sexta-feira, fevereiro 13

O Príncipe e o Mágico

Era uma vez um príncipe que acreditava em tudo menos em três coisas. Não acreditava em ilhas, não acreditava em princesas, não acreditava em Deus. O seu pai, o rei, disse-lhe que tais coisas não existiam. Como não existiam princesas nem ilhas no reino do seu pai, nem qualquer sinal de Deus, o príncipe acreditava no seu pai.
Um dia o príncipe saiu do palácio e viajou até ao reino vizinho. Aproximou-se do mar e, para seu grande espanto, avistou ilhas e estranhas criaturas que não ousou nomear. Quando procurava um barco para tentar visitar a ilha mais próxima, avistou um homem que passeava na praia envergando um manto.
São verdadeiras aquelas ilhas? -- perguntou o jovem príncipe.
Claro que são verdadeiras! respondeu o homem do manto.
E que criaturas são aquelas?
Claro que são princesas!
Então Deus deve existir! -- gritou o príncipe.
Eu sou Deus! -- respondeu o homem do manto, fazendo uma pequena vénia.
O jovem príncipe voltou ao seu palácio tão rápido quanto pôde.
Então voltastes! -- exclamou o rei seu pai.
Vi ilhas, vi princesas, vi Deus! -- respondeu o jovem príncipe.
O rei não se deixou afectar pela exaltação do príncipe:
Não existem nem ilhas, nem princesas, nem Deus!
Eu vi-os!
E como estava vestido Deus?
Deus usava um manto...
E podias ver os seus sapatos?
Não...
O rei sorriu. Esse é o uniforme dos mágicos! Foste enganado...
O princípe abandonou o palácio e voltou o mais rápido possível ao reino vizinho. Voltou a encontrar o homem do manto.
O meu pai, o rei, disse-me quem o senhor é. Não me voltará a enganar! Agora sei que as ilhas e as princesas não são reais porque o senhor é um mágico!
O homem do manto sorriu.
No reino do teu pai existem muitas ilhas e muitas princesas. Só não as vês, meu rapaz, por causa do feitiço que o teu pai te lançou!
O príncipe voltou a casa imerso nos seus pensamentos. Olhou o seu pai, o rei, nos olhos e perguntou:
Pai, é verdade que não és um rei, mas sim um mágico?
O rei sorriu. Levantou-se e deixou que o seu manto lhe tapasse os pés.
Sim, meu filho, sou apenas um mágico.
Então o homem da praia é Deus?
O homem da praia é apenas um mágico.
Eu preciso de saber a verdade, a verdade por detrás da magia!
Não há verdade por detrás da magia...
Profundamente infeliz,o jovem príncipe anunciou que não podia aceitar tal situação, só a morte o podia libertar.
O rei estalou os dedos e apareceu a Morte. A Morte permaneceu à porta, mas acenou ao príncipe.
O príncipe estremeceu. Lembrou-se das belas princesas irreais que viviam nas belas ilhas que não existiam. Muito bem. Acho que posso suportar a situação.
Muito bem, meu filho. Tu também, começas a ser um mágico.
The Magus, John Fowles.

28 comentários:

Sofia disse...

E depois, veio o coelhinho... e comeu-o!

on disse...

Quando me contaram esta história não percebi a moral.
Depois explicaram-ma e achei que fazia sentido, mas esquecia-a logo a seguir. Tenho de ver se alguém me explica outra vez.

O Setúbal disse...

A ilusão vital! Há uma peça do Ibsen muito boa sobre isso: O Pato Selvagem!

Sofia disse...

Eu explicava, mas o facto de escolherem sempre elementos do sexo masculino para ilustrar histórias com morais duvidosas não me permite fazê-lo... A não ser mediante contrapartidas (vi umas botas e umas malas tão giras, no shoppping!!) :)

on disse...

Olá Setúbal!
fui ler o enredo da peça do Ibsen à Wikipedia. Pelo que percebi trata-se de uma família cheia de segredos que são desvendados um a um. Fica-se assim a saber a Verdade. Acho que não percebi tudo, nem qual é a moral da peça do Ibsen, mas devo andar lá perto. O que é que falta?

Na história do post também se descobre a Verdade, mas essa verdade é não existir verdade nenhuma. De certa forma parece que a tese defendida na história é a oposta da tese da peça. Não te parece?

Entretanto, acho que esta discussão me ajudou a relembrar qual é a moral da história.

O Setúbal disse...

Pecado!Não se devem ler resumos de histórias: é como comer comida mastigada por outros.
Quanto ao Ibsen: eu vi duas versões da peça. Da primeira vez fiquei convencido que a Verdade liberta seja qual for o preço que pagarmos. Na segunda versão era claro para mim que a Verdade era destrutiva e que só a ilusão era vital. A moral desta coincide com a história do mágico.

on disse...

Pecado por pecado, que tal alvitrar a hipótese de a moral da história ter a ver com a constatação de que a Verdade não existe?

Afinal está lá escrito:
"Não há verdade por detrás da magia..."

Sofia disse...

