sexta-feira, maio 1

Brunello

Depois de outro troço de estrada, ouvimos ruídos, e numa curva aparece um grupo agitado de monges e servos. Um deles veio ao nosso encontro com grande urbanidade:
- Bem-vindo senhor, e não vos admireis se imagino quem sois, porque fomos advertidos da vossa visita. Eu sou o despenseiro. E se vós sois, como creio, frei Guilherme de Baskerville, o abade deve ser avisado.
Tu, sobe a avisar que o nosso visitante está prestes a entrar a cerca!

- Agradeço-vos, senhor despenseiro - respondeu cordialmente o meu mestre - e tanto mais aprecio a cortesia quanto para em saudar haveis interrompido a perseguição. Mas não temais, o cavalo passou por aqui e dirigiu-se para o carreiro da direita. Não poderá ir muito longe, porque chegando ao depósito de estrume terá de parar. É demasiado inteligente para se lançar pelo terreno íngreme.

- Quando o haveis visto? - perguntou o despenseiro.

- Não o vimos de modo algum, mas se procurais Brunello, o animal não pode estar senão onde eu disse.

O despenseiro hesitou, fitou Guilherme, depois o caminho e perguntou:
- Brunello, como sabeis?

- Vamos - disse Guilherme - é evidente que andais à procura de Brunello, o cavalo preferido do Abade,o melhor galopador da vossa estrebaria, de pelo negro, cinco pés de altura, cauda majestosa, casco pequeno e redondo mas de galope bem regular; cabeça miúda, orelhas finas mas olhos grandes. Foi para a direita, digo-vos, e apressai-vos, em todo o caso.

O despenseiro teve um momento de hesitação, depois fez um sinal aos seus e lançou-se pelo caminho da direita, enquanto os nossos machos continuavam a subir. Quando estava para interrogar Guilherme, porque me roía a curiosidade, ele fez-me sinal para esperar: e, de facto, poucos minutos depois ouvimos gritos de júbilo, e na curva do caminho reapareceram os monges e servos trazendo o cavalo pelo freio. Passaram ao nosso lado, continuando a olhar-nos algo atónitos, e precederam-nos em direcção à abadia. Creio mesmo que Guilherme afrouxava o passo à sua mula para lhes permitir contar o que tinha sucedido.

- E agora dizei-me - por fim não soube conter-me - como fizeste para saber?

- Meu bom Adso - disse o mestre. - Em toda a viagem te tenho ensinado a reconhecer os traços com que o mundo nos fala como um grande livro. Quase me envergonho de te dizer aquilo que deverias saber. No trívio, sobre a neve ainda fresca, desenhavam-se com muita clareza as pegadas dos cascos de um cavalo que apontava para um carreiro à nossa esquerda. A bela e igual distância uns dos outros aqueles sinais diziam que o casco era pequeno e redondo e o galope de grande regularidade... de modo que daí deduzi a natureza do cavalo e o facto de ele não correr desordenadamente como faz um animal irritado. Ali, onde os pinheiros formavam como que um tecto natural, alguns ramos tinham sido quebrados de fresco justamente à altura de cinco pés. Um dos silvados de amoras, por onde o animal deve ter andado para meter pelo caminho à direita, conservava ainda entre os espinhos belas crinas negras...

- Sim - disse -, mas a cabeça pequena, as orelhas aguçadas, os olhos grandes...

- Não sei se os tem mas decerto os monges o crêem firmemente. Dizia Isidoro de Sevilha que a beleza de uma animal tal exige. Se o cavalo não fosse o melhor da estrebaria, não se explicava porque a persegui-lo não foram só os moços, mas se incomodou o próprio despenseiro. E um monge que considera um cavalo excelente não pode deixar de o ver como as auctoritates lho descreveram, especialmente se - e aqui sorriu com malícia - é um douto beneditino...

- Está bem - disse - mas porquê Brunello?

- Que o Espírito Santo te ponha miolos na cabeça, meu filho! Que outro nome lhe terias dado se o grande Buridano, que vai ser reitor em Paris, tendo de falar de um cavalo, não encontrou nome mais natural?

segunda-feira, abril 27

Greg House 2

A forma obsessiva com House tenta convencer os amigos sobre a importância de conhecer o lado mau das coisas é patética. Cai num negativismo sem sentido. Leva-nos a ignorar o caminho que House nos propõe.
O facto ele torturar constantemente os ajudantes é completamente diferente. Faz todo o sentido. Eles estão ali para aprender com ele. Aquilo que ele sabe e os outros médicos não sabem. O que é que o diferencia dos outros médicos? A sua aceitação do seu lado negro. Ele tem de os pôr em contacto com os seus lados negros. Eles querem aprender com House tudo, menos aquilo que mais precisam de aprender... Ele não lhes explica este facto? Por um lado eles não o levariam a sério. Se o levassem a sério, a táctica perdia a eficácia...
Porque é que Chase e Cameron abandonaram a equipa? Porque a sua capacidade de evoluir no contacto com as suas sombras estava esgotado. Foreman, que esteve preso por roubar carros e tem mais um par de anos, está em condições de continuar a evoluir.
Mal abandonaram a equipa Chase e Cameron passaram a ser pessoas mais confiantes. Temos aqui mais uma manipulação da série. Eles não se tornaram pessoas mais confiantes por terem abandonado o House mas por terem trabalhado todo aquele tempo com ele.
Porque é que o House passou uma época inteira a escolher pessoas? Sem dúvida que introduziu um novo ritmo na série. Parece-me no entanto que há uma razão mais profunda. Os autores não se sentiram seguros de construir personagens que garantissem uma progressão credível e interessante das suas personalidades durante várias épocas. Nunca ninguém tinha experimentado algo assim e eles já tinham tido um insucesso parcial com o casalinho de médicos. Criaram várias personagens, puseram-nas a interagir com o House e no fim escolheram as que tinham mais hipoteses de continuar a evoluir interiormente.
Um problema: as necessidades comerciais da série exigem que um dos assistentes do House seja uma mulher jovem e bonita. Demasiado jovem para mergulhar suficientemente fundo no seu inconsciente, uma tarefa para a segunda metade da vida. Como resolver o problema? A doença de Huntington dá um jeitão...

sábado, abril 25

Gregory House: Solitude and Loneliness

Solitude e Loneliness são normalmente traduzidas por solidão. No entanto não significam exactamente a mesma coisa. Podemos sentir-nos sózinhos no meio de uma multidão. Isso é lonliness. Podemos estar sós e encher o espaço à nossa volta. Isso é solitude without lonliness. Não é possível realizar qualquer trabalho criativo sem ser capaz de estar só. Porque qualquer trabalho criativo envolve algum tipo de contacto com o inconsciente.

O argumento de House gira em torno da personalidade do protagonista e das tensões entre ele e os outros personagens. Não é mais uma série de médicos. Porque é que House é médico? Porque não se pode deixar de levar a sério alguém que é capaz de salvar vidas que outros não são capazes de salvar. É essencial que se mantenha a tensão: ninguém acredita no House, ele diz as coisas mais loucas, mas nós acreditamos. O enigma que House acaba por resolver no fim de cada episódio serve essencialmente para realçar mais uma vez a sua excepcional perspicácia.

Donde provém o magnetismo pessoal de House? Donde provem a sua capacidade de compreender as situações? A resposta à segunda pergunta é clara: tem alguma coisa a ver com o facto de Greg House estar em contacto com o seu lado negro, a sua Sombra. Se pensarem bem, a forma como ele chega ao pé de alguém desconhecido e consegue o que quer também tem a mesma origem.

