terça-feira, outubro 5

Outra vez a classe média...

Este post do Blasfémias ilustra de forma eloquente a minha tese sobre o papel decisivo da classe média.

11 comentários:

maria disse...

não vejo como. O texto do CAA é de um simplismo confrangedor.

E não seria mais democrático apostar-se na formação de todos os cidadãos? Não é o papel da Escola? E os meios de comunicação, que papel podem e devem ter?

Acho extremamente perniciosa uma tal linha de pensamento...ou estou a ver isto tudo mal.

on disse...

Maria,
depois dou uma resposta mais longa. Entretanto:
porque é que é de um simplismo confrangedor?
O que é que tem de pernicioso?

Eu sei que se pode confundir com o velho argumento de que "este país ainda não está preparado para a ademocracia".

Não é isso que eu estou a dizer. Não me parece que faço sentido interpretar as palavras do CAA nesse sentido.

on disse...

A minha avó tinha uma cartilha política com duas regras.
A segunda era: os comunistas são a origem de todos os males.
A seguir ao 25 de Abril o meu pai achava que os comunistas iam tomar conta do país, e falava contra.
Foi aí que eu descobri a regra número 1 da minha avó:
Nunca falar contra quem está no poder. Se são os comunistas, que seja!

A seguir ao 25 de Abril as pessoas da minha família da geração dos meus pais escolheram os seus partidos. O leuqe de escolhas foi abrangente, do CDS ao PCP. Uma coisa tinham em comum: escolheram esses partidos como se de um clube de futebol se tratasse. Até hoje, nunca reparei que mudassem de partido.

Cerca de metade da população portuguesa vota quase sempre no mesmo partido nas legislativas. Os políticos sabem disso. Isso significa que a sua importancia política é quase nula. Só fazem a diferença quando morrem.

O grupo de pessoas que muda de partido em funçaõ dos seus interesses é bastante inferior a 50%. Os que vêem para lá do discurso demagogico dos partidos formam uma franja que não deve exceder os 15%. Esse grupo de pessoas coincide mais ou menos com aquilo a que eu chamo a classe média.

Os outros Não Contam...

Essa franja num país como a Finlândia aproxima-se dos cinquenta por cento. Já não dá para brincar com ela...

Anónimo disse...

Isto é desviar um bocado o assunto mas:

Não sei como é que ainda não escreveste um daqueles teus posts abertos, mais ou menos assim: "porque é que somos Keynesianos quando é altura de salvar os bancos mas somos conservadores na altura de cortar os salários?"

Esta é das tais perguntas que valem a pena, ao contrário do Carlos Cruz e do futebol.

Há uns tempos, quando era para ser o fim do mundo, eu argumentei que teria valido a pena arriscar o caos só para ver cair os bancos e os interesses estabelecidos. Purgar o sistema, à la Old School, já que a guilhotina está enferrujada. Na altura toda a gente achava (com razão, talvez) que era uma irresponsabilidade, que era preciso dar liquidez à banca, que senão havia um efeito em cadeia, etc.

Deu-se o dinheiro aos bancos, eles agradeceram (ou não) e meteram ao bolso. A tal liquidez não apareceu, transformou-se tudo em war chests para eles se segurarem melhor enquanto nós ardiamos. Mais valia ter distribuído de helicoptero directamente ao consumidor.

Mas tinha que ser, era preciso estmular não sei o quê.

Mas agora já não é preciso estimular não sei o quê? Eu não devo ser dos que estão pior, mas mesmo assim já nem um livro compro, não como fora, e dei comigo a verificar o preço das bolachas. Cancelei todas as minhas formas de consumo não essencial(íssimo), o que inclui procedimentos médicos semi-opcionais. Se eu estou assim, como está quem tem filhos com que se preocupar? Como é que assim as empresas podem ter lucro? Como pode haver recuperação económica reduzindo o consumo? Como pode haver consumo se não há apenas perda de poder de compra mas acima de tudo o medo perfeitamente racional de mais reduções a cada virar da esquina? Sim, sim, a dívida e o deficit e tal, mas a questão é: Não éramos Keynesianos? Se não éramos, porque estimulámos os senhores que pediram para ser estimulados? Ou é só porque acharam que somos esse tipo de garota sempre pronta a estimular os senhores engravatados que lhe passem na esquina?

Tendo em conta o teu apelo ao discurso lógico, diz-me lá: somos Keynesianos ou não, afinal?

Sendo que estamos a falar do voto útil, será racional votar nos comunas agora? Oh, o populismo, as consequências a longo prazo, mas se o sistema capitalista está de qualquer forma subvertido, que é que há a perder? Devo votar nos que puxariam o fogo à minha sardinha, ainda que na conta global nos enterrem ainda mais? Porque não se é essa a atitude dos gestores dos bancos, dos políticos eleitos, e de toda a gente que detém algum poder? Abra-se então a corrida global ao mínimo local.

A.

Aiden McKenna disse...

pois a sua tese
tem falta de tesão
e mais não digo

on disse...

