terça-feira, junho 28

You are watching Big Brother



Por vezes temos que abandonar o mundo. Há alguns meses atrás decidi desligar a televisão, acabar com as conversas de café, abandonar o planeta dos assuntos correntes, e mergulhar na anacorése. Decidi seguir o caminho inverso ao do Zaratustra e refugiar-me na caverna que ele deixara vaga ( Não, não proponho isto para toda a gente. Era só adequado para mim, e para um certo momento. Que mania que os humanos têm de esperar que justifiquemos as nossas decisões pessoais com o peso da doutrina e a força de um quantificador universal! ).

Foi belo: "Não, eu não sei que o governo mudou. Não, eu não sei que começou uma guerra. Não, eu não sei que musica é essa. Não eu não sei quem ganhou o campeonato. Não, não sei, e por favor não me contes!"

E eu que costumava ser um rapaz tão bem informado....

Quando apesar de tudo mo contavam, via que recuperava o fio à meada em poucos minutos. O mundo dos assuntos correntes é uma telenovela brasileira. Dá a impressão de que se passa muita coisa, mas ao fim de dez minutos ja percebemos o que se passou em seis meses. É porque se passa sempre o mesmo!...

Várias vezes veio à minha porta um funcionário da TV cabo, determinado a tentar-me. Pobre Mefistofeles, nada conseguiu:

"Não, eu não tenho televisão. Não, não está a perceber, eu não dise que não tenho TV cabo. Eu não tenho TV. De todo. Sim, eu estou a falar a sério. O sr. nao percebe. Eu sou o mestre Zen. Eu sou o pequeno centro estável em torno do qual gira o Universo.Sim, eu sinto-me bem assim."

I am jack's raging indifference to the World

Oh, a televisão ainda cá está. Afinal, o profeta afirmou que a revolução vai ser transmitida em directo e eu não gosto de
perder o verdadeiro entertainment(Apocalipse 11:18). Quem quiser ver TV na minha casa está à vontade, não sou nenhum fundamentalista! Basta atravessar o campo de minas e o arame farpado para ligar a minha velha SONY de 13 polegadas com a imagem aos saltos e o som a estalar e a antena meia partida. Chega para uma emergência (é favor quebrar o aquario com o martelinho vermelho e secar o aparelho antes de usar. Cuidado com as piranhas).

Vivia apenas para as coisas eternas. Os livros em vez dos jornais. Bach em vez dos jingles. O Zen em vez das notícias."Ganda jogo, pá!", diziam-me. Eu sorria inocentemente, repleto de beatitude, com ar de pastorinho iluminado, ignorante de tudo excepto dos desígnios do Senhor. Já esperava a visita dos anjinhos, já esperava que Krishna me mostrásse a sua verdadeira forma...e de súbito...

E de súbito colocaram ecrans no metropolitano. Qual a minha surpesa, entro no metro e sou bombardeado com luz e som. A imagem ainda vai, mas "os ouvidos nao têm palpebras", dizia o Pascal Quignard. Nao há como escapar. Em poucos segundos
fiquei a saber quem era o Presidente da Republica ( era o mesmo, nada muda ) quem era o Primeiro Ministro ( era outro, nada muda ), que estavam todos preocupados com a insegurança ( como sempre ), e mais importante de tudo, sou "discretamente" informado, aos berros e com musica histrionica à mistura, de que cuecas, fraldas, telemóvel e automóvel devo comprar esta semana.

I am Bill's scorching anachoretic remains

Escrevi um mail ao metropolitano de Lisboa. Responderam-me com um enlatado, dizendo que o propósito dos ecrans no metro era "formar" e "informar". Deformar parece ser mais o caso. Especialmente quando foi admitido recentemente que "se as torres caíssem hoje isso não passava logo no metro". Nada de notícias a sério, só padding para anúncios, só coisas leves "adequadas ao local", género programa da manhã para velhotas e indigentes. Para que servem os meus impostos? Para que serve o preço do meu bilhete? Ainda tenho que ouvir a publicidade mal disfarçada de notícia? Ainda tenho que ser submerso em lixo? Para quando os forceps oculares, a la Clockwork Orange para prender ainda melhor a minha atenção à "mensagem"?

No dia seguinte, de volta às catacumbas do metro, fui informado de que havia um grupo de faux-pseudo-semi-meta-celebridades retardadas fechado numa quinta qualquer onde os quadrúpedes eram mais inteligentes do que os bípedes. Isto, claramente, era uma versão rural do Big Brother, à qual eu tinha sido misericordiosamente poupado até este trágico instante.

E de repente fez-se luz.

George Orwell estava errado. Isto é finalmente 1984, mas a tragédia absolutista não é que o "Big Brother is watching You".

A tragédia é que "You are watching Big Brother". Quer queira quer não.

21 comentários:

Anónimo disse...

Mestre, aceita-me como discípulo!

MaDi disse...

