disse...

Estamos a dicutir, por exemplo, em quem votar e porquê...há uma componente prática.

Além disso eu estou a fazer o papel do agitador. Estou a ver se te levo a cometer desacatos :)

A.

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Só para dizer que estou a gostar muito deste debate e que estou contente por lhe ter servido de ponto de partida. E outra coisa (pedindo desculpa pela rudeza da metáfora): acho que, mesmo em posição de fraqueza, ou talvez sobretudo em posição de fraqueza, é sempre mais útil mostrar ao predador os dentes e as garras do que mostrar-lhe o cu.

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Neste momento, em Portugal, um voto claro à esquerda provocaria um tsunami que varreria a Europa. E isto mesmo sem efeitos práticos imediatos, isto é: que o chamado "arco governativo" (já repararam no totalitarismo deste conceito?) continuasse no poder.

Anónimo disse...

>um voto claro à esquerda provocaria um >tsunami que varreria a Europa

Precisamente. E se me dou ao trabalho de falar sobre isto é porque, ao ver-me a votar nos comunistas, não me parece totalmente impossível que uma boa parte da população seja também passível de um voto inesperado de raiva e desespero que aponte nesse sentido. É pouco provável, porque as pessoas são muito agarradas ao que consideram "consistência" (e que coinsiste em fazer sempre o mesmo, quando as circunstâncias mudam, e acima de tudo nunca admitir um erro) mas não vejo nada melhor.

>"arco governativo" (já repararam no >totalitarismo deste conceito?)

O processo eleitoral é acima de tudo uma forma de acalmar os nervos da malta, alternando entre duas ou três famílias reais despóticas. Serve essencialmente como válvula de escape psicológica, para proteger os pescoços dessas mesmas famílias - na velha Roma, em vez de derrubar o Sócrates, atirávamo-lo ao Tibre depois de arrastado pelas ruas. O novo sistema é essencialmente mais benevolente para quem manda.

A.

Anónimo disse...

Estás a ver, On? Não é que já não agites as ondas (não é preciso ter saudades do passado) é que andas a postar pouco. Assim que postas alguma coisinha, vê lá o que acontece:)
Sara

on disse...

Caro José Luís,
Garras? Acho optimo!
Gostos menos de entradas de Leão e saídas de sendeiro, ou lá como é o ditado. Se se ataca temos de saber o que estamos a fazer...

A.,
O que que estes gajos não nos podem tirar é o respeito por nós próprios que se obtem fazendo um trabalho bem feito. Alguns fazem-no apesar de indavertidamente defenderem o oposto. Isso é perigoso porque pode ser que alguém os leve a sério.

Sobre o voto. Votei várias vezes no PC. Como já votei no PS ou no Bloco. Não vejo grande alternativa a votar no PC, especialmente se o PSD não tiver hipoteses de ganhar uma maioria absoluta. Como parece ser o caso. Chateia-me que o PCP tenha rejeitado concorrer conjuntamente com o Bloco. Assim a coisa já era mais a sério.
Chateia-me não poder penalisar o PC por esse facto.

Mas voto sem ilusões: tanto o PC como o bloco votaram a favor do TGV. É com decisões desse tipo que se hipoteca o que resta da independencia nacional.

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Caro on, também não aprecio entradas de leão e saídas de sendeiro: é a estratégia, se a podemos dignificar com este nome, de quem se julga forte e descobre tarde demais que afinal é fraco. Pior, só entradas de sendeiro e saídas de sendeiro.
Aquilo a que me refiro é outra coisa. É a estratégia de quem, tendo calculado ao milímetro a relação de forças, sabe muito bem que é a parte mais fraca. Ora a parte mais fraca num conflito tem que estar sempre ao ataque, sobretudo se a retirada não for opção. Este é o caso na guerra, como apontam os estudiosos de estratégia militar; mas é também o caso no desporto, na política, na diplomacia, na economia, e até no comportamento animal.

E há uma vantagem que os fracos têm sempre sobre os fortes, que é terem muito menos a perder.

Anónimo disse...

Coeficiente Gini (valores maiores representam mais desigualdade de rendimentos):

Portugal: 38.5 (2007)

Alemanha: 27.0 (2006)

Islandia 28 (2006)

Se estamos preocupados com o défice temos muito espaço em cima onde cortar. Porque é que é preciso atacar os ordenados mínimos, as reformas, os serviços de saúde, o subsídio de desemprego, e os escalões inferiores em geral? Porque é que não estou em vez disso a ouvir os gemidos dos gestores e dos políticos e dos futebolistas e dos "artistas" pelos iminentes impostos draconianos sobre os rendimentos elevados?

Se estamos a falar de estímulos, parece-me que convinha "estimular" a partir do topo, pelo menos até termos uma distribuição de rendimentos similar aos tão apreciados Alemães.

>E há uma vantagem que os fracos >têm sempre sobre os fortes, que é >terem muito menos a perder.

Precisamente. Convinha lembrarmo-nos disso antes de termos ainda menos a perder...

A.

on disse...

Atacar, como? Para não pagar é preciso tomar o poder. Qual é a posição do PC e do Bloco sobre o assunto? tanto quanto me parece eles limitam-se a dizer que não sujam as mãos a dialogar com o FMI. Parece que nem sequer querem tomar o poder porque, coitadinhos, não querem ser corrompidos. Depois já não vão para o céu. Como eu não vejo telejornais, até posso estar errado. Mas não estou, pois não?

Tem agora a melhor oportunidade de sempre de o fazer e ... nem tentam.
JLS e A, voces parece que estão a discutir comigo à mesa do conselho de ministros. Se fosse o caso, aí eu arregaçava as mangas e iamos à luta. Mas não é essa a situação, pois não? Então, o que estamos a fazer? Terapia?

Acho que a discussão tem de começar mais a montante...

Anónimo disse...

>tanto quanto me parece eles limitam->se a dizer que não sujam as mãos a >dialogar com o FMI.

A posição deles desde o início é a de recusar a intervenção *de todo*. Por exemplo:

http://www.bloco.org/media/ResolucaoMNAbril.pdf

Parece portanto razoável (perdão, irresponsável :)) que não reúnam, se não estiverem a aceitar a intervenção como inevitável ou não se comprometerem a respeitar esses compromissos futuramente, se aceites.

Tu achas que não podemos fazer nada porque não temos dinheiro. Mas estamos a andar em círculos! Como já sugeri várias vezes, temos a dívida, que é um problema não só para nós, e a possibilidade de forçar um financiamento extraordinário do BCE a juros baixos, e/ou uma renegociação dessa mesma dívida. De novo, os Islandeses bateram a porta e sobreviveram, e nem sequer seguravam nas mãos a solvência dos bancos Espanhóis e talvez de toda a zona Euro. Pedir um resgate é deitar fora esse trunfo, e "negociar" com o FMI é um eufemismo.

>JLS e A, voces parece que estão a >discutir comigo à mesa do conselho >de ministros.

O "faz de conta que podemos decidir" serve para percebermos melhor os problemas. Para mim pelo menos é útil, porque não tenho de todo a noção de estar bem informado. Se não for assim, queres discutir o assunto em que termos?

>Acho que a discussão tem de >começar mais a montante...

Hum? Queres dizer o quê com isso?

A.

Anónimo disse...

Um aparte, apesar do BE e do PCP estarem mais ou menos alinhados, o BE tem a vantagem de usar uma linguagem legível e termos com sentido. Ler a conversa do PCP é penoso - uma retórica gasta, cheia de palha que não leva a lado nenhum e torna longo e penoso desenterrar quais as propostas concretas em causa.

http://www.pcp.pt/node/250476

Porque é que os comunas (ocorre-me o Castro e o seu amigo que "no se calla") têm a mania que são todos tribunos? E porque é que, com tanta prática, nunca são? Ninguém lhes sabe dizer que são chatos (tirando um ocasional monarca)? Na festa do avante tive o prazer de ouvir uma comuna declarar que o Jerónimo fazia discursos excelentes, ao mesmo tempo que ignorava totalmente o entediante exemplo que decorria. Dissonância cognitiva?...

A.

ps: ainda não decidi totalmente entre o bloco e o pcp..... por um lado não confio na firmeza das posições do bloco, por outro lado o pcp tem clientelas fixas que pode tentar servir a todo o custo...

on disse...

O PC e o Bloco tem uma oportunidade única de dizer: Votem em nós! Se nos derem o poder vamos lidar com a dívida fazendo isto e isto.

