terça-feira, junho 21

O catecismo e o diabo


A propósito de um post sobre o diabo no catolicismo, que apareceu no Espectadores o Lutz pediu comentários aos amigos católicos. Aqui ficam alguns comentários (sobre os vários posts) que, pela sua extensão, me pareceu que mereciam um post. Encorajam-se naturalmente comentários.

Há um núcleo restrito da doutrina católica que corresponde aos dogmas ou verdades da fé e que, esse sim, é o que define o catolicismo. E mesmo as verdades da fé são expressões humanas de uma realidade que transcende largamente a nossa inteligência, pelo que nunca deveriam ser abordadas com a arrogância de certos movimentos mais conservadores. Bem podemos dizer que sabemos tudo sobre Deus, os anjos e os demónios que, se isso não servir para vivermos a vida a amar como Deus ama, ficaremos na mesma.

A frase "porque aquilo que é compreeendido é mais facilmente professado" poderia dar a entender que se conseguia compreender muita coisa sobre o diabo. Mas a verdade é que aquilo que é afirmado no catecismo, por exemplo, não nos permite propriamente compreender mais sobre o diabo nem detectar efectivamente a sua acção.

O catecismo tem claramente mais do que aquilo que é verdade essencial da fé e está a ser constantemente alterado. Um exemplo é a afirmação do então cardeal Ratzinger:


Pensar que um católico tem que seguir cegamente tudo o que diz o catecismo é não perceber todas estas nuances. Quanto aos autores católicos, como S. Tomás de Aquino, têm que ser enquadrados na sua época e, em si mesmos, não têm um valor autónomo. Posso ignorar totalmente S. Tomás de Aquino e ser um católico perfeito.

Quanto ao diabo, a Igreja, com base na Bíblia, foi desenvolvendo certas convicções sobre esta entidade que personifica o mal. Para algumas pessoas, em certas épocas, a ideia do Diabo tê-las-á ajudado a viverem melhor a sua fé. Hoje é-nos mais difícil explicar tal entidade e parece pouco útil do ponto de vista pastoral. A atitude de muitos católicos é admitir o mistério, é admitir que há mais coisas do que aquelas que podem hoje compreender e centrar-se noutros aspectos. Isto não quer dizer que neguem ostensivamente a existência do Diabo mas também não sabem bem o que dizer de útil sobre ele.

Quanto à afirmação do Bernardo: "no dia em que o ritual do exorcismo desaparecer da prática da Igreja Católica, ter-se-á dado uma enorme machadada na estrutura basilar da concepção católica do mundo criado por Deus" ela mostra a confusão entre o essencial e o acessório. Um ritual não é essencial e pode desaparecer da prática sem qualquer problema. Mesmo hoje o ritual está sujeito a grandes restrições e, sendo católico há bastantes anos, nunca tive conhecimento directo de que tivesse sido praticado.

Finalmente, é um pouco cansativa a insistência de certos católicos em procurarem aspectos específicos para atirarem a outros católicos dizendo-lhes: se não pensam como eu não se podem dizer católicos.

João disse a Jesus: «Mestre, vimos um homem que expulsa demónios em teu nome. Mas nós proibimos-lho, porque ele não nos segue». Jesus disse: «Não lho proibais, pois ninguém faz um milagre em meu nome e depois vai dizer mal de Mim. Quem não está contra nós está a nosso favor. (Mc. 9, 38-40)

32 comentários:

sakamoto disse...

Não há diabo? Desde quando?

on disse...

Não há diabo?
Não há inferno?
Não há punição para os pecados?
Não preciso de ser bonzinho?
Só tenho de me preocupar com a polícia?
Cometi algum erro de raciocínio?

sakamoto disse...

Com a polícia?

on disse...

No mínimo, posso tropeçar num polícia e partir uma perna.
No Diabo não posso tropeçar. Parece que ele não existe.

M disse...

