Só tive televisão em casa a partir dos sete anos. Tenho uma vaga ideia dos tempos antes da caixa que mudou o mundo. A vida era por vezes mais enfadonha mas havia mais tempo para ler um livro, falar com os outros, estar a sós com a nossa pessoa. A telefonia não se apoderava de nós com tanta facilidade. Acontece ir a casa de alguém e a televisão estar sempre ligada, mesmo sem ninguém a estar a ver. Serve para evitar o silêncio e espantar algum pensamento ligeiramente perturbador.
A historia da donzela sem braços foi criada por alguém que presenciou o primeiro moleiro a ter um moinho de vento e as mudanças que esse moinho provocou na sua vida e na vida dos que o rodeavam. Exprimiu-se da única forma ao seu alcance, uma forma simbólica. Podemos aprender alguma coisa com ela. O senhores Fernando Ulrich e António Borges passaram a maior parte da vida a olhar o mundo como um objecto que tinham de manipular. Acabaram por deixar a parte mais terna do seu ego perder as mãos. A parte que dá valor às coisas, a todas as pequenas e grandes coisas. O autor da historia viu acontecer algo de semelhante ao moleiro. A outra escala. Estes senhores não são capazes de saborear aquilo que ganharam bem ou mal.
Só conseguem sentir-se bem a ganhar mais dinheiro ou a tirar o dinheiro aos outros. Quando conseguem que os outros se sintam miseráveis, conseguem sentir-se um pouco menos miseráveis eles próprios. Pelo menos melhor durante algum tempo.


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