quinta-feira, maio 12

Regresso às origens

Jean Couch era instrutora de yoga na California e autora do best seller The Runners Yoga Book. Apesar de o yoga ter melhorado substancialmente a sua condição física e psicológica continuava a ter uma certa dificuldade em se descontrair e sofria regularmente de problemas de ciática. Jean procurou na Índia junto de BKS Iyengar a solução dos seus problemas. Acabou por encontrar o seu caminho com uma aluna de Iyengar, a antropologa francesa Noelle Perez. Podemos ver Noelle e Iyengar na foto abaixo.

Noelle começou a notar diferenças fundamentais de postura entre as populações dos países onde desenvolvia os seus estudos antropologicos e as populações dos países ditos desenvolvidos. Chegou à conclusão que por volta de 1920 se deu uma modificação radical na postura da maioria dos cidadãos dos países desenvolvidos.

Na figura da esquerda vê-se uma senhora do início do século XIX. A sua postura é a mesma do senhor do lado esquerdo do post sobre a dança Bharatanatyam. A partir de certa altura as pessoas passam a querer ter um ar cool, a pelvis desloca-se para a frente, as costas para trás, as pernas deixam se encontrar na vertical. As consequências mais obvias desta nova postura são as famosas dores de costas, um fenomeno desconhecido noutras civilizações. Mas esse problema é só a ponta do iceberg. As causas prováveis desta transformação são o sedentarismo, razões estéticas e a utilização cada vez mais frequente de cadeiras e sofás.

Em relação ao Yoga os nossos problemas de postura tem consequências exasperantes. Esticar um musculo durante um minuto dificilmente resultará em progresso se a nossa postura encurtar esse musculo dezasseis horas por dia. Muitas pessoas fazem alongamentos várias vezes por semana sem conseguirem resultados significativos. Acabam por se contentar com o facto de não perderem flexibilidade. Para progredir é preciso resolver um puzzle. Encontrar a cada momento os dois ou três exercícios que naquele momento podem fazer a diferença. Esses exercícios podem ser bastante diferentes dos exercícios que podem ajudar o nosso colega. Os conceitos aflorados acima são as linhas gerais do mapa que nos pode ajudar a resolver o puzzle. Pelo menos acho que tem funcionado comigo. Os problemas posturais de Jean são bem claros nesta foto. A pelvis está deslocada para a frente, as coxas estão constantemente em tensão, as costas compensam deslocando-se para trás, a cabeça está chegada para a frente, criando tensão no pescoço... A postura da rapariga do lado esquerdo não é muito melhor.

Como Noelle observou, o Yoga desenvolveu-se numa sociedade em que estes problemas de postura não existiam. Havia por isso que adaptá-lo aos novos problemas da nossa sociedade. Jean seguiu os passos de Noelle e visitou vários países exóticos procurando encontrar pessoas que mantinham essa postura natural. Podem encontrar aqui e aqui artigos de Jean Couch sobre os temas deste post. Podem encontrar aqui e aqui vários livros de Noelle Perez.
Jean Couch deslocou-se à Costa Rica ao Mali, e por três vezes a ... Portugal. Foi na sequência dessas viagens que resolveu os seus problemas posturais e desenvolveu o Yoga in Balance, a sua perspectiva pessoal sobre o ensino do yoga.

A leitura do artigo da Jean Couch lembrou-me um programa de televisão que eu tinha visto uns anos antes na RTP2. Tratava-se de uma entrevista com uma antropologa francesa que viveu durante vários anos com os moradores do bairro dos Quatro Caminhos, na minha cidade natal, Setúbal. Este bairro ficava situado entre o cruzamento que marca o fim da auto-estrada Lisboa-Setúbal e o hospital de São Bernardo. Até à década de cinquenta este bairro era uma aldeia nas proximidades da cidade. Confirmei antes de escrever o post que se tratava de Noelle Perez.
Noelle reparou que todos os habitantes do bairro tinham uma excelente postura. Os muitos carregadores de peixe da doca de Setúbal que aí habitavam tinham uma postura particularmente boa. O facto de terem de carregar à cabeça cargas enormes parecia não os afectar. Uma vez que à partida a sua postura era correcta, carregar o peixe funcionava como um exercício de consciencialização do seu corpo. Noelle vivia com um dos carregadores. Apesar de uma vida difícil cheia de fomes e outras privações este homem tinha uma saúde de ferro e uma alegria contagiante. Aceitava tudo o que a vida lhe dava com naturalidade e gratidão. O casal passava os verões em Setúbal e os invernos em Paris. Na cidade luz os nosso carregador de peixe dava aulas de postura a doutores, fazendo-os dançar as suas danças com uma canastra de peixe equilibrada na cabeça. Nas horas vagas dedicava-se à pintura e tornou-se num pintor naif muito bem sucedido.
A família da minha avó materna viveu nos Quatro Caminhos entre as décadas de vinte e de cinquenta. Alguns familiares meus continuaram no bairro até à década de oitenta. Era frequente as visitas lá de casa assinalarem o facto de a minha avó manter uma postura erecta perfeita apesar dos seus noventa anos.

4 comentários:

Edgar disse...

Comentarei primeiro!
Se se regressa as origens, regressa-se entre tudo o resto, a uma realidade ainda sem vícios...
E após ler!
Ficou claro que o yoga tenta lutar para corrigir esses mesmos vícios...nunca tinha pensado no yoga, mas irei "googlar" sobre o assunto, o meu interesse foi despertado!

ps: post muito interessante!

on disse...

Caro flame driver, no canto superior esquerdo do blog está um sistema de busac do google que permite fazer pesquisas dentro do blog. Procurando "yoga" encontra-se mais três post sobre o assunto. Procurando "desconforto" aparece mais um.
A referencia mais interessante sobre yoga na net é www.yogajournal.com

Edgar disse...

Não estava a par deste sistema de busca dentro de blogs. Vou ver o site que recomendou. Obrigado!

M disse...

Tenho gostado muito de andar por aqui. Muito interessante este artigo.