domingo, março 29

O Peregrino

Podiamos também chamar-lhe o vagabundo, ou o viajante. Algumas vezes faz sentido falar de uma travessia do deserto.
Paul Gaugin abandonou o seu lucrativo trabalho de compra e venda de acções na bolsa de Copenhaga, resolvendo voltar para França e dedicar-se à pintura, abandonando a mulher e os filhos. Tal mudança não o satisfez completamente, só tendo encontrado a sua verdadeira identidade quando se instalou no Tahiti. Um acto de coragem ou de cobardia? Gaugin ganhou o seu lugar na história da pintura e a sociedade perdoou-o, a família talvez não. Gaugin abraçou para toda a vida a figura do viajante. Toda a gente parte numa viagem alguma vez na vida. É a única maneira de encontrar a nossa identidade ou restabelecer o equilíbrio perdido. Mesmo que seja apenas uma viagem interior. Mesmo que seja só discordar de um amigo quando era tão facil dizer que sim, mas isso punha em causa a nossa identidade.
Algumas vezes dizem-nos que vivemos no paraíso, a nós parece-nos mais uma prisão. Quando comeu a maçã, Eva iniciou a viagem da humanidade. Teria alguma graça ter ficado no Paraíso?

quinta-feira, março 26

O Martir

Sacrificar uma semana por causa da doença de um filho é diferente de sacrificar uma carreira para tomar conta dele. No segundo caso, o sacrifício passa a fazer parte da identidade da pessoa, ela vive a história do martir. O verdadeiro martir dá sem esperar nada em troca. Nem sempre assim é. Algumas vezes espera-se em troca a pertença a um grupo ou algum tipo de recompensa futura. Muitas vezes não sabe receber tão bem como sabe dar.
O sacrifício era algo muito habitual na nossa cultura. A mulher sacrificava a possibilidade de se desenvolver enquanto pessoa pela harmonia do lar. Os homens sacrificariam a vida pelo seu país caso tal fosse necessário. Hoje em dia o sacrifício não é tão bem visto como já foi. Quando surge a ocasião em que seria natural alguma forma de sacrifício, muitos falhamos redondamente, por falta de modelos ou pura e simplesmente pela falta de hábito. Por outro lado ainda existem muitas pessoas, especialmente mulheres, que quando colocadas perante a opção entre o sacrifício e outra possível atitude, têm dificuldades em levar a sério a possibilidade de escolher a outra. Algumas vezes nem dão pela sua existência.

terça-feira, março 24

O Orfão

Acabamos por cair do Paraíso. Quem é expulso do Paraíso sente-se orfão. Quando um Inocente descobre que Deus não toma conta da sua vida, o Governo nos engana, as leis não são justas e os futebolistas ganham milhões, transforma-se num orfão. Alguns homens mais conservadores sentem-se orfãos quando descobrem que as suas mulheres têm desejos sexuais e ambições profissionais e não existem só para os servir. Algumas mulheres mais inseguras sentem-se orfãs quando descobrem que afinal os seus maridos não existem só para as proteger.
O orfão pode procurar consolo nas drogas, ou na esperança de ganhar a lotaria, ou em casar rico, ou na crença num Deus patriarcal que vai tomar conta dele, agora ou mais tarde, ou na reforma antecipada que lhe vai permitir voltar à infancia.
Um dia não vai ter alternativa. Terá de crescer.

domingo, março 22

O Inocente

E tomou o SENHOR Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar.
E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente,
Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

O mundo e as outras pessoas existem para satisfazer o Inocente. Se sempre foi assim em criança, porque não continuará a ser? Quem abandona o Paraíso de livre vontade? São Inocentes o homem que nada faz em casa quando os dois voltam do trabalho e a mulher que não trabalha e passa o dia a gastar o dinheiro que o marido ganha no emprego. Para o Inocente uma pequena dor ou qualquer forma de sofrimento são um sinal de que algo de fundamentalmente errado está a acontecer.
Raramente o Inocente se pode manter inocente por muito tempo. A queda do Paraíso não vai demorar...
Mas ser Inocente é também saber ter esperança e confiar.

segunda-feira, março 16

domingo, março 15

sábado, março 14

Philosophy 101

A sala já estava cheia quando o Professor Heiddengstein entrou com uma jarra de vidro debaixo do braço. Era a primeira vez que leccionava o curso de introdução à filosofia. Por onde começaria? Sócrates ou Platão? Pouco original... Talvez Nietzche ou Spinoza. Afinal eram as suas duas grandes influências.
Heiddengstein levanta um balde escondido por detrás da secretária e começa a tirar de lá pedras que coloca cuidadosamente dentro da jarra. Quando acaba a tarefa fita pela primeira vez a audiência. Acham que a jarra está cheia?
O silêncio torna-se embaraçoso. Tantos professores na sala. Uma voz corajosa arrisca um sim. Vários ruidos permitem concluir que é essa a opinião da maioria. A secretária tapava outro balde. Este continha gravilha. Durante longos minutos o professor vai agitando a jarra de forma a que as pedras pequenas vão encontrando os espaços deixados livres pelas maiores.
Quando já não consegue colocar mais gravilha senta-se para recuperar as forças e repete a pergunta. Não espera pela resposta. O novo balde contem areia. Quando já não há mais espaço para a areia Heiddengstein deita a que sobrou noutro balde e abandona a sala por alguns momentos. Volta com o balde cheio de água, que despeja cuidadosamente para dentro da jarra.
Volta a fazer a pergunta. Alguém arrisca um sim. Heiddengstein tira da gaveta um saco cheio de açucar que começa a dissolver cuidadosamente na lama que enche a jarra.
A aula já era suposta ter terminado há longos minutos. Ninguém abandona a sala. Então, agora a jarra está cheia?
Várias pessoas aprenderam a lição: Não, é claro que não está cheia!
(continua)

quinta-feira, março 12

GM: thank you but no thank you?

A General Motors precisava de 2.000.0000.000 dolares para não ir à falência. Caso contrário todas as empresas dependentes da GM estariam condenadas. As consequências seriam catastróficas. De qualquer forma os executivos da GM continuavam a viajar nos jactos da companhia. Afinal, não são uns 1.000.000's de dolares que vão mudar alguma coisa.
Obama deixou claro que os executivos das companhias que tivessem ajuda do estado ficavam com os salários limitados a uns míseros 500.000 dolares por ano. Uns dias depois, parece que os executivos da GM já não precisam assim tanto do dinheiro. Que conclusões deveríamos tirar deste facto?

domingo, março 8

Memes

A selecção dos genes produziu um mamífero a partir de organismos celulares. Richard Dawkins introduziu em O gene egoista a noção de meme. A selecção dos memes produz uma religião complexa a partir de algumas crenças básicas?
Um meme é um elemento de cultura, um simbolo ou uma pratica que não se pode dividir em elemento do mesmo tipo mais pequenos e que se transmite de uma pessoa para outra através da fala, de gestos ou outros fenómenos imitaveis. São exemplos de memes uma anedota, uma maneira de fazer o nó da gravata, um novo passo de dança. É este o processo de transmissão dos memes. Os memes estão sujeitos à selecção natural. Só as anedotas verdadeiramente engraçadas são repetidas. As melhores atravessam gerações e continentes, sofrem mutações, etc. Um novo estilo de música é um agregado de memes. Alguns têm a ver com acordes musicais, outros com passos de dança, outros com roupas, estilos de vida, etc. Esse estilo criou-se por selecção natural, mesclando memes de vários estilos de música e doutras proveniencias.
A memetica (o estudo dos memes e da sua evolução) não tem ainda um estatuto científico bem definido. Mas algumas das suas construções são interessantes. Dawkins está especialmente interessado em aplicá-la ao estudo da religião. Um dos aspectos interessantes da evolução das religiões é o facto de nascerem várias por ano. É assim mais fácil estudar a criação de uma religião do que a criação de uma espécie.
Dawkins argumenta que nem é preciso que uma religião tenha um efeito benéfico sobre os seus praticantes, basta apenas que os seus memes sejam especialmente bem adaptados à luta dos memes para a reprodução.
Acho que não estou completamente de acordo com as ideias de Dawkins. Uma teoria científica resulta de uma luta pela sobrevivência de memes. Se reduzimos tudo a uma luta de memes, caímos nas teorias pos-modernas que reduzem a ciência a uma moda. Convem tentar perceber porque é que um meme é mais resistente do que outro.
Analisemos um meme: ter fé é uma riqueza espiritual. As religiões com este meme sobrevivem melhor do que as outras num mundo onde cada vez mais tudo é posto em causa. Uma religião assenta num conjunto de crenças. Se o crente acreditar que a crença tem um valor em si propria, é menos provavel que as ponha em causa.
Que se quer dizer então quando se fala no valor da fé? Que valor é esse? O que é que isso realmente significa?

terça-feira, março 3

Que fez correr Bernard Madoff?