Lamento desiludir-vos, meus pequenos. A Verdade existe e... surpresa!: É apenas uma.

Então, agora, a Verdade não existia!! Que absurdo!
Vocês inventam cada uma... :)

O Setúbal disse...

On, acho que tens razão: é essa a moral ( que se autorefuta ) da história. Tem em comum com a peça de Ibsen a hostilidade contra a verdade.
Sofia, compartilha connosco essa verdade!

on disse...

Setúbal:

porque é que a moral da história se auto-refuta?

A verdade pode ser objecto da hostilidade de uma peça de teatro?

É claro que à primeira vista a moral da história não faz sentido. A quem interessa uma história cuja moral faça sentido? (demasiado depressa)

Que tal um exemplo? Podíamos voltar a um dos temas preferidos da Sofia: a discussão sobre como se lida com as mulheres. Podíamos substituir mulheres por pessoas. Não fazia diferença.

Discutia-se aqui se os pobres homens podiam desenvolver uma estratégia para lidar com as mulheres ou se todas as mulheres eram tão diferentes que todas as teorias desse tipo estavam condenadas ao fracasso. Há uma verdade e um dos lados está correcto e o outro errado?

Sofia disse...

:)
Setúbal, fá-lo-ia de bom grado, não soubesse eu que não estão preparados para saber...

ON, há uma Verdade. Indiscutivelmente. Mas nehum dos lados está errado. O erro só acontece quando se deixa de acreditar que ela existe, ou que se acredita que não pode ser outra, diferente daquela que se encontrou.
(Bolas, estes comprimidos às cores são mesmo bons!)

Sofia disse...

* correcções:

Nenhum, em vez de nehum
e
"(...) ou QUANDO se acredita que não pode (...)"

O Setúbal disse...

"Não há verdade por detrás da magia"
E tu interpretaste, correctamente, como não existindo a verdade de todo.
Agora, a frase acima é verdadeira ou falsa? Se é verdadeira há uma verdade,logo é falsa. Se é falsa há também uma verdade.
Quanto à verdade ser objecto de hostilidade numa obra teatral: vê a peça e não leias mais resumos!

on disse...

Sofia,
às vezes é preciso ter a coragem de passar por tomar comprimidos às cores:)
As nossas intuições podem estar lá muito perto, embora superficialmente não façam sentido.
Troquemos Verdade por realidade e verdades por modelos.
Cada pessoa tem um tipo de modelo de um certo aspecto da realidade. Esse modelo não é arbitrário. Não escolhemos o nosso modelo. Não o modificamos quando queremos. Por vezes ele muda, mas não por uma acto directo da nossa vontade.
Uns modelos são mais ricos do que outros. Quando o nosso modelo não é suficientemente rico, temos um problema.
O nosso modelo é a nossa verdade.

on disse...

Setúbal,
não posso concordar com o teu argumento de redução ao absurdo.
Poderias argumentar (suponho que não o farás) que então a verdade seria a existência de vários modelos. Aquilo que escrevi não pode ser considerado uma descrição da realidade mas apenas mais um modelo. Um metamodelo. Não podemos fazer mais do que construir modelos, uns de forma mais consciente do que outros.

A minha pergunta acerca da possibilidade da verdade ser objecto de hostilidade é puramente gramatical. Como tal não me podes mandar ver a peça:)

O Setúbal disse...

On,
não percebi.

on disse...

Setúbal, o teu argumento é do tipo do paradoxo de Russel:

Seja X o conjunto dos conjuntos que não pertencem a si próprios.
Se X pertence a X, então X não pertence a X.
Se X não pertence a X, então X pertence a X.
Mostramos assim que existe uma contradição na Teoria dos Conjuntos Intuitiva.

Parece que estás a apresentar um argumento logico para provar a existência da Verdade. A existência da Verdade não deveria ser uma verdade empírica?

O paradoxo de Russel não arrumou com a Teoria dos conjuntos.
Aqui passa-se algo de semelhante.

Que se afirma quando se afirma a existência da Verdade?

Depois acabo o argumento. Para já, fico-me por aqui.

O Setúbal disse...

On,
De facto a minha argumentação é uma redução ao absurdo. Mas não tem a mesma forma que o paradoxo de Russell (se tivesse também não fazia mal).
Não percebo porque é que a existência da Verdade deva ser uma verdade empírica uma vez que a Verdade é uma noção lógica. Mas de facto o que meu argumento prova é que não se pode provar a inexistência da verdade com proposições do tipo "não há verdade" e afins. Não é nada de especial e ainda há um universo de argumentos a discutir.

on disse...

Que queres dizer com "a existência da verdade"?

Estarás a afirmar a tese:

"Dada uma situação qualquer onde haja uma controvérsia, se os presentes forem suficientemente argutos e honestos, acabarão por chegar a um acordo. Qualquer outro grupo de pessoas igualmente competentes chegariam à mesma conclusão."?

Se para ti "existência da verdade" significa acreditar na tese referida acima, não me parece que seja um valor logico. Se significa outra coisa, explica de que se trata.

