quarta-feira, julho 4

O caso do cheque sem cobertura

O Malaquias comprou um anel de diamantes ao Sr. Miranda por dez mil euros. Satisfeito com a venda, o Sr. Miranda achou que afinal sempre podia oferecer um automóvel à sua filha. Pagou-o endossando o cheque ao Sr. Matateu. Que também endossou o cheque a um vizinho. Finalmente o Sr. Meireles foi ao banco descontar o cheque. Entretanto o Malaquias tinha fugido para o Brasil com a namorada.
Dois dias depois realizou-se uma reunião entre todos os comerciantes que tinham sido burlados. O Sr. Miranda propôs que cada um dos nove comerciantes que tinham endossado o cheque pagasse mil euros ao Sr. Meireles. Cada um dos dez perdia mil euros e não se falava mais no assunto. Iam todos para casa, quando o Sr. Matateu propôs que fossem ao café da esquina comemorar o acontecimento. Se todos vocês trabalham com margens de lucro de vinte por cento, como eu, ganharam mil euros com esta história! Beberam um copo à saúde do Malaquias, a quem desejaram um brilhante futuro no Brasil.

Havia realmente razão para comemorações?
Qual é a moral da história?
Que consequência práticas podemos retirar dela?

17 comentários:

hermes disse...

Se todos vocês trabalham com margens de lucro de vinte por cento, como eu, ganharam mil euros com esta história!

Pela descipção da história parece-me que a margem de lucro inicial era 100% para cada um (os 10 mil euros era tudo lucro, subentendido pela subtração feita :-), mas, graças ao generoso Malaquias, cada um teve uma margem de lucro de apenas 20%, o que é uma óptima razão para festejar...

on disse...

Cada um dos comerciantes era suposto lucrar 20%. Assim lucrou 10%. Nesse sentido perderam mil euros cada um. Mas o sr. Miranda só comprou o carro à filha porque tinha vendido o anel. Nenhuma das transacções teria ocorrido se o Malaquias não tivesse dado o pontapé de saída. Neste sentido a accção dele criou lucro para toda a gente. E ele também lucrou. Existe realmente um paradoxo.
Algo que necessitade ser explicado.
Volto a isto brevemente.

Alexandre Pierson disse...

Bem, eu não vejo paradoxo nenhum
Cada comerciante ganhou um produto que na realidade vale 8000 euros e cedeu um produto que na realidade vale 8000 euros.

Alexandre Pierson disse...

Ou seja: o prejuizo de cada um foi exactamente de 1000 euros, valor do cheque.
Como diz um bom amigo meu: "Não há cá pão para malucos".

Repercussões filosóficas disto é que já não sei...

on disse...

Caro Alexandre,
não se trata só de um problema de aritmética. Se o cheque careca não tivesse sido passado o Sr. Miranda acharia que não tinha liquidez para oferecer o carro à filha e nenhuma das transações teria ocorrido. È esta a hipótese. Com tal ninguém tinha ganho os 1000 euros.
Não é de Filosofia que estamos a falar mas sim de economia.
Já chegámos a um acordo sobre isto?

Alexandre Pierson disse...

Ok, mas então temos de definir um pouco melhor a palavra "lucro".
De um ponto de vista puramente financeiro, e penso que todos concordam, perderam-se mil euros em relação às expectativas de negócio de cada comerciante: se um cliente honesto tivesse de facto comprado o anel com dinheiro "verdadeiro" (e como podemos saber se isso até não ia acontecer em breve?), o Miranda teria agarrado no dinheiro e comprado o carro à mesma. A situação seria em todo identica à descrita, com excepção do malfadado cheque de 1000 euros.

A única coisa que podemos pois afirmar é que por um lado perderam-se 1000 euros em relação às expectativas (e como podemos nós saber se esses 1000 euros não eram indispensáveis à continuidade do negócio: com o pagamento da renda da loja, empregados,...etc se calhar o lucro de 20% era na realidade break-even para o comerciante),
mas por outro lado esta perda gerou liquidez que permitiu à filha ficar contente.

Temos pois de equacionar esse "lucro emocional" e saber se ele de facto vale 1000 euros de perdas ou não.

Sofia disse...

Desculpem... Não respondo porque não consigo parar de rir... :))

(vocês alimentam-se convenientemente? miúdos!...)

:)

on disse...