Chamar porco capitalista a Bernard Madoff não explica grande coisa. Os porcos capitalistas normalmente sabem fazer as coisas e safar-se. As probabilidades de ele o conseguir eram limitadas, mesmo que não tivesse surgido esta crise. O homem não era assim tão estúpido. Começou do nada, subiu a pulso. Não é facil fazê-lo e não chega estar disposto a vender a alma ao diabo. Que leva alguém a ter um comportamento tão irracional?
Estamos interessados em criar condições para que esta crise não se possa repetir. São precisas novas leis, são precisas novas instituições. Que tal tentar também perceber o que se passou na cabeça do homem? Durante vinte anos Madoff lutou para sobreviver, para comprar o primeiro Caddilac, o primeiro executive jet. A certa altura já não sabia fazer mais nada. Quando algo dentro dele o puxava noutra direcção, rumo a um equilíbrio, não sabia como lidar com isso. Afinal todos os seus conhecidos estavam na mesma situação. Como calar então a voz que o atormentava? Comprar mais um carro, uma ilha no Pacífico, whatever. A vozinha voltava. Como fazê-la calar? Duplicando a conta bancária, triplicando-a? Não havia outro caminho. Milhares de Madoff's procuram todos os dias calar os seus demónios. Correndo qualquer risco.
Já temos milhares de boas leis, não são elas que nos vão livrar dos Madoff. Um sociedade só se consegue livrar dos Madoff's no dia em que criar condições para que a maioria dos seus membros tenha um Sol para ajudar.

domingo, março 1

Ajudar o Sol


Os indios Pueblo vivem naquilo a que hoje chamamos Novo México e Arizona. Resistiram mais do que muitas outras tribos ao contacto com a nossa civilização, evitando a destruição de todas as suas referências e a queda no alcoolismo. Para isso contribuiu bastante o facto de manterem a sua religião tão secreta quanto possível. Quando o psicanalista Carl Jung os visitou conseguiu ser objecto de algumas confidências que ajudaram a compreender melhor a sua psicologia. Só os rituais realizados pelos pueblos permitiam que o Sol continuasse a levantar-se todos os dias. Não o faziam apenas em proveito próprio mas tendo em vista o bem de toda a humanidade. A crença ingénua neste mito permitiu a estas pessoas manter as sua auto-estima intacta durante mais umas décadas.
Vale a pena acreditar nesta ilusão? Claro que sim, se formos capazes. Durante grande parte das nossas vidas podemos esquecer que a nossa personalidade é apenas a ponta de um iceberg que se eleva do nosso inconsciente. Estamos demasiado ocupados com as nossas carreiras profissionais, com a criação dos nossos filhos. É facil ignorar outras coisas. Ou parece. Na verdade não sobra tempo ou energia. Quando se dobra os quarenta começa-se a pagar um preço por esse esquecimento, embora seja sempre possível prolongá-lo por mais uns tempos. É a altura para relembrar caminhos que começamos a percorrer na adolescência e logo abandonámos. Li estas coisas nos livros, sentia-as, agora começo a vê-las surgir à superfície na vida dos meus amigos.
Várias coisas nos separam dos pueblos. A luz eléctrica, que nos permite manter à noite o ritmo frenético do dia, tornando mais dificil manter o hábito de restabelecer todas as noites o equilíbrio perdido durante o dia. A televisão, o ópio do povo. A nossa crescente sofisticação, que não permite a muitos de nós aceitar o primeiro mito que nos propõem. A pobreza da nossa ignorância.
Se em certas épocas da vida o inconsciente nos bate mais à porta, verdade é que tal acontece todos os dias. Alguns mitos classicos sobreviveram o passar dos tempos. São os nossos últimos instrumentos para manter esse equilíbrio. O amor romantico é um deles, representado em mil lendas, em metade dos filmes e em todas as telenovelas. A sua importância inflaciona cada vez que mais um mito cai. Não se pode esperar que chegue para todas as encomendas. É por isso que a culpa é do outro. As relações amorosas cada vez são mais instaveis porque se lhes pede que por si só mantenham todos os nossos equilíbrios. Obviamente, tal não é possível.
Outro mito é o da eterna juventude. Não sobram muitos mais. Um edifício em equilíbrio instável. Salve-se quem puder.

quinta-feira, fevereiro 26

Quatro anos de crise

Um blog é entre outras coisas um diário das nossas opiniões. Parece que quando este blog surgiu, há quatro anos, já a crise tinha começado. Espero que dure mais do que a dita cuja. Não vai ser fácil.

segunda-feira, fevereiro 23

Livrarias

Durante a minha adolescência havia vários lugares fetiches em Lisboa. O Estúdio, um mini cinema por cima do Império, ao pé do Técnico. Por lá se viam todos os Bergman's e Kubrik's da época. Havia as lojas da Avenida de Roma. Sobretudo, havia a Buchholz. A Buchholz era a única livraria de Lisboa onde se podia vislumbrar as obras completas do Freud, os filósofos, tudo. Mas o que tornava a Buchholz especial era a velha. A brucha. Havia duas teorias:
- A senhora era judia. Tinha passado anos num campo de concentração nazi. Agora vingava-se nos miudos que só lá compravam um livro de vez em quando.
- A senhora era uma nazi fugida a seguir ao fim da guerra. Dirigia a Buchholz como se fosse a sua antiga ala de Birkenau.
A livraria da Duque de Palmela tem dois andares. No andar de baixo podia-se folhear livremente os livros. O andar de cima era o reino da velha. Era lá que estavam os livros interessantes, que nos iam resolver todos os problemas filosóficos. Assim nós pudessemos ler os indices. Alguns dos meus amigos eram mais afoitos e liam umas páginas. Até ao dia em que ela pôs na rua o senhor do sobretudo de pelo de camelo que teve o desplante de lhe responder.
Voltei hoje à Buchholz. Já não tem o mesmo carisma. Falta a tal senhora. Sobretudo, faltam os livros. Nada mais triste numa livraria do que uma estante vazia. A internet acabou com as livrarias. Resta a FNAC, para as coisas mais simples. Não devia ser assim? Só comecei a comprar sistematicamente livros pela net depois da minha última encomenda, vai para uns dez anos. Voltei lá quinze dias depois: que não me preocupasse, já tinham tratado de tudo. Mais três semanas: olhe, qual era mesmo o nome do livro? Dois meses depois: má cara por eu não me lembrar do nome do dito cujo.
A Biblos abriu vai para um ano, ao pé das Amoreiras. Grande e bonita. Esqueceram-se dos livros. Parece que vai a caminho da falência.
Onde é que eu meti mesmo o cartão visa?

