terça-feira, janeiro 31

Liberdade, Igualdade, Fraternidade

O jornal dinamarquês Jyllands-Posten publicou uma série de cartoons sobre Maomé. O objectivo não é gozar o profeta do Corão mas apenas lembrar que é preciso furar a barreira de auto censura que foi consolidada com o affaire Rushdie e os assassinatos de Theo van Gogh e Pim Fortuyn. O Diário Ateísta conta as reacções dos fundamentalistas muçulmanos à publicação dos cartoons.
Para que ninguém se fique a rir, vamos equilibrar as coisas com dois cartoons tirados daqui.

sábado, janeiro 28

Lembram-se do Souto Moura?

A urgência absoluta da substituição de Souto Moura desapareceu. Digeridos os resultados das eleições, seria de esperar que voltassem os ataques. Tal não aconteceu. Será esta a razão?

quinta-feira, janeiro 26

A vida é espessa

Aquilo que parece nem sempre é. Não existem só bons e maus. Os bons não são assim tão bons. Os maus não são tão maus assim. Espanta-me que tantas pessoas inteligentes produzam blogues onde há bons e maus. Os bons são sempre bons e os maus são sempre maus. Depois os leitores X e Y criticam tudo e o Z está sempre de acordo. Não é estranho que assim seja? Ás vezes é pior. Estão todos sempre de acordo...
A melhor vacina que conheço para esse mal, embora nem sempre resulte, é ler o Quarteto de Alexandria. Neste tour de force excepcional Lawrence Durrell conta a mesma história de quatro pontos de vista diferentes. Cada novo volume vai mais fundo, contradizendo o anterior. No quarto volume, a história avança um pouco mais. O Quarteto foi a minha referência enquanto escrevia a blogonovela. Não se nota nada.
PS: O Setúbal acha que o link do Quarteto de Alexandria conta a história. Pelo sim pelo não, evitem ler esse. Se põem hipoteses de vir a ler o livro, claro.
FOTO: Jamb

Como se dirige um bordel?

É mais complicado do que parece...

quarta-feira, janeiro 25

Caridade (6): um conto científico

I'm sorry. Não posso aceitar o teu convite, não tenho a certeza de viver o suficiente para poder terminar o artigo. O Luís só percebeu as palavras do John quando finalmente reparou nos seus olhos cavados e baços.
Quando me despedi do Lino em Lisboa, tomei a liberdade de insistir com ele para que continuasse os seus trabalhos sobre pequenos divisores. Tenho a certeza que ele te pode ajudar a resolver o problema, Luís.
"O Lino? Depois de todas as humilhações que me fez passar durante o último ano? Nem pensar."
John percebeu que o Luís estava a ser dilacerado por algum conflito. Vocês em Lisboa não discutem matemática uns com os outros?
A farpa do John acertou na mouche. Mas nem isso o convencia. Mawhinsky resolveu recorrer aos grandes meios. Sabes que Arnold esteve a semana passada em Cambridge? Disse-me ao almoço que tinha dois alunos a trabalhar nesse problema. Se eu fosse a ti, despachava-me...
Uma pequena mentira, por uma boa causa. O John nem esperou pela resposta do Luís. Lino, will you join us? E encaminhou-se para o confortavel sofá ao pé da lareira.

A Matilde ensaboava as pernas. Que sensações estranhas tinham percorrido o seu corpo quando descobrira que o John vinha a Lisboa. Ir ao seminário daria muito nas vistas. Arrastou as duas amigas até ao refeitório dos professores. Ele viu-me! Como pode ignorar-me? Finalmente os seus olhos encontraram-se no café. Ela desviou os olhos daquele olhar enigmático. A semana que ela passou na cama dele fora um simples divertimento? Será que ela nunca o saberia? Afogara as mágoas no TóZé.

