sexta-feira, junho 17

Coerências

Em elogios fúnebres muito repetidos nos últimos dias, temos assistido ao enaltecer da coerência como virtude. O caso não é simples. Eu quase aposto que os figurões que, por obrigação institucional, têm de vir tecer louvores aos mortos importantes nos jornais e na tv, podem ser postos perante um dilema que os leva a pensar assim: "Não me ocorrendo a respeito do defunto nada melhor, deixa-me lá dizer que era muito coerente. Que lutou até ao fim pela mesma ideia."

O problema é que, se pensarmos em figuras para um Museu de Cera da Coerência ou da Luta por Uma Ideia, temos de alinhar Estaline, Mao, Hitler, Salazar, Franco, Mussolini, Pol Pot, Bin Laden e o mullah Omar, Sadham, os Taliban que baniram a música, reduziram a zero a existência das mulheres e destruiram arte no Afganistão, e mais, muitos mais.

Também se encontra coerência e defesa intransigente de uma ideia em personagens que não possuem a aura negativa das daqueles exemplos. Os chamados santos e alguns dirigentes religiosos constituem uma outra categoria de coerentes. Eu acho que a irmã Lúcia foi coerente. João Paulo II nunca permitiu qualquer desvio aos princípios em que acreditava, mesmo que seguir tais princípios pudesse por em risco, potencialmente, vidas humanas. Tudo indica que Ratzinger-Bento XVI manterá a mesma atitude.

Curiosamente, não me recordo de ouvir, da parte de certas figuras que nos últimos dias descobriram a virtude da coerência no nosso recem-falecido, apreciações sobre estas coerências. Se me recordo de alguma coisa é de críticas.

Deste modo, se dúvidas eu tinha sobre o carácter esquivo da coerência como virtude, elas acentuaram-se ao constatar a incoerência dos seus porta-vozes.

5 comentários:

on disse...

A moda de elogiar a coerencia é mais uma das nossas importações culturais. Durante a primeira volta das ultimas eleições presidenciais em França a imprensa salientou a coerencia extraordinaria de uma senhora trotskista que se candidatava pela quinta vez, dizendo sempre o mesmo.
Foi considerada um exemplo para os outros politicos. Ninguem se lembrou de perguntar se o que ela dizia fazia algum sentido. A brincadeira saiu cara: Le Pen ficou em segundo lugar na primeira volta, à custa dos votos desviados do candidato socialista para a senhora coerente.

Anónimo disse...

Os votos foram divididos pelos coerentes. Le Pen tambem faz parte do clube. Depois ganhou o Chirac.

wind disse...

Precisamente.

Anónimo disse...

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