sexta-feira, fevereiro 13

O Príncipe e o Mágico

Era uma vez um príncipe que acreditava em tudo menos em três coisas. Não acreditava em ilhas, não acreditava em princesas, não acreditava em Deus. O seu pai, o rei, disse-lhe que tais coisas não existiam. Como não existiam princesas nem ilhas no reino do seu pai, nem qualquer sinal de Deus, o príncipe acreditava no seu pai.
Um dia o príncipe saiu do palácio e viajou até ao reino vizinho. Aproximou-se do mar e, para seu grande espanto, avistou ilhas e estranhas criaturas que não ousou nomear. Quando procurava um barco para tentar visitar a ilha mais próxima, avistou um homem que passeava na praia envergando um manto.
São verdadeiras aquelas ilhas? -- perguntou o jovem príncipe.
Claro que são verdadeiras! respondeu o homem do manto.
E que criaturas são aquelas?
Claro que são princesas!
Então Deus deve existir! -- gritou o príncipe.
Eu sou Deus! -- respondeu o homem do manto, fazendo uma pequena vénia.
O jovem príncipe voltou ao seu palácio tão rápido quanto pôde.
Então voltastes! -- exclamou o rei seu pai.
Vi ilhas, vi princesas, vi Deus! -- respondeu o jovem príncipe.
O rei não se deixou afectar pela exaltação do príncipe:
Não existem nem ilhas, nem princesas, nem Deus!
Eu vi-os!
E como estava vestido Deus?
Deus usava um manto...
E podias ver os seus sapatos?
Não...
O rei sorriu. Esse é o uniforme dos mágicos! Foste enganado...
O princípe abandonou o palácio e voltou o mais rápido possível ao reino vizinho. Voltou a encontrar o homem do manto.
O meu pai, o rei, disse-me quem o senhor é. Não me voltará a enganar! Agora sei que as ilhas e as princesas não são reais porque o senhor é um mágico!
O homem do manto sorriu.
No reino do teu pai existem muitas ilhas e muitas princesas. Só não as vês, meu rapaz, por causa do feitiço que o teu pai te lançou!
O príncipe voltou a casa imerso nos seus pensamentos. Olhou o seu pai, o rei, nos olhos e perguntou:
Pai, é verdade que não és um rei, mas sim um mágico?
O rei sorriu. Levantou-se e deixou que o seu manto lhe tapasse os pés.
Sim, meu filho, sou apenas um mágico.
Então o homem da praia é Deus?
O homem da praia é apenas um mágico.
Eu preciso de saber a verdade, a verdade por detrás da magia!
Não há verdade por detrás da magia...
Profundamente infeliz,o jovem príncipe anunciou que não podia aceitar tal situação, só a morte o podia libertar.
O rei estalou os dedos e apareceu a Morte. A Morte permaneceu à porta, mas acenou ao príncipe.
O príncipe estremeceu. Lembrou-se das belas princesas irreais que viviam nas belas ilhas que não existiam. Muito bem. Acho que posso suportar a situação.
Muito bem, meu filho. Tu também, começas a ser um mágico.
The Magus, John Fowles.

sexta-feira, fevereiro 6

Prós e Contras

Assisti na segunda-feira a uns minutos do Prós e Contras sobre o caso Freeport. Dum lado estavam um ex-secretário de estado envolvido no processo e várias pessoas com posições próximas dele. Do outro lado pessoas que estavam longe de se lhes opor. Para variar, a apresentadora estava equidistante dos dois lados. Havia alguém do contra? Bem, apareceu alguém da audiência, com direito a uma breve intervenção.
Muito se fala sobre a importância da presunção da inocência, de respeitar o segredo de justiça, de evitar julgamentos na praça pública. Vale a pena reflectir um pouco sobre este tema.
É muito difícil combater a corrupção. Há no entanto uma série de medida bem longe de serem originais, que complicariam a vida a alguma gente. Que tal todos os cidadãos terem de actualizar ano após ano a lista dos seus bens e explicar os aumentos de património em função dos proventos declarados?
Será assim tão drástico considerar que qualquer deputado honesto tem a obrigação de propor uma lei destas na assembleia da república? Esperar que qualquer partido político decente deveria ter uma proposta destas no seu programa? Seria assim tão maledicente dizer que quem não o fizer é suspeito até prova em contrário?
Num país tão pequeno, onde as instituições vivem sobre a pressão asfixiante das pessoas importantes, não será dever patriótico de qualquer membro da polícia judiciária ou do ministério público deitar cá para fora todas as informações que possam contrabalançar essas pressões e dar aos processos uma chance de chegarem ao seu termo?
Será nosso dever de bons cidadãos esperar pelas decisões dos tribunais antes de formarmos uma opinião sobre a inocência ou culpabilidade de alguém, quando os tribunais funcionam à velocidade do caracol e um bom advogado pode atrasar as decisões quase indefinidamente? Será nosso dever não termos uma opinião sobre a decisão de um colectivo de juízes, esquecendo todos os detalhes do processo que nos deram voltas ao estômago?

sábado, janeiro 24

Da Natureza da Verdade


Pessoas diferentes acreditam em visões diferentes do mundo.
Sempre houve uma oposição entre a visão conservadora e visão da esquerda. Ao longo dos tempos cada lado teve as suas vitorias e as suas derrotas. Já ninguém defende a escravatura, ninguém põe em causa o direito das mulheres a estudar e a votar. Já ninguém defende certas utopias da esquerda, como a abolição pura e simples do mercado.
Existia uma verdade que nós fomos pouco a pouco descobrindo, ou essa verdade foi construida?
Em última análise os consensos que foram entretanto estabelecidos que podem no futuro vir a ser invalidados?
Sempre que dois grandes grupos de uma sociedade têm posições diferentes sobre um tema, a verdade pode estar de um dos lados? Ou é uma sintese imprevisível entre os dois extremos?
Tem sentido falar na verdade?

Particularizando:
Se Deus existe, os ateus são um imbecis que perderam totalmente o sentido da vida.
O mesmo aconteceu aos que apostaram na religião errada?
Se Deus não existe, todos os crentes são uns idotas que desperdiçaram o melhor das suas vidas?
Qualquer das hipoteses é trágica!

Existe uma outra perspectiva para analisar esta questão?
Qual?

quarta-feira, janeiro 21

A Economia do Sexo

Mais uma contribuição para tão importante tema.

S.A.R.L.

O João Pinto e Castro lembra que a história da Islândia não é nova, antes pelo contrário.

domingo, janeiro 18

Coitada, casou com um árabe


O Jahid é descendente de uma família de políticos marroquinos que decidiu ser matemático. Conheceu a Consuelo num daqueles institutos internacionais onde as nacionalidades se esbatem. Arranjaram os dois um posdoc em Lisboa e passaram a viver juntos. Um ano depois resolveram casar, em Rabat. Segundo a lei marroquina, ou muçulmana - não faço ideia, cada casamento é um caso, dando origem a um contrato que é negociado pelos cônjuges ou pelas suas famílias. Acordado os termos gerais do contrato com semanas de antecedência havia que acertar os últimos retoques da negociação na noite da véspera. De acordo com as regras, o noivo estaria presente e a noiva seria representada por um familiar. Os especialistas explicaram à família da noiva que o acordo a que tinham chegado era demasiado liberal e como tal não podia ser aceite. Um truque que deviam estar a usar pela n-ésima vez. Na véspera do casamento a noiva está num estado de especial fragilidade...
Resposta da Consuelo: muito bem, não há casamento. Uma das razões principais porque eles se iam casar, para além de estarem apaixonados, era arranjar um passaporte comunitário para o Jahid, que nos tempos pós 11 de Setembro tinha a vida ainda mais complicada cada vez que queria viajar. Por outro lado o cancelamento do casamento era um escândalo terrível. Quando a família do Jahid resolveu voltar atrás já era muito tarde. Agora era a Consuelo que não aceitava os termos anteriores. Podia-se voltar a considerar a hipótese do casamento se ela pudesse estar presente na discussão de um novo contrato, bem mais liberal que o primeiro.
Coitado no Jahid, que não teve nada a ver com esta história. Hoje a Consuelo, o Jahid e a sua filha vivem felizes no México. Quem manda lá em casa é a Consuelo. O Jahid sempre soube que assim seria.