Aquele convite do Porto dera ao John o pretexto. Telefonou ao Lino e combinou uma passagem por Lisboa. Quem sabe, talvez pudesse entrever a Matilde. Uma última vez.
O John recebeu a noticia da sua doença durante um check-up de rotina, algumas semanas depois da estadia da Matilde em Cambridge. Acabou por esboçar um sorriso. Era a primeira vez que tinha desflorado uma aluna. Sabia agora que seria a última. Se fosse supersticioso, não poderia deixar de acreditar no castigo divino.
Quando viu a Matilde no restaurante, refugiou-se no Luís. Só a conversa com o Luís lhe permitiu evitar de correr para a Matilde e beijá-la. A conversa com o Luís e a vergonha daquela barriga de grávida que os malditos medicamentos lhe tinham feito nascer. Agarrou no Lino e fugiu para a gare do Oriente. Antes que a vergonha abrandasse.
Lá longe, o Lino e o Luís riam como dois miúdos a quem o Pai Natal tinha acabado de encher de presentes. Os comprimidos começavam a fazer efeito. Finalmente, um momento de paz. O sono aproximava-se e como ele a Matilde vinha mais uma vez envolvê-lo no longo beijo daquela manhã de Agosto.

terça-feira, janeiro 24

Lobo Antunes

O sopro do coração, no Blog se vê.

Mariano Gago e o Ensino Superior

Os exames ad-hoc são exames nacionais que permitem a alguém com mais de vinte e cinco anos entrar na universidade sem ter de completar o décimo segundo ano. Estão longe de ser exames de sucesso. Só um em cada cinco alunos passa. O Expresso informa-nos que Mariano Gago prepara um diploma que descentraliza estes exames. O Processo de Bolonha é mais uma vez a desculpa. A experiência profissional e uma entrevista terão um papel importante na decisão de admitir ou não um candidato. Terá de haver uma fiscalização muito apertada para não corrermos o risco de admitir alunos sem habilitações, diz o presidente do Conselho dos Politécnicos.
Não tenhamos ilusões. As instituições do ensino superior são financiadas em função do numero de alunos que conseguem colectar, independentemente de qualquer outro critério. A continuidade de muitos cursos superiores está em risco. Confrontados com a opção entre a eliminação da licenciatura e aceitar alunos sem quaisquer conhecimentos, nenhuma escola terá dúvidas sobre a opção a tomar.
À tutela não interessa a qualidade do curso, o seu interesse que para o desenvolvimento do país, a percentagem de licenciados que arranjam um emprego compatível com as habilitações supostamente obtidas. Até agora exigia-se aos alunos um mínimo de conhecimentos. Agora nem isso. Se não forem bons chumbam. Quem sabe como funcionam as coisas, sabe que não é bem assim.
A década de noventa foi um período de vagas gordas. Os fundos europeus pareciam não ter fim, os jovens lutavam para conseguir um lugar numa universidade. Sabia-se muito bem como iria evoluir a piramide demografica durante a década seguinte. Não havia necessidade de muito mais instituições de ensino superior. As pressões dos autarcas e a leviandade dos políticos levaram em poucos anos à sua multiplicação obscena.
Uma universidade passou a ser um edificio com alunos interessados em obter um diploma. As instituições de ensino superior deixaram de ser entendidas como instrumento de desenvolvimento do país. Passaram a ser uma mais uma forma de satisfazer as clientelas regionais.
O abandono escolar provocado pelos erros grosseiros das políticas de "ensino" desenvolvidas no ensino secundário e a evolução demográfica levaram a que o custo per capita da formação de um aluno tenha pelo menos duplicado. A crise económica tornou esta situação insustentavel. O estado tem baixado os financiamentos do ensino superior de uma forma drástica, asfixiando grande parte das universidades. Em especial as que possuem um corpo docente mais qualificado, onde a percentagem do orçamento gasta em salários é maior.
O governo anunciou medidas duras. Entre elas a avaliação das universidades e o encerramento dos cursos com poucos alunos ou de qualidade duvidosa. A partir de agora haveria um critério de qualidade...
O diploma referido no Público deixa muitas dúvidas.
O MIT? fica para uma próxima oportunidade.

domingo, janeiro 22

The Day After

Comecemos por salientar a vitória parcial do PS: Cavaco ganhou à primeira volta. Imaginem que Manuel Alegre passava à segunda. Aí sim, podiam tremer alguns alicerces do partido.
Alegre morreu na praia. Um por cento a mais e as coisas seriam um pouco diferentes. A sobreposição do discurso de Socrates ao de Manuel Alegre foi um truque sujo, mas ainda não viram nada. No futuro vai ser bem pior. Salgado Zenha ousou concorrer contra Soares em 86. Pagou bem cara essa ousadia. Alegre sabe o que o espera.
Bosch - O Inferno e o Paraíso

