domingo, novembro 18

(Ciência &) Copyright

Cada vez que vamos ao cinema temos de aturar aquelas imagens super agressivas, em altos berros, defendendo o copyright. Os autores têm direito a receber direitos pelas obras que criaram. Entretanto, continua a greve dos argumentistas em Hollywood. Porque não recebem direitos de autor sobre as novas formas de venda dos seus trabalhos.

Não vou tratar aqui em detalhe a questão do copyright. O Ludwig Krippahl tem-lo feito bastante bem. Vou só falar de um dos casos mais ridículos.

Um cientista produz um artigo de investigação. Depois envia-o para um colega, num formato pronto para ser impresso. O colega envia-o a outro colega, que o lê em detalhe, aceita ou rejeita, propondo eventuais alterações. Se o artigo é aceite, o cientista recebe uma carta com um formulário, que devolve assinado na volta do correio, transferido os direitos de autor para o editor. Cujo único trabalho consiste em enviá-lo para a tipografia e distribui-lo. Os imbecis dos cientistas fizeram todos o trabalho à borla. Depois gastam metade do dinheiro que recebem para fazer investigação a comprar as revistas que produziram, vendidas pelo editor a preços exorbitantes. Que subiram 300% durante os últimos dez anos!

Expliquem-me então:
O que é que as leis do copyright têm a ver com a protecção da produção intelectual?
Porque é que os cientistas são tão parolos?

Será que as coisas vão mudar? A Comissão Europeia está a considerar a hipótese de obrigar a que toda a investigação subsidiada pela Comunidade Europeia esteja obrigatoriamente disponível para todos. Uma vez por outra, Bruxelas abre os olhos. Resta saber quantos milhões de euros é que as grandes editoras estão dispostas a despejar sobre este assunto até o fazer esquecer.

24 comentários:

AD disse...

>Porque é que os cientistas são tão parolos?

Penso que te esqueceste de juntar ao insulto que o trabalho dos cientistas foi pago por dinheiros públicos, mas que os ganhos são entregues de mão beijada e de seguida privatizados pelos accionistas dos editores.

Com um pouco de sorte até ficarão com o copyright para sempre, pois ao contrário dos mortais, cujo o copyright cessa 75(?) anos após a morte destes, as corporações podem viver (teoricamente) para sempre.

Jaime disse...

É natural que os cientistas tenha de fazer algum tipo de cedência dos seus copyrights às revistas. Caso contrário, o cientista entregava o artigo à revista, esta publicava-o, e de seguida o cientista processava a revista por violação do seu copyright e ganhava um milhão de euro.

Mas faz mais sentido uma solução intermédia: o cientista autoriza a revista a publicar aquele artigo num certo número da revista (ilibando assim a revista de violação de copyright), mas retém para si o copyright em tudo o resto.

Anónimo disse...

O Jaime é um cientista.

on disse...

Jaime,
o problema não está na transferencia de copyright. Ao possuir o copyright o jornal passa ter um MONOPÓLIO sobre o artigo. Um monopólio deve ser regulamentado. As editoras usaram esse monopolio para encarecer os preços dos jornais de forma altamente especulativa. Este artigo mostra que existe neste momento um grande movimento contra o status quo:

http://www.nysun.com/article/42317?page_no=1

O assunto não se esgota aqui.

on disse...

Ver também:

http://en.wikipedia.org/wiki/Topology_(journal)

Os cientistas não são todos parolos.

Jaime disse...

Percebo, on. Mas acho que regra geral não se deve ceder o nosso copyright. Imagino que se o fizermos, passaríamos a ter de pedir autorização à editora para darmos uma cópia a um colega ou para pormos o artigo na nossa homepage.

on disse...

Então, e como é que pensa publicar um artigo?

De qualquer forma,isso também é mais complicado do que parece. As editoras cederam. O ArXiv

http://arxiv.org/

contem imensos artigos disponíveis online. Que também saiem nas revistas. Normalmente são colocados lá antes de se ceder o copyright. As revistas compreenderam que não podem fazer demsiado barulho.
O problema é que todos os anos se gastam milhares de contos a pagar rvistas a preços de ouro que podiam ser gastos em pos-docs, melhores condições para estudantes de doutoramento...