É claro que este caso é a excepção que confirma a regra. À partida não veria com bons olhos que uma filha minha se casasse com um muçulmano? Certamente que não. Mas depois logo se via. Ela não se ia casar com um católico ou um muçulmano mas sim com um homem (ou uma mulher, sei lá). Espera-se de um cardeal algo mais do que uma boca à Alberto João Jardim. Se um senhor não tem algo mais profundo do que isso para nos dizer, mais valia estar calado. Estava num casino? O Cristiano Ronaldo é um míudo de 23 anos que só pretende saber jogar futebol e engatar umas míuda. Está sob escrutínio permanente de todos os seus actos. Pode-se pedir um tratamento especial para um senhor que se considera um modelo a seguir e que todos os dias nos diz o que como nos devemos comportar? É claro que não.
O que é pior: a traição de uma certa esquerda que faz por esquecer as violações constantes dos direitos humanos nos países muçulmanos, ou a leviandade de sua eminência? Desta vez tenho de ficar do lado do senhor Policarpo.

quarta-feira, janeiro 7

segunda-feira, janeiro 5

domingo, janeiro 4

Os caracóis e as carpas têm cornos

os caracóis e as carpas têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carpas e os caracóis não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as caracoias e os carpos têm cornos
vês, eu não te dizia?
os carapoicos e os parcos não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carapaias e os porcos têm cornos
vês, eu não te dizia?
os caracoicos e as parras não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carassaias e os parcas têm cornos
vês, eu não te dizia?
os caracorpos e as praias não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as caracaias e os poicos têm
vês


Este poema da Ana Hatherly ilustra bem as dificuldades de comunicação entre as pessoas bem ilustradas nos comentários do post anterior. Porque é que tal acontece? Provavelmente porque diferentes pessoas funcionam de forma bastante diferente. No mínimo, devíamos ter consciência dessas diferenças. É por isso que proponho aos leitores do blogue que façam este teste. Era interessante publicarem os resultados nos comentários. Já falei sobre este assunto aqui.

Katharine Cook Briggs estava a desenvolver uma teoria sobre as diferentes psicologias dos seres humanos quando leu o livro Tipos Psicologicos do psicanalista Carl Gustav Jung. Reconheceu imediatamente a maior profundidade desta abordagem e dedicou-se a desenvolvê-la juntamente com a sua filha Isabel Briggs Myers, produzindo o teste de Myers-Briggs.
Este teste classifica as pessoas em relação a quatro parametros:
1. Atitude perante o mundo: Introversão/Extroversão, (virado para fora/virado para dentro) termos criados por Jung que já fazem parte da nossa linguagem do dia a dia.
2. Forma como tomamos decisões: Pensamento/Sentimento, (damos mais importância aos argumentos logicos ou aos valores).
3. Forma como processamos a informação que nos chega através dos cinco sentidos: Sensação/Intuição, (processa a infirmação de uma forma mais concreta e directa ou de uma forma mais abstracta, sendo muitas vezes processada pelo incosciente e manifestando-se através de palpites ou intuições. Dá mais importãncia aos factos ou às possibilidades).
4. Estilo de vida: (Racional/Perceptivo) damos mais importância às funcões racionais, a tomar decisões ou a coligir informação.

terça-feira, dezembro 30

"O mundo é ininteligível, mas é bom"

É o novo subtítulo do blog da Maria da Conceição. Vale a pena gastar umas linhas a analisar este aforismo de uma senhora simpática chamada Adélia Prado.
Inintelegível porquê? Porque não se pode saber de que são feitos as estrelas e os planetas? Nem por isso, até já se foi à Lua... Mas levou muito tempo a se descobrir que havia umas luas a andar à volta de Júpiter. A partir daí foi mais fácil acreditar que a Terra girava em volta do Sol. Foi um senhor chamado Galileu que se deu ao trabalho de construir um telescópio. Devia ter juízo.
Foi o que se pensou durante muito tempo. Agora já não. No entanto há muito quem continue a ignorar a eviedência: as fronteiras do conhecimento movem-se.
Ininteligível porquê? Porque não se pode compreender a mente humana? Nunca se desvendará o mistério do livre arbítrio? Quem quiser acreditar que assim é, está no seu direito. Não é algo que se compreenda sem empenhamento. Não é algo se explique nos comentários de um blog. Daqui a umas décadas uma nova geração crescerá com duas ou três novas palavras, a destilação de décadas de trabalho. Para eles nada haverá a explicar sobre o livre arbítrio. É assim que as novas ideias se propagam. poucas pessoas notam os progressos essenciais.
Afinal, Ininteligível porquê? Porque se quer acreditar que o mundo é bom, que existe um deus bom. Na verdade,

O mundo só pode ser bom se for inintelígivel.

Como se pode aceitar de outra forma a morte de uma criança?
Qual é o preço que se paga por acreditar no tal aforismo? Acabamos por nos fechar ao mundo. Estou a ouvir o clamor da indignação: eu sou bom, estar aberto ao mundo é bom, logo eu estou aberto ao mundo. Não é assim tão simples. Definimo-nos pelas nossas acções, não pelas nossas intenções. Ou pelas intenções que julgamos ser as nossas.

terça-feira, dezembro 23

segunda-feira, dezembro 15

Good bye, George W

Mas não era preciso seres mais uma vez igual a ti próprio...

sexta-feira, dezembro 5

Bombaim

Não posso concordar com a citação do Lutz acerca dos actos de terrorismo cometidos em Bombaim. Talvez as opiniões de dois cidadãos do mundo, um paquistanês, outro indiano, nos possam dar uma visão mais profunda das coisas. A Índia e o Paquistão são dois gémeos siameses que não podem progredir um sem o outro. Já vai sendo tempo de compreenderem isso.

domingo, agosto 24

quinta-feira, agosto 21

Nelson Évora na TV espanhola

Quando os atletas eram focados e se referia as suas possibilidades, o comentador esqueceu-se do nosso saltador. Não se esqueceu de mais ninguém. Só tinha a décima marca do ano? Tudo bem. Mas por acaso até era o campeão do mundo. Quando ganhou, teve direito a um comentário. Lembraram o azar da Naide Gomes. Lá teve direito a uma entrevista. Pediram-lhe justificações. Afinal tinha só a décima marca do ano. Como se atreveu? Évora explicou-lhe que o ano passado tinha sido a mesma coisa nos mundiais. O sonho dele são os 18 metros. Os meetings ele deixa para os outros.
Que fique bem claro: não é nada de pessoal contra nós. Se forem no anel de Madrid e quizerem ir para Barcelona, procurem Zaragoza. Barcelona, nunca ouviram falar.

terça-feira, agosto 19

Fazer um artigo sózinho (2)

A aprendizagem de um amtemático tem tudo a ver com uma quantidade: o tempo que somos capazes de dedicar de forma eficiente a resolver um problema. É algo semelhante ao folego de um nadador. Quantas piscinas consegue nadar? Um miudo da escola primária não passa de uns minutos: ou sabe ou não sabe. Um aluno do primeiro ano da universidade deveria ser capaz de pensar uns quinze minutos num problema. Pouco a pouco esse tempo vai aumentando. Começa-se a saber partir o problema em fatias.
O aumento da quantidade (do tempo) provoca variações qualitativas. Os alunos particularmente dotados aprendem a tirar proveito de pensar num problema e voltar a ele no dia seguinte. A solução aparece-lhes com facilidade no dia seguinte. Que fenomenos estão a ocorrer?
- O cerebro está a reorganizar-se, de uma forma até certo ponto semelhante ao que acontece aos músculos de um levantador de peso. A criação de novas sinapses substitui o crescimento das fibras. (PS: Este processo de reorganização do cérebro exige trabalho regular. Não acontece a quem só estuda para os exames.)
- O cérebro está a trabalhar no problema independentemente da nossa vontade consciente.
Despoletar este tipo defuncionamento é o acontecimento mais importante da vida académica de um estudante universitário. Infelizmente, normalmente é substituido pelo queimar de uma fita ou uma bebedeira.