E no diabo que existe dentro de alguns? Quando se tropeça neles, livra, como é difícil desenvencilharmo-nos. Nada pior do que o diabo feito Homem.

Anónimo disse...

ou mulher

Céu disse...

O comentário não cabia aqui, resolvi transforma-lo em post:
http://conversa2.blogspot.com/2005/06/ele-h-coisas-do-diabo.html

on disse...

Cara Céu,
se estava a responder ao meu comentário, passou ao lado. Se não estava, peço-lhe desculpa.
O grande problema de alguma moral é arranjar uma razão para termos de ser bons.
Foi por isso que foram inventados o diabo e o inferno.
Hoje em dia tais figuras são tão insustentáveis como o papão dos meninos.
Isso cria probelmas sérios.
Soluções para o problema: a polícia e a solução que aparece nos Maias.

Anónimo disse...

Penso que o seu post me interpreta de uma forma totalmente incorrecta, mas sinceramente, não estava a contar com a compreensão de quase ninguém.
Os meus posts eram dirigidos para a imensa multidão de crentes que diz que o Diabo não existe. Todos deveriamos saber a diferença entre doutrina e especulação teológica. A existência do Diabo é doutrina. Detalhes sobre a sua natureza e/ou acção caem na esfera da especulação teológica. Os meus posts tiveram esse cuidado, que não vejo usado aqui de forma nítida.

Para mais, e não sei se foi propositado, mas fazer uma citação truncada, e fora do contexto, é desonesto. Eis TUDO o que realmente Ratzinger disse sobre a questão apontada.
(note-se a expressão "a substância continuou idêntica)

Sobre esses dois temas, pena de morte e guerra justa, é possível que haja mudanças em relação à maneira como foram tratados em 1992?
RATZINGER: Sobre a questão da pena de morte, já entre a primeira edição do catecismo de 1992 e a sua editio typica em latim, que saiu em 1997, houve uma mudança notável. A substância continuou idêntica, mas a estruturação dos argumentos desenvolveu-se em sentido restritivo. Não descarto que sobre esses temas possa haver variações no tipo de argumentação e nas proporções dos diversos aspectos dos problemas. Mas descartaria mudanças radicais.

Bernardo Motta

Anónimo disse...

Em relação à questão do exorcismo, e porque não fui compreendido, o que eu queria dizer é algo de relativamente simples: o exorcismo está apoiado na angeologia e na demonologia. Na profissão de que Deus criou anjos e demónios.
Quando se nega a existência de demónios (e do Diabo), está-se já practicamente a negar a existênciad e anjos, que são criaturas de natureza idêntica aos demónios. Era essa a "machadada" que eu referia: mutilar de forma irremediável o relato da Criação no Génesis, bem como uma série de ensinamentos saidos da boca do próprio Jesus (ninguém comentou o trecho de Mateus 4 que eu citei num dos meus posts).
Isto é um tema sério e merecia alguma seriedade e cuidado ao analisar os textos que se decide criticar.

Bernardo Motta

CA disse...

Bernardo

A diferença entre doutrina, especulação teológica e folclore popular é algo que o seu post não deixa nada claro. Sobre o diabo da doutrina sabe-se muito pouco o que torna perfeitamente aceitável que se faça uma limpeza do resto. O diabo com que se ameaçavam os nossos avós "era uma superstição dos nossos avós, uma coisa de gente atrasada, inculta, cientificamente analfabeta. Algo que "as Luzes" já teriam, supostamente, refutado." E o ritual do exorcismo parecia ter muito a ver com esse folclore. Daí a atitude muito mais prudente da hierarquia na actualidade. Ao invocar estas imagens quando fala do diabo e ao invocar depois a doutrina da fé parece misturar tudo, ainda que não seja essa a intenção.

