terça-feira, junho 7

Zen e a arte do tiro ao arco


O Kyudo tornou-se famoso no ocidente com a publicação em 1953 do livro de Eugene Herrigel Zen e a arte do tiro ao arco. Este livro surgiu no princípio da expansão económica do Japão no pós-guerra e ganhou rapidamente uma influência prodigiosa devido à grande curiosidade sobre este país misterioso e então totalmente desconhecido. Herrigel descreve a sua iniciação ao Kyudo com o mestre Kenzo Awa na década de trinta. No kyudo atirar a flecha é um pretexto para nos conhecermos melhor. O praticante deve usar o arco com uma tensão suficientemente grande para que lhe seja difícil abri-lo. No entanto deve tentar abri-lo sem esforço, na postura perfeita, numa atitude mental de distanciação total do fim em vista: acertar no alvo. E no entanto deve acertar. A cena mais famosa do livro é aquela em que o mestre de Herrigel acerta duas flechas no centro do alvo, à noite, a segunda cortando a primeira, em condições em que seria impossível fazer pontaria, demonstrando-lhe assim que só se acerta não procurando acertar.
Eu e os meus amigos adolescentes sonhavamos com o dia em que poderíamos praticar tiro ao alvo e experimentar todas estas sensações subtis e empolgantes. O mês passado tive a grata surpresa de ver um velho amigo fazer uma demonstração de kyudo, arte que já pratica há quase uma década. Foi impressionante assistir à beleza do ritual e à velocidade incrível a que partiu a flecha. Pareceu que nem foi disparada! Realmente vivemos num outro país onde já é possível realizar muitos sonhos que há trinta anos não podiam passar disso mesmo...
Actualmente pode-se praticar Kyudo na Quinta da Cotovia, perto de Sesimbra, e no Aikideai, em Setúbal.

Na sequência deste interesse renovado no Kyudo descobri um artigo a vários títulos notável de Yamada Shoji. Este artigo defende uma tese à partida um pouco estranha. Afirma Shoji que o Kyudo não foi tão influenciado como se pensa pelo Zen. Terá sido o livro de Herrigel que terá transmitido essa ideia para o ocidente. Uma vez estabelecida essa ideia no ocidente, a grande reputação do livro levou a que os japoneses acreditassem que tal era verdade...
Será possível que tal coisa tenha acontecido? Não pretendo convencê-los a ler as trinta páginas do artigo de Shoji. Vou-me limitar a falar um pouco da minha experiência pessoal no assunto. Talvez possa ajudar a esclarecer as coisas, mesmo que tenham lido o artigo de Shoji.

Suzuki era um monge Zen e um erudito que defendeu sistemáticamente a influência predominante do Zen na cultura japonesa. A sua obra teve uma influencia muito grande no ocidente. Afirmou Suzuki que o Zen não utiliza a abstracção ou a conceptualização. Suzuki tem toda a razão. Esquece-se de afirmar que:
A outra religião dominante no Japão, o religião Shinto, ainda utiliza menos a abstracção e a conceptualização. Não se pode de forma alguma identificar a ausência de conceptualização com a existência de uma influência do Zen. Os japoneses não sentem grande necessidade de reflectir sobre as suas actividades.

Fiz a minha tese no Japão. O meu ex-orientador é um cientista extraordinário por quem tenho o maior respeito. A minha maior dificuldade foi a sua total não conceptualização da sua actividade. A investigação fazia-se e pronto. Não explicava porque havia vantagens em fazer as coisas de uma maneira e não de outra. Nem sequer parecia compreender o que é que eu pretendia com as minhas perguntas. Não era uma questão de não querer perder tempo comigo. Também não era um problema de língua.
Posso sem grande dificuldade descrever a minha experiência em termos Zen. Até arranjo uma pequena experiência de iluminação pouco antes de ter obtido a tese.
Apresento-vos a minha receita para um ocidental ter uma experiência Zen. Basta este tentar aprender a realizar uma tarefa sofisticada com um japonês por quem ele tenha respeito. O ocidental vai imediatamente tentar conceptualizar a actividade em questão. Quando apresenta as suas teorias ao seu professor vai defrontar-se com o vazio. O japonês não percebe sequer do que é que o ocidental está a falar. O ocidental vai projectar nesse vazio tudo o que lhe passa pela cabeça. As suas tentativas de compreender as não-respostas do mestre são o equivalente de tentar resolver um koan.
No caso de Herrigel foram ainda acrescentados mais alguns ingredientes: ele era um filósofo, era alemão, estava interessado no Zen, não conseguia comunicar com o seu mestre sem tradutor. As experiências cruciais aconteceram quando estavam sózinhos. Era impossível falhar...
Os japoneses não refletem muito sobre a sua sociedade. O livro de Herrigel apareceu numa altura em que os japoneses tentavam absorver o mais possível da civilização ocidental. Aparece aquele senhor tão erudito, tão bem conceituado no ocidente, a dizer coisas tão belas sobre o Japão. Só podia ser verdade...
Sempre teorizei sobre tudo e mais alguma coisa. Já devem ter reparado. Acabei porém por perceber os limites dessa conceptualização. Compreendo agora a atitude dos japoneses e consigo ver as limitações do ponto de vista ocidental. O que não quer dizer que eu tenha melhorado.

10 comentários:

wind disse...

Gosto destes posts:)

Quintino disse...

Será que o teu ex-orientador tinha sensibilidade para conceptualizar a sua actividade? Provavelmente é assim que funciona... e bem!Por que é que temos de conceptualizar tudo, mas tudo o que fazemos? Será que por vezes não será melhor entregar essa função ao Criador?

sara monteiro disse...

muitíssimo interessante!

on disse...

Olá Quintino!

É muito vulgar um estrangeiro no Japão iniciar um diálogo desta forma: sobre este assunto eu penso isto e isto. Você, o que é que pensa? Os japoneses sentem-se desconfortáveis com este tipo de perguntas. Se calhar nós também. Uma vez ouvi uma japonesa um pouco diferente das outras responder: Não me pagam para pensar nisso... Tem toda a razão. Embora numa democracia toda a gente deva pensar em quase todos os problemas importantes do país que consegue compreender, no trabalho não temos que pensar em tudo, ter opinião sobre tudo. Poupa-se assim muita energia que pode ser melhor empregue.

Mas eu não fico à espera que o criador explique aos meus alunos de doutoramento certas subtilezas da actividade de investigação. Se os meus metodos funcionam ou não, é melhor perguntar a eles...

on disse...

A outra razão pela qual o artigo de Yamada Shoji é importante é por ser precisamente uma reflexão feita por um japonês sobre a sociedade japonesa. Uma reflexão altamente original.

Século e meio depois da abertura ao ocidente temos finalmente uma geração diferente no Japão.

Mitsou disse...

As coisas que nós aprendemos aqui. Assim haja tempo para podermos ficar, calmamente, a ler os teus posts. Beijinho e obrigada.

O Setúbal disse...

Suzuki não era um monge zen

on disse...

Ok Setúbal,
tens razão. Passou vários anos num mosteiro mas depois "largou o seminário".

Anónimo disse...

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