Alexandre Pierson disse...

A solução é a seguinte: criar repositórios gratuitos de artigos na internet, com editorial board, referees e tudo o mais que validassem a aceitação de um dado artigo para o dito repositório.

Assim, estes vários repositórios poderiam servir para tudo o que servem as actuais revistas: difusao de artigos, elemento de avaliação de um dado investigador, financiamento pela FCT,...etc.

Em vez de dizer "aceitaram-me um artigo no Jornal X" dir-se-ia "aceitaram-me um artigo no repositório X", ou ainda "convidaram-me para ser editor do repositório X".

Claro que este processo teria de ser inicializado por cientistas de topo que o credibilizassem.

Tudo funcionaria exactamente como funciona actualmente, mas sem os problemas evocados no post.

Pergunto-me se o archivX não é um proto-repositório deste tipo...

.

on disse...

Claro que sim. A questão é:
porque é que ainda não aconteceu?

Há várias razões:
Haverá uma fase de transição. Quem é que se arrisca neste momento a "desperdiçar" um artigo numa revista electronica (os tais repositórios, que já existem).

Um jovem que quer passar a definitivo ou passar a associado não se vai arriscar.

Toda a gente quer ter um artigo na inventiones no Journal of differential equations ou noutra revista qualquer de topo.

Muitos matemáticos importantes são editores dessas revistas e têm muito orgulho nisso.

Passei uma vez uma hora a discutir esse problema com um reputado editor da inventiones. Justificou-me o preço da revista com as despesas de promoção e como uma forma de recuperar o dinheiro que a springer perde com os livros.
Defendeu o status quo com unhas e dentes...

Trata-se de um homem extremamente honesto. É no entanto obvio que as explicações em que ele resolveu acreditar não fazem sentido.

Há fenomenos dificeis de explicar. Eu diria que se trata de um fenomeno religioso:)

on disse...

Uma directoria de jornais electronicos:

http://www.stat.berkeley.edu/users/mathsurv/ejournals.html

Jaime disse...

«Um jovem que quer passar a definitivo ou passar a associado não se vai arriscar.»

Se for um jovem idealista, talvez arrisque. Há quem ponha os seus valores acima da carreira. Infelizmente, não sei se eu seria desses...

Hugo disse...

Gostaria que me respondesse a uma curiosidade (com base na resposta, comento o post- que é sobre um assunto sobre o qual já tinha pensado).

Quais os gastos de uma revista (para além dos gastos de impressão daquelas que ainda saem em papel)? Para além de 2 ou 3 empregados que de facto acho serem necessários, quem mais recebe dinheiro? O Editorial Board recebe? E os referees? Quando o on faz referee, recebe? Ou depende da revista?

Confesso que a história dos artigos me enerva um pouco (permita-me desviar um pouco o assunto). Com muita facilidade se encontram coisas muito mal escritas (será isso por desleixo também dos referee's? será porque estes não recebem?) e coisas muito mal explicadas. É muito difícil para mim, que estou ainda no início, compreender um artigo. E o pior é que fico com a sensação que com umas páginas a mais, com mais explicações, a coisa ficaria muito melhor. Qual é então a ideia de termos tantas revistas, tantos artigos, se depois para cada artigo só meia dúzia de eleitos conseguem compreender, ao fim de muitos anos de estudo para entrar no assunto?

on disse...

Hugo,

Os referees não recebem nada. Nem sequer reconhecimento, porque é um trabalho anónimo. O que me admira é que os artigos mesm assim sejam tão bons...

Como as editoras não querem gastar mais papel, há pressão para os artigos serem comprimidos. Conheço tipos que fazem uma versão do artigo mais longa, com exemplos, para consultar mais tarde e para didtribuir pelos amigos. Ao fim duns anos, o próprio autor pode ter uma certa dificuldade em ler o artigo que escreveu:)

on disse...

Jaime,
se há alguém que não devia mesmo pensar em arriscar, é o aluno de doutoramento e o pos-doc à procura de um primeiro emprego:)

Hugo disse...

"Os referees não recebem nada."Admiro-me de facto como é que, de facto, haja tanto "parolo". Questões de curriculum, provavelmente. Isso explica muita coisa...