A matemática é ensinada colocando o enfase na importancia do raciocinio dedutivo. Esta forma de pensar é essencial para verificar se o nosso raciocínio é correcto. Mas não é assim que chegamos às soluções. Este caminho, normalmente o estudante tem de o percorrer sózinho. Muitos jovens escolhem a matemática porque está tudo muito bem organizado. Sentem-se seguros. Quando começam a investigar, o espaço a percorrer entre a formulação do problema e a sua solução aumentou um pouco mais. É preciso encontrar novas armas para ganhar um pouco mais de folego e poder transpor distãncias um pouco maiores. E há que encontrar essas soluções sózinho. Quais foram as soluções que encontraram?

segunda-feira, agosto 18

The reluctant fundamentalist

Changez é mais um filho de uma família aristocrata caída na decadência. Jurou trazê-la de volta ao seu explendor. O primeiro lugar da sua classe em Princeton e a mulher por quem se apaixonou abriram-lhe as portas da elite de Manhatan. Estava quase a cumprir a sua promessa quando o 11 de Setembro lhe veio lembrar que tinha nascido em Lahore.
Duas páginas da novela de Moshin Amid na FNAC foram mais do que suficiente para não ser capaz de a largar. Agora vou ver se compro a outra.

Entretanto

podem compor uma novela à vossa vontade.

domingo, agosto 17

Mais do que compreender o mundo, é preciso transformá-lo?

Ron Suskind escreveu The Price of loyalty, a biografia de Paul O'Neill, secretário do tesouro durante a primeira administração de George W. Bush. Entre outras coisas, apresentou provas de que Bush tinha planeado a invasão do Iraque em janeiro de 2001. A Casa Branca não gostou. Uns anos depois descreveu na New York Times Review uma conversa que teve com um alto colaborador de Bush, provavelmente Karl Rove. Disse-lhe esse senhor que individuos como Ron pertenciam àquilo a que ele chama uma comunidade baseada na realidade. Pessoas que acreditam que as soluções dos problemas surgem a partir de um estudo judicioso da realidade discernível.
Suskind concordou.
O tal senhor explicou-lhe que já não é assim que o mundo funciona. Agora somos um império e quando actuamos criamos a nossa própria realidade. Enquanto você estuda essa realidade - judiciosamente - nós agiremos de novo, criando novas realidades, as quais você terá de estudar de novo. Nós somos os actores da história ... e vocês, a todos vocês caberá apenas estudar o que nós fazemos.
Parece que o tal senhor tinha uma visão incompleta acerca do funcionamento do mundo. Como entretanto se provou.
Temos aqui um exemplo particularmente explícito acerca de duas visões do mundo. Alguns procuram começar por o compreender, outros preferem a acção. Mas à misturas interessantes: Karl Marx, que passou a vida a contemplá-lo, escreveu a frase que aparece no título deste post. Sem ponto de interrogação, claro. Karl Rove e George W. Bush estão de acordo, mas acham mais facil manipulá-lo. Será esta atitude um exclusivo da direita? Olhem que não, olhem que não. Mas isso fica para uma próxima oportunidade.

sexta-feira, agosto 15

Fazer um artigo sózinho

Uma das coisas que o Hugo quer fazer antes de morrer. Afinal, o que é que o Hugo quer? Assinar um artigo sózinho? Ter a ideia para o artigo? Pode acontecer uma vez, por um golpe de sorte. Acho que ele quer mais, ou vai querer mais. Vai querer ter ideias para fazer artigos. Ser independente. Será que ele já sabe que quer isto tudo?
Como é que se chega lá? Não é necessariamente a forma mais rápida de progredir na carreira...
Trata-se naturalmente de um novo salto em frente. Parecido com o que é preciso dar para passar de bom aluno a investigador. Já agora: em que consistiu essencialmente esse salto?

quinta-feira, agosto 7

domingo, agosto 3

The Bucket List 2

Que tal em vez de fazer uma lista das coisas que queremos fazer até morrer, fizermos listas das coisas que queremos fazer hoje, esta semana, este mês, este ano, esta década. E olhar de vez enquanto para lá, para ver depois o que aconteceu. Podemos acabar por aprender alguma coisa acerca de nós mesmos. Podemos também começar a ser um pouco mais eficientes.
É claro que é muito menos excitante do que fazer a lista das coisas que queremos fazer até ao fim do próximo ano, altura em que o nosso aneurisma cerebral nos vai fazer bater as botas. Mas nem toda a gente tem essa sorte.

sexta-feira, agosto 1

The Bucket List

O filme que provavelmente inspirou um amigo do Hugo a propor que cada um de nós faça uma lista das coisas que não queremos deixar por fazer até ao dia when we kick the bucket. O dia em que alguns dirão que vão desta para melhor.
Aqui está uma lista que dá azar revelar. Já o Morgan Freeman pensava mais ou menos isso. Que se trata de um exercício que cada um de nós teria muito a ganhar em fazer, não tenho dúvidas. Recomendo.

quinta-feira, julho 24

segunda-feira, julho 21

Cortar o melao em fatias

Sempre acreditei que a melhor estratégia para resolver um problema é parti-lo em vários. Uma variante consiste em substitui-lo por um mais facil, mas que tenha algo a ver com o outro. Funciona sempre, para resolver um problema de matemática, para aprender a fazer um salto mortal ou para ... o que quiserem. Desde que o nosso engenho e arte saiba por onde meter a faca.
Até que se me deparou o seguinte problema. O sr. Hermenegildo zangou-se com o filho há muitos anos. Quer reatar relaçoes com ele. É o que mais quer na vida. A prima Hermengarda, sempre conciliadora, arranjou-lhe o número do telemovel. O Hermenegildo sabe que o filho tem bom feitio. Vai receber bem o seu telefonema. Só falta engolir aquele orgulho absurdo que o sufoca e ser capaz de marcar o número. Ele nem consegue levantar o auscultador. Também nao pode ligar ao filho num estado alterado. Aí o seu orgulho acabaria por traí-lo.
Como é que se corta este melao em fatias?

quinta-feira, julho 17

O avião

Depois de mil peripécias, que maravilha é fazer o check-in. O avião não parte sem nós, agora que já lá estão as nossas bagagens. Podemos passear calmamente pelas free-shops, sabendo que nos esperam umas horas de volta ao útero materno. Que maravilha voltar a ser irresponsável e inimputável. Se o avião cair, não é por minha culpa. Trazem-me a comidinha ao lugar com um sorriso. Só falta meterem-na na minha boca. Mas ainda era bem melhor nos bons velhos tempos em que não havia linhas low cost onde se tem de pagar a sandes. Nem comissários de bordo.
É claro que há os outros, aqueles que não gostam de abdicar da ilusão de controlarem as suas vidas. Os que dizem que têm medo de andar de avião.