Artes & Letras

Caridade. Um Conto científico
Las Meninas
A minha Pátria

Mourinho em dia não

O fora de jogo mal assinalado não justifica tudo. Não fazia sentido substituir o Makelele para dar a volta ao resultado. Bastava tirar o Gudjohnsen e colocar o Maniche a desempenhar as funções habituais do Essien. Maniche mostrou o que vale. O Essien que se cuide.
As eleições? Votei Louçã.

sábado, janeiro 21

Picasso - Las Meninas

Confissões de um eleitor

Cavaco faz-me mal ao estomago. Nesta eleição comecei por apoiar Soares contra Cavaco. Entretanto surgiram novos ataques do PS à PGR. O comando da Polícia Judiciária queixou-se de falta de orçamento para manter a operacionalidade e a tutela assobiou para o ar. Sucederam-se as cambalhotas do Plano Tecnologico. Soares não se demarcou desta posições. Comecei a interrogar-me se fazia sentido dar um voto simbólico a Soares. Ninguém sabe como Manuel Alegre se comportaria na presidência. Nunca tendo desempenhado um cargo executivo, não possui o pragmatismo indispensavel ao desempenho do cargo. Sabemos o que esperar de Louçã e Jerónimo. Até pode ser que vote num deles, uma vez que não vão ganhar. Logo se vê.Uma vez que Cavaco tinha a vitoria assegurada, o meu voto era uma questão puramente académica. A última sondagem veio-me complicar a vida. Se houver segunda volta, vou deixar o aparelho do PS à solta?Se houver segunda volta, logo se vê...
PS: O momento de senilidade de Soares mostrou que a possibilidade de as suas capacidades se deteriorarem durante o mandato é não desprezível. É extraordinariamente grave que o video tenha passado uma vez na televisão e depois tenha sido censurado. É ainda mais grave que ninguém da oposição tenha denunciado este facto. A classe dirigente está lá para nos dar a ilusão que podemos escolher, mais nada. Até Garcia Pereira tem clientes do PSD Madeira e paga-lhes tributo indo à Madeira elogiar Jardim.

Confissões de um eleitor (2)

Soares mostrou o seu lado amargo durante os últimos meses do seu segundo mandato como primeiro ministro. Não gostei nada do que vi. Engoli um sapo para votar nele na segunda volta da sua primeira eleição. Soares retribuiu o meu voto ensinando aos portugueses como é que se desempenha o cargo de Presidente da República. Só então percebi que Eanes tinha sido um desastre. Bem mereceu ser enterrado em vida. O Eanes que eu detestava ante de ele chegar à presidência e que apoiei convictamente durante o segundo mandato.

No fim do mandato de Soares, achei que tinha aprendido o ofício de eleitor.
Embora soubesse à partida que Sampaio seria um presidente sem garra, cheguei a entusiasmar-me no dia da sua eleição. Depois de muitas hesitações, acabou por decidir bem nos dois momentos decisivos, ao admitir e demitir Santana Lopes. Não lhe perdoo as vezes que estica o pescoço para aparecer na fotografia, mostrando-se preocupado com problemas do país que muitas vezes não entende, nem se esforça por entender.
Começo a achar agora que ainda vou ter saudades dele.

sexta-feira, janeiro 20

Miss January

Velázquez - Vénus e o espelho

Caridade (5): um conto científico

(começou aqui) (continua daqui)