Sofia,

Não me atrapalhes o raciocínio!
:)

Alexandre:

Quando um comerciante faz saldos, perde dinheiro? Quando vende grandes quantidades, baixando o preço por unidade, perde dinheiro?
Não perde, pois não?

Nos tempos que correm a política de preços fixos das lojas cria a ilusão de que as mercadorias possuem um valor intrínseco. Parece mal discutir preços. No entanto os preços continuam a ser estabelecidos pelo mercado. A loja X vende os sapatos Y ao preço Z, mas talvez a loja W os venda mais baratos. E a loja X vai acabar por baixar os preços, se não comprarmos.

(aqui falamos de saldos e a Sofia já presta mais atenção...)

Para o Sr. Miranda o anel vale 8000 euros até ser vendido. Por quanto vai ser vendido ele não sabe. Hoje pede por ele 10000 euros. Se o ouro subir, amanhã até pode pedir mais. Mas não existe um valor de venda inscrito na sua contabilidade antes dessa venda ser efectuada.

on disse...

Passou-se um cheque sem cobertura, o burlão ganhou um anel e os comerciantes burlados também ficaram todos a ganhar...

Alexandre Pierson disse...

Ok On, já estou quse convencido embora ainda não tenha percebido bem se estou a ser também burlado ou não. :)

Eu não percebo nada de economia mas sempre soube que tinha coisas destas estranhas, na minha opinião devido ao facto dos diversos conceitos terem uma definição um bocado fuzzy. Por exemplo, falas da "ilusão de que as mercadorias possuem um valor intrínseco." Não é que não tenhas razão, o problema é que assim é dificil fazer raciocínios correctos.

Eu pensei num formalismo que de certa forma me satisfaz mais par este problema, porque "tem balanços nulos no fim".

Seja X o conjunto fechado constituido pelos comerciantes, pelos seus bens e pelos seus familiares.

A história que aqui é contada é que globalmente a X foi subtraido um anel de diamantes, originando assim um conjunto X' "mais valioso" do que o X inicial, o que parece um paradoxo pois foi retirado algo com valor.

Vejamos agora o seguinte:
Se todos os comerciantes soubessem, antes do burlão aparecer, que possuiam algo que o outro desejava, teriam simplesmente oferecido os produtos em causa ao vizinho do lado, em cadeia, e cada um passado um cheque ao primeiro comerciante da cadeia, que deu uma mercadoria sem receber nenhuma.

O sistema resultante seria X''=X'u{anel de diamantes}: dá o mesmo resultado do que por acção do burlão, só que o anel não desapareceu.

Este cenário daria um "lucro" final bem maior do que o cenário com o burlão (a diferença entre os dois cenários é o anel, que poderiam então oferecer à Sofia).

Porque é que os comerciantes não fizeram isto? Porque lhes faltava informação.

Apesar de não ter sido bem o que aconteceu, podemos considerar que o burlão vendeu informação ao conjunto X por um preço justo (o anel), tendo assim todos lucrados.

Em termodinamca, é sabido que a informação possui valor energético (ver a história do Demónio de Maxwell por exemplo na wikipedia). Aqui, parece que informação também é um bem vendável.

on disse...

"Não é que não tenhas razão, o problema é que assim é dificil fazer raciocínios correctos."
É esse um dos grandes problemas da economia. Por vezes foram feitas algumas hipóteses só para depois se poder usar um certo instrumento matemático.
Ainda agora apareceu na Pura Economia
http://puraeconomia.blogspot.com/
um resumo de uma tese de doutoramento sobre economia e matemática com perspectivas demasiado edilicas sobre as relações entre a economia e a matemática.

Não fugindo a assunto: a tua explicação é engenhosa mas vou deixar a minha (muito fuzzy) para um muito próximo post:)

Sofia disse...

??????????!!!!!
:)))

Ok, chega!Conseguiram.
Vamos lá parar com a brincadeira. Podem ver os desenhos animados enquanto comem a sopa. Mas só desta vez!

Sofia disse...

Já agora, estava aqui a pensar...

E o valor do dinheiro, não conta?
Por que motivo se questiona o valor do produto e não o do meio de troca?

(Ok, vou também comer uma sopinha...)

on disse...

Conta sim senhor.
Sofia, não queres escrever o próximo post por mim?

...

Esta rapariga engana-nos...

Sofia disse...

O que foi?!!
Disse alguma coisa com nexo, por acaso?!

on disse...

Foi uma distracção.
Estás desculpada:)

Sofia disse...

Ah, bem!
Já estava a ficar preocupada... :)