"fazer uma citação truncada, e fora do contexto, é desonesto"

Se fosse só isso seria desonesto, sim. Mas a verdade é que a citação está ligada para a entrevista e, mesmo lendo a citação como o Bernardo a transcreve, parece que há uma contradição: Ratzinger começa por falar em mudança "notável" para depois a desvalorizar tanto que parece perder o sentido do uso de tal adjectivo. Preferi reter a qualificação original.

Quanto ao exorcismo é óbvio que negar a existência do diabo implica negar o sentido do exorcismo. O Bernardo parece dizer que negar o sentido do exorcismo implica negar a existência do diabo.

Quanto ao texto de Mateus 4 (as tentações de Jesus), usá-lo para discutir a existência do diabo parece-me que é perder completamente o importante. Na Bíblia há muitas imagens e só este trecho é claramente insuficiente para que se possa dizer "o diabo existe". Em contrapartida parece claro que, independentemente da personificação ou não do mal, Jesus sente as mesmas tentações que qualquer pessoa que sente o chamamento de Deus ao seu serviço e ao dos irmãos: a tentação de servir pelo poder, a tentação de manipular Deus, a tentação de não olhar aos meios para atingir os seus fins, etc.

Finalmente, mais sério do que este tema é a necessidade de construirmos pontes entre todos e sobretudo entre os cristãos (mais ainda entre os católicos). É isso que eu vejo na citação de Mc. 9.

CA disse...

Caro ON

O diabo é uma ideia (ou uma entidade, para não ser hereje) que tem a ver com a nossa tendência para sermos maus aqui, não depois da morte. Não é óbvio que no inferno esteja o diabo a dominar tudo. Agora é óbvio que por vezes somos maus e que construímos um inferno entre nós. Não é difícil imaginar que, se temos uma vida eterna e persistirmos em não viver em amizade uns com os outros, o inferno que começamos a construir aqui se há-de prolongar.

MaDi disse...

Não sou católica mas acredito em Deus. Uma das principais razões porque não sou católica (para além de achar que não é suposto seguir dogmas que não concordo) é o facto de se fazerem interpretações da Bíblia de uma maneira tão literal. Acho que a maior parte das citações são alegorias e metáforas que muitas das vezes são mal-compreendidas. Concordo com o ca, acho que o diabo é uma ideia com o facto de sermos maus aqui, não só nas nossas acções mas também nos nossos pensamentos. Mas o complicado entre o Mal e o Bem é que não são todas as situações que nos parecem claras estarmos a agir bem ou mal.

on disse...

Mas existe inferno?
Perguntar não ofende.

MaDi disse...

o inferno tb n é uma alegoria?

Anónimo disse...

Revejo-me inteiramente em tudo o que o CA diz. Posto isto e pegando na réplica do Bernardo para comentarmos o texto de Mateus 4, aqui vai:
Quem faz nem que seja um breve estudo sobre a Bíblia a primeira coisa que aprende é que não se pode ler de forma nenhuma em sentido literal. Não foi com esse objectivo que ela foi sendo composta. Em toda ela e também nos evangelhos, é-nos difícil a esta distância, dizermos o que é facto histórico e o que é "construção teológica".
O texto de Mt 4, segundo os exegetas, é daqueles que facilmente se enquadra na "construção Teológica". Mateus é o evangelista que põe em paralelo Jesus e Moisés. Mas o Jesus apresentado neste trecho (segundo Rafael Aguirre Monasterio), "não responde apenas à tipologia de Moisés, mas também à tipologia do novo Israel: ele é o Filho de Deus tirado do Egipto (Mt2,15); ele é o Filho de Deus que sofre as mesmas tentações que Israel sofreu no deserto, mas que permanece fiel, aí onde Israel tinha pecado. Jesus é o Filho de Deus, não pelo poder ou pelo êxito, não pelo caminho da sua filiação divina em proveito próprio, mas sim pela sua entrega total e fiel à vontade do Pai. Apresenta-se assim um tema que será crucial neste evangelho (cfr. Mt27,39-44.54)".
Portanto direi eu, este episódio aqui relatado como um "acto único", creio que representará toda a vida de Jesus, sobretudo a partir do momento em que Ele assume a sua missão.