sexta-feira, julho 11

A Rainha de Copas

Crescer ao princípio é facil. É a biologia que nos lança desafios todos os dias. Aprender a andar, a falar, a namorar. Enquanto nós nao atingimos um dominio razoavel, embora ilusório, das forças da natureza, os desafios da biologia continuavam sempre: sobreviver aos animais que nos podiam caçar, às secas que nos podiam matar à fome, aos outros humanos que nos queriam escravizar. Até que um frigorífico cheio e uma conta bancária nos permitiram o luxo de vegetar em frente à televisao.
Quando a biologia deixa de nos obrigar a crescer, sociedade toma conta desse trabalho. O emprego, o doutoramento, a tropa. Até que chega o dia em que só continuamos a crescer se nos dermos a esse trabalho. Podemos increver-nos num curso de pintura (funciona por uns meses), fazer psicanalise (talvez funcione por uns anos) ou fazer paraquedismo.
Pois, mas porque é que nos havemos de dar a esse trabalho? A verdade é que a alternativa ao crescimento nao é o nao crescimento, é começar a definhar. A vida é um grande funil. Por muito sucesso que tenhamos o número de possibilidades em aberto tem tendencia para decrescer. Deixamos de poder vir a ser ginastas de competiçao, jogadores de futebol, engenheiros, treinadores de futebol. Porque somos outras coisas, claro. Ter dinheiro para descer o elevador, entrar no automovel e larga-lo no estacionamento do nosso trabalho também significa que cada vez vemos menos pessoas que pensam de outra maneira e têm outros problemas. O tipo de movimentos que fazemos vai sendo também cada vez menor. As celulas do nosso cerebro que vao morrendo nao sao um grande problema. Bem pior sao as sinapses que se perdem por deixarem de ser usadas, e as poucas novas que sao criadas. É aí que começamos a definhar. Mesmo que ao principio nao se veja nada por fora. Somos como a rainha de copas: temos de correr muito, mesmo que seja só para ficar no mesmo sítio...

quinta-feira, julho 10

segunda-feira, julho 7

Crescer


Recuso-me a tal coisa! As jeans de quando andava no liceu ainda me servem. Ou ainda continuo a aguentar-me ao lado dos miudos no ginásio. Ou pelo menos o meu carro anda mais do que o teu. Crescer identifica-se a cair nas armadilhas em que caíram os nossos pais. A começar a ficar igualzinho ao pior lado deles. A envelhecer.

A estratégia da negaçao nao se aguenta por muito tempo. Que tal reinventar a palavra? Afinal crescer nao tem nada a ver com aquelas cicatrizes que às vezes a vida nos inflige e nos torna um pouquinho mais amargos. Cresecer afinal é bom. É saber mais. O suficiente para cair nas armadilhas em que caíamos a década passada. Mas será que aquelas em que caímos agora sao assim tao diferentes?

E afinal, qual foi a última vez que alguma coisa mudou em nós? Para melhor.

domingo, julho 6

If You Meet the Buddha on the Road, Kill Him!

Um excelente livro sobre crescimento pessoal. Para quem estiver interessado. Nem sequer tem muito a ver com psicoterapia.

sábado, julho 5

Crescer

Como é que a nossa vida cresce? Como é que se mede esse crescimento? Pergunta a Sofia. Será que nós crescemos? Claro que sim, até ao fim da adolescência. Depois, a maior parte do tempo, só envelhecemos. Porque desistimos de crescer. Durante alguns anos podemos distrair-nos vendo os nossos rebentos crescer. Julgamos que crescemos como eles. Mas esse é o tipo de crescimento que compartilhamos com os vegetais.
Medir aquilo que crescemos ao longo da vida adulta é muito facil. Bastam os dedos de uma mao. Nem sequer é obvio que vamos precisar de todos os dedos.

quinta-feira, junho 26

Futebol e Borboletas

Com certeza que sim, meu caro Joao Pinto e Castro, mas apesar de tudo, ainda existe a estatistica. Podemos fazer previsoes e depois ver quem acerta um numero razoavel de vezes. E essa a grande vantagem do futebol sobre a economia. O primeiro e um toy model da segunda. Podemos fazer previsoes mais vezes e ver os resultados mais depressa.
Muita gente comparou quatro treinadores de sucesso:Mourinho, Rijkaard, Mancini e Grant. Mourinho ganhou dois campeonatos, mas tinha muito dinheiro. Rijkaard ganhou la Liga e a Champions. Mancini ganhou tres escudetos e Grant quase ganhou varias coisas. Foram todos despedidos. Mundo cao. Pela logica dos resultados, nao sao assim tao diferentes.
Eu discordo desta ultima afirmacao, mil vezes repetidas nos jornais. Afinal Mourinho na terceira epoca escolheu um plantel bastante reduzido e quando houve uma serie de lesoes, Abramovitch puxou o tapete, nao o deixando ir buscar reforcos que teriam provavelmente feito toda a diferenca. Rijakaard tem um passado de grande jogador que impos respeito durante alguns anos As estrelas do Barca, mas nunca mostrou mais nada. Quando o adjunto Ten Cate se foi embora, foi o que se viu. O primeiro escudeto de Mancini resultou de uma decisao judicial no fimdo campeonato, que se propagou aos dois campeonatos seguintes. Grant pegou na equipa de Mourinho com a pre epoca ja feita, nao lhe mexeu muito, e aquilo resistiu ate ao fim da epoca.
Agora seria a altura de fazer a prova dos nove, ver o que estes senhores sao capazes de fazer nos seus novos clubes. So que a economia veio em socorro do futebol. Ninguem apostou em tres destes senhores. Afinal, parece que sempre existe alguma logica no futebol.

terça-feira, junho 10

Puro Sangue, raça lusitana

O dia da Raça

Senhor Presidente, o que é que isso quer dizer?

Já agora, ouviu aquele senhor que diz que Viana do Castelo não se pode comparar a Viana do Alentejo, mas tão só a Viena de Austria?
e que lembrou que el rei fulano de tal dormiu uma vez lá na terra? e que repetiu esse tipo de idiotices durante vários minutos?
O que é que ele estava lá a fazer?

Ahhh...
E é assim que vai aproximar os jovens da política?

Porque é que esta vez o Pinto da Costa não se safa?

Quando vi Pinto da Costa na SIC ainda pensei que ele se podia dar a volta ao castigo da UEFA. A lata com que este senhor "reinterpretou" os acontecimentos é realmente impressionante.
Pinto da Costa afirmou que o Conselho de Justiça da FPF lhe ia dar razão. Tal faria o juri d'appel da UEFA voltar atrás na sua decisão de afastar o Porto da liga dos campeões. Mas Pinto da Costa está a fazer bluff. Se não estivesse, tinha pedido ao Conselho de Justiça que tratasse o assunto com o urgência. Não o fez. Como tal o juri d'appel não vai mudar a sua posição.
Dirão alguns: mas se o Conselho de Justiça deliberar antes da decisão do Tribunal Desportivo Europeu, este tribunal ainda poderá levar em conta a sua decisão. Não é bem assim. Este tribunal não se pronuncia sobre matéria factual mas apenas sobre algum erro processual das deliberações da UEFA. Que pretende Pinto da Costa com tudo isto? Conseguir que o Euro e as férias do verão dêem tempo aos sócios do Porto para se habituarem à ideia.
Caro Jorge Nuno, os sócios do seu clube veneram-no. Já está perdoado. Mas para a próxima, vai ter um pouquinho menos crédito. Ganhe mais três campeonatos e tudo será esquecido. Se for capaz. Antes da era Mourinho o Porto passou três anos sem ganhar um campeonato. quando Mourinho partiu deixou tanto dinheiro em caixa que o Porto pode passar a ter orçamentos iguais à soma dos orçamentos do Benfica e do Sporting. Perdendo trinta milhões de euros com a decisão da UEFA, de forma directa e indirecta, as coisas vão mudar.
Que fique bem claro que em Portugal o clube mais bem organizado teve quase sempre a melhor equipa de futebol e o controle da arbitragem. Não fazer batota era dar mostras de não amar o clube acima de todas as coisas. É por isso que é especialmente importante acabar com a corrupção no futebol. Porque demasiadas pessoas honestas cruzaram a linha uma primeira vez por causa do seu clube. E uma segunda por outras razões.

sábado, junho 7

Lembram-se do Poborsky?

