domingo, novembro 11

A Desilusão de Deus &

Nunca tinha lido um livro sobre ateísmo. A igreja católica já faz o seu trabalho suficientemente bem feito. Recentemente li dois. Desiludi-me um pouco com A Desilusão de Deus, de Richard Dawkins. Esperava-se que um especialista em evolução utilizasse esta teoria para estudar a religião. Dawkins limita-se a usar o senso comum. Dele, esperava-se algo mais. Ficou-me na memória a frase

Homens bem intencionados realizam em geral boas obras e homens maus cometem actos contra o bem comum. Só a religião consegue fazer com que homens bons cometam as acções mais maléficas sem qualquer remorso.

Bem mais profundo do que o livro de Dawkins é o livro de Daniel Dennett Breaking the Spell: Religion as a Natural Phenomenon. Dennett analisa em detalhe o processo de formação das religiões de um ponto de vista antropológico e evolutivo. As religiões organizadas começam exactamente no momento em que surge a divisão do trabalho. O conceito de meme, introduzido por Dawkins, é utilizado em detalhe para explicar a evolução das religiões.
Quando se fala na sobrevivência do mais forte pensa-se em geral em individuos. A teoria da evolução não se refere a individuos mas sim aos seus genes. Não somos nós que possuimos os genes, somos apenas o seu envolucro mortal. Um meme é o equivalente cultural de um gene. São exemplos de memes canções, receitas de cozinha, cortes de cabelo e teoremas matemáticos. Uma religião é um agregado extremamente complexo de memes. Os memes mais aptos são reproduzidos e sobrevivem. Os outros não. A ideia de Deus e conceito de ateismo são dois memes em competição.

A parte final do livro é dedicada a enfatizar uma série de ideias que valem a pena ser repetidas:

1. A religião é um fenómeno cultural como qualquer outro que pode e deve ser estudado por todos, crentes e não crentes.

2. Os crentes acreditam na existência de um estatuto especial para a sua religião, que a coloca acima da possibilidade de esta ser estudada. Encaram muitas vezes estes estudos como actos hostis contra a sua religião. Os cientistas olham em geral para o estudo das religiões como uma disciplina menor.

3. Num mundo globalizado e turbulento como aquele em que vivemos estudar as religiões usando métodos cientiíicos é algo quase tão urgente como estudar o clima.

4. Ninguém sabe como vão evoluir as religiões. Se perdurarão para sempre ou se definharão dentro de um ou dois séculos.

Mais do que apresentar certezas, o livro levanta questões e discute metodologias de trabalho.

Algum tempo atrás o Helder Sanches perguntava se as religiões eram eternas e inevitáveis. A resposta de Dennet é um pouco mais modesta do que a maioria das respostas dadas pelos vários bloggers: vamos primeiro estudar o assunto a sério. Depois logo se vê.

25 comentários:

CA disse...

Se uma religião for suficientemente resistente para estabilizar e permanecer, será que pode ser considerado sinal (não científico) de qualquer coisa?

on disse...

De que essa religião é um meme bem sucedido.

Alguns clubes de futebol duram há um seculo e parece que vão continuar por aí outro mais. Que podemos concluir daí?

Sofia disse...

Eu tenho, no meu corpo invólucro, um gene modificado.
As mutações genéticas existem e são independentes da nossa vontade.

As religiões vão continuar a existir. Inevitavelmente, enquanto existirem invólucros para elas.

JPC disse...

Completamente de acordo com a humildade e a seriedade intelectual do Dennett. E parabéns pelo blog, muito interessante.

on disse...

E tu, Sofia, finalmente te confessas.

on disse...

Obrigado, JPC!

Alexandre Pierson disse...

A noção de meme é bem anterior a este livro: penso que aparece pela primeira vez no "The selfish gene" (Dawkins) publicado nos anos setenta. Este livro cita aliás abundantemente Jenkins. Qual a relação entre os dois?

on disse...

Caro Alexandre,
é precisamente por ter sido Dawkins a cunhar o conceito que seria de esperar que o ussasse como instrumento fundamental na sua análise da religião. Acontece que não o faz.

Diogo disse...

Tenho o «O gene egoísta» de Dawkins. O conceito de meme é interessante. Onde Dawkins falha redondamente é na teoria da evolução. O neodarwinismo não se aguenta nas canetas. O «relojoeiro cego» é uma miragem absurda.


A VERIFICAÇÃO DE PALAVRAS nos comentários é tão aborrecida...

Sofia disse...

E eu, ON, finalmente me confesso.

Seja lá o que for que isso queira dizer. Mas soa bem.

on disse...

Diogo:
porque é que o neoD não se aguenta nas canetas?

on disse...

A Sofia Acredita.
ou acredita em Acreditar?

A Madre Teresa não acreditava.
Mas Acreditava em acreditar.

Estarei errado?

Diogo disse...

ON: «porque é que o neodarwinismo não se aguenta nas canetas?»