As pessoas não estão umas do lado do Darth Vader e outras do lado do Luke SkyWalker. Temos os dois dentro de nós. Temos de reconhecer o Darth Vader que está em nós. Only then, can we use the force! É esta a mensagem que Greg House tenta transmitir a toda a gente, a toda a hora. Ninguém a quer ouvir.
A mensagem fundamental da série é outra: House está certo, mas está errado. Ele está em contacto com a verdade, mas o preço a pagar é a lonliness, uma vida miseravel. É bem melhor abdicar de estar em contacto com a verdade. Quantos jovens inteligentes e ambiciosos terão comprado esta tese? A forma rasteira como a FOX usa a confusão entre solitude e lonliness é típica da mais reaccionária cadeia de televisão dos Estados Unidos.
(continua)

sexta-feira, abril 24

quarta-feira, abril 22

As Sombras do Senhor Neves

A seguir à segunda guerra um número crescente de famílias americanas viviam longe dos seus pais. Não tinham com quem conversar quando tinham alguma dúvida sobre como cuidar dos seus filhos. O Dr. Benjamin Spock publicou em 1946 Baby and Child Care (Meu Filho, Meu Tesouro). Este livro foi um dos maiores best-sellers de sempre. Distinguia-se pelo seu bom senso e pelo seu calor humano.
Muitos anos mais tarde os seus filhos vieram a público explicar como o seu pai fora sempre um homem frio e distante e como isso os marcara irreparavelmente para toda a vida. É trágico que tal tenha acontecido, mas isso não muda uma vírgula ao mais importante. A geração dos baby-boomers cresceu mais equilibrada e confiante do que as que a precederam em parte graças ao talento do Dr. Spock. O esforço de Benjamin para apresentar ao mundo a Persona do pediatra perfeito ajudou a criar uma Sombra sinistra, só conhecida dos que partilhavam o seu tecto.

Vem isto a propósito do artigo de João César das Neves citado no Jardim de Luz. Este senhor critica Jean-Jacques Rousseau, Karl Marx, Bertrand Russell e Jean-Paul Sartre, entre muitos outros ódios de estimação. Tal como com Frei Tomás, é melhor fazer como eles dizem, do que como eles fizeram. César das Neves dá a entender que a existências destas sombras na vida destes homens destroi a credibilidade das suas obras.
Quanto mais alto subimos maior a sombra que projectamos. Há que aceitá-la, admitir a sua existência sem vergonha e tentar integrá-la na nossa personalidade. Nada pior do que tentar pura e simplesmente reprimi-la e escondê-la debaixo do tapete. Não resulta. Cada pessoa tem a sua Sombra e só um pobre Diabo se lembraria de vir para os jornais apregoar o contrário.

César das Neves dificilmente alguma vez escreverá um artigo sobre o novo caso de pedofilia que ensombra a igreja católica da Irlanda. Neste caso a sombra não destroi a obra? Negar a existência desta sombra nada resolve...
O ritual da confissão católica pode ser um excelente meio para reconhecer as nossas sombras e integrá-las na personalidade. Aceitá-las como parte de nós próprios. Quantas vezes serve apenas para manter a ilusão de que as nossas sombras podem ser deitadas fora?

segunda-feira, abril 20

Descer a rua

Desço a rua.
Há um grande buraco no passeio.
Caio nele.
Estou perdido ... desamparado...
A culpa não é minha!
Levo um tempo infinito a sair do buraco.

Desço a rua.
Há um grande buraco no passeio.
Faço por não o ver.
Caio nele.
Não posso crer que voltou a acontecer!
Mas a culpa não é minha!
É dificil sair do buraco.

Desço a rua.
Há um grande buraco no passeio.
Estou a vê-lo.
Volto a cair nele ... é um hábito ... mas
os meus olhos estão abertos.
Sei onde estou.
A culpa é minha.
Saio do buraco rapidamente.

Desço a rua.
Há um grande buraco no passeio.
Desvio-me dele.

Desço outra rua.

sábado, abril 18

Rituais de Transição

Um casamento cigano dura três dias.
Algumas vezes as famílias dos noivos ficam endividadas.
Um desperdício?
Ao fim dos três dias todos os intervenientes interiorizaram o facto de que aqueles dois jovens se casaram e entraram numa nova etapa das suas vidas.
Muitos ajustes que se iriam realizar ao longo de uma década entre os noivos e as suas famílias foram realizados em poucas horas, num ambiente bastante mais propício, enquanto cantavam, comiam e dançavam.
Esses ajustes podem gastar muita energia, muito tempo e muito dinheiro.
Talvez o gasto tenha sido um bom investimento...
Na nossa sociedade o casamento era essencialmente uma cerimónia centrada na noiva. O seu dia de glória. Em troca ela abdicava da sua identidade em prole da harmonia da sua futura família. Para o resto da sua vida.
É claro que se uma cerimónia do casamento já não cumpre nenhum propósito e se transforma apenas em mais uma forma de consumismo, mais vale guardar a massa para outro fim.

A transição mais importante das nossas vidas é a entrada na idade adulta.
Esta transição era acompanhada de rituais que nos ajudavam a compreender e ajustar a essas mudanças. Nalgumas sociedades as crianças eram ritualmente raptadas das suas familias, era-lhes dado a conhecer os segredos da tribo e da vida adulta. Chegar à idade adulta era considerado algo inquestionavelmente positivo. Nunca mais se falava nisso.
A nossa sociedade acabou com a maioria desses rituais. Os segredos da tribo já não se podem transmitir numa semana ou num mês. Já não se ordenam cavaleiros nem se cumpre o serviço militar obrigatório. Até as mais elementares cerimónias de iniciação, como as praxes académicas, foram aniquiladas pelos pruridos dos politicamente correctos.

As experiências associadas a terminar a quarta classe, o ensino secundário ou uma licenciatura cumpriam modestamente esse papel. Já não é o caso. A entrada na idade adulta atrasou-se tanto que um doutoramento acaba por algumas vezes cumprir as funções de um rito de passagem. Quando não é uma forma de atrasar por mais uns anos o contacto com as responsabilidades da idade adulta...

Qual o preço que se paga quando não passamos por estas experiências de transição?
As crises de identidade e outros conflitos interiores arrastam-se por mais uns anos...
Toda uma série de ajustamentos que deveriam ocorrer mais ou menos naturalmente acabam por se revelar mais dificeis.

quinta-feira, abril 16

quarta-feira, abril 15

Muscular Activation Technique

Vai para um ano e meio estava a fazer a invertida antes da aula de Yoga começar. Começaram a dizer-me: estás inclinado para a direita! para a esquerda. Quando a torre inclinada de Pisa caiu nada de mais parecia ter acontecido. Passei a noite seguinte deitado de costas, com as pernas dobradas em cima de um banco. Umas idas ao fisioterapeuta e as dores maiores desapareceram, mas o problema ficou por resolver. Nem a fisioterapia, nem a osteopatia nem as aulas individuais de Pilates resolveram o problema. Qualquer destas técnicas funciona muito bem em certos casos. Não neste.

Estou finalmente a ver uma luz ao fundo do tunel. Numa sessão típica de MAT faz-se uma série de testes. Vamos a um exemplo. Deitado de costas na marquesa, pedem-me para deslizar a perna direita para a direita sem a levantar. Agora tenho de resistir a uma pressão feita da direita para a esquerda no pé. Por incrível que pareça, não consigo oferecer qualquer resistência. O músculo que devia fazer o trabalho, o glúteo direito, está a fazer greve. Não há problema, espetam-me um dedo algures na zona lombar junto à coluna. Oscila entre o desagradável e o altamente doloroso. Um minuto mais tarde, o meu glúteo já sabe o que fazer para resistir à pressão. Agora vamos repetir o teste, com a cabeça levantada. Volto a não conseguir resistir. Agora enfiam-me o dedo algures entre a traqueia e a coluna, novamente com bons resultados. Agora vamos fazer o mesmo teste, mas pressionando a marquesa com a nuca. A história repete-se.

Depois passa-se para outro teste, e mais outro. Volta-se na semana seguinte, para ver como é que as mudanças foram assimiladas. Verifica-se que progressos foram consolidados, o que se perdeu. Procura-se avançar na compreensão do puzzle.

O que é que mais me surpreendeu? A natureza quase milagrosa da técnica? Talvez a pouca diferença que parece existir entre o meu corpo e uma máquina.

