terça-feira, janeiro 17

Os Albuquerques

O Padre Manuel Antunes foi um homem extraordinário e um professor de filosofia excepcional. Lamentava o Lino que um programa da TSF sobre este jesuíta se limitasse a discorrer sobre questões políticas menores, ignorando o seu pensamento e sua obra.
Por uma vez na vida, vou defender o José Barata Moura. Não se falou do pensamento de MA porque...
esse pensamento não existe. Mas então se ele era um homem extraordinário...
Não há contradição. A filosofia é uma flor muito frágil. Nenhum país onde a Inquisição prosperou teve uma tradição filosofica significativa. Um dos primeiros actos da República foi extinguir as faculdades de teologia das universidades portuguesas, integrando os seus professores nas faculdades de filosofia. Uma medida cosmética com consequencias trágicas.
O regime salazarista nunca estimulou ou sequer tolerou qualquer tipo de reflexão criativa. Bem aventurados eram os pobres de espírito (e só esses). Não existiam em Portugal até há umas décadas atrás cursos de Filosofia mas apenas cursos de Ciências Histórico-Filosóficas. Nestes cursos cultivava-se quando muito o comentário dos grandes autores, o pensamento original estava excluído à partida.
O Padre Manuel Antunes fez o melhor que pôde, e a mais não é obrigado. Perguntava um historiador durante um período menos bom da nossa história. Onde estão os Albuquerques? Deveria ele antes perguntar onde está a sociedade que permite aos melhores de entre nós serem novos Albuquerques.
Não pretendo com este post queixar-me seja do que for. Apenas fazer uma pequena contribuição para que olhemos para o nosso passado com lucidez e sem complexos.

9 comentários:

/me disse...

"Apenas fazer uma pequena contribuição para que olhemos para o nosso passado com lucidez e sem complexos."

Andamos bem necessitados...

Politikos disse...

Infelizmente não sou do tempo do P.e Manuel Antunes. Nem conheço a sua obra que parece vai ser publicada pela Gulbenkian. Mas levarei este «post» em linha de conta na sua análise. Uma reflexão interessante, tal como a descoberta deste blogue.

Orlando disse...

Os seus escritos são certamente optimos livros de texto.
Sei de casos de homenagens semelhantes feitas em vida dos homenageados, que acabaram por ser mais um embaraço do que outra coisa. Os proprios não insinuaram nque queriam ser homenageados.

lino disse...

O que eu quis dizer é que não faz sentido realizar um programa de rádio sobre a figura X onde apenas se ouve dizer que X é excepcional e que deixou uma marca importante em toda a gente... Muitos poderiam então tomar o lugar de X.

Orlando disse...

Lino, tens toda a razão!
A culpa não é tua nem do Padre Manuel Antunes. Ele não merecia que lhe fizessem aquela maldade...

Anónimo disse...

Já lá vão uns anos assisti a uma aula do Padre Manuel Antunes. Presença ascética e espiritual. Olhar magnético, inteligente. Pensamento: nulo. Gisele Bündchen do pensamento filosófico. Civilização, valores, angústia, deriva espiritual, grandes homens... turgidez de conceitos, zero de argumentos.

Orlando disse...

Pois...
é possível que fosse pior do que eu pensava.
Temos um amigo comum que que diz muito bem dele.

Anónimo disse...

Foi ele que me levou lá. A assistência também não ajudava nada: lembro-me dum barbudo de óculos da esquerda façanhuda que passava o tempo a interromper o Padre para lhe lembrar que o que contava eram as condições em que os homens trabalhavam e que o cristianismo era uma religião do sofrimento. O Padre, do canto atrás da porta (devia ser a sua querença), atirava a cabeça para trás, dilatava as narinas e respondia que não, que era uma religião do prazer. Há quem goste destes diálogos.
Tenho mais esperança na nova geração de filósofos com os seus desejos impotentes (Desidério Murcho) do que na turgidez espiritual do Padre.

Orlando disse...

Fazer Filosofia em Portugal hoje em dia é tão dificil como era fazer matemática há quarenta anos. Apesar de começar a haver umas pessoas activas pelos padrões internacionais, são ainda muito poucas. As limitações actuais no recrutamento de docentes universitários tornam quase impossível atingir uma massa critica mínima nesta disciplina durante a próxima década.