M. Conceicao

Anónimo disse...

Vejo que algumas pessoas aqui perguntam pelo inferno. Respondo com as palavras de um padre amigo: "Eu acredito no inferno, não sei é se estará alguém nele"

M. Conceicao

MaDi disse...

M. Conceição,

mas é então uma alegoria?

Anónimo disse...

Sinceramente, é com grande aflição que vejo católicos afirmarem que a Bíblia não é para ser lida literalmente.
Explico-me: a Bíblia possui inúmeros níveis de leitura, do literal ao analógico, ao metafísico, ao simbólico, inúmeros...
Mas possui também o literal!
O trecho de Mateus é uma referência explícita à tentanção de Cristo pelo Diabo. Garanto-vos que sei bem o que estou a dizer, e que não estou a dizê-lo para ser teimoso!
Se lemos a Bíblia toda como algo de puramente simbólico, onde pára o símbolo e onde começa o real?
Jesus ressuscitou para vocês?
Ou será também isso uma "ressurreição simbólica"?
Jesus curava doentes, ou era tudo apenas simbólico?

"O Bernardo parece dizer que negar o sentido do exorcismo implica negar a existência do diabo."

Não "pareço dizer"!
Digo-o.
Negar o sentido do exorcismo é dizer que tal ritual não faz sentido. Você poderia qestionar a eficácia do exorcismo (e aqui a discussão daria pano para mangas, e eu teria muito poucas certezas), mas você questiona o sentido do exorcismo. Como?
Se se questiona o sentido do exorcismo, é porque se questiona a existência de entidades demoníacas. Ou estarei errado?

"Quanto ao texto de Mateus 4 (as tentações de Jesus), usá-lo para discutir a existência do diabo parece-me que é perder completamente o importante."

Eu não uso para "discutir".
O relato em questão menciona um encontro literal entre Jesus e o Diabo. O que se passa com os católicos dos dias de hoje?
Sinceramente, sinto nos dias de hoje uma enorme confusão, muito mais quando falo com irmãos católicos do que quando falo com ateus ou agnósticos.
O que se passa com a crença católica? Para onde foi?

"Na Bíblia há muitas imagens e só este trecho é claramente insuficiente para que se possa dizer "o diabo existe"."

Estupefacto, é como eu fico perante esta sua frase. Acho que não vale a pena continuarmos a debater, porque francamente vemos a Bíblia de uma maneira totalmente diferente (diria mesmo, incompatível).

"Em contrapartida parece claro que, independentemente da personificação ou não do mal, Jesus sente as mesmas tentações que qualquer pessoa que sente o chamamento de Deus ao seu serviço e ao dos irmãos"

Ninguém o negou!
O que nos diferencia é que eu afirmo a existência do Diabo.

"Finalmente, mais sério do que este tema é a necessidade de construirmos pontes entre todos e sobretudo entre os cristãos (mais ainda entre os católicos). É isso que eu vejo na citação de Mc. 9."

Como é evidente, meu caro amigo.
Mas também deveria ser evidente que tais "pontes" não devem ser feitas à custa de traições ao legado crístico, nem à custa da distorção da doutrina e da tradição apostólica e evangélica.

Senão, então vamos simplesmente cortar do catolicismo tudo aquilo que são "pedras no sapato". É isso que sugere?

Bernardo Motta

Anónimo disse...

"Na Bíblia há muitas imagens e só este trecho é claramente insuficiente para que se possa dizer "o diabo existe"."

Esta sua frase parece-me particularmente reveladora das suas ideias. Afirmo que aquilo que o meu amigo escreveu está em contradição com o magistério da Igreja, e com a tradição apostólica e evangélica. Se regressar aos meus "posts" encontrará referências na Internet onde poderá comparar as suas ideias com aquilo que a Igreja tem vindo a defender e a definir nos últimos 2.000 anos.
Sugiro, e isto com toda a humildade, que reflicta seriamente nestes assuntos, pois que uma ideia incorrecta sobre uma questão doutrinária tão fulcral como esta pode acarretar uma ideia incorrecta sobre a própria divindade.
O que eu acho que nenhum crente deseja.

