quinta-feira, janeiro 12

Falemos então de Fé

Muito se tem falado de fé neste blog. Gosto de ler os posts da Maria da Conceição sobre o assunto. O CA até costuma dizer que para ser ateu é preciso ter muita fé. Chegou a vez de eu meter a minha colher. O que é a fé? o que não é?

Vamos a um exemplo. Um casal tem dificuldade em ter filhos. Infelizmente um problema cada vez mais actual. Não há nenhum impedimento claro, mas a verdade é que já tentaram várias técnicas e nenhuma resultou. Completaram recentemente trinta e cinco anos. O casal também enfrenta um desafio profissional sério. Acabaram os dois o mestrado e as suas universidades dão-lhes quatro anos para terminar o doutoramento. É a sua fonte de subsistência que está em jogo. Estes dois problemas interferem um com o outro. O stress resultante do desafio profissional interfere com o problema de fertilidade. O stress resultante de abandonar o desafio profissional também interferiria com o problema de fertilidade. O tempo e a atenção que gastaram a tratar do problema de infertilidade complicou-lhes a carreira académica.
Depois de uma longa meditação o casal conclui que o problema do doutoramento depende essencialmente deles, o problema da fertilidade não. Decidem deixar o problema da fertilidade nas mãos de Deus e dedicar todas as suas energias ao doutoramento durante dois anos. Nessa altura, reavaliarão a situação. Quem sabe, se se descontrairem um pouco até o problema se resolve por si próprio...
Será que vão conseguir seguir este plano? De que depende o seu sucesso? Eu diria que depende da intensidade da sua Fé. Só a sua Fé os pode salvar. Só a sua Fé os pode manter focados no objectivo e lhes pode manter a angústia a um nível suportável.
Esta Fé não tem de ser entendida no sentido cristão do termo. Pode-se ter esta Fé sendo ateu. Não é claro que todos os cristãos a tenham. Pode-se reescrever tudo o que eu disse até agora sem envolver qualquer terminologia religiosa.

Vamos a um segundo exemplo. Eu diria que é uma manifestação de Fé ser capaz de discutir abertamente todos os temas, sem fugir às questões. Ter a Fé de acreditar que nada de verdadeiramente importante em nós poderá ser destruido se abrirmos as defesas numa conversa sobre aquilo em que acreditamos. Quem não a tem também não é capaz de pensar livremente. Ser-lhe-á difícil encontrar soluções para os seus problemas. É um homem de pouca Fé...

Acreditar na virgindade da mãe de Jesus, na divindade de Jesus, ou no mistério da santíssima trindade são manifestações de Fé? Contribuem de alguma forma para que nos possamos ajudar a nós mesmos e ao próximo nos sentido de viver em maior harmonia as nossas vidas? Não serão manifestações do medo de sermos excluidos do grupo?
É preciso muita Fé para acreditar em algumas coisas racionais e ter força suficiente para as concretizar. Quando formos capazes de tratar destas, poderemos então preocupar-nos com as outras...
Ousar expressar a Fé de uma das duas maneiras referidas acima é perigoso. É preciso ter uma estrutura mental sólida e as ideias bem organizadas. É preciso ter uma Fé poderosa e entendê-La.

Como podemos fortalecer a nossa Fé?

21 comentários:

on disse...

Embora não pareça, o OMWO é um rapaz cheio de FÉ.

MC disse...

Dei-te um arremedo de resposta, no jardim, mas tu aqui, colocas algumas questões bem claras, que merecem respostas sérias.

A questão do casal, que me "toca" particularmente.
Sim, há momentos da nossa vida e situações, para as quais nos sentimos verdadeiramente impotentes. A fé será um caminho. Independentemente, de ter alguma expressão religiosa, como tu dizes.
Aqui, coloco a fé no patamar da confiança "absoluta". Sinto-me completamente impotente, esmagado pelo meu problema, a dor é imensa, mas "entrego-me", confio. O problema pode não ter a solução que eu à partida desejava. Mas o meu estado "activo" de entrega, libertou-me.

ON, muito difícilmente, tu saberás alguma vez o que foi "milagre" ou foi normal acontecer humano. Aliás, a fé que professo, é num Deus que misteriosamente está presente na nossa história. E não anda continuamente a "sacar da cartola" milagres para nos convencer a aderir a Ele.

Quanto aos dogmas, fica para mais tarde (tenho trabalho)

O Setúbal disse...

Proponho a seguinte definição de fé: a convicção da verdade de determinada proposição como resultante de um acto voluntário.
Virtudes presumptivas de tal definição: aparente neutralidade relativamente à validade de tal acto; relativa (à "fé") transparência dos termos usados na definição; parece-me capturar o essencial de posições famosas (ou infames) como o "creio porque é absurdo" de Tertuliano (eu sei que o homem nunca escreveu isto!), a "vontade de acreditar" do William James, o salto de Kierkegaard ou a aposta de Pascal (não estou a afirmar com isto que as posições são equivalentes).
Acrescentaria ainda que não incluo num acto de fé o apostar com muita (finita) convicção numa determinada proposição.

on disse...

Eu distinguiria quatro "aspectos" da fé:

1. A convicção da verdade de determinada proposição como resultante de um acto voluntário.

2. A convicção da verdade de determinada proposição como resultante de tal nos ter sido ensinado como verdadeiro.

3. A fé como forma de mover montanhas. Maiores ou mais pequenas.

4. A fé como o meio de suportar o insuportável.

Como é que se articulam estes quatro aspectos da fé?