Enquanto aguarda a resposta do John, o Luís recorda a conversa que tiveram em Lisboa. Por um instante julgara ter encontrado no John o pai espiritual que tão desesperadamente procurava. Tinha sido um tremendo choque conceber meia hora mais tarde que o grande John Mawhinsky o estava a aldrabar. Seis meses depois, muita coisa tinha acontecido. Ali estava ele a pedir ao John para o ajudar no artigo. Tinha-se preparado para todas as possíveis respostas do John, menos para aquele interminavel silêncio displicente. O Luís tinha chegado ao limite das suas forças. Resolveu ser ouvido em confissão.
You know, John...
Contou-lhe a fúria que o tinha levado a cometer meia dúzia de infracções graves ao codigo da estrada, na esperança de o apanhar na Gare do Oriente. O John parecia não ter ouvido nada. Ele continuou.
O Luís continua a fazer o balanço dos últimos seis meses. Uma semana depois da conferência do John, a sua raiva já tinha acalmado. Começou a fazer uns calculos. Pouco a pouco foi compreendendo melhor o problema em que não tinha conseguido o mínimo progresso durante os três meses anteriores. Levou um mês a arquitectar uma estratégia para provar o teorema. Compreendeu então que tudo o que tinha feito tinha sido inspirado na conversa com o John. A ideia do John continha um erro trivial, mas era uma metáfora que apontava na direcção correcta. A série formal divergia, mas podíamos provar a existência de uma solução com um teorema de ponto fixo. Cada raciocínio algébrico elementar proposto pelo John tinha um equivalente topológico bastante mais sofisticado que fazia a estratégia funcionar!
Foi nessa altura que o Luís descobriu um buraco na prova. Tentou resolver o problema durante meses, sem sucesso. Estava certo que o teorema era verdadeiro, mas não sabia como prová-lo. O John saberia o que fazer.
Mawhinsky levantou os olhos e sorriu. Devias ter um pouco mais de caridade pelas ideias dos outros!
E voltou a ajeitar a meia direita.
O Lino desce as escadas e procura discretamente uma poltrona no canto oposto da sala.
Em Carcavelos, a Matilde entra no seu banho de espuma.

(continua aqui)

quarta-feira, janeiro 18

Evo Morales: a COCA cola e a folha de COCA

Evo Morales, o presidente eleito da Bolívia, afirmou que a folha de coca continua a ser um ingrediente da Coca Cola. Ao que parece a multinacional Monsanto compra a folha de coca e transforma-a em xarope, vendendo-a em seguida à Coca Cola. Soube desta notícia a semana passada. Fiquei à espera dos desenvolvimentos.
A Coca Cola nega os factos afirmando que:
- nunca comprou folha de coca
- não há cocaína no refrigerante.
Não ponho em dúvida as afirmações da Coca Cola. Mas a verdade é que não contradizem as de Evo Morales!
A formula inicial da Coca Cola incluía cocaína. A formula actual é um dos segredos mais bem guardados do mundo. Só três executivos da Coca Cola conhecem a lista completa dos ingredientes e o processo de produção na sua totalidade.
Que ingrediente dá à Coca Cola aquele gostinho especial que a distingue das outras colas?
O chá de folha de coca é essencial para resistir à altitude, como sabem todos os turistas que já foram a Machu-Pichu. É muito complicado sobreviver nos Andes sem a folha de coca. Evo Morales tem sido acusado de apoiar o narcotráfico por defender a continuação do cultivo desta planta, que os Estados Unidos querem ver proibida.
Se a folha de Coca é boa para a Coca Cola, é boa para todos nós...

Ver também este post.
Picasso Las meninas

Outros estudos do quadro de Velázquez, aqui.

Resmas e Resmas para Souto Moura

A sondagem Correio da Manhã/Aximage vem revelar que a maioria dos portugueses está do lado de Souto Moura. Com este procurador acontecem coisas. Com o anterior, nem por isso. É triste que haja uma clivagem direita/esquerda numa questão de regime. O Procurador é o arbitro, os clubes são os partidos e a maioria decide em função de ser ou não a sua cor a prejudicada pelo apito de Sousa Moura. Felizmente a classe média acaba por flutuar de forma sensata.
Penso que ainda vale a pena rebater uma das acusações que mais vezes tem sido repetida. A PGR tem culpa no caso da diskete:

Se me enviarem cartas que não me são destinadas, eu, como sei ler, percebo que não são para mim e devolvo-as.

À primeira vista é um sinal de grande incompetencia não reparar que uma file de Excel tem muito mais informações do que parece ter. Não sei se já repararam na complexidade de alguns processos em Portugal. A documentação reunida atinge por vezes muitas dezenas de milhares de documentos. Porquê? A defesa tenta submergir o ministério público em documentos. A defesa sabe quais são os documentos que enviou que são importantes. A acusação, não. A finitude dos meios do ministério público é explorada pelos réus com dinheiro até ao limite do possível. Quanto mais ricos e influentes são os acusados, mais incompetente será o ministério público. Se nós recebessemos cinco mil cartas por dia a tal tarefa elementar de examinar a correspondencia tornar-se-ia impossível.
Cabe-nos a cada um de nós escolher se vai ser mais um a gritar fora o arbitro, ou se vamos contribuir para que a reputação ( logo a eficiência) da PGR não seja ferida de morte.

Ver também: Souto Moura jogador de xadrez e O PGR e as marionetas.