Descartes diria: pois claro, o corpo é uma máquina, mas o homem é sobretudo a sua alma. Apesar de tudo, não estou tão seguro de que o corpo seja uma máquina tão simples como o meu relato poderá dar a entender. Por outro lado, não estou certo de o espírito não ter os seus aspectos roboticos. Quando se estimula uma certa parte do cérebro com um eléctrodo, revivemos as sensações e as emoções que sentimos num certo momento das nossas vidas. Não nos limitamos a relembrá-las. Acredito plenamente que existe algo de único e especial em cada ser humano, mas é preciso procurar bem fundo para o encontrar.

Não vejo por isso grande razão para me sentir diminuído se uma boa parte do meu comportamento for reduzida a umas combinações de estereótipos. Afinal eu compartilho boa parte do meu código genético com os chimpanzés, os periquitos e as osgas.

segunda-feira, abril 13

A Crítica da Razão Pura

Ao longo das nossas vidas vamos desenvolvendo uma "filosofia espontânea". Muitas das ideias que julgamos serem nossas são pedaços de teorias desenvolvidas uns séculos atrás por algum filosofo de quem eventualmente nunca ouvimos falar. Por exemplo: a visão de muitos de nós sobre a forma como interagimos com o mundo remonta aos pontos de vista introduzidos por Descartes na primeira metade do século XVII ou por David Hume na primeira metade do século XVIII.
Descartes criou o dualismo alma corpo. Penso, logo existo significa que somos primeiro que tudo seres pensantes. Deus não nos enganaria, portanto as nossas percepções são realmente a indicação da existência do mundo exterior. Os seus sucessores usaram Deus e a alma para resolver de forma simplista todos os problemas epistemológicos que se lhes apresentaram.
Um réptil ao nascer está quase preparado para a vida. Uma série de instintos determinam a sua vida e estão prontos a utilizar mal ele sai do ovo. Nos mamíferos a aprendizagem desempenha um papel crescente. Um bebé ao nascer parece quase completamente por formar. É uma esponja que vai absorver os estímulos do meio, os quais terão uma importância decisiva na sua formação. Dá a impressão de que não existe qualquer tipo de estruturação na sua mente.
Hume acredita na plasticidade infinita da mente humana, tal como a maioria dos psicólogos actuais. Para Hume as ideias que orientam a nossa vida são o resultado da acumulação dos estímulos exteriores. Há uma variação quase infinita e inclassificável de padrões no comportamento humano, por oposição à estreiteza das variações que encontramos no comportamento animal, pré-determinado pelos instintos. A vitória do cepticismo de Hume consistiu em mostrar as limitações do pensamento pós-cartesiano. Por outro lado Hume nunca consegui explicar a noção de causalidade ou a possibilidade do raciocínio lógico.
Quando aos 46 anos Kant apresentou a sua dissertação inaugural enquanto professor em Konigsberg, Kant recebeu uma carta do seu aluno Markus Herz. Herz lembrou a Kant que ele se tinha esquecido de explicar como é que o ser humano recebia a informação do mundo exterior e a processava. Durante onze anos Kant meditou nesta questão. Herz e Hume acordaram-no do seu sonho dogmático. A obra prima de Kant é o produto desses onze anos de meditação. É tão complexa que dois séculos não foram suficientes para que as suas ideias percorressem o caminho que as separam do senso comum. Sendo a mais importante obra da história da filosofia, penso que vale a pena tentar transmitir aqui uma parte do seu sabor.
Noam Chomksy foi o mais importante linguista do século XX. A influencia decisiva da sua obra abrange áreas tão diversas como a Psicologia e a Teoria da Computação. A gramática generativa de Chomsky descreve todas as línguas existentes. Cada língua conhecida pode ser obtida a partir duma língua base fixando certos parâmetros. A teoria de Chomsky pressupõe a existência a priori de uma linguagem universal que nós nascemos programados para falar, descrita por ele. Esta é uma das teorias científicas que põe limites à infinita plasticidade da mente humana.
Suponham que vêem no ecrã do vosso computador duas bolas pretas em fundo branco. A bola que está do lado esquerdo desloca-se para a direita, quando as duas bolas se tocam a bola esquerda para e a bola direita move-se para a direita. O nosso cérebro será levado a crer que o movimento da segunda bola foi provocado pelo da primeira. Porquê? Simplificando radicalmente as coisas, Kant considera que o ser humano é uma "máquina programada" para pensar segunda certas regras de causalidade. As noções de causalidade, espaço e tempo, entre outras, estão "programadas" na nossa mente independente de qualquer realidade exterior. São os instrumentos que usamos para lidar com o mundo.
Kant consegue assim fundamentar a ciência sem cair nas ingenuidades de Descartes e mantendo vivo o cepticismo de Hume.
Freud e Jung introduziram definitivamente o conceito de inconsciente nas nossas vidas. O inconsciente é mais uma limitação à infinita plasticidade da mente humana. Em especial o inconsciente Jungiano. É por isso que descrever certos aspectos do comportamento humano através de uma combinatória finita talvez não seja assim tão imbecil.
Há ainda um problema com todas estas teorias. Não se conseguiu ainda fundamentar em termos genéticos a teoria de Chomsky ou a filosofia de Kant. A Teoria da Evolução também terá aqui uma palavra a dizer. A seu tempo lá chegaremos.

domingo, abril 5

O Princípio de Peter: porque é que as coisas sempre acabam mal?

Lembram-se deste princípio? O que é que afirmava? Parece-vos que faz sentido?

sexta-feira, abril 3

O Guerreiro

Algumas vezes temos de ficar e lutar. Sempre foi assim ao longo da história da humanidade. Era matar ou ser morto. Um homem só contava se era um guerreiro. Mas o guerreiro não tem de matar para defender os seus valores. O guerreiro sabe afirmar o seu poder e assumir a sua identidade no mundo. Esse poder pode ser físico, psicologico, intelectual ou espiritual. Luta-se para subir no emprego. Também se luta para engravidar ou para ultrapassar um limitação pessoal.
Se o martir enfrenta a dor e o viajante a solidão, o guerreiro enfrenta o medo. Só se consegue viver plenamente um destes arquetipos quando já se conhecem razoavelmente bem os outros. Para enfrentar o medo, temos de saber lidar com a dor e a solidão.
Durante milénios poucas guerreiras existiram. Felizmente as coisas mudaram. Por outro lado, conheço bastantes senhoras da classe média alta que não concebem outra forma de estar na vida que não seja comportarem-se como guerreiras. Pelo menos a partir do momento que saiem da garagem do prédio onde vivem. Um dia descobrem que o marido não é perfeito. Quando dão por elas já estão divorciadas. Algumas vezes por coisa nenhuma...

quarta-feira, abril 1

A Inclita Geração

Todos os filhos de João primeiro e Philippa de Lancaster se distinguiram de alguma forma. Fernando, o Infante Santo, morre no cativeiro em Fez, depois de recusar entregar Ceuta em troca da sua própria liberdade. Pedro foi um nobre excepcionalmente culto para a época tendo viajado incansavelmente por toda a Europa. João foi o condestável do reino, sucedendo a o grande Nuno Álvares Pereira. Henrique, o Navegador, foi o mágico que reformulou o projecto nacional, quando os Algarves já estavam conquistados e invadir o norte de África não se revelou viavel. Tal como Fernando foi o mártir, Pedro o peregrino e João o guerreiro. Este mito foi contado de geração em geração a todos os míudos que não tinham hipótese de vir a ser reis, como Duarte, o filho mais velho. Muitos aprenderam alguma coisa com ele.
Umas gerações depois, este mito foi completamente ofuscado pelo mito d'O desejado, que havia de voltar num manhã de nevoeiro. O mito que simboliza a transformação desta terra num país de orfãos.

segunda-feira, março 30

domingo, março 29

O Peregrino

Podiamos também chamar-lhe o vagabundo, ou o viajante. Algumas vezes faz sentido falar de uma travessia do deserto.
Paul Gaugin abandonou o seu lucrativo trabalho de compra e venda de acções na bolsa de Copenhaga, resolvendo voltar para França e dedicar-se à pintura, abandonando a mulher e os filhos. Tal mudança não o satisfez completamente, só tendo encontrado a sua verdadeira identidade quando se instalou no Tahiti. Um acto de coragem ou de cobardia? Gaugin ganhou o seu lugar na história da pintura e a sociedade perdoou-o, a família talvez não. Gaugin abraçou para toda a vida a figura do viajante. Toda a gente parte numa viagem alguma vez na vida. É a única maneira de encontrar a nossa identidade ou restabelecer o equilíbrio perdido. Mesmo que seja apenas uma viagem interior. Mesmo que seja só discordar de um amigo quando era tão facil dizer que sim, mas isso punha em causa a nossa identidade.
Algumas vezes dizem-nos que vivemos no paraíso, a nós parece-nos mais uma prisão. Quando comeu a maçã, Eva iniciou a viagem da humanidade. Teria alguma graça ter ficado no Paraíso?