Os checos são o nosso grande rival. Dava jeito que os suiços se safassem com o 0-0.

Lembram-se do Paolo Rossi?

Com menos partidas nas pernas, Deco é o jogador que está em melhor condições para explodir neste europeu.

quarta-feira, junho 4

Não! Não! Não!

Não se lembram que da outra vez eu também não tinha pago a viagem ao Brasil àquele senhor arbitro que até nunca foi à minha casa.
Foi a agência de viagens que mandou o bilhete lá pró Futebol Clube do Porto e nós pagámos por engano.
Mas isso até nem aconteceu porque eu até já devolvi o recibo à Cosmos e até já me devolveram o dinheiro, carago!
Penso eu de que!

domingo, junho 1

Parabéns Manuela!

Quando eu era miúdo não seriam de esperar grandes proezas atléticas de alguém acima dos quarenta. Em compensação um político só podia ter aspirações sérias a partir dos cinquentas. A televisão quer pôr todos aqueles que não são modelos fora da ribalta. Afinal não é assim tão poderosa. Agora temos uma avó com a idade de Harrison Ford a liderar um partido político.
O grande problema da deslocação de apoiantes do PS para o Bloco de Esquerda é o espectro da renovação do Bloco Central. Com a MFL o problema é um pouco (só um pouco) menos grave.

sexta-feira, maio 30

Não adianta

Durante séculos foi proibido dissecar cadáveres. Quantas vidas se perderam devido a este interdito idiota? Agora é sobre as células estaminais que se procura exercer um tabu. Não interessa se essa investigação podia vir a curar doenças como Parkinson e a diabetes. Outros valores mais altos se alevantam. Os líderes religiosos parecem não querer aprender nada com os erros do passado. Acontece que é impossível na sociedade globalizada de hoje brincar à inquisição por muito tempo, mesmo que a rebaptizemos com um nome mais apelativo. O supremo tribunal brasileiro autoriza a investigação utilizando células estaminais. Curiosamente, a igreja católica brasileira resolveu ter juízo. Os países que mantiverem o interdito vão abdicar de desenvolver esta nova e lucrativa indústria. A Grã-Bretanha já percebeu isso.
Repete-se esta rábula mais uma vez (via Que treta!).

terça-feira, maio 20

John William Waterhouse - Hylas and the Nymphs, 1896

segunda-feira, maio 19

O sr. Fritzl e os seus vizinhos

Referi aqui um artigo de um austríaco sobre a sociedade austríaca, que deu depois origem a uma longa polémica no quase em português. Será que a cativeiro de Elisabeth Fritzl podia ter sido evitado se os seus vizinhos prestassem um pouco mais de atenção ao que se passava? A Helena acha que não. É difícil provar que alguém tinha razões para suspeitar de que se passava algo estranho e se calou. É pouco provavel que essa pessoa o admita.
Podemos no entanto exercitar o nosso bom senso. A Elisabeth foi violada durante vários anos pelo seu pai. Nunca se queixou a ninguém? Nunca emitiu sinais que a permitissem identificar como sendo uma criança em perigo? Fugiu de casa. Ninguém se perguntou porquê? Ninguém falou com ela sobre o assunto? A mãe é apresentada como sendo uma mulher que viveu toda a vida aterrorizada pelo marido. Sabe-se agora que na semana em que a neta se deslocou ao hospital estava de férias em Itália. Passava todos os anos uma semana de férias sem o marido no estrangeiro. Ao que parece a sra. Fritzl gozava de um grau de autonomia pouco compatível com a imagem que temos dela.
Fala-se muito contra a bisbilhotice. Ao mesmo tempo que as vendas das revistas cor de rosa continuam a aumentar. Não são só os dentistas que as compram. Melhor seria que todos nós assumamos o nosso lado negro. Eu pratico sistematicamente uma certa forma de bisbilhotice. Gosto de andar informado somo como evoluem os meus sobrinhos adolescentes e outras pessoas em posições de mais fragilidade. Não suspeito de nenhum caso de pedofilia mas conheço bem demais uma série de padrões que se estabeleceram em gerações anteriores e a sua tendência para se reproduzir. Uma vez por outra intervenho. Umas vezes de forma directa e relativamente agressiva, para aí uma vez de três em três anos. Outras de formas mais subtis. Arrisco-me a cometer erros imperdoaveis, a contrair responsabilidades pesadas, a criar inimizades inconvenientes. Acho que não tenho o direito de não o fazer. So far so good. Se existisse algum senhor Fritzl na minha família, acho que ele não se safava.

domingo, maio 18

São Jorge e o Dragão

Os descendentes de Felix Klein

Faz agora 130 anos que Felix Klein completou a sua tese de doutoramento. Um acontecimento raro na época. Foi o único aluno de doutoramento dos ilustres Julius Plucker (coordenadas) e Rudolf Lipschitz (funções). Klein distingui-se pela sua célebre garrafa, pelo seu programa para relacionar a teoria dos grupos com a geometria e pelos seus 58 alunos de doutoramento. Um feito único. Eu sou um dos mais de 30.000 descendentes do sr Klein. Em média cada descendente do sr. Klein teve um pouco mais de três alunos de doutoramento. Ou seja: a cada duas gerações (de doutorandos) o número de descendentes do senhor Klein multiplicou-se por dez. Em 130 anos chegámos aos 30.000. Se os matemáticos se continuassem a reproduzir a esta velocidade dentro de 130 anos existiriam 1000 milhões de descendentes do sr. Klein. Como nem todos os matemáticos são descendentes do Felix, todos os habitantes da terra seriam matemáticos.
Sempre que o crescimento anual de uma grandeza é uma percentagem constante dessa grandeza estamos perante um crescimento exponencial. A certa altura torna-se explosivo. Não pode continuar. É a velha história do sábio que inventou o xadrez para ocupar as horas de tédio do seu marajá. O marajá ofereceu-se para lhe realizar um desejo. O sábio pediu-lhe que colocasse um grão de trigo na primeira casa do tabuleiro, dois na segunda, quatro na terceira e assim sucessivamente. O marajá perguntou-lhe por que não lhe pedia algo mais valioso. A verdade é que não existe trigo suficiente neste planeta para satisfazer este pedido.
Sendo assim, por que é que os matemáticos reagem tão mal quando o número de matemáticos para de crescer numa determinada parte do globo? Eles, mais do que ninguém, deviam compreender o crescimento exponencial. O que é que nos leva a querer sempre crescer ao nível da população, do produto nacional bruto, dos gastos de energia, apesar de sabermos que as coisas não podem continuar assim indefinidamente?

Clicando na figura vai-se parar ao Mathematics Genealogy Project. O matemáticos que por aqui passarem podem procurar lá a sua árvore genealógica. É mais do que uma simples curiosidade.

sábado, maio 17

Les Nymphes et le Satyre - William Bouguereau, 1873.