Bernardo Motta

Anónimo disse...

Cara M. Conceição,

"Quem faz nem que seja um breve estudo sobre a Bíblia a primeira coisa que aprende é que não se pode ler de forma nenhuma em sentido literal."

Acho curiosa esta frase, e sobretudo curiosa a sua certeza. "nenhuma"? Ou seja, na Bíblia, nada é literal?
Muito curioso...
Com todo o respeito, gostaria de saber onde e como estudou a sua catequese.

"Não foi com esse objectivo que ela foi sendo composta."

Outra certeza curiosa: os evangelistas, por exemplo, não queriam relatar eventos de forma literal? Jesus não ressuscitou? A crucificação não aconteceu? Será que nada é literal na Bíblia? É tudo alegoria?

"Em toda ela e também nos evangelhos, é-nos difícil a esta distância, dizermos o que é facto histórico e o que é "construção teológica"."

Com todo o respeito, será mais difícil para quem não sabe do que fala.

Anónimo disse...

Madi
Será uma alegoria, a imagem do inferno, com diabinhos e diabões e muito fogo a arder.
Agora inferno como "local" de estar separado de Deus, acredito.
Porque senão como ficaria a nossa liberdade? Deus criou-nos livres de escolhermos ou não por Ele. Essa escolha vai-se fazendo aqui e agora, mas como eu acho que cá não temos os "trunfos" todos, isto é, as nossas escolhas estão limitadas ao que conhecemos de Deus, e é muito pouco. Acredito que a nossa grande "escolha" será quando O virmos face a face. Eu, por mim, vou procurando escolher já, fazendo as obras que Jesus fez. Isto soa-me terrivelmente pretensioso, mas a meta é essa, o resto é o que a minha conversão permite.

M. Conceicao

Anónimo disse...

M. Conceição,

Como é que a sua ideia sobre o Inferno pode estar tão correcta (não podia estar mais de acordo com a forma como fala do Inferno), e ao mesmo tempo recusar a existência do Diabo?
Já agora, gostaria de saber se acredita na existência de anjos e de demónios.

Bernardo Motta

Anónimo disse...

Bernardo,
retiro o "nenhuma", mas mantenho que perante este ou aquele trecho, vai-nos ser sempre impossível distinguir o literal e o teológico.
Fala por exemplo da ressurreição, sobre a ressurreição o único facto que temos é o túmulo vazio. E isso não prova grande coisa. Os próprios judeus se apressaram a dizer que tinham sido os discípulos a esconder o corpo. O que nos fica então? Entre outras coisas; fica-nos a fé dos discíplulos. E é nessa fé, que eu alimento também a minha.

Só um aparte, embora eu não queira particularizar as coisas; sei de facto muito pouco, quero aprender muito mais. Tudo o que sei tenho aprendido dentro da igreja católica e isso enche-me de confiança para dizer: Creio na Igreja Católica.

Anónimo disse...

Oh Bernardo, isto de dialogar consigo, dá trabalho, porra.
Prometo-lhe uma resposta para mais tarde, que o dever chama-me...

(Acrescento só que o comentário anónimo também é meu)

M. Conceicao

CA disse...

Bernardo

"Se se questiona o sentido do exorcismo, é porque se questiona a existência de entidades demoníacas. Ou estarei errado?"

Pode, por exemplo, aceitar a existência de entidades demoníacas sem aceitar que elas possam efectivamente tomar conta de uma pessoa. Ou pode argumentar que não se consegue distinguir a possessão demoníaca de uma doença psiquiátrica e que não se deve por isso fazer o exorcismo, e por aí fora. Para mim a questão é essencialmente lógica e a sua inferência não me parece correcta.