quinta-feira, março 26

O Martir

Sacrificar uma semana por causa da doença de um filho é diferente de sacrificar uma carreira para tomar conta dele. No segundo caso, o sacrifício passa a fazer parte da identidade da pessoa, ela vive a história do martir. O verdadeiro martir dá sem esperar nada em troca. Nem sempre assim é. Algumas vezes espera-se em troca a pertença a um grupo ou algum tipo de recompensa futura. Muitas vezes não sabe receber tão bem como sabe dar.
O sacrifício era algo muito habitual na nossa cultura. A mulher sacrificava a possibilidade de se desenvolver enquanto pessoa pela harmonia do lar. Os homens sacrificariam a vida pelo seu país caso tal fosse necessário. Hoje em dia o sacrifício não é tão bem visto como já foi. Quando surge a ocasião em que seria natural alguma forma de sacrifício, muitos falhamos redondamente, por falta de modelos ou pura e simplesmente pela falta de hábito. Por outro lado ainda existem muitas pessoas, especialmente mulheres, que quando colocadas perante a opção entre o sacrifício e outra possível atitude, têm dificuldades em levar a sério a possibilidade de escolher a outra. Algumas vezes nem dão pela sua existência.

terça-feira, março 24

O Orfão

Acabamos por cair do Paraíso. Quem é expulso do Paraíso sente-se orfão. Quando um Inocente descobre que Deus não toma conta da sua vida, o Governo nos engana, as leis não são justas e os futebolistas ganham milhões, transforma-se num orfão. Alguns homens mais conservadores sentem-se orfãos quando descobrem que as suas mulheres têm desejos sexuais e ambições profissionais e não existem só para os servir. Algumas mulheres mais inseguras sentem-se orfãs quando descobrem que afinal os seus maridos não existem só para as proteger.
O orfão pode procurar consolo nas drogas, ou na esperança de ganhar a lotaria, ou em casar rico, ou na crença num Deus patriarcal que vai tomar conta dele, agora ou mais tarde, ou na reforma antecipada que lhe vai permitir voltar à infancia.
Um dia não vai ter alternativa. Terá de crescer.

domingo, março 22

O Inocente

E tomou o SENHOR Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar.
E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente,
Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

O mundo e as outras pessoas existem para satisfazer o Inocente. Se sempre foi assim em criança, porque não continuará a ser? Quem abandona o Paraíso de livre vontade? São Inocentes o homem que nada faz em casa quando os dois voltam do trabalho e a mulher que não trabalha e passa o dia a gastar o dinheiro que o marido ganha no emprego. Para o Inocente uma pequena dor ou qualquer forma de sofrimento são um sinal de que algo de fundamentalmente errado está a acontecer.
Raramente o Inocente se pode manter inocente por muito tempo. A queda do Paraíso não vai demorar...
Mas ser Inocente é também saber ter esperança e confiar.

segunda-feira, março 16

domingo, março 15

sábado, março 14

Philosophy 101

A sala já estava cheia quando o Professor Heiddengstein entrou com uma jarra de vidro debaixo do braço. Era a primeira vez que leccionava o curso de introdução à filosofia. Por onde começaria? Sócrates ou Platão? Pouco original... Talvez Nietzche ou Spinoza. Afinal eram as suas duas grandes influências.
Heiddengstein levanta um balde escondido por detrás da secretária e começa a tirar de lá pedras que coloca cuidadosamente dentro da jarra. Quando acaba a tarefa fita pela primeira vez a audiência. Acham que a jarra está cheia?
O silêncio torna-se embaraçoso. Tantos professores na sala. Uma voz corajosa arrisca um sim. Vários ruidos permitem concluir que é essa a opinião da maioria. A secretária tapava outro balde. Este continha gravilha. Durante longos minutos o professor vai agitando a jarra de forma a que as pedras pequenas vão encontrando os espaços deixados livres pelas maiores.
Quando já não consegue colocar mais gravilha senta-se para recuperar as forças e repete a pergunta. Não espera pela resposta. O novo balde contem areia. Quando já não há mais espaço para a areia Heiddengstein deita a que sobrou noutro balde e abandona a sala por alguns momentos. Volta com o balde cheio de água, que despeja cuidadosamente para dentro da jarra.
Volta a fazer a pergunta. Alguém arrisca um sim. Heiddengstein tira da gaveta um saco cheio de açucar que começa a dissolver cuidadosamente na lama que enche a jarra.
A aula já era suposta ter terminado há longos minutos. Ninguém abandona a sala. Então, agora a jarra está cheia?
Várias pessoas aprenderam a lição: Não, é claro que não está cheia!
(continua)

quinta-feira, março 12

GM: thank you but no thank you?

A General Motors precisava de 2.000.0000.000 dolares para não ir à falência. Caso contrário todas as empresas dependentes da GM estariam condenadas. As consequências seriam catastróficas. De qualquer forma os executivos da GM continuavam a viajar nos jactos da companhia. Afinal, não são uns 1.000.000's de dolares que vão mudar alguma coisa.
Obama deixou claro que os executivos das companhias que tivessem ajuda do estado ficavam com os salários limitados a uns míseros 500.000 dolares por ano. Uns dias depois, parece que os executivos da GM já não precisam assim tanto do dinheiro. Que conclusões deveríamos tirar deste facto?

domingo, março 8

Memes

A selecção dos genes produziu um mamífero a partir de organismos celulares. Richard Dawkins introduziu em O gene egoista a noção de meme. A selecção dos memes produz uma religião complexa a partir de algumas crenças básicas?
Um meme é um elemento de cultura, um simbolo ou uma pratica que não se pode dividir em elemento do mesmo tipo mais pequenos e que se transmite de uma pessoa para outra através da fala, de gestos ou outros fenómenos imitaveis. São exemplos de memes uma anedota, uma maneira de fazer o nó da gravata, um novo passo de dança. É este o processo de transmissão dos memes. Os memes estão sujeitos à selecção natural. Só as anedotas verdadeiramente engraçadas são repetidas. As melhores atravessam gerações e continentes, sofrem mutações, etc. Um novo estilo de música é um agregado de memes. Alguns têm a ver com acordes musicais, outros com passos de dança, outros com roupas, estilos de vida, etc. Esse estilo criou-se por selecção natural, mesclando memes de vários estilos de música e doutras proveniencias.
A memetica (o estudo dos memes e da sua evolução) não tem ainda um estatuto científico bem definido. Mas algumas das suas construções são interessantes. Dawkins está especialmente interessado em aplicá-la ao estudo da religião. Um dos aspectos interessantes da evolução das religiões é o facto de nascerem várias por ano. É assim mais fácil estudar a criação de uma religião do que a criação de uma espécie.
Dawkins argumenta que nem é preciso que uma religião tenha um efeito benéfico sobre os seus praticantes, basta apenas que os seus memes sejam especialmente bem adaptados à luta dos memes para a reprodução.
Acho que não estou completamente de acordo com as ideias de Dawkins. Uma teoria científica resulta de uma luta pela sobrevivência de memes. Se reduzimos tudo a uma luta de memes, caímos nas teorias pos-modernas que reduzem a ciência a uma moda. Convem tentar perceber porque é que um meme é mais resistente do que outro.
Analisemos um meme: ter fé é uma riqueza espiritual. As religiões com este meme sobrevivem melhor do que as outras num mundo onde cada vez mais tudo é posto em causa. Uma religião assenta num conjunto de crenças. Se o crente acreditar que a crença tem um valor em si propria, é menos provavel que as ponha em causa.
Que se quer dizer então quando se fala no valor da fé? Que valor é esse? O que é que isso realmente significa?

terça-feira, março 3

Que fez correr Bernard Madoff?

