sábado, janeiro 7

Caridade (2): Um conto científico

(começou aqui)

... And thats it! Terminava triunfante John Mawhinsky, enquanto esperava que o Lino Lopes trouxesse os cafés. A admiração, o espanto e a apreensão afunilavam-se na garganta do Luís, emudecendo-o, quando o cotovelo de um orangotango se insere entre as suas espáduas, esmagando a sua face contra a barriga flácida do John. Os óculos magoam-lhe as gengivas. Sorry, Luís! forgot your coffee! Na mesa em frente, duas alunas sorriem. A terceira cora intensamente. Aquela mão gorda e forte volta a agarrá-lo pelo cachaço, levantando-o.
O Luís foi buscar o café que lhe comprava o direito de se sentar à mesa. O Lino tinha-lhe deixado uma nesga para meter uma cadeira. A figura gigantesca do Lino eliminava qualquer hipótese de ele poder continuar a conversa com o Professor Mawhinsky. O John, desde há cinco minutos. E que grandiosos cinco minutos!
O John aterrou em Lisboa no domingo, de passagem para o Porto. O Lino convidou-o para dar um seminário. As más línguas dizem que o Lino apenas pretendia impressionar os colegas. Agora parece que já nem aulas de jeito consegue dar.
A conversa com o John correu muito bem ao Luís. Mawhinsky foi logo direito ao assunto: are you still interested in the stability problem? O Luís aproveitou logo para lhe explicar a dificuldade que o preocupava. Estava grato por não ter que mendigar uma ajuda ao John e saboreava as expressões de ódio e desespero que se iam alternando na face do Lino. Quando chegaram à porta do café, já o John tinha percebido o problema e contemplado o atacador do sapato direito durante trinta segundos. Enquanto o Lino foi buscar os cafés, o John explicou-lhe que this is not really like KAM theory, you know, but...
...And thats it!

O John não só tinha encontrado um caminho para resolver o problema como tinha proposto uma vasta generalização do mesmo. A generalização era fundamental para compreender o quadro natural em que o problema se punha.
Vou ter de o convidar para co-assinar o artigo? Se não o convido...
A ideia não lhe agradava mesmo nada. O Luís foi salvo do seu dilema pelo cotovelo do Lino.
Acabaram todos de tomar o café. O Lino, visivelmente mais bem disposto, foi levar o John à Gare do Oriente. O Luís ficou no café a rever exaustivamente a ideia do John. Tudo batia certo. Havia que transcrever a ideia no papel!
Quando meteu a chave na fechadura do gabinete foi atravessado por uma acesso de raiva. Correu para o carro, passou três sinais vermelhos e dirigiu-se para a Expo. Aquele sacana vai pagá-las! Só a admiração que sentia pelo Mawhinsky podia explicar como é que ele tinha caído na aldrabice. Era obvio que a série inicial não convergia. A sugestão do John não valia um chavo. Se o Lino não lhe tivesse dado a cotovelada, ele teria proposto ao Mawhinsky que fizessem juntos o artigo. À frente de toda a gente. Depois não podia voltar atrás. Era assim que o velhadas mantinha a reputação, arranjando maneira de jovens brilhantes como ele lhe fazerem artigos.
Quando saiu do carro, deu de caras com o Lino. Chegou atrasado.

(continua)

7 comentários:

lino disse...

Que situação tenebrosa! Mas olha, porque não mudas Lino Lopes para Leandro Lima? :)

on disse...

Lino Reis,
eu não controlo a dinamica do conto. A historia, as personagens e os seus nomes são-me impostos pelos constrangimentos resultantes da ideia inicial. E onde ela já vai! Eu limito-me a registar as imagens que me vão passando pela cabeça!

on disse...

"Que situação tenebrosa!"

Lino,
a minha inspiração são os Notices da American Mathematical Society...

Um pouco romanceados mas, é essa a ideia, não é?

Mas a cena do comboio aconteceu mesmo.
E felizmente o tipo chegou mesmo tarde.

MaDi disse...

on

este conto é do tipo que só quem está na área é que acha piada.

on disse...

Madi,
agradeço a sinceridade!
Quem não arrisca, não petisca.
Nem todos os posts funcionam.
Podias dar o benefício da dúvida à terceira parte?

...

Será que os da área acham piada?
E os outros?
É que é suposto a blogonovela ter mais quatro episódios. Podiam poupar-me umas figuras tristes.

Pelo menos eu estou a divertir-me...

MaDi disse...

Se te estás a divertir é o que interessa!

;)

/me disse...

Eu sou mais ou menos da área... E estou a adorar!
Quero mais e mais!