A., tens toda a razão, mas isso já eu disse muitas vezes. Publiquei o post racional por ser a tal coisa do livro para salvar a pátria. Tinha umas coisas para dizer, mas não tenho feito posts. Também tenho razão para estar lixado com a situação. Umas directas e outras mais sérias, indirectas.

Fazer posts com fotografias ado Socrates com uma bala pode ser bem visto, mas não resolve nada.

on disse...

McKenna, mais não diz?
E teria algo para dizer?

AD disse...

A.,

Há indícios de que a procissão dos bancos (principalmente nos EUA) ainda vai no adro, pois foi avistado mais um cisne negro lá para as bandas das MBS:

* The Second Leg Down of America’s Death Spiral
* The Wheels Are Coming Off in MBS Land: All 50 State AGs Join Probe; Banks Abandoning MERS Foreclosures

Pelo que é provável que no fim os teus desejos sejam concedidos.

Anónimo disse...

Dificilmente lhe chamaria o meu desejo, mas sim, estou ao corrente.

What next?

Keep doing the same, expect something different?

A.

ps: Se o "rule of law" está caido por terra (como dizia o Krugman a propósito das tais hipotecas inexistentes) o que é que nos impede de ir ao bolso dessa escumalha? Porque é que as regras que os regem não se aplicam a eles? Porque é que o capitalismo cai por terra, a lei cai por terra, mas os bónus desses canalhas permanecem incólumes? Acho o máximo quando dizem que é preciso pagar para atrair o "talento", quando o "talento" são os tipos que fizeram o sistema ruir.

A.

Anónimo disse...

Para clarificar, o meu desejo não é de todo o colapso dos EUA ou da Europa, que, maus que possam ser, são ainda do melhor que temos nesta esterqueira. Não vejo com bons olhos a mudança do primeiro plano para a China ou afins, e muito menos um colapso generalizado. Roma , sendo Roma, é melhor que a barbárie. Sou daqueles papalvos que acreditam na civilização ocidental e não quero ver as bibliotecas em ruínas (agora, a "city", ou Wall Street, can both cry me a river).

Seria até a favor dos bail-outs se achasse que funcionavam, injustos como são. Mas acho que não funcionam, e que aumentar a magnitude do colapso quando ele ocorrer. Parece-me que há um ciclo crescente: Quando o Long term capital management rebentou, disseram que tinha que ser salvo porque podia fazer ruir o sistema financeiro. O bail-out foi de 5 bilioes, ou algo assim, organizado por outras instituições financeiras. Sabendo o que sabemos hoje, dá para levar a sério que isso teria causado o tal colapso global? Ou que simplesmente serviu para salvar uns amigos que tinham que ser salvos?

Desde então temos progredido de bolha em bolha, de bail-out em bail-out, e os números e as instituições em risco, e o tamanho dos bail-outs só cresce. Desta vez mede-se nos triliões de dolares e é a economia mundial que está em risco. O que eu me pergunto é: não teriam as coisas sido diferentes se tivessemos deixado cair o LTC, ou se o Greenspan não tivesse "salvo" a economia após cada bolha? O LTC - um único fundo! - era "too big to fail", diziam. Depois a AIG era "too big to fail" (pergunto-me, se ser "too big" é argumento, porque é que não salvaram o fundo do Madoff), agora, claro, a economia toda é too big to fail, e para salvá-la empenhámos o Estado. Mas o Estado, que é too big to fail, já só pode ser salvo por fundos globais. Será o FMI too big to fail? Estamos nas ultimas décadas na situação de um tipo que tem gangrena num dedo e que não o corta porque não aceita a perda; mas agora a gangrena já vai no pescoço, e chegamos ao ponto em que cortar já nem é uma opção.

Não existia nada "too big to fail". Isso não é compatível com o capitalismo. O que havia era instituições à frente das quais estavam pessoas com amigos nos lugares certos. O que havia era interesses que não podiam ser lesados, e para os salvar alastrou-se o dano exponencialmente, porque o estado inteiro tem que cair antes que os seus donos possam descer dos seus poleiros. Num sistema capitalista os incompetentes teriam falido antes de serem too big to fail, e os mais capazes teriam tomado o seu lugar. Em vez disso temos o Estado a pagar para perpetuar como lideres de mercado os falhados do mesmo.

A.

Anónimo disse...

Se acham que estou a dramatizar com "as bibliotecas em ruínas", vejam o que se passa no Reino Unido. Redução de 80% nos fundos para o ensino superior. Todo o género de cursos a fechar, e investigadores em migração. Estamos a falar do Reino Unido, a perda de património intelectual é catastrófica. Que miserável estado de coisas quando a maralha da city for too big to fail e o Queens College for um luxo descartável. Confesso que sempre que passei pela City e vi a maralhada pedante sempre apressada nos seus fatinhos (ou, mais terra a terra, certos putos pedantes do ISCTE que se acham sumidades mas não conseguem sequer fazer as suas somas na cadeira de contabilidade) sentia-me no meio de um daqueles filmes de zombies que estão a voltar à moda. Agora já sei porquê. Aquela gula toda tinha que acabar em mastigação de cérebros.
A.