Chamar porco capitalista a Bernard Madoff não explica grande coisa. Os porcos capitalistas normalmente sabem fazer as coisas e safar-se. As probabilidades de ele o conseguir eram limitadas, mesmo que não tivesse surgido esta crise. O homem não era assim tão estúpido. Começou do nada, subiu a pulso. Não é facil fazê-lo e não chega estar disposto a vender a alma ao diabo. Que leva alguém a ter um comportamento tão irracional?
Estamos interessados em criar condições para que esta crise não se possa repetir. São precisas novas leis, são precisas novas instituições. Que tal tentar também perceber o que se passou na cabeça do homem? Durante vinte anos Madoff lutou para sobreviver, para comprar o primeiro Caddilac, o primeiro executive jet. A certa altura já não sabia fazer mais nada. Quando algo dentro dele o puxava noutra direcção, rumo a um equilíbrio, não sabia como lidar com isso. Afinal todos os seus conhecidos estavam na mesma situação. Como calar então a voz que o atormentava? Comprar mais um carro, uma ilha no Pacífico, whatever. A vozinha voltava. Como fazê-la calar? Duplicando a conta bancária, triplicando-a? Não havia outro caminho. Milhares de Madoff's procuram todos os dias calar os seus demónios. Correndo qualquer risco.
Já temos milhares de boas leis, não são elas que nos vão livrar dos Madoff. Um sociedade só se consegue livrar dos Madoff's no dia em que criar condições para que a maioria dos seus membros tenha um Sol para ajudar.

domingo, março 1

Ajudar o Sol


Os indios Pueblo vivem naquilo a que hoje chamamos Novo México e Arizona. Resistiram mais do que muitas outras tribos ao contacto com a nossa civilização, evitando a destruição de todas as suas referências e a queda no alcoolismo. Para isso contribuiu bastante o facto de manterem a sua religião tão secreta quanto possível. Quando o psicanalista Carl Jung os visitou conseguiu ser objecto de algumas confidências que ajudaram a compreender melhor a sua psicologia. Só os rituais realizados pelos pueblos permitiam que o Sol continuasse a levantar-se todos os dias. Não o faziam apenas em proveito próprio mas tendo em vista o bem de toda a humanidade. A crença ingénua neste mito permitiu a estas pessoas manter as sua auto-estima intacta durante mais umas décadas.
Vale a pena acreditar nesta ilusão? Claro que sim, se formos capazes. Durante grande parte das nossas vidas podemos esquecer que a nossa personalidade é apenas a ponta de um iceberg que se eleva do nosso inconsciente. Estamos demasiado ocupados com as nossas carreiras profissionais, com a criação dos nossos filhos. É facil ignorar outras coisas. Ou parece. Na verdade não sobra tempo ou energia. Quando se dobra os quarenta começa-se a pagar um preço por esse esquecimento, embora seja sempre possível prolongá-lo por mais uns tempos. É a altura para relembrar caminhos que começamos a percorrer na adolescência e logo abandonámos. Li estas coisas nos livros, sentia-as, agora começo a vê-las surgir à superfície na vida dos meus amigos.
Várias coisas nos separam dos pueblos. A luz eléctrica, que nos permite manter à noite o ritmo frenético do dia, tornando mais dificil manter o hábito de restabelecer todas as noites o equilíbrio perdido durante o dia. A televisão, o ópio do povo. A nossa crescente sofisticação, que não permite a muitos de nós aceitar o primeiro mito que nos propõem. A pobreza da nossa ignorância.
Se em certas épocas da vida o inconsciente nos bate mais à porta, verdade é que tal acontece todos os dias. Alguns mitos classicos sobreviveram o passar dos tempos. São os nossos últimos instrumentos para manter esse equilíbrio. O amor romantico é um deles, representado em mil lendas, em metade dos filmes e em todas as telenovelas. A sua importância inflaciona cada vez que mais um mito cai. Não se pode esperar que chegue para todas as encomendas. É por isso que a culpa é do outro. As relações amorosas cada vez são mais instaveis porque se lhes pede que por si só mantenham todos os nossos equilíbrios. Obviamente, tal não é possível.
Outro mito é o da eterna juventude. Não sobram muitos mais. Um edifício em equilíbrio instável. Salve-se quem puder.

quinta-feira, fevereiro 26

Quatro anos de crise

Um blog é entre outras coisas um diário das nossas opiniões. Parece que quando este blog surgiu, há quatro anos, já a crise tinha começado. Espero que dure mais do que a dita cuja. Não vai ser fácil.

segunda-feira, fevereiro 23

Livrarias

Durante a minha adolescência havia vários lugares fetiches em Lisboa. O Estúdio, um mini cinema por cima do Império, ao pé do Técnico. Por lá se viam todos os Bergman's e Kubrik's da época. Havia as lojas da Avenida de Roma. Sobretudo, havia a Buchholz. A Buchholz era a única livraria de Lisboa onde se podia vislumbrar as obras completas do Freud, os filósofos, tudo. Mas o que tornava a Buchholz especial era a velha. A brucha. Havia duas teorias:
- A senhora era judia. Tinha passado anos num campo de concentração nazi. Agora vingava-se nos miudos que só lá compravam um livro de vez em quando.
- A senhora era uma nazi fugida a seguir ao fim da guerra. Dirigia a Buchholz como se fosse a sua antiga ala de Birkenau.
A livraria da Duque de Palmela tem dois andares. No andar de baixo podia-se folhear livremente os livros. O andar de cima era o reino da velha. Era lá que estavam os livros interessantes, que nos iam resolver todos os problemas filosóficos. Assim nós pudessemos ler os indices. Alguns dos meus amigos eram mais afoitos e liam umas páginas. Até ao dia em que ela pôs na rua o senhor do sobretudo de pelo de camelo que teve o desplante de lhe responder.
Voltei hoje à Buchholz. Já não tem o mesmo carisma. Falta a tal senhora. Sobretudo, faltam os livros. Nada mais triste numa livraria do que uma estante vazia. A internet acabou com as livrarias. Resta a FNAC, para as coisas mais simples. Não devia ser assim? Só comecei a comprar sistematicamente livros pela net depois da minha última encomenda, vai para uns dez anos. Voltei lá quinze dias depois: que não me preocupasse, já tinham tratado de tudo. Mais três semanas: olhe, qual era mesmo o nome do livro? Dois meses depois: má cara por eu não me lembrar do nome do dito cujo.
A Biblos abriu vai para um ano, ao pé das Amoreiras. Grande e bonita. Esqueceram-se dos livros. Parece que vai a caminho da falência.
Onde é que eu meti mesmo o cartão visa?