Na verdade limitam-se a considerações morais. Insultam os porcos capitalistas e dizem que o mundo devia funcionar doutra forma. Se o poder lhes caisse nas mãos e não tivessem dinheiro para pagar os ordenados, estou a ve-los a negociar com o FMI dizendo que os governos anterioes não lhes deixaram alternativa.
Depois não sei se teriam pachorra para aturar alguem que se lhes opusesse e trataa-los-iam bem pior do que outros. Não estou a falar assim tão no ar. Viram-se comportamentos desse tipo entre políticos "de esquerda" que entretanto mudaram de partido. Como é que alguém duvida deles? Afinal tem uma passado antifascista impecavel...

on disse...

>Acho que a discussão tem de >começar mais a montante... Hum? Queres dizer o quê com isso?

Por exemplo:
"Não havendo uma classe política em que se possa confiar, com ajudar a criar outra"

Carlos Albuquerque disse...

"O PC e o Bloco tem uma oportunidade única"

As atitudes do PCP e do BE parecem mais fazer parte de uma coreografia do sistema do que outra coisa qualquer. Tomam sempre atitudes o mais inócuas possível.

Anónimo disse...

>"Não havendo uma classe política em >que se possa confiar, com ajudar a >criar outra

Fazes isso como? Vais-te candidatar? :)

A.

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

On, num país europeu, o chamarem-se Partido Comunista e Bloco de Esquerda é só por si, caso subam um pouco na votação, um ataque assustador. E nem sequer é preciso que o partido que ganhar as eleições faça uma coligação à esquerda: a mera possibilidade matemática de isto acontecer será, para a Europa (uma Europa em pânico com as reacções da Rua e em que todos os governos estão inseguros da sua legitimidade), como ter os Turcos às portas de Viena. Portugal, sozinho, não pode fazer uma revolução na Europa; mas os europeus podem, e desconfio que muitos só estão à espera de alguém que dê o primeiro passo.

Não se trata aqui, por enquanto, de tomar praças fortes: todos estamos de acordo em que não temos força para tal. Trata-se só de lhes dar umas pancadas nos portões. Mas, para quem está lá dentro, estas pancadas terão um efeito desproporcionado à realidade imediata das coisas. Se a ira que tem levado os europeus a votar nas extremas-direitas levar os portugueses a votar na esquerda, não haverá em recanto nenhum da Europa um político, spin doctor, burocrata ou financeiro que não se ponha logo a pensar na possibilidade (ou na inevitabilidade, Santo Deus!) de um contágio. Eles sabedm que o que estão a fazer tem consequências, e por isso correm contra o tempo: para que os efeitos pretendidos se atinjam antes dessas consequências se verificarem. Daí a pressa, no que toca a Portugal, de pôr os eleitores perante factos consumados antes que ponham os votos nas urnas.

Não estamos à mesa do Conselho de Ministros, estamos numa assembleia eleitoral. O que podemos fazer é votar à esquerda e convencer o maior número possível dos nossos concidadãos a fazer o mesmo. Conheço quem diga que o vai fazer com a mão no nariz. Eu não porei a mão no meu: as actuais oligarquias europeias cheiram a medo que tresandam, e para mim este cheiro é perfume.

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

On, para não pagar não é preciso tomar o poder. A Islândia não tomou o poder. A Argentina não tomou o poder. Para não pagar, o que é preciso é estar ciente das consequências e disposto a arcar com elas.

on disse...

José Luís,
os gregos fizeram muito mais do que nós, partiram montras e ... nada!
A familia Espirito Santo acaba por manipular o pais em democracia com mais facilidade do que o fazia durante o fascismo.
O que é isso da "esquerda"?
É um nome?
Que fazem o Bloco e o PC para além de tapar o caminho a alguma alternativa mais efectiva que pudesse aparecer?

on disse...

José Luís,

para não pagar é preciso estar disposto a passar uns tempos sem poder pedir dinheiro emprestado. Não receber empréstimos tem consequências diferentes em países diferentes.
Tanto quanto sei, os islandeses nem sequer tem propriamente um deficit comercial. O que lhes aconteceu foi que uns bancos jogaram na roleta e perderam e agora os cidadaos tem de pagar as favas.
A Argentina é mais ao menos autosuficiente em comida.
Nós actualmente importamos tudo: energia, comida, etc.
Pedimos dinheiro emprestado para manter o nosso nível de vida.
Quais seriam as consequências imediatas de um default? Qual seria o corte nos salarios?
Haverá alguns portugueses dispostos a fazer sacrificio em prol de uma recuperação de uma parte da independencia. Quantos?
Grande parte das pessoas que conheço está essencialmente interessada em saber se quando a poeira da intervenção do FMI assentar para ver onde vão passar as férias.

on disse...

>Vais-te candidatar? :)
Não. Em tempos escrevi isto aqui. Não tenho ilusões para esta década. Se tens, emigra já para a Austrália...
O que nós andamos aqui a fazer é terapia:)

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

On,
Os gregos não mediram as suas forças, nem as do adversário, não adoptaram estratégias - limitaram-se a descarregar a sua raiva numa violência irracional. Mesmo assim, conseguiram alguma coisa: que o FMI interviesse com um pouco mais de cuidado.

Nós, pelo contrário, temos uma oportunidade estratégica. Não fará mal nenhum se partirmos algumas montras, especialmente se forem do BES; mas isso será sempre manobra de diversão e de arreganho. Também não fazem mal as manifestações e as greves, mas são tácticas do passado, úteis mas insuficientes.

O DE e o PC não têm nenhuma solução mágica, e seria um pouco ingénuo exigir-lha. Não há soluções, há passos na direcção que poderá eventualmente ser mais certa que as outras.

E isto, o BE e o PCP têm feito. A direcção que apontam é oposta ao austeritarismo e à pseudo-inevitabilidade de que nos querem convencer. Fazem o trabalho de casa, e fazem.no bem. O PCP opõe-se ao austeritarismo de um modo mais político, o BE de um modo mais técnico, como é próprio do partido que tem mais (bons) economistas por metro quadrado.

Tudo isto os distingue do «arco governativo»: já não é pouco. E para o confirmar temos a própria atitude dos outros partidos e dos media, que os marginalizam e excluem ao mesmo tempo que falam da boca para fora em «alternativa», em «mudança». em consenso entre «todos» os partidos e, pasme-se, em «fazer a diferença».

(Neste preciso momento estou a ouvir a Judite de Sousa a convidar Jorge Sampaio a limitar os seus comentários aos dois partidos «que contam»).

E como é que o BE e o PC barram o caminho a um partido alternativo mais eficaz? Esse partido, a surgir, é que lhe barrará o caminho a eles.

(Agora o Sampaio disse que, ao não comparecerem perante a troika, o BE e o PCP se auto-excluíram do debate, e isto porque querem ser alternativa. Apetece perguntar-lhe: que debate, se se proíbe a alternativa? E responder-lhe que a única alternativa à alternativa é mais do mesmo, ou seja, mais neoliberalismo; e é isto que ele diz não querer.)

Finalmente: o BE deu aos portugueses uma coisa importantíssima que os gregos e os irlandeses não têm: identificou nome a nome a oligarquia que nos oprime, e que não se limita ao Sr. Ricardo Espírito Santo. Isto também é fazer a diferença.

on disse...

Meu caro José Luís Sarmento, se o PC ou o BE tivessem a maioria absoluta, o que é que faziam?
Recusavam negociar com o FMI?
E depois faziam o quê?
Ainda querem construir o TGV?

Eu não sou anti-comunista.
Já votei neles. Provavelmente vou votar outra vez. Se não discutimos isto, andamos todos a brincar à política...

PS: para identificar a tal oligarquia basta um bom jornalista, não é preciso um partido. Dum partido, esperamos algo mais.

Anónimo disse...

On,

>Recusavam negociar com o FMI?

dizem que sim.

>E depois faziam o quê?

E depois era uma grande bronca para toda a gente. Anunciávamos a intenção de renegociar a dívida. De repente o BCE prestava-se a emprestar-nos dinheiro barato com condições aceitáveis. Porque se um país entrar em default na Europa as taxas de juro explodem para a Grécia e a Irlanda, este entram automaticamente em default porque o fundo Europeu não chega, e depois disso cai a Espanha e cai a Europa. Como tal não cai ninguém, somos socorridos pelo BCE nas condições do PCP e BE em vez de nas condições da Merkel.

Ou então os Alemães são doidos, não nos salvavam, e ia tudo por agua abaixo. E depois? Quando estivéssemos todos falidos, o que significaria estar falido? Era interessante, pelo menos. Mas aposto tudo em como não acontecia.


A.

ps: Estou a ver um cartoon muito engraçado já com uns anos: dois tipos estão fechados numa masmorra, agrilhoados de pés e mãos. Um diz para o outro: "O meu plano é o seguinte..."

Anónimo disse...

