I'm sorry. Não posso aceitar o teu convite, não tenho a certeza de viver o suficiente para poder terminar o artigo. O Luís só percebeu as palavras do John quando finalmente reparou nos seus olhos cavados e baços.
Quando me despedi do Lino em Lisboa, tomei a liberdade de insistir com ele para que continuasse os seus trabalhos sobre pequenos divisores. Tenho a certeza que ele te pode ajudar a resolver o problema, Luís.
"O Lino? Depois de todas as humilhações que me fez passar durante o último ano? Nem pensar."
John percebeu que o Luís estava a ser dilacerado por algum conflito. Vocês em Lisboa não discutem matemática uns com os outros?
A farpa do John acertou na mouche. Mas nem isso o convencia. Mawhinsky resolveu recorrer aos grandes meios. Sabes que Arnold esteve a semana passada em Cambridge? Disse-me ao almoço que tinha dois alunos a trabalhar nesse problema. Se eu fosse a ti, despachava-me...
Uma pequena mentira, por uma boa causa. O John nem esperou pela resposta do Luís. Lino, will you join us? E encaminhou-se para o confortavel sofá ao pé da lareira.
A Matilde ensaboava as pernas. Que sensações estranhas tinham percorrido o seu corpo quando descobrira que o John vinha a Lisboa. Ir ao seminário daria muito nas vistas. Arrastou as duas amigas até ao refeitório dos professores. Ele viu-me! Como pode ignorar-me? Finalmente os seus olhos encontraram-se no café. Ela desviou os olhos daquele olhar enigmático. A semana que ela passou na cama dele fora um simples divertimento? Será que ela nunca o saberia? Afogara as mágoas no TóZé.
Aquele convite do Porto dera ao John o pretexto. Telefonou ao Lino e combinou uma passagem por Lisboa. Quem sabe, talvez pudesse entrever a Matilde. Uma última vez.
O John recebeu a noticia da sua doença durante um check-up de rotina, algumas semanas depois da estadia da Matilde em Cambridge. Acabou por esboçar um sorriso. Era a primeira vez que tinha desflorado uma aluna. Sabia agora que seria a última. Se fosse supersticioso, não poderia deixar de acreditar no castigo divino.
Quando viu a Matilde no restaurante, refugiou-se no Luís. Só a conversa com o Luís lhe permitiu evitar de correr para a Matilde e beijá-la. A conversa com o Luís e a vergonha daquela barriga de grávida que os malditos medicamentos lhe tinham feito nascer. Agarrou no Lino e fugiu para a gare do Oriente. Antes que a vergonha abrandasse.
Lá longe, o Lino e o Luís riam como dois miúdos a quem o Pai Natal tinha acabado de encher de presentes. Os comprimidos começavam a fazer efeito. Finalmente, um momento de paz. O sono aproximava-se e como ele a Matilde vinha mais uma vez envolvê-lo no longo beijo daquela manhã de Agosto.