sexta-feira, fevereiro 13

O Príncipe e o Mágico

Era uma vez um príncipe que acreditava em tudo menos em três coisas. Não acreditava em ilhas, não acreditava em princesas, não acreditava em Deus. O seu pai, o rei, disse-lhe que tais coisas não existiam. Como não existiam princesas nem ilhas no reino do seu pai, nem qualquer sinal de Deus, o príncipe acreditava no seu pai.
Um dia o príncipe saiu do palácio e viajou até ao reino vizinho. Aproximou-se do mar e, para seu grande espanto, avistou ilhas e estranhas criaturas que não ousou nomear. Quando procurava um barco para tentar visitar a ilha mais próxima, avistou um homem que passeava na praia envergando um manto.
São verdadeiras aquelas ilhas? -- perguntou o jovem príncipe.
Claro que são verdadeiras! respondeu o homem do manto.
E que criaturas são aquelas?
Claro que são princesas!
Então Deus deve existir! -- gritou o príncipe.
Eu sou Deus! -- respondeu o homem do manto, fazendo uma pequena vénia.
O jovem príncipe voltou ao seu palácio tão rápido quanto pôde.
Então voltastes! -- exclamou o rei seu pai.
Vi ilhas, vi princesas, vi Deus! -- respondeu o jovem príncipe.
O rei não se deixou afectar pela exaltação do príncipe:
Não existem nem ilhas, nem princesas, nem Deus!
Eu vi-os!
E como estava vestido Deus?
Deus usava um manto...
E podias ver os seus sapatos?
Não...
O rei sorriu. Esse é o uniforme dos mágicos! Foste enganado...
O princípe abandonou o palácio e voltou o mais rápido possível ao reino vizinho. Voltou a encontrar o homem do manto.
O meu pai, o rei, disse-me quem o senhor é. Não me voltará a enganar! Agora sei que as ilhas e as princesas não são reais porque o senhor é um mágico!
O homem do manto sorriu.
No reino do teu pai existem muitas ilhas e muitas princesas. Só não as vês, meu rapaz, por causa do feitiço que o teu pai te lançou!
O príncipe voltou a casa imerso nos seus pensamentos. Olhou o seu pai, o rei, nos olhos e perguntou:
Pai, é verdade que não és um rei, mas sim um mágico?
O rei sorriu. Levantou-se e deixou que o seu manto lhe tapasse os pés.
Sim, meu filho, sou apenas um mágico.
Então o homem da praia é Deus?
O homem da praia é apenas um mágico.
Eu preciso de saber a verdade, a verdade por detrás da magia!
Não há verdade por detrás da magia...
Profundamente infeliz,o jovem príncipe anunciou que não podia aceitar tal situação, só a morte o podia libertar.
O rei estalou os dedos e apareceu a Morte. A Morte permaneceu à porta, mas acenou ao príncipe.
O príncipe estremeceu. Lembrou-se das belas princesas irreais que viviam nas belas ilhas que não existiam. Muito bem. Acho que posso suportar a situação.
Muito bem, meu filho. Tu também, começas a ser um mágico.
The Magus, John Fowles.

sexta-feira, fevereiro 6

Prós e Contras

Assisti na segunda-feira a uns minutos do Prós e Contras sobre o caso Freeport. Dum lado estavam um ex-secretário de estado envolvido no processo e várias pessoas com posições próximas dele. Do outro lado pessoas que estavam longe de se lhes opor. Para variar, a apresentadora estava equidistante dos dois lados. Havia alguém do contra? Bem, apareceu alguém da audiência, com direito a uma breve intervenção.
Muito se fala sobre a importância da presunção da inocência, de respeitar o segredo de justiça, de evitar julgamentos na praça pública. Vale a pena reflectir um pouco sobre este tema.
É muito difícil combater a corrupção. Há no entanto uma série de medida bem longe de serem originais, que complicariam a vida a alguma gente. Que tal todos os cidadãos terem de actualizar ano após ano a lista dos seus bens e explicar os aumentos de património em função dos proventos declarados?
Será assim tão drástico considerar que qualquer deputado honesto tem a obrigação de propor uma lei destas na assembleia da república? Esperar que qualquer partido político decente deveria ter uma proposta destas no seu programa? Seria assim tão maledicente dizer que quem não o fizer é suspeito até prova em contrário?
Num país tão pequeno, onde as instituições vivem sobre a pressão asfixiante das pessoas importantes, não será dever patriótico de qualquer membro da polícia judiciária ou do ministério público deitar cá para fora todas as informações que possam contrabalançar essas pressões e dar aos processos uma chance de chegarem ao seu termo?
Será nosso dever de bons cidadãos esperar pelas decisões dos tribunais antes de formarmos uma opinião sobre a inocência ou culpabilidade de alguém, quando os tribunais funcionam à velocidade do caracol e um bom advogado pode atrasar as decisões quase indefinidamente? Será nosso dever não termos uma opinião sobre a decisão de um colectivo de juízes, esquecendo todos os detalhes do processo que nos deram voltas ao estômago?

sábado, janeiro 24

Da Natureza da Verdade


Pessoas diferentes acreditam em visões diferentes do mundo.
Sempre houve uma oposição entre a visão conservadora e visão da esquerda. Ao longo dos tempos cada lado teve as suas vitorias e as suas derrotas. Já ninguém defende a escravatura, ninguém põe em causa o direito das mulheres a estudar e a votar. Já ninguém defende certas utopias da esquerda, como a abolição pura e simples do mercado.
Existia uma verdade que nós fomos pouco a pouco descobrindo, ou essa verdade foi construida?
Em última análise os consensos que foram entretanto estabelecidos que podem no futuro vir a ser invalidados?
Sempre que dois grandes grupos de uma sociedade têm posições diferentes sobre um tema, a verdade pode estar de um dos lados? Ou é uma sintese imprevisível entre os dois extremos?
Tem sentido falar na verdade?

Particularizando:
Se Deus existe, os ateus são um imbecis que perderam totalmente o sentido da vida.
O mesmo aconteceu aos que apostaram na religião errada?
Se Deus não existe, todos os crentes são uns idotas que desperdiçaram o melhor das suas vidas?
Qualquer das hipoteses é trágica!

Existe uma outra perspectiva para analisar esta questão?
Qual?

quarta-feira, janeiro 21

A Economia do Sexo

Mais uma contribuição para tão importante tema.

S.A.R.L.

O João Pinto e Castro lembra que a história da Islândia não é nova, antes pelo contrário.

domingo, janeiro 18

Coitada, casou com um árabe


O Jahid é descendente de uma família de políticos marroquinos que decidiu ser matemático. Conheceu a Consuelo num daqueles institutos internacionais onde as nacionalidades se esbatem. Arranjaram os dois um posdoc em Lisboa e passaram a viver juntos. Um ano depois resolveram casar, em Rabat. Segundo a lei marroquina, ou muçulmana - não faço ideia, cada casamento é um caso, dando origem a um contrato que é negociado pelos cônjuges ou pelas suas famílias. Acordado os termos gerais do contrato com semanas de antecedência havia que acertar os últimos retoques da negociação na noite da véspera. De acordo com as regras, o noivo estaria presente e a noiva seria representada por um familiar. Os especialistas explicaram à família da noiva que o acordo a que tinham chegado era demasiado liberal e como tal não podia ser aceite. Um truque que deviam estar a usar pela n-ésima vez. Na véspera do casamento a noiva está num estado de especial fragilidade...
Resposta da Consuelo: muito bem, não há casamento. Uma das razões principais porque eles se iam casar, para além de estarem apaixonados, era arranjar um passaporte comunitário para o Jahid, que nos tempos pós 11 de Setembro tinha a vida ainda mais complicada cada vez que queria viajar. Por outro lado o cancelamento do casamento era um escândalo terrível. Quando a família do Jahid resolveu voltar atrás já era muito tarde. Agora era a Consuelo que não aceitava os termos anteriores. Podia-se voltar a considerar a hipótese do casamento se ela pudesse estar presente na discussão de um novo contrato, bem mais liberal que o primeiro.
Coitado no Jahid, que não teve nada a ver com esta história. Hoje a Consuelo, o Jahid e a sua filha vivem felizes no México. Quem manda lá em casa é a Consuelo. O Jahid sempre soube que assim seria.

É claro que este caso é a excepção que confirma a regra. À partida não veria com bons olhos que uma filha minha se casasse com um muçulmano? Certamente que não. Mas depois logo se via. Ela não se ia casar com um católico ou um muçulmano mas sim com um homem (ou uma mulher, sei lá). Espera-se de um cardeal algo mais do que uma boca à Alberto João Jardim. Se um senhor não tem algo mais profundo do que isso para nos dizer, mais valia estar calado. Estava num casino? O Cristiano Ronaldo é um míudo de 23 anos que só pretende saber jogar futebol e engatar umas míuda. Está sob escrutínio permanente de todos os seus actos. Pode-se pedir um tratamento especial para um senhor que se considera um modelo a seguir e que todos os dias nos diz o que como nos devemos comportar? É claro que não.
O que é pior: a traição de uma certa esquerda que faz por esquecer as violações constantes dos direitos humanos nos países muçulmanos, ou a leviandade de sua eminência? Desta vez tenho de ficar do lado do senhor Policarpo.

quarta-feira, janeiro 7

segunda-feira, janeiro 5

domingo, janeiro 4

Os caracóis e as carpas têm cornos

os caracóis e as carpas têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carpas e os caracóis não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as caracoias e os carpos têm cornos
vês, eu não te dizia?
os carapoicos e os parcos não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carapaias e os porcos têm cornos
vês, eu não te dizia?
os caracoicos e as parras não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carassaias e os parcas têm cornos
vês, eu não te dizia?
os caracorpos e as praias não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as caracaias e os poicos têm
vês


Este poema da Ana Hatherly ilustra bem as dificuldades de comunicação entre as pessoas bem ilustradas nos comentários do post anterior. Porque é que tal acontece? Provavelmente porque diferentes pessoas funcionam de forma bastante diferente. No mínimo, devíamos ter consciência dessas diferenças. É por isso que proponho aos leitores do blogue que façam este teste. Era interessante publicarem os resultados nos comentários. Já falei sobre este assunto aqui.

Katharine Cook Briggs estava a desenvolver uma teoria sobre as diferentes psicologias dos seres humanos quando leu o livro Tipos Psicologicos do psicanalista Carl Gustav Jung. Reconheceu imediatamente a maior profundidade desta abordagem e dedicou-se a desenvolvê-la juntamente com a sua filha Isabel Briggs Myers, produzindo o teste de Myers-Briggs.
Este teste classifica as pessoas em relação a quatro parametros:
1. Atitude perante o mundo: Introversão/Extroversão, (virado para fora/virado para dentro) termos criados por Jung que já fazem parte da nossa linguagem do dia a dia.
2. Forma como tomamos decisões: Pensamento/Sentimento, (damos mais importância aos argumentos logicos ou aos valores).
3. Forma como processamos a informação que nos chega através dos cinco sentidos: Sensação/Intuição, (processa a infirmação de uma forma mais concreta e directa ou de uma forma mais abstracta, sendo muitas vezes processada pelo incosciente e manifestando-se através de palpites ou intuições. Dá mais importãncia aos factos ou às possibilidades).
4. Estilo de vida: (Racional/Perceptivo) damos mais importância às funcões racionais, a tomar decisões ou a coligir informação.

terça-feira, dezembro 30

"O mundo é ininteligível, mas é bom"

É o novo subtítulo do blog da Maria da Conceição. Vale a pena gastar umas linhas a analisar este aforismo de uma senhora simpática chamada Adélia Prado.
Inintelegível porquê? Porque não se pode saber de que são feitos as estrelas e os planetas? Nem por isso, até já se foi à Lua... Mas levou muito tempo a se descobrir que havia umas luas a andar à volta de Júpiter. A partir daí foi mais fácil acreditar que a Terra girava em volta do Sol. Foi um senhor chamado Galileu que se deu ao trabalho de construir um telescópio. Devia ter juízo.
Foi o que se pensou durante muito tempo. Agora já não. No entanto há muito quem continue a ignorar a eviedência: as fronteiras do conhecimento movem-se.
Ininteligível porquê? Porque não se pode compreender a mente humana? Nunca se desvendará o mistério do livre arbítrio? Quem quiser acreditar que assim é, está no seu direito. Não é algo que se compreenda sem empenhamento. Não é algo se explique nos comentários de um blog. Daqui a umas décadas uma nova geração crescerá com duas ou três novas palavras, a destilação de décadas de trabalho. Para eles nada haverá a explicar sobre o livre arbítrio. É assim que as novas ideias se propagam. poucas pessoas notam os progressos essenciais.
Afinal, Ininteligível porquê? Porque se quer acreditar que o mundo é bom, que existe um deus bom. Na verdade,

O mundo só pode ser bom se for inintelígivel.

Como se pode aceitar de outra forma a morte de uma criança?
Qual é o preço que se paga por acreditar no tal aforismo? Acabamos por nos fechar ao mundo. Estou a ouvir o clamor da indignação: eu sou bom, estar aberto ao mundo é bom, logo eu estou aberto ao mundo. Não é assim tão simples. Definimo-nos pelas nossas acções, não pelas nossas intenções. Ou pelas intenções que julgamos ser as nossas.

terça-feira, dezembro 23

segunda-feira, dezembro 15

Good bye, George W

Mas não era preciso seres mais uma vez igual a ti próprio...

sexta-feira, dezembro 5

Bombaim

Não posso concordar com a citação do Lutz acerca dos actos de terrorismo cometidos em Bombaim. Talvez as opiniões de dois cidadãos do mundo, um paquistanês, outro indiano, nos possam dar uma visão mais profunda das coisas. A Índia e o Paquistão são dois gémeos siameses que não podem progredir um sem o outro. Já vai sendo tempo de compreenderem isso.

domingo, agosto 24

quinta-feira, agosto 21

Nelson Évora na TV espanhola

Quando os atletas eram focados e se referia as suas possibilidades, o comentador esqueceu-se do nosso saltador. Não se esqueceu de mais ninguém. Só tinha a décima marca do ano? Tudo bem. Mas por acaso até era o campeão do mundo. Quando ganhou, teve direito a um comentário. Lembraram o azar da Naide Gomes. Lá teve direito a uma entrevista. Pediram-lhe justificações. Afinal tinha só a décima marca do ano. Como se atreveu? Évora explicou-lhe que o ano passado tinha sido a mesma coisa nos mundiais. O sonho dele são os 18 metros. Os meetings ele deixa para os outros.
Que fique bem claro: não é nada de pessoal contra nós. Se forem no anel de Madrid e quizerem ir para Barcelona, procurem Zaragoza. Barcelona, nunca ouviram falar.

terça-feira, agosto 19

Fazer um artigo sózinho (2)

A aprendizagem de um amtemático tem tudo a ver com uma quantidade: o tempo que somos capazes de dedicar de forma eficiente a resolver um problema. É algo semelhante ao folego de um nadador. Quantas piscinas consegue nadar? Um miudo da escola primária não passa de uns minutos: ou sabe ou não sabe. Um aluno do primeiro ano da universidade deveria ser capaz de pensar uns quinze minutos num problema. Pouco a pouco esse tempo vai aumentando. Começa-se a saber partir o problema em fatias.
O aumento da quantidade (do tempo) provoca variações qualitativas. Os alunos particularmente dotados aprendem a tirar proveito de pensar num problema e voltar a ele no dia seguinte. A solução aparece-lhes com facilidade no dia seguinte. Que fenomenos estão a ocorrer?
- O cerebro está a reorganizar-se, de uma forma até certo ponto semelhante ao que acontece aos músculos de um levantador de peso. A criação de novas sinapses substitui o crescimento das fibras. (PS: Este processo de reorganização do cérebro exige trabalho regular. Não acontece a quem só estuda para os exames.)
- O cérebro está a trabalhar no problema independentemente da nossa vontade consciente.
Despoletar este tipo defuncionamento é o acontecimento mais importante da vida académica de um estudante universitário. Infelizmente, normalmente é substituido pelo queimar de uma fita ou uma bebedeira.

A matemática é ensinada colocando o enfase na importancia do raciocinio dedutivo. Esta forma de pensar é essencial para verificar se o nosso raciocínio é correcto. Mas não é assim que chegamos às soluções. Este caminho, normalmente o estudante tem de o percorrer sózinho. Muitos jovens escolhem a matemática porque está tudo muito bem organizado. Sentem-se seguros. Quando começam a investigar, o espaço a percorrer entre a formulação do problema e a sua solução aumentou um pouco mais. É preciso encontrar novas armas para ganhar um pouco mais de folego e poder transpor distãncias um pouco maiores. E há que encontrar essas soluções sózinho. Quais foram as soluções que encontraram?

segunda-feira, agosto 18

The reluctant fundamentalist

Changez é mais um filho de uma família aristocrata caída na decadência. Jurou trazê-la de volta ao seu explendor. O primeiro lugar da sua classe em Princeton e a mulher por quem se apaixonou abriram-lhe as portas da elite de Manhatan. Estava quase a cumprir a sua promessa quando o 11 de Setembro lhe veio lembrar que tinha nascido em Lahore.
Duas páginas da novela de Moshin Amid na FNAC foram mais do que suficiente para não ser capaz de a largar. Agora vou ver se compro a outra.

