sábado, outubro 2

Pensar mais, pensar melhor

A Globalização e a Moeda Única mergulharam Portugal numa crise estrutural. Só um esforço colectivo nos permitirá sair da situação em que nos encontramos. A classe média tem um papel decisivo a desempenhar na reinvenção do país. Descobriu o voto flutuante. Tornou-se mais sofisticada, permitindo que algumas empresas portuguesas lançassem com êxito produtos inovadores a nível mundial. Continua pouco esclarecida. Basta olhar para os anúncios dos produtos financeiros lançados pelos nossos bancos para o confirmar: PPR's que dão abatimentos no IRS no primeiro ano e rendimentos miseráveis nos anos seguintes, depósitos a prazo que dão um juro alto no último mês mas um juro médio ridículo. Como podemos transformar a nossa classe média?

A Inglaterra foi durante séculos o modelo que procurámos emular sempre que enfrentámos problemas. Nas últimas décadas esse papel passou a ser desempenhado pelos países nórdicos. Nunca nos preocupámos demasiado em tentar compreender quais os mecanismos que transformaram estas sociedades naquilo que são hoje. Há uma constante nos sistemas educativos destes países que ignoramos sistematicamente: o ênfase na aprendizagem do Pensamento Crítico nos ensinos secundário e universitário.

Um adolescente finlandês sabe reconhecer as falácias de raciocínio mais óbvias, aquelas que usamos todos os dias. Sabe identificar as hipóteses assumidas implicitamente pelo seu interlocutor e avaliar a sua credibilidade. Conhece os truques mais óbvios que se usam quando se quer concluir aquilo que mais nos convém de um conjunto de dados estatísticos. Reconhece facilmente uma tentativa de manipular as suas emoções de forma a mudar as suas opiniões. Quando chega ao mercado de trabalho este jovem sabe organizar as suas ideias e expô-las de forma articulada. Processa as críticas que lhe são feitas de forma racional, não as tomando como ataques pessoais. É difícil exagerar as vantagens comparativas de uma sociedade com uma percentagem significativa de membros que domina este tipo de competências. Basta lembrar que uma sociedade tem, sempre, os políticos que merece.

Não deveria o ensino da Matemática e da Física desenvolver pelo menos algumas destas capacidades? Com certeza que sim. Acontece que ao estudar ciências exactas estamos a lidar com objectos desligados das nossas emoções, o que facilita consideravelmente uma abordagem racional dos problemas. Numa língua natural a maior parte das afirmações que fazemos subentendem muitas outras afirmações não explicitadas. Há muito mais espaço para o nosso inconsciente tomar as rédeas dos acontecimentos. Pensar no dia-a-dia de forma racional exige uma disciplina que dificilmente pode ser adquirida fora dos bancos da escola. Existe uma relação de simbiose entre o ensino das Ciências Exactas e o ensino do Pensamento Crítico. As Ciências Exactas criam os hábitos de raciocínio que facilitam de forma decisiva a aprendizagem do Pensamento Crítico. Um jovem que aprende a pensar melhor no dia-a-dia vai melhorar significativamente os seus resultados a Matemática.

A Classe Média é um estrato social que se define mais pelas capacidades intelectuais do que pelo rendimento disponível. Introduzir o ensino do Pensamento Crítico no Ensino Secundário português seria uma contribuição importante para criar a médio prazo uma classe média capaz de gerar as elites, criar as dinâmicas e fazer as escolhas que nos permitirão ultrapassar os nossos problemas estruturais.

Perigoso, perigoso, é implementar ideias. O estudo do Pensamento Crítico está a ser introduzido no ensino universitário. Já existe uma cadeira de Pensamento Crítico na licenciatura em Informática da Universidade Nova e uma cadeira de opção de Pensamento Crítico nas licenciaturas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

13 comentários:

Diogo disse...

Em suma?

on disse...

Sumário:

É muito fácil atribuir a uma classe política ladra e incompetente as culpas pela nossa situação actual e pelas nossas perspectivas de futuro.
Parece-me no entanto óbvio que temos a classe política que merecemos.
Acho que também é claro que a vanguarda da sociedade que decide que tipo de classe política temos é a classe média. Um conjunto de pessoas com capacidades intelectuais acima da média nacional, que ganham o suficiente para poderem dar-se ao luxo de reflectir sobre o que vai acontecendo. Não é por acaso que os políticos falam tanto nos pobrezinhos e em mais justiça social. Tudo para justificar mais meia dúzia de medidas destinadas a enfraquecer a classe média.


Conclusões:

A nossa classe média ainda não está à altura de desenvolver o seu papel. Feito o diagnóstico, o mais importante, passemos ao mais difícil: apresento uma sugestão de solução parcial. Cada um propõe daquilo que sabe e pode.

maria disse...

nota prévia: por razões que cada um conhece, tendemos sempre a valorizar uma determinada perspectiva em detrimento de outras. todos fazemos isso.

O título do post: "pensar mais e melhor". Plenamente de acordo!
Mas, ou não fosse eu crente, antes da razão e do pensamento, vem o acreditar, o confiar-se "a". Até é assim que todos começamos...depois crescemos em autonomia e julgamo-nos os senhores da nossa vida e do mundo. Do nosso pequeno mundo, pelo menos.

"Formar elites"...de acordo!
Para quê? para salvar a classe média. Apenas?

maria disse...

"Não é por acaso que os políticos falam tanto nos pobrezinhos e em mais justiça social. Tudo para justificar mais meia dúzia de medidas destinadas a enfraquecer a classe média."