Não tentei provar a inexistência da verdade. Limito-me a afirmar que a tese referida acima é apenas um modelo da realidade. Um modelo que tem sido muito útil. Ainda é suficiente para as necessidades?

Carlos Albuquerque disse...

Aquilo a que chamamos verdade é apenas uma ideia de adequação de um modelo nosso à realidade. Ora está por demonstrar que os nossos modelos se possam adequar perfeitamente à realidade. Nesse sentido a verdade pode não existir.

Sofia disse...

Quais comprimidos às cores!!??!!
Isto, sim, é terapêutico!
Ver-vos comunicar em código é fascinante.
Continuem, continuem... :)

on disse...

Sofia,
estão em causa duas teses sobre a natureza da realidade.

Simplificando as coisas, a primeira afirma que a realidade nos é de alguma forma acessível. Cada aspecto da realidade que nos interesse será compreendido a médio prazo.

O segundo afirma que diferentes pessoas constroem diferentes modelos da realidade. Não escolhem qual é o modelo que constroiem. A sua capacidade de lidar com sucesso com a realidade é directamente proporcional à riqueza do seu modelo.

Um exemplo:

algumas pessoas são muito boas a observar as outras. Percebem a sua linguagem corporal e compreendem por tentativa e erro se a maneira como se comportam está a ser bem recebida. Para ela cada pessoa é um conjunto de detalhes único. Não precisam de uma teoria para lidar com as pessoas, nem saberiam como usá-la.

Outras pessoas não são tão boas a observar as outras. Não conseguem ler todos os pequenos detalhes mas a sua intuição dá-lhes uma visão global das coisas. Para eles é facil formular algumas hipoteses sobre como as pessoas funcionam e a sua maneira de melhorar a forma como lidam com as pessoas é testar essas hipóteses e substitui-las por outras quando não funcionam.

Umas vêem as arvores, outras a floresta. Ninguém vê a floresta e as arovres sem alguma desfocagem. As pessoas que defendem a tese dos modelos estarão em princípio mais perto de aceitar que existem estes dois tipos de pessoas. Quem acredita na primeira hipotese, nem por isso.

Continuo a falar em codigo?

on disse...

Pois, pois.
Mas para que é que isto serve?

Bem, os dois modelos definem paradigmas de comunicação diferentes.

Se existe a Verdade, podemos aspirar a conhecê-la. Ao interagir com os outros, tentamos legitimamente enfiar-lhes a nossa verdade pelas goelas a baixo. É isso que eu faço aqui hà quase quatro anos. É isso que eu ando agora a tentar deixar de fazer. Tentar.

Se só existem modelos, só podemos aspirar a criar as condições para que o nosso interlocutor enriqueça o seu modelo.

Como é que isso se faz?
De momento sou mais um aprendiz de feiticeiro que acabou de meter os pés pelas mãos.

O Setúbal disse...

On,
Por "existência da verdade" quero dizer que em lógica usamos expressões como "função de verdade"," tabela de verdade" e outras expressões semelhantes, o que faz da "verdade" um termo lógico.
Nada disto é incompatível com a tua tese se a lógica for uma ciência empírica. Mas o ónus da prova pertence a quem defende tal tese.
Carlos e On, introduzir a noção de modelo nesta discussão não acrescenta nada porque esta noção sofisticada pressupõe a noção de verdade.Se usamos uma miniatura de avião num túnel de vento para construir um avião, descobrimos várias proposições como verdadeiras e outras como falsas acerca desse modelo e também sabemos algo sobre a diferença entre esse modelo e o avião real, mesmo que desconheçamos o valor de verdade de um número muito maior de proposições acerca dessas diferenças. Finalmente quando o avião se estatela no chão sabemos se é verdade que o modelo foi útil!

on disse...

Setúbal,
tem-se gasto muita tinta a discutir a existência do Deus cristão. Mais valia poupar alguma para discutir a sua unicidade. É o Deus dos teólogos-filosofos que se reduz a uma primeira causa o mesmo que o Deus antropomorfico de Abraão?

"a=>(avb)" é uma verdade logica.
"ontem não choveu" é uma verdade empírica.
As linguas naturais são instrumentos pouco precisos. Devemos ter cuidado em não atribuir a uma verdade as propriedades da outra.

A verdade logica existe?
Nem sei se esta pergunta faz sentido. De que falas quando falas da Verdade?

Não quero meter palavras na tua boca.

on disse...

PS:
É claro que existem uma série de domínios onde todos acabamos por chegar a um acordo. Afinal, existem as ciências exactas.

O Setúbal disse...

On,
"A verdade logica existe?" É o "existe" que te causa problemas?

O Setúbal disse...

On,
Em relação ao sentido unívoco do conceito de verdade: essa questão é muito importante. De momento só posso chamar à atenção para a utilização da matemática nas ciências naturais em que partindo de premissas, umas empíricas outras formais (estas em geral implícitas), obtemos conclusões que conservam o valor de verdade. Este resultado seria estranho se o valor de verdade não fosse idêntico nos dois tipos de premissas.
Mas tens razão que há aqui mais coisas a discutir.