"Sinceramente, sinto nos dias de hoje uma enorme confusão, muito mais quando falo com irmãos católicos do que quando falo com ateus ou agnósticos. O que se passa com a crença católica? Para onde foi?"

É que ser católico talvez seja mais que uma crença. Talvez seja procurar seguir Jesus e esses católicos andam à procura do essencial, do amor de Deus, de o reconhecer e de o viver.

"Mas também deveria ser evidente que tais "pontes" não devem ser feitas à custa de traições ao legado crístico, nem à custa da distorção da doutrina e da tradição apostólica e evangélica. Senão, então vamos simplesmente cortar do catolicismo tudo aquilo que são "pedras no sapato". É isso que sugere?"

Se as pedras no sapato são os aspectos não essenciais, introduzidos pela limitação humana na nossa compreensão de Deus, sugiro que os deitemos fora. Se são aspectos essenciais, não se preocupe porque é o próprio Espírito de Deus que nos fará voltar sempre a eles, de um modo ou de outro.

As pontes têm exactamente a ver com isto: sermos capazes de dialogar e de procurar a verdade em comum com a confiança no Espírito que, de acordo com a promessa de Jesus, nos conduzirá à verdade. Parece-me que isso já começou a acontecer no entendimento com algumas igrejas protestantes a respeito de Maria.

Quanto aos nossos irmãos católicos, que porventura tenham uma sensibilidade que lhes dificulte a aceitação de algum dogma, o caminho não é certamente dizer-lhes que não são católicos mas sim procurar formas de compreender a verdade essencial que sejam acessíveis a todos. Quem sabe se a dificuldade em aceitar um dogma não está mais no modo como ele é apresentado. Nesse aspecto a questão do inferno é exemplar: se for ameaçar as pessoas com caldeirões a arder depois da morte e disser que está a explicar um dogma católico está a fazer dois maus serviços: adultera a verdade da fé e afasta as pessoas da fé. Se, em contrapartida procurar compreender melhor o que é isso de rompermos com Deus para sempre e como isso nos pode conduzir à infelicidade porque recusámos o Amor, talvez tenha mais êxito.

Eu escrevi:
"só este trecho é claramente insuficiente para que se possa dizer "o diabo existe"."
e o Bernardo responde
"Afirmo que aquilo que o meu amigo escreveu está em contradição com o magistério da Igreja"
pelo que presumo que me pode provar que o magistério da Igreja diz que *só este trecho é suficiente* para que se possa dizer "o diabo existe". Fico a aguardar referências.

"questão doutrinária tão fulcral como esta"

Permita-me que considere questões doutrinárias fulcrais aquelas que constam do credo que recitamos ao domingo.

Finalmente, quanto ao sentido da Bíblia, parece-me que ela tem naturalmente textos com um sentido mais histórico e outros mais alegóricos. Mas mesmo os livros históricos devem ser entendidos à luz da mentalidade da época em que foram escritos. E, para as pessoas do tempo de Jesus o rigor histórico não tinha o sentido que tem hoje.

MaDi disse...

ca,
subscrevo totalmente.

Anónimo disse...

Bom, o que eu vinha dizer o CA disse-o já. O símbolo da nossa fé é o credo. Devemos de facto perceber o que é essencial e acessório.
Estas discussões são sempre importantes, desde que não estejamos à procura de coisas que nos dividam mas sim que nos unam.

M. Conceicao

Anónimo disse...