Falam...e que fazem eles pelos mais pobres? (Não gostei do termo pobrezinhos)Soa-me muita a condescendência e pouco a consciência de um problema real que não afecta só às vítimas da pobreza.

Publiquei o link para uma entrevista, no meu blogue, que ajuda a esclarecer o que quero dizer.

on disse...

Ok Maria,
não devia ter usado "pobrezinhos". Estava a ironizar sobre a maneira como os políticos falam. Por exemplo, o Portas.
É claro que eles só fazem alguma coisa por si próprios.

Repetindo o que já disse: na minha definição de classe média o essencial é a capacidade intelectual de pensar pela sua cabeça e não cair em demagogias primárias. Não tem muito a ver com o salário. Bem, convem que dê para ter um computador e pagar a ligação à net.

Não se trata de criar elites para salvar a classe média.
A maior parte das pessoas que muda o voto de eleição para eleição pertence à classe média. Boa parte da população portuguesa vota sempre no mesmo partido para as legislativas. Os políticos sabem disso. Isso quer dizer que a sua influência política é quase nula.

A minha tese é: só a classe média pode "salvar a pátria". Pelo que disse acima e por a classe política sair da classe média. Só uma nova classe média pode produzir uma nova classe política. Uma que seja um pouco menos corrupta.

A diferença entre as classes médias portuguesa e sueca é que a sueca representa uma percentagem bem maior da população e é mais sofisticada. Isso só por si justifica uma diminuição da corrupção em 90%...

maria disse...

"não devia ter usado "pobrezinhos". Estava a ironizar sobre a maneira como os políticos falam."

também fiz essa leitura. mas podia passar pelo aspecto que quis destacar.

o povo sueco...que agora elegeu uns tantos deputados da extrema direita... era importante percebermos porquê.

não tenho tempo para dialogar mais sobre o post. fica para outra altura.

on disse...

Não estou a dizer que os suecos são perfeitos. Só que não se toleram por lá coisas que por aqui passam por normais.

AD disse...

ON, reconheço que a Matemática e a Física ou de forma mais abrangente as Ciências Naturais sejam o local ideal para se ensinar o pensamento crítico. Provalmente até só bastará alterar ligeiramente a forma como são leccionadas.

Porém, na minha opinião, há algo muito mais grave que afecta a nossa sociedade: o quase completo analfabetismo económico, que torna a classe média uma vítima fácil dos problemas mencionados no parágrafo de abertura.

Curiosamente, ou talvez não, a Economia, ao contrário da Matemática, Ciências Naturais, Português e até Filosofia, nem sequer é uma cadeira obrigatória do Ensino Secundário.

Diria que é o acto mais subversivo / iluminador que pode ser feito pela Classe Média seria o ensino da Economia no Ensino Secundário como cadeira obrigatória. Dessa forma a Classe Média saberia o que é a inflação (e não, não é o IPC) e saberia calcular / estimar o valor presente de um investimento.

Na minha opinião se a Classe Média aprender a proteger a sua carteira, passará a saber escolher melhor os políticos que a governa e não ter apenas os que merece.

Diogo disse...

A falácia do: «Basta lembrar que uma sociedade tem, sempre, os políticos que merece»


No período 1877 - 1882, na compilação "Cartas de Inglaterra", Eça de Queirós escreveu no capítulo «Israelismo":

"Mas o pior ainda na Alemanha é o hábil plano com que fortificam a sua prosperidade e garantem o luxo, tão hábil que tem um sabor de conspiração: na Alemanha, o judeu, lentamente, surdamente, tem-se apoderado das duas grandes forças sociais – a Bolsa e imprensa. Quase todas as grandes casas bancárias da Alemanha, quase todos os grandes jornais, estão na posse do semita. Assim, torna-se inatacável. De modo que não só expulsa o alemão das profissões liberais, o humilha com a sua opulência rutilante e o traz dependente pelo capital; mas, injúria suprema, pela voz dos seus jornais, ordena-lhe o que há-de fazer, o que há-de pensar, como se há-de governar e com quem se há-de bater!"

on disse...

AD,
acho que actualmente já se ensina economia no secundário. Acontece que assimilar os conceitos e relacioná-los com a vida real é algo demasiado complicado para que um jovem lá chegue só com uma cadeirita ou duas.
Fora isso, estamos plenamente de acordo.
Acho que o ensino da matemática e da física não são suficientes, pelo menos para certas pessoas, a maioria, que nunca chega a dominar estes temas, quanto mais extrapolar o que aprenderam para outras áreas.
É claro que algumas pessoas, por uma questão de temperamento, já nascem a pensar assim. Mas são poucas. Em compensação, não tém jeito para outras coisas.

on disse...

Diogo,
se a culpa não é nossa, isso quer dizer que estamos para sempre condenados a viver nesta situação.
Se há uma esperança de mudar, é porque a sociedade, como um todo, não está a fazer o suficiente.

Isto faz algum sentido, não faz?

Para além disso: há países com níveis de corrupção e manipulação do eleitorado bem diferentes:

A Noruega,
Portugal,
Angola.

Quais são os mecanismos que provocam estas diferenças?

PS: também falo destes assuntos nos comentários ao post
"Outra vez a classe média".

AD disse...

ON,

quando fiz o secundário, já se ensinava Economia, porém apenas para alunos de algumas áreas, não era uma cadeira obrigatória para todos os alunos.

Se agora já é obrigatória para todos os alunos, já é um progresso. São mais algumas pessoas a descobrirem os segredos do Universo, apesar dos segredos da Matemática ou da Física se sobreporem a estes.

Herético disse...

Adorei o post. Copiei até uma frase para a constatação da semana (: