sexta-feira, junho 2

Tolerância versus...

Temos realmente de manter-nos unidos, caso contrário seremos todos enforcados à vez.
Benjamin Franklin.
A tolerância de uma sociedade é um dos muitos bens extremamente frageis que tomamos por garantidos desde que não sejamos afectados pela sua falta. Um dia descobrimos que há cidades dos Estados Unidos onde se paga multas (cada dia que passa) por ter filhos fora do casamento, que somos homossexuais, que afinal por muito que nos custe é preciso fazer um aborto, que o nosso acesso a métodos de inseminação artificial é dificultado por razões "éticas", que mudámos de casa ou de país e passámos a ser alvo de alguma discriminação racial, que somos discriminados por causa da nossa escolha religiosa.
Se juntarmos todas as minorias que sofrem de algum tipo de intolerância, obtemos a maioria. Acontece que muita gente não quer abdicar do direito de se imiscuir na vida dos outros. E há sempre razões tão nobres para o fazer! Ou mais simplesmente quer evitar alguns incómodos.
Naquele momento da nossa vida, até tinha dado jeito que a sociedade fosse só um bocadinho mais tolerante, é claro, mas já nos esquecemos disso. Se possível, esquecemos rapidamente que naquele dia, àquelas horas, fizémos parte de uma minoria. Mas da próxima vez, pode ser pior.
Por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

29 comentários:

/me disse...

De facto, ser discriminado não é nenhuma garantia de não se vir a discriminar outros. Por vezes, até pelo contrário. Há quem, para se sentir incluído, creia que tem de excluir. Para haver um nós, tem de haver um eles.

De resto, não acredito que se possa considerar a sociedade, ou a maioria desta, como o somatório de minorias vítimas de intolerância. Não acho que esse deva ser um facto de união. Acredito que a via de resolver as intolerâncias e alcançar uma sociedade mais justa é a educação. Para o conhecimento, e contra a estupidez.

on disse...

"De resto, não acredito que se possa considerar a sociedade, ou a maioria desta, como o somatório de minorias vítimas de intolerância."

Obviamente que não.

"Acredito que a via de resolver as intolerâncias e alcançar uma sociedade mais justa é a educação."

Não sou ministro da educação. O que é que eu posso fazer? O que é que TU podes fazer?

Tolera-me a mim, que eu tolero-te a ti. Se não te preocupas com a descriminação de que é alvo um teu semlhante, porque é que achas que ele se vai dar ao trabalho de se mexer quando tu tocas o sino?

/me disse...

Preocupar-me, preocupa-me. E luto, com as minhas armas, contra algumas formas de discriminação - aquelas que reconheço (é muito fácil não nos apercebermos).

Não quero mudar o mundo. Ou antes, quero. Mas nos entretantos, vou tentando mudar o meu mundo, e o das pessoas que me rodeiam.

E em termos de educação, julgo fazer também a minha parte, na medida que mo permitem.

Que mais propões?

on disse...

Se cada um só lutar contra as formas de descriminação que o afectam (as outras são dificeis de reconhecer) acabamos todos enforcados :)

/me disse...

Há uma diferença entre as formas de discriminação que nos afectam e aquelas que reconhecemos.

Pelo menos eu, não me tomo assim por tão egocêntrico.

CA disse...

On

Parece-me que a regra não pode ser apoiar automaticamente qualquer minoria que se considera discriminada. Se assim fosse, não deveríamos apoiar aquele novo partido na Holanda?

on disse...

CA,

Nem sempre temos de ser equilibrados.
Ás vezes o importante é apontar numa direcção que está a ser esquecida.

/me,

não és nada egocêntrico. Só um poucochino...
comodista?
... mal se nota:))

/me disse...

On, comodista? Não, sou capaz de ir bem longe para defender aquilo em que acredito. O problema é que não defendo aquilo em que não acredito ou sobre o qual não estou informado. Eu acho que sim, que temos de ser equilibrados. Apontar numa direcção errada pode ter custos enormes.

on disse...

/me,

dedico-te o post:)
Afinal, ele foi escrito a pensarem ti.

O post é um convite à tolerãncia.

Ou melhor, à solidariedade.

Ou melhor, ao egoismo esclarecido.
A fonte de todo o progresso civilizacional.

Porque é que uma mulher que se preocupa com o problema do aborto se irá solidarizar com as tuas causas? Se calhar vais precisar dela para assinar uma petição, para participar numa manifestção, para votar ao teu lado num referendo. Para te apoiar numa adopção.

A tua atitude em relação às preocupações dela vai condicionar a reacção dela, não é?

(para continuar mais tarde)

on disse...

Falando claro: se a maioria dos homosexuais não mostrar qualquer solidariedade com a luta pela liberalização do aborto, é provavel que uma maioria de pessoas que apoiam uma liberalização do aborto passem a ignorar a luta dos homossexuais.

Na vida, temos de fazer alianças.
Não devemos comprometer os nossos princípios mas é útil olhar para potenciar aliados, colocar-nos na posição deles e tentar ver as coisas pelos seus olhos.

sofia disse...

Que discurso tão insensato, ON!
Cada um deve defender aquilo em que acredita. Quais alianças... Isso é para politicos. Voltamos à velha questão: Se não podes vencê-los, junta-te a eles? As convicções, o que a nossa essência nos diz, não se compra a troco de razão ou de obtenção de maiorias. A dignidade não está no que se diz. Está no que se faz.
E toda a gente pode fazer o que quiser da sua vida.

on disse...

Absolutamente!

Algumas vezes as pessoas não têm convicções especias sobre um determinado assunto e tomam a posição mais facil que é não ir contra o que está instituido. É sobre esses casos que eu estou a falar.

[O /me, que está na berlinda, não alinha claramente por nenhum dos lados na questão do aborto. Por omissão, alinha na equipa que está contra. É ele o alvo a atingir:) ]

Também têm todo o direito de o fazer. Mas depois não fiquem indignados se alguém não lhes der tanto apoio nas causas que defendem como estavam à espera.

Há que distinguir aqui dois casos. A posição dos individuos e a posição dos grupos. Os homossexuais enquanto grupo apoiam praticamente todos os outros grupos alvos de discriminações comparaveis. Alinham-se politicamente pelos interesses, e fazem muito bem.

O comportamento das pessoas, vou tratá-lo num próximo post. De forma tão incompreensivel quanto possível...

Tasco de Sta. Catarina disse...

Ao egoísmo esclarecido!
E isso implica, em situações extremas, fazer alianças.E saber distinguir o essencial do acessório.......

CA disse...

ON

Creio que o caminho está muito mais em "colocar-nos na posição deles e tentar ver as coisas pelos seus olhos" do que em fazer alianças políticas à espera de apoios. Se sou capaz de me colocar no lugar do outro sou capaz de ser sensível a muitas coisas que desconhecia, mas apoiar uma causa apenas para que o outro me apoie parece-me uma falta de respeito comigo e com o outro.

on disse...

Sofia,
o que eu estou a dizer é: se há alguém que também está a ser alvo de intolerância que é um teu potencial aliado, tenta colocar-te na posição dele e vê se afinal só não o fizeste até agora por ser mais simples tomar uma atitude "main stream" nessa questão.

/me disse...

On, eu alinho sempre no lado que acho correcto. Se isso não corresponder a nenhum dos lados das discussões estupidamente dicotómicas, é simplesmente azar. Mas não posso ter outra posição que não a ditada pela minha consciência. E não espero que ninguém me apoie porque o apoio. Acho perfeitamente concebível, por exemplo, que um transsexual ache que a homossexualidade é pecado. Isso não muda em nada a minha posição relativamente nem a uma, nem a outra coisa.

Em termos práticos isso será o melhor para mim? Talvez não. O melhor para o mundo? talvez não.

Mas trocar os ideais por mero sentido prático também não é bom para o mundo. Nem para mim. Nunca conseguiria viver assim. Para mim, isso é cinismo puro.

Isso quanto ao meu comportamento pessoal. Quanto ao comportamento do "meu" grupo, neste caso concreto de pessoas homo/bissexuais, não autorizei ninguém a representar-me.

/me disse...

"Mas depois não fiquem indignados se alguém não lhes der tanto apoio nas causas que defendem como estavam à espera."

Neste caso em concreto, não tenho ilusões, logo não fico indignado. :)
Quanto muito posso achar mal e protestar. Mas não tenho tido surpresas.

on disse...

:)

on disse...

Não vez mesmo nada de nada que se aproveite no meu raciocínio?

sofia disse...

Eu vejo, eu vejo!
Uma oportunidade excelente para criticá-lo. :)

/me disse...

Para além do que a Sofia disse? Eu entendo o teu raciocínio, mas acho que partimos de formas distintas de ver o mundo. Acho que eu valorizo mais a utopia e tu mais o sentido prático.

Eu acho que a utopia, a longo prazo, acaba por ser fundamental. Que as pessoas são guiadas pela mesma.

Tu achas que o sentido prático dá resultados, e a utopia não alimenta ninguém.

Isto simplisticamente.

Interpretei bem?

Neste caso, não vejo mais mérito à minha forma de ver o mundo que à tua. São distintas. Qual a melhor? Sei lá. :) Só que não posso deixar de ser quem sou, nem pedir-te que deixes de seres quem és. ;)

Abraço.

on disse...

água mole...

on disse...

...& convem notar que uso o tal sentido pratico na defesa de causas que não me beneficiam directamente nem muito,nem pouco,nem nada.

Teresa Durães disse...

Posso Voar por Aqui (li metade dos comentários... só) e perguntar se por acaso virão o filme Europe de Lars Von Trier (espero não ter escrito mal o nome)?

A mensagem era muito simples (e tem a ver com esta questão). Falava sobre a 2ª guerra mundial.
Se bem recordo era um jovem americano descendente de alemães que vai à Alemanha depois da Guerra.
Nem alemão nem americano nem europeu.

O que és então?
- Eu, eu? Não sei, não pensei.
- Pois, não tomas uma posição, não tens opinião. E enquanto o fazes, morrem nações.

qq coisa como isto. morrem de todos os lados.

Penso que a única questão aqui é o respeito pelo outro sem julgamento. Enquanto não há violação dos direitos fundamentais

(e no caso do aborto, na minha opinião exclusivamente, é uma questão de deixar morrer mulheres em clínicas ilegais ou evitar e legalizar)

Por isso, tolerância, educação (a educação não é exclusiva da escola, por favor) e respeito pela natureza (humana e animal/vegetal etc)

Saio Voando...

sofia disse...

Por falar em sinos e Lars Von Trier, parece-me que já ninguém acredita na pureza de sentimentos, como meio de obter um milagre. Eu sei que "Breaking the waves" é apenas um filme. Mas eles existem. Se acreditarmos. Se pensarmos e agirmos de acordo com o que sentimos, genuninamente, e não de acordo com o que nos dá mais jeito.

on disse...

...eu não vi.

sofia disse...

Claro. É preciso ter alguma sensibilidade, para o perceber...

Anónimo disse...

Nice colors. Keep up the good work. thnx!
»

Anónimo disse...

I say briefly: Best! Useful information. Good job guys.
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