Vou regressar ao ponto de partida. Vocês não me conhecem pessoalmente, nem conhecem as minhas ideias (e vice-versa). É normal que me estejam a aplicar um estereótipo qualquer, do género: "Bernardo Motta=fanático". Já estou habituado e não é para mim novidade nenhuma, nem é por isso que vou interromper este debate.
Regressemos ao início, para tentarmos algum entendimento, até porque eu concordei com grande parte do que ambos escreveram (o que evidencia que poderemos ter aqui um mal-entendido em muitos pontos).
Traduzirei este excerto do Catecismo da Igreja Católica (the one and only), e de seguida pedirei ao amigo CA e à amiga M. Conceição que digam de sua justiça se este bocado deveria ser eliminado, como "pedra no sapato", visto que não vem no Credo. Pela vossa lógica, e se percebi bem, tudo o que não vem no Credo seria supérfluo e deveria ser eliminado.
Claramente, este trecho cria divisões entre nós, uma vez que eu concordo com ele, e vocês aparentemente discordam. Se o trecho nos divide, seria melhor eliminá-lo?
A tradução é minha, porque não tenho aqui no escritório o Catecismo, e tive que usar a Internet:

"II. A QUEDA DOS ANJOS

391 Por detrás da escolha desobediente dos nossos primeiros pais está uma voz sedutora, oposta a Deus, que os faz cair na morte por inveja. 266 A Escritura e a Tradição da Igreja vêem neste ser um anjo caído, chamado "Satã" ou o "Diabo". 267 A Igreja ensina que Satã era primeiro um anjo bom, criado por Deus: «O diabo e os outros demónios foram de facto criados naturalmente por Deus, mas eles tornaram-se maus pelas suas próprias acções»".

Joana Dias disse...

Caro Bernardo,
os cristãos que se autoconsideram progressistas não gostam do Diabo nem do lobo mau. Mas assim as crianças não compreendem a historia do capuchinho vermelho. Rezemos para que o nosso Santo Padre os ilumine.

CA disse...

"se percebi bem, tudo o que não vem no Credo seria supérfluo e deveria ser eliminado"

Não era isto o que eu queria dizer. Eu classificaria o que vem no credo de fulcral: quer dizer que é por aí que temos que começar qualquer catequese e esses são os aspectos que temos que aprofundar prioritariamente. Contudo o credo não inclui todas as verdades da fé (dogmas) e todas essas verdades são essenciais. O que pode ser pedra no sapato são determinadas interpretações dos dogmas (tipo inferno com caldeirões e diabos a rir) e outros aspectos que não são verdades de fé (tipo revelações particulares que levaram ao filme A Paixão de Cristo). Se estas coisas ajudam as pessoas, óptimo. Se não ajudam, deixá-las-ia de fora.

Quanto ao trecho do catecismo creio que ele inclui aspectos dogmáticos definidos em concílios e como tal são essenciais à fé. O que pode dividir-nos é a interpretação desses aspectos e o uso desses aspectos. Perante uma pessoa com dúvidas sobre o diabo, eu acharia prioritário que essa pessoa compreendesse que o mal está também em nós, que temos uma certa "tendência" para sermos maus, que o mal nos faz infelizes e que temos que lutar e temos que nos educar para nos afastarmos do mal e fazermos o bem. Não insistiria em que a pessoa imaginasse um ser poderoso e sedutor que estivesse sempre à sua volta pois parece-me que isso poderia ser contraproducente.

Mesmo na definição de como é que surgiu o diabo e como é que se tornou mau, eu vejo sobretudo a afirmação de que Deus é o único Senhor (contra o maniqueísmo) e de que o mal surge a partir da liberdade das criaturas.

Para o mundo de hoje as explicações que satisfizeram as pessoas durante séculos deixaram de ser suficientes. A existência do mal num mundo criado por um Deus bom continua a ser um mistério e o facto de andarmos à volta destas definições pode dar-nos a sensação de que percebemos alguma coisa quando não percebemos nada. Há que aceitar como algo que não entendemos, há que confiar sobretudo na bondade e no amor de Deus, há que ver que Jesus também não tinha respostas a estas questões mas foi capaz de confiar até à cruz.

O que me parece desadequado é insistir pastoralmente nestas coisas do diabo, sobretudo se elas levarem a afastar as pessoas de Deus ou da Igreja.

Anónimo disse...

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