"Como as editoras não querem gastar mais papel, há pressão para os artigos serem comprimidos"

Mas isso agora faz cada vez menos sentido, já que está praticamente tudo electrónico!
Acho de facto uma exorbitancia (pelo que li) os preços que as univ pagam (mais de 1000€ nalguns casos!!!), principalmente com tão poucos custos associados.
Portanto deixem-me ver se percebi: as fundações pagam aos investigadores, estes até agradecem por ceder o copyright de borla (querem é publicar), e as fundações depois ajudam as universidades com dinheiro para voltar a comprar esses artigos...

É de facto muito parvo... Assim de repente, para criar uma coisa mais justa, ocorre-me as revistas continuarem a ser pagas, mas que estas paguem royalties aos autores dos artigos e às universidades que os apoiem. E os referees receberem (e poderem também ser penalizados quando dessem barraca). Que capitalista que eu sou :P

"Ao fim duns anos, o próprio autor pode ter uma certa dificuldade em ler o artigo que escreveu:)"

Publiquei um depois do Mestrado. Hoje, quase um ano depois, já tenho essa dificuldade, já que mudei um pouco de assunto! :P

on disse...

Os referees são anónimos. Só muito indirectamente pode entrar para o cv.
Acontece porèm que ser referee dá um certo poder. Mas essencialmente os cientistas fazem o trabalho porque se não o fizessem não existia ciencia...

on disse...

As revistas começaram por ser criadas por universidades, que por vezes vendiam algumas revistas mas essencialmente trocavam revistas com outras universidades. O sistema funcionava com base em meia dúzia de carolas. Depois as editoras entraram no negócio, "mostrando que a iniciativa privada produz o mesmo serviço com mais eficiencia". Depois começaram a subir os preços. Começaram a gerir as revistas de algumas universidades.

Depois surgiu o Math Science Index, que estabelece um ranking das revistas em função do número de citações por artigo. Esta revista privada teve um grande sucesso porque dava aos burocratas numeros que els acham que permite avaliar o nível de um cientista sem perceber nada do que ele faz.

Acontece que nem todas as revistas estão no MSI. As que não estão, estão numa situação problemática, porque são consideradas de segunda.
Não é muito claro como é que uma revista entra para o MSI. Mas tem a ver com dolares, muitos dolares.

É claro que uma editora poderosa mete no MSI as revistas que quiser.
Esta mafia torna neste momento dificil criar uma revista fora das grandes editoras.

Este é um dos grandes obstaculos à modificação do sistema. Este sistem suga uma percentagem bastante alta das verbas gastas em investigação.

on disse...

Que fazer?

Para começar, colocar todos os artigos no arxiv.

Alexandre Pierson disse...

O Terrence Tao (medalha Fields 2006) decidiu começar um novo jornal intitulado "Analysis&PDE" alegadamente para combater o sistema das grandes editoras.

Isto pode ser consultado no blog do Terrence Tao:
http://terrytao.wordpress.com/2007/11/11/analysis-pde/

ou ainda aqui:
http://pjm.math.berkeley.edu/apde/about/journal/about.html

Jaime disse...

«Jaime,
se há alguém que não devia mesmo pensar em arriscar, é o aluno de doutoramento e o pos-doc à procura de um primeiro emprego:)
»

Concordo consigo, on. Um jovem a iniciar-se na investigação e no mercado de emprego, que (só) pense na sua carreira, não deve mesmo pensar assim. Portanto, cabe às pessoas já confortavelmente estabelecidas na comunidade científica e no seu emprego começarem a mudar as coisas. Essas sim, estão em posição de fazerem algum barulho sem grande sacrifício pessoal.

on disse...

Este post é como os artigos de matemática: baixo impacto a curto prazo mas meia vida bastante longa:)

on disse...

Alexandre,
ainda bem que o Tao se deu a esse trabalho. Só tipos como ele têm força para "romper o bloqueio".

on disse...

Jaime, todos nós podemos fazer algo: colocar os artigos no arxiv, por exemplo...

Jaime disse...

«Este post é como os artigos de matemática: baixo impacto a curto prazo mas meia vida bastante longa:)»

Engraçado, on, também dei por isso! Os comentários deste post vão aumentando, devagarinho, mas vão. :-)