O neodarwinismo explica a evolução unicamente por mutações (erros na replicação do DNA) e selecção natural.

O neodarwinismo é incapaz de explicar a metamorfose – como é que a lagarta se transforma numa borboleta.

on disse...

Donde é que deduziu que o neoD explica a metamorfose da borboleta?
Num site da cool da net com aspecto de ser contra-corrente?
Não devemos acreditar me tudo o que lemos...

Diogo disse...

Tem razão ON, sou demasiado «contra-corrente».

Explique-me você, usando o neodarwinismo, como é que a lagarta se transforma na borboleta.

E não se fique por meias palavras, com expressões vagas. Concretize meu amigo.

on disse...

Trato disso no meu post de hoje.

Hugo disse...

Se há coisa que nunca percebi, é porque é que a teoria da evolução é contraditória com a existência de deus. Nunca percebi porque é que muitos religiosos tentam destruir esta teoria e mostrar a sua falsidade. Acho que o CA concorda comigo.

Hugo disse...

E já agora, daquilo que percebo e conheço, obviamente que a teoria da evolução não é perfeita. Pode até nem estar totalmente correta. Mas acredito que, neste momento, é a que mais respostas consegue dar e portanto é bastante compreensível que seja a actualmente aceite.

CA disse...

Hugo

A teoria da evolução não tem nenhuma contradição com a existência de Deus. Apenas contradiz uma interpretação literal da Bíblia. Mas, de uma interpretação literal da Bíblia até se pode concluir que o valor de pi é exactamente 3.

Hugo disse...

Muito bem. Era o que eu pensava. Mas a minha dúvida mantém-se.
Porque é que há tantos religiosos (nos EUA, parece-me) obcecados com a teoria da evolução. E porque é que existem tantos cientistas que usam a evolução como forma de supostamente chatear os crentes?

É uma dúvida, no fundo, que me assalta algumas vezes. Não consigo mesmo perceber porque é que ciência e religião têm de ser incompatíveis.

on disse...

Hugo,

quem chateia quem?

Os cientistas não andam a dizer aos padres como dar a missa. Por outro lado, há sempre um padre a tentar entrar para uma comissão de bioética. Acha que tem todo o direito de decidir o que é que os bilogos e médicos podem ou não fazer. O que é que é ou não moral na reprodução assistida ...

CA disse...

Hugo

"Porque é que há tantos religiosos (nos EUA, parece-me) obcecados com a teoria da evolução. E porque é que existem tantos cientistas que usam a evolução como forma de supostamente chatear os crentes?"

Uma das funções tradicionais da religião era explicar o inexplicável. Durante algum tempo a vida foi um domínio da religião. Quando a ciência começou a reduzir o domínio do inexplicável os cientistas entusiasmaram-se e os religiosos ficaram nervosos.

Após algum tempo os católicos assumiram uma interpretação mais livre do relato da criação. O essencia é que tudo o que existe foi criado por Deus. Se não criou directamente, criou a natureza e as suas leis de modo a que naturalmente chegássemos onde estamos. Alguns protestantes parecem querer conservar uma interpretação literal. Até aí a coisa não iria mal. O problema foi quando quiseram que a comunidade científica aceitasse a sua interpretação ao mesmo nível da teoria da evolução. Entretanto a hierarquia católica tenta preservar a sua influência no domínio da moral, tentando o mais possível transportá-la para as leis civis.

O que me preocupa não é que a moral religiosa afecte as leis civis (a cultura de um povo afecta sempre as suas leis civis) mas sim que uma minoria hierárquica tente impor essa moral contra o sentir dos próprios católicos e da maioria da população, aproveitando eventualmente a ignorância geral (era o que se ia passando com as leis da reprodução assistida).

Quanto aos cientistas, embora a ciência não trate de Deus, há alguns deles que aproveitam o prestígio da ciência para fazerem passar como mais racionais e até científicos os seus pontos de vista sobre a religião.

Pessoalmente penso que religião e ciência devem ser domínios razoavelmente estanques. O que não significa que as pessoas não estejam nos dois. Significa apenas que não me parece viável resolver definitivamente as questões num campo com o conhecimento que vem do outro campo.

on disse...

"Pessoalmente penso que religião e ciência devem ser domínios razoavelmente estanques."

"São" ou "devem ser"?

CA disse...

Não excluo que o fenómeno religioso seja objecto de estudo científico.

Anónimo disse...

Dei uma vista de olhos na "desilusão de Deus" e fiquei com a impressão que tinha sido escrito por um adolescente zangado por ter frequentado a catequese...nada disso, pelos vistos o tal senhor tem perto de 60 anos.É por estas e por outras que a civilizaçao ocidental vai pelo cano abaixo.
Já agora, todos os indivíduos que elogiam a memética, possuem a mesma mentalidade daqueles que conseguem ver nosso senhor Jesus Cristo numa torrada. cresçam e apareçam...