Quanto aos tais dez anos e às vindas anteriores do FMI: das outras vezes resolveu-se em grande parte porque podíamos desvalorizar a moeda. Agora não podemos. Não é de todo claro que o FMI vá melhorar a situação para nós, nem daqui 10 anos. O Bailout serve para safar os bancos a quem devemos dinheiro; depois deles estarem safos, caímos ainda mais fundo, mas aí eles já não querem saber. Estás a adiar a queda para depois cairmos sozinhos. É simpático, mas só faz sentido se planeares ir morar para a Alemanha entretanto.

E quanto ao default: o que é que achas que ia acontecer no curto prazo, se entrássemos em default? Morriamos todos à fome? Não acredito muito. Isto não é o cerco de Leninegrado, camarada :). E antigamente as pessoas até suportavam cercos reais para não serem feitos escravos; agora não nos atrevemos sequer ao cerco imaginário dos credores. Fosse o que fosse, ia ser breve e pelo menos seria claro, não seriam 10 anos a sermos sangrados lentamente.

Não sei se estás a ver que a dívida pode ser renegociada de várias maneiras: tu podes fazer uma redução parcial dos juros ou do principal, podes meramente atrasar o pagamento...tu até podes obter mais dinheiro para aguentar o barco, dos mesmos tipos a quem deves. Porquê? Porque se não te concederem facilidades arruinam-te e perdem o dinheiro todo. Renegociar não significa renegar a dívida toda, e precisamente por isso não significa que te vão arruinar. Tenho a certeza que se arranjava uns cobres para não morrermos à fome entretanto. Agora, quando não deveres grande coisa, aí sim podes morrer num canto que ninguem quer saber.

A.

on disse...

A.,
não estou a perguntar o que TU fazias, mas o que o PC fazia. Eles disseram isso?
Parece-me que tanto eles como o BE não disseram nada. Estou errado?
Provavelmente tu também não sabes deve haver por aí alguém que veja os quatro canais públicos ou a Sic Notícias.

Anónimo disse...

Claro que disseram.

Camarada, mas não lês os meus links? Ainda lá em cima coloquei o pdf do BE:

"No contexto novo criado pelo pedido de intervenção do FEEF-FMI pelo governo,
o Bloco exige uma auditoria a toda a dívida externa, pública e privada, de
modo a identificar a natureza das parcelas da dívida, as suas maturidades e
condições.
Deste modo, será possível determinar a reestruturação da dívida – dos seus
prazos e das suas condições – e a recusa de pagamento de juros extorsionários ou
dívidas abusivas, em particular do efeito de juros cobrados para pagar juros
excessivos. (...)"

etc, etc

Parece-me claro. E da lenga-lenga um pouco mais longa no site do pcp também se depreende alguma coisa semelhante.

Claro que não enunciam porque é que isso poderia funcionar, e é isso que eu tenho estado a justificar, pelo menos da forma que eu o vejo (mas também não é algo que convenha dizer em voz alta aos tipos que queres chantagear). Mas as medidas estão claramente anunciadas, e consistem da renegociação da dívida e recusa do bailout do FMI. Num trecho anterior ao que eu citei é referido também o BCE de uma forma que deixa clara a intenção de forçar um empréstimo vantajoso.

Agora, para quem reclama que o BE e o PCP não dizem nada, achas que o PS e o PSD dizem alguma coisa? Quantidade de nulidades e lugares comuns, enquanto se enchem como sempre. E o FMI, aberto às necessidades inegáveis dos campos de golfe....

A.

on disse...

Ok,
assim fico mais descansado.
Vejo que andas bem informado:)

Carlos Albuquerque disse...

Agora parece que querem que sejam os funcionários a ficar com a dívida pública nas mãos.

Acho que começo a alinhar com o A.

on disse...

Porque é que devem ser os funcionários públicos a pagar a crise? Atão e os outros? Isto não pode ficar assim...

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

On,
Não me parece que o BE e o PCP possam ter a maioria absoluta, mas não quero fugir por aí à sua pergunta. Se tivessem a maioria absoluta, cairiam na realidade e fariam muitas coisas com que os seus eleitores não concordam. Mas mesmo assim há uma diferença, porque uma coisa é aceitar as verdadeiras inevitabilidades, outra é agir segundo falsas inevitabilidades que mais não são que o interesse das oligarquias. Procurariam talvez construir o TGV - coisa com que muita gente não concorda. Por mim, quando me deparo com essa circunstância,lembro-me sempre do Fontes Pereira de Melo: queria dotar Portugal duma rede ferroviária completa - sendo que o comboio a vapor era o TGV do século XIX - e foi impedido de o fazer porque aumentaria o défice. Oliveira Martins, brilhante parlamentar e orador, falou em não endividar as gerações futuras, inaugurando porventura com esta expressão um chavão que ainda hoje se usa no debate político. Pois bem, as gerações futuras que Oliveira Martins não queria endividar somos nós; e pergunto a mim mesmo se estamos hoje mais pobres ou menos endividados do que estaríamos se tivéssemos ao nosso dispor, mantida e melhorada, a rede ferroviária com que sonhou Fontes.