Omwo,
Então andas de metro...
E será que eras tu uma pessoa que eu vi ontem por volta das 19h a fazer um desenho de um rapaz que estava à tua frente na linha amarela em direcção a odivelas?

on disse...

Que tal arranjares um leitor de MP3? Só com Bach, é claro! Funciona como palpebras...

Fora isso, tens toda a razão.

on disse...

Madi, o omwo a desenhar rapazes?

Não me parece...

MaDi disse...

Não sei, não o conheço. Tu é que o conheces...

MaDi disse...

Não imaginas o ar de choque da minha cabeleireira quando eu lhe disse que não sabia quem era o transsexual de que ela estava a falar e que aparentemente estava nessa tal Quinta das Celebridades.

OMWO disse...

Nao me lembro de desenhar rapazes nos ultimos dias (um velhote sim), e sei la onde estava ontem, mal sei onde estou hoje :)

Era muito mau agora um anacoreta começar a revelar a localização da sua entidade física no espaço-tempo.

Falemos de coisas que interessam...o que pensam dos ecrans do metro?

A.

PS: Quanto ao amigo anónimo, eu não posso tomar díscípulos, sou demasiado indisciplinado :)

MaDi disse...

Poderia ter algum interesse se desse algo mais do que música foleira.
Para notícias (que dão) e talvez para alguma programação cultural como existem nos écrans das ruas/avenidas.
Acho que já somos bombardeados por tanta propaganda em outdoors e cartazes que não existe grande diferença se esta for em imagens que se movem ;)

OMWO disse...

Faz toda a diferença. As imagens que se movem são um chamariz para a nossa visão periférica, que nos chama a atenção e conequentemente nos distrai. O som é perfeitamente asqueroso, dantes estava aos berros e agora baixaram para um barulho de fundo irritante que impede a concentração. Eu costumava pensar, no metro, ou ler, ou conversar se tinha alguém comigo. Ainda o faço porque felizmente consigo lidar bem com as distrações ( mas é um esforço que desgasta ). Mas é so olhar para as pessoas, parecem mortos-vivos a olhar para aquela porcaria. Não mostram qualquer interesse, apenas olham com os olhos mortos.
O problema é que já não hà enclaves de silêncio na cidade. Eu não quero ter que usar head-phones porque eu não quero estar a usar a musica, boa ou má, como antidoto para as agressões. A musica não é um purgante. Mesmo a boa música se torna repugnante se a ouvirmos sempre. A música costumava ser algo de sublime e raro, agora é o que temos por defeito. Torna tudo banal e irritante. Causa alergia.

Isto não é acidental. Ha gente interessada em robotizar cada instante das nossas vidas. Em fazer de nós consumidores, eleitores, cidadãos, tudo menos seres humanos. Temos que estar sempre ocupados, sempre distraidos com alguma coisa transitória...

Eu pago o meu bilhete. Nao vejo porque tenho que ser agredido com esta hipnose barata.

on disse...

Tens toda a razão!

MaDi disse...

LOL.
Se achas isso, deves reclamar!
A mim não faz diferença, porque consigo concentrar-me com esse tipo de ruído de fundo. As obras do metro do saldanha é que me fazem confusão. Com aquela poeirada toda.
Entendo o teu ponto de vista, porque se temos o direito de escolher não ver televisão em casa, porque o temos que fazer na rua.

M disse...

Texto fabuloso! De enorme subtileza.

macha k disse...

Gostei. Mãs não ando de metro, é claro. Falta-me o ar. Mas como às vezes ainda tento, vou lá para baixo e fico a ver os ecrãs e a publicidade à volta. No outro dia dei-me quase ao trabalho de contá-los, mas eram tantos que me perdi. Vivemos no mundo do Orwell há muito tempo já. Sinto-o na pele.

MaDi disse...

E já estivémos mais longe do mundo de Huxley também...

MaDi disse...

Boa foto!

Anónimo disse...

Mas a questão é:

de que pensamentos é que estes senhores nos querem distrair?


Da nossa vida diária, do neoliberalismo, da sociedade de consumo? A ir para casa: o que é que faço hoje para jantar?, tenho de passar no pingo doce, lá na empresa querem reduzir o pessoal, a ver se não me esqueço outra vez da manteiga, e ainda me faltam 6 anos para a reforma, o que é que dará hoje na televisão?...


Ou dos dias de liberdade, de justiça social, de solidariedade, de fraternidade e paz?
Ideias que correspondem a aspirações eternas do ser humano e que por isso não podem ser destruídas.

Sufocadas, incompreendidas por muitos, voltarão a germinar.

on disse...

Muita gente tem SEMPRE a televisão ligada. Mesmo quando ninguém olha para lá. Mesmo quando dificulta as conversas. Foram essas pessoas que fizeram uma petição à direcção do metro para que os fizessem sentir em casa. A direcção do metro limita-se a satisfazer as necessidades dos seus clientes.

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

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