Medicina e globalização

Dezenas de milhares de portugueses perdem o emprego por causa das deslocalizações das fabricas de texteis, calçado e componentes automoveis. Nada se pode fazer, é o sacrossanto mercado. Quando os oftalmologistas perdem 0,005% da sua cota de mercado para a mesma globalização, um governo atento desvia verbas para garantir que tal não acontece. Mesmo que continue a ser mais barato ir a Cuba, com avião e tudo.
Ficamos agora à espera da Junta de Freguesia que envie para a India três senhoras à espera de uma prótese auditiva há dois anos e da Camara que pague a meia dúzia de municipes os tratamentos dentários a que nunca teriam direito cá no burgo. Por um terço do preço, na Costa Rica. Nesse dia acabam-se as listas de espera no Serviço Nacional de Saúde.
As ideias que expresso neste post parecem-me razoáveis e não especialmente originais. É possível encontrar nos artigos de opinião dos nossos jornais de referência as opiniões mais dispares. Por que é que ninguém manifestou até agora uma posção vagamente parecida com esta?

quinta-feira, maio 15

terça-feira, maio 13

Nota para o dia das eleições

As regras são para os outros...
Mais um ponta do iceberg. Por isso mesmo, não posso deixar que o Socrates tenha maioria absoluta pró ano.
Votar em quem? Talvez bloco de esquerda, se não estiverem com mais de 10%.

segunda-feira, maio 12

Manuela Ferreira Leite e os outros (2)

[...] esta semana houve a entrevista de Manuela Ferreira Leite a Judite de Sousa na RTP. Tudo foi bizarro no tratamento televisivo da entrevista, de tal maneira que todos se aperceberam de que havia qualquer coisa pouco habitual. Não me lembro de nenhuma [entrevista], nenhuma, que tivesse sido feita quase do princípio ao fim com um grande plano, um enorme plano do rosto de Manuela Ferreira Leite. Durante grande parte do tempo, o rosto nem cabia no ecrã, de tão próximo estava o olhar da câmara. Isto é objectivo; é só comparar as entrevistas.

Eu percebo muito bem a intenção do realizador. Não havia ruga, veia, movimento do olhar que não enchesse o ecrã, e o mais cruel dos planos escrutinava aquele rosto para lhe mostrar a fragilidade. É o mais violento dos olhares que a televisão é capaz, aquele que não permite que nada escape, que desapareça toda a reserva do corpo na sua parte mais exposta, a face. Aquele plano era todo um programa, tinha como objectivo mostrar uma mulher velha e cansada, com rugas, com o tempo na cara. Mostraria o mesmo em quase toda a gente, menos nos modelos de plástico que passam por homens e mulheres e que nasceram ontem com a pele limpa dos bebés. Mas não era toda a gente que estava ali, era Manuela Ferreira Leite. Aquele grande plano, excessivo e brutal, é todo um programa, insisto. Não há inocência.

Aquela face desprovida de qualquer defesa, exposta ao escrutínio quase incomodado dos espectadores, transmutou-se numa beleza muito especial, muito rara - a da verdade. É que debaixo daquela luz não há mentira que não se perceba, nem verdade que não se agigante.

Quando se lamenta muito a crise dos valores na nossa sociedade, aquela mulher frágil como todos nós, a quem chamam "de ferro", faz a melhor das pedagogias - a do exemplo.

Por tudo isto, agradeço aqui ao realizador da entrevista da RTP que não sei quem é. Fez a melhor das propagandas, mais rara, a mais difícil de fazer, a que não se encomenda, a que não se coreografa, a que não se imita. Fez da fragilidade uma força imensa. Não sei se chega para ganhar eleições no PSD, estou até mais convicto que chega mais facilmente para ganhar eleições no país, tão grande está o divórcio entre o partido e o país, mas estou de bem com esta maneira de ser. É o que mais faz falta.

domingo, maio 11

quinta-feira, maio 8

Manuela Ferreira Leite e os outros

Pedro Passos Coelho lança uma frase e depois vê se pega. Será que ele acredita em alguma coisa? Santana Lopes já conhecemos, obrigado. Ontem Manuel Ferreira Leite lembrou-nos que ainda existem pessoas que fazem política e que têm convicções. Que até sabem do que falam. Que uma tal pessoa seja candidata à liderança do partido mais sem vergonha do nosso espectro político é uma daquelas ironias da vida que não sei explicar.

Californication

Às segundas na RTP2, pelas 23h10m.

quinta-feira, maio 1

A suspeita

Com aquele orçamento e aqueles jogadores, qualquer lateiro teria feito o que ele fez?
É claro que sim, meu caro João Pinto e Castro, desde que tivesse sido Mourinho a programar a pré-época e a estabelecer o modelo de jogo. Pró ano tiramos as dúvidas.

The Most IMPORTANT Video You'll Ever See

Oftalmologia e Globalização

Depois de a Globalização roubar ao Dr. Pedro Nunes, insigne bastonário da Ordem dos Médicos, umas dúzias de clientes, esta senhora resolveu invadir o Hospital do Barreiro.

segunda-feira, abril 28

domingo, abril 27

O caçador desempregado 2

A Hermengarda estava insatisfeita com o Prudêncio. Chegava a casa e só lia o jornal. Enquanto ela fazia a comida, limpava a casa e tratava dos filhos. Educá-los era especialmente complicado porque ele não era um grande exemplo para as crianças. Ainda a desautorizava uma vez por outra quando ela os mandava para a cama às dez horas ou os mandava arrumar os brinquedos.
Foram a um centro de aconselhamento para casais. O Prudêncio pouco tinha a dizer. Resistia como podia às invectivas da Hermengarda, fazendo por não incentivar a sua ira. A psicologa pediu-lhes que fizessem um diário durante a semana onde especificavam que tinham feito a cada hora e o grau de satisfação que obtiveram de cada actividade. É claro que o Prudêncio só escrevinhou alguma coisa durante os dois primeiros dias.
A Hermengarda acabou por pedir o divórcio. Passou a ser mais facil educar os filhos sem os maus exemplos do marido. Passou a ter algum tempo para ela quando os miudos iam passar o dia com o pai. O Prudêncio parece ter tido mais dificuldade em se adaptar à vida de solteiro. Quando se convenceu que a decisão da Hermengarda era irreversível, começou a sair com uma colega de escritório. Mudou-se rapidamente para casa dela, voltando aos velhos hábitos.

sábado, abril 26

sexta-feira, abril 25

Depuralina

A depuralina voltou hoje ao mercado. Foi encontrado um nexo causal entre o uso deste suplemento alimentar (!) e as reacções alergicas encontradas. Como ocorreram poucos casos, tudo ficou na mesma. Terão decidido bem as autoridades sanitárias?
Não acho que haja razões para proibir a venda deste produto mas é ridículo e irresponsavel classificá-lo como suplemento alimentar.
Várias correntes da medicina alternativa defendem que o nosso organismo vai acumulando detritos ao longo dos anos em vários orgãos. Para além da gordurinha. Consideram que o intestino grosso está cheio de matéria fecal branca em estado de pós putrefacção, que o fígado e a vesicula biliar acumulam detritos que prejudicam o seu funcionamento. Acham que se nos livrarmos desses detritos o funcionamento desses orgão melhorará consideravelmente e isso se reflectirá na nossa vitalidade e na nossa capacidade de resistir às doenças. A medicina oficial é ceptica em relação a estas afirmações. A medicina não se preocupa por aí além com a nossa saúde. Normalmente concentra-se mais em eliminar os sintomas das nossas doenças, da forma mais lucrativa possível para as grandes empresas farmaceuticas. É natural que não se preocupe com o tipo de questões referidas acima.
Como é que se podem eliminar esses resíduos? Existem vários processos de limpeza que envolvem dietas e a ingestão de alguns produtos que devem ser ingeridos com certos cuidados, como o psyllium. Um laxante particularmente forte. Qualquer corrente séria de medicina alternativa que proponha este tipo de tratamentos aconselha que a pessoa em questão comece por adoptar uma alimentação mais saudavel, tendencialmente vegetariana, que inicie um processo de desintoxicação do organismo. Só depois se parte para uma segunda fase onde se procura eliminar os tais resíduos. Se se saltar a primeira fase podem surgir todo o tipo de problemas.
A empresa que comercializou a depuralina pegou num processo de limpeza com várias fases, eliminou as primeiras, que não são apelativas para o grande público, e apresentou-o como um novo processo de perda de peso. Não se deu ao trabalho de explicar aos consumidores os riscos envolvidos porque a tal não estava obrigada, uma vez que tinha conseguido que o produto fosse apresentado como um suplemento alimentar. Também não se deu ao trabalho de referir que a medicina oficial não reconhece qualquer valor a este tipo de produtos. Esta empresa age assim porque pode. E nós deixamos.