Mas voltemos à realidade: uma maioria absoluta do BE e do PCP não representaria, quanto a mim, o tão temido «descalabro»; Mas é uma probabilidade tão remota que vale a pena, mesmo para quem quem teme o «descalabro», votar neles. E isto, não tanto pelas repercussões que este voto teria directamente em Portugal, mas pelas que teria na Europa, que é o principal campo de batalha.

PS: qualquer bom jornalista identificaria a oligarquia, se quisesse e lhe fosse permitido; mas não analisaria a sua história nos últimos 160 anos nem articularia esta análise com a história económica e política de Portugal no mesmo período. «Os Donos de Portugal» não é um trabalho jornalístico, mas sim, assumidamente, um híbrido de trabalho académico e manifesto político.

on disse...

Caro José Luís,

"Se tivessem a maioria absoluta, cairiam na realidade e fariam muitas coisas com que os seus eleitores não concordam."
Mas talvez ganhassem outros eleitores. Muitos outros.

Há algum mal em ser realista?

"Mas é uma probabilidade tão remota que vale a pena, mesmo para quem quem teme o «descalabro», votar neles."

Eu gostava que não fosse tão remota assim. Gostava que eles ganhassem. Mais do que isso, gostava que eles quisessem ganhar. Não me parece que queiram!
Isso sim, é um mistério para mim. O Lula ganhou e o Brasil não foi ao fundo. mas ele queria ganhar. Porque é que o Bloco não quer?

"«Os Donos de Portugal» não é um trabalho jornalístico, mas sim, assumidamente, um híbrido de trabalho académico e manifesto político."
Concordo plenamente. Mas um partido é algo mais do que isso.

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

On, vejo muito mais vocação de contra-poder no PCP que no BE. A vocação de contra-poder é perfeitamente respeitável: sem contra-poderes não há democracia. Mas a mim tudo me indica que o BE quer ser poder: o que não tem, é pressa. E acho que tem razão em a não ter, porque o poder atingido à pressa é um não-poder, enfeudado aos interesses que o criaram.

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Um projecto sólido de poder só é viável de duas maneiras: a rápida, que consiste em juntarmo-nos a quem o já tem; e a lenta, que exige a paciência da aranha. Olhe para a história do BE, e sobretudo para a sua actuação a nível europeu em concertação com outros partidos, e verá do que estou a falar.

Quando chegar a altura de disputar o poder o BE estará ligado a toda uma rede de organizações partidárias, para-partidárias e não partidárias que se vai tecendo na Europa a uma velocidade estonteante.

Enquanto esta teia não se estabelece, o mais que se pode fazer é ir tapando buracos; e para tapar este buraco do aqui e agora o BE e o PCP só dispõem da sua capacidade como nuisance value.

O futuro, ninguém o conhece, mas arrisco uma aposta: o BE transformar-se-á num genuíno partido social-democrata como já houve alguns na Europa, mas nunca em Portugal; o PSD/PS perderá algum espaço político e assumir-se-á como o partido liberal que já é na prática; o PCP quase desaparecerá; e o CDS dividir-se-á entre um partido de poder, essencialmente democrata-cristão, e vários partidos de protesto de extrema direita que por vezes terão votações elevadas mas nunca as consolidarão.

Mas isto é apenas um futuro possível; entretanto, os males presentes terão que ser combatidos com o que tivermos à mão.

on disse...

José Luís,
se fomos assim tão caridosos a apreciar todos os partido, até o Paulo Portas merecia uns elogios:)

O insuspeito Daniel Oliveira pôe o dedo na ferida. Discordar do BE não quer dizer ser um inimigo...
http://arrastao.org/2236675.html

Que tal discordarmos uns dos outros mais vezes, sem concluir por isso que O Outro é um porco vendido ao capitalismo. Ok é o que temos feito aqui. É pouco...

Sofia disse...

Paulo Portas, o quê?

on disse...

O Paulo Portas ... é o Paulo Portas.