Faz sentido falar de fé nos quatro casos?

Sublinhei o ponto três por me parece que é este que permite estabelecer um diálogo entre várias crenças e entre ateus e crentes.

on disse...

Para quem eventualmente não saiba, convém lembrar que eu sou um ateu empedernido.

O Setúbal disse...

Julgo que o crente não aceitaria os pontos 2,3 e 4, excepto se "fé" estiver a ser utilizada no sentido do ponto 1.

on disse...

Deixemos então a palavra ao crente!

MC disse...

Presente!

Aceito os teus quatro pontos. Juntar-lhe-ia outros. Mas não hoje que estou uma m*****.

Posso copiar um pedaço do teu post e transplantá-lo para o jardim?

on disse...

Claro que podes mas...
...se fores acusada de heresia não te queixes:)

MC disse...

Obrigada.
Acusações dessas como todos os dias ao pequeno almoço.

sofia disse...

A natureza sabe o que faz. No dia em que nos convencermos disso, teremos muito mais de meio caminho para as respostas percorrido.
A substistência de um casal, não depende do doutoramento. A realização, sim. Não se pode ter tudo. E querer justificar uma indecisão pessoal com o conceito de incompatibilidade, dá imenso jeito. Mas não resolve. Quando se tem certeza de alguma coisa, quando se trabalha verdadeiramente num determinado sentido, as coisas acontecem.
Na parte da teologia, não me meto. Respeito e sou respeitada. É tudo o que me interessa.

on disse...

Sofia,
se te cair um meteoro em cima não te desvies. Nem sempre se dá valor àquilo que temos. Cada um escolhe realizar-se como quer. Para uns será mais importante o doutoramento. Para outros, ter filhos. Cada um sabe de si.

É bem possível que caso não pudesses ter filhos, fosses capaz de ultrapassar esse facto mais facilmente que outras pessoas.
Mas nunca iremos saber com certeza absoluta se seria assim ou não, pois não?

sofia disse...

Se conseguir desviar-me, fá-lo-ei, seguramente. Respeito imenso a natureza, mas respeito-me a mim também.
Pois se para uns é mais importante o doutoramento, que não queiram ter a outra parte, em simultâneo. Claro que cada um sabe de si. É precisamente essa, a minha opinião.
Mas uma coisa de cada vez, e sem vitimizações. Para os que têm capacidades extraordinárias, excelente; terão muitas coisas em simultâneo. E terão, supostamente, a capacidade para gerir o que conseguiram. Para os outros... Conheçam-se.
Não iremos, não. Mas eu sei. Com uma certeza absoluta. A mesma que tive em muitos momentos da minha vida e que me fez ter o que tenho hoje. A mesma que me faz sentir que - apesar de nem tudo ter corrido assim tão bem - não há espaço para o arrependimento, daquele que consome.

on disse...

Só se sabe se as capacidades existem (ou não) depois de concretizadas. A fé ajuda na concretização.
E assim voltamos à teologia...

OMWO, continua em anacorese.
Não leias isto.

Manuel disse...

Passei por aqui... e decidi mandar umas "postas", com vossa licença.
Cá na minha teologia, a fé näo significa esperar de Deus soluçöes para os meus problemas; é mais saber que nas minhas alegrias ou derrotas perante eles, näo estou sozinho.
Näo significa ter certezas racionais sobre temas irracionais (tratem de meter aqui as "verdades da fé"); é mais silêncio ante o mistério.
Näo significa a esperança de uma recompensa futura que compense os sofrimentos presentes; é mais trazer o futuro esperado ao presente.
E entäo como se pode definir a fé? Talvez como a consciência plena de um sentido.

M disse...

E eu pergunto: Como ter sempre a lucidez suficiente para saber o que decidir e fazer?

sofia disse...

As respostas estão todas e sempre dentro de nós. É preciso saber que a verdade de hoje, pode não ser a de amanhã e aprender a viver com isso. O resto... O resto é a vida, a correr lá fora.

Luna disse...

Pessoalmente, já tive motivos mais do que suficientes para ter perdido a Fé, e no entanto, apesar de, actualmente, a minha vida estar "a andar para trás" encontro-me numa fase de grande Fé. Ou seja, trocando em miúdos, a minha Fé tem muita Lógica. Por isso, gosto de ver documentários científicos, principalmente arqueológicos, a minha verdadeira paixão. E fico espantada quando verifico que muito daquilo que se pensava ser apenas metáfora ou lenda, baseia-se em factos históricos. Não vou falar da Bíblia porque sei que há "n" evidências da existência concreta das cidades que lá estão referidas, mas lembro, por exemplo, que até ao século XIX Tróia era considerada como uma lenda vinda dos tempos gregos. Até que um dia, um menino, chamado Schilling, se não estou em erro, levou a história da queda de Tróia a sério e foi procurá-la na Turquia, seguindo os dados que a lenda grega contava. E num belo dia, encontrou-a ...

Luna disse...

Claro que o Schilling já não era menino quando foi procurar a cidade :)

Luna disse...

É o que dá falar de cabeça. O nome do arqueólogo que descobriu Tróia é Schliemann. Vi agora na net.

on disse...

Esse caso foi mesmo assim, Luna.
outros casos foram diferentes. :)