Entretanto

podem compor uma novela à vossa vontade.

domingo, agosto 17

Mais do que compreender o mundo, é preciso transformá-lo?

Ron Suskind escreveu The Price of loyalty, a biografia de Paul O'Neill, secretário do tesouro durante a primeira administração de George W. Bush. Entre outras coisas, apresentou provas de que Bush tinha planeado a invasão do Iraque em janeiro de 2001. A Casa Branca não gostou. Uns anos depois descreveu na New York Times Review uma conversa que teve com um alto colaborador de Bush, provavelmente Karl Rove. Disse-lhe esse senhor que individuos como Ron pertenciam àquilo a que ele chama uma comunidade baseada na realidade. Pessoas que acreditam que as soluções dos problemas surgem a partir de um estudo judicioso da realidade discernível.
Suskind concordou.
O tal senhor explicou-lhe que já não é assim que o mundo funciona. Agora somos um império e quando actuamos criamos a nossa própria realidade. Enquanto você estuda essa realidade - judiciosamente - nós agiremos de novo, criando novas realidades, as quais você terá de estudar de novo. Nós somos os actores da história ... e vocês, a todos vocês caberá apenas estudar o que nós fazemos.
Parece que o tal senhor tinha uma visão incompleta acerca do funcionamento do mundo. Como entretanto se provou.
Temos aqui um exemplo particularmente explícito acerca de duas visões do mundo. Alguns procuram começar por o compreender, outros preferem a acção. Mas à misturas interessantes: Karl Marx, que passou a vida a contemplá-lo, escreveu a frase que aparece no título deste post. Sem ponto de interrogação, claro. Karl Rove e George W. Bush estão de acordo, mas acham mais facil manipulá-lo. Será esta atitude um exclusivo da direita? Olhem que não, olhem que não. Mas isso fica para uma próxima oportunidade.

sexta-feira, agosto 15

Fazer um artigo sózinho

Uma das coisas que o Hugo quer fazer antes de morrer. Afinal, o que é que o Hugo quer? Assinar um artigo sózinho? Ter a ideia para o artigo? Pode acontecer uma vez, por um golpe de sorte. Acho que ele quer mais, ou vai querer mais. Vai querer ter ideias para fazer artigos. Ser independente. Será que ele já sabe que quer isto tudo?
Como é que se chega lá? Não é necessariamente a forma mais rápida de progredir na carreira...
Trata-se naturalmente de um novo salto em frente. Parecido com o que é preciso dar para passar de bom aluno a investigador. Já agora: em que consistiu essencialmente esse salto?

quinta-feira, agosto 7

domingo, agosto 3

The Bucket List 2

Que tal em vez de fazer uma lista das coisas que queremos fazer até morrer, fizermos listas das coisas que queremos fazer hoje, esta semana, este mês, este ano, esta década. E olhar de vez enquanto para lá, para ver depois o que aconteceu. Podemos acabar por aprender alguma coisa acerca de nós mesmos. Podemos também começar a ser um pouco mais eficientes.
É claro que é muito menos excitante do que fazer a lista das coisas que queremos fazer até ao fim do próximo ano, altura em que o nosso aneurisma cerebral nos vai fazer bater as botas. Mas nem toda a gente tem essa sorte.

sexta-feira, agosto 1

The Bucket List

O filme que provavelmente inspirou um amigo do Hugo a propor que cada um de nós faça uma lista das coisas que não queremos deixar por fazer até ao dia when we kick the bucket. O dia em que alguns dirão que vão desta para melhor.
Aqui está uma lista que dá azar revelar. Já o Morgan Freeman pensava mais ou menos isso. Que se trata de um exercício que cada um de nós teria muito a ganhar em fazer, não tenho dúvidas. Recomendo.

quinta-feira, julho 24

segunda-feira, julho 21

Cortar o melao em fatias

Sempre acreditei que a melhor estratégia para resolver um problema é parti-lo em vários. Uma variante consiste em substitui-lo por um mais facil, mas que tenha algo a ver com o outro. Funciona sempre, para resolver um problema de matemática, para aprender a fazer um salto mortal ou para ... o que quiserem. Desde que o nosso engenho e arte saiba por onde meter a faca.
Até que se me deparou o seguinte problema. O sr. Hermenegildo zangou-se com o filho há muitos anos. Quer reatar relaçoes com ele. É o que mais quer na vida. A prima Hermengarda, sempre conciliadora, arranjou-lhe o número do telemovel. O Hermenegildo sabe que o filho tem bom feitio. Vai receber bem o seu telefonema. Só falta engolir aquele orgulho absurdo que o sufoca e ser capaz de marcar o número. Ele nem consegue levantar o auscultador. Também nao pode ligar ao filho num estado alterado. Aí o seu orgulho acabaria por traí-lo.
Como é que se corta este melao em fatias?

quinta-feira, julho 17

O avião

Depois de mil peripécias, que maravilha é fazer o check-in. O avião não parte sem nós, agora que já lá estão as nossas bagagens. Podemos passear calmamente pelas free-shops, sabendo que nos esperam umas horas de volta ao útero materno. Que maravilha voltar a ser irresponsável e inimputável. Se o avião cair, não é por minha culpa. Trazem-me a comidinha ao lugar com um sorriso. Só falta meterem-na na minha boca. Mas ainda era bem melhor nos bons velhos tempos em que não havia linhas low cost onde se tem de pagar a sandes. Nem comissários de bordo.
É claro que há os outros, aqueles que não gostam de abdicar da ilusão de controlarem as suas vidas. Os que dizem que têm medo de andar de avião.

sexta-feira, julho 11

A Rainha de Copas

Crescer ao princípio é facil. É a biologia que nos lança desafios todos os dias. Aprender a andar, a falar, a namorar. Enquanto nós nao atingimos um dominio razoavel, embora ilusório, das forças da natureza, os desafios da biologia continuavam sempre: sobreviver aos animais que nos podiam caçar, às secas que nos podiam matar à fome, aos outros humanos que nos queriam escravizar. Até que um frigorífico cheio e uma conta bancária nos permitiram o luxo de vegetar em frente à televisao.
Quando a biologia deixa de nos obrigar a crescer, sociedade toma conta desse trabalho. O emprego, o doutoramento, a tropa. Até que chega o dia em que só continuamos a crescer se nos dermos a esse trabalho. Podemos increver-nos num curso de pintura (funciona por uns meses), fazer psicanalise (talvez funcione por uns anos) ou fazer paraquedismo.
Pois, mas porque é que nos havemos de dar a esse trabalho? A verdade é que a alternativa ao crescimento nao é o nao crescimento, é começar a definhar. A vida é um grande funil. Por muito sucesso que tenhamos o número de possibilidades em aberto tem tendencia para decrescer. Deixamos de poder vir a ser ginastas de competiçao, jogadores de futebol, engenheiros, treinadores de futebol. Porque somos outras coisas, claro. Ter dinheiro para descer o elevador, entrar no automovel e larga-lo no estacionamento do nosso trabalho também significa que cada vez vemos menos pessoas que pensam de outra maneira e têm outros problemas. O tipo de movimentos que fazemos vai sendo também cada vez menor. As celulas do nosso cerebro que vao morrendo nao sao um grande problema. Bem pior sao as sinapses que se perdem por deixarem de ser usadas, e as poucas novas que sao criadas. É aí que começamos a definhar. Mesmo que ao principio nao se veja nada por fora. Somos como a rainha de copas: temos de correr muito, mesmo que seja só para ficar no mesmo sítio...

quinta-feira, julho 10

segunda-feira, julho 7

Crescer


Recuso-me a tal coisa! As jeans de quando andava no liceu ainda me servem. Ou ainda continuo a aguentar-me ao lado dos miudos no ginásio. Ou pelo menos o meu carro anda mais do que o teu. Crescer identifica-se a cair nas armadilhas em que caíram os nossos pais. A começar a ficar igualzinho ao pior lado deles. A envelhecer.

A estratégia da negaçao nao se aguenta por muito tempo. Que tal reinventar a palavra? Afinal crescer nao tem nada a ver com aquelas cicatrizes que às vezes a vida nos inflige e nos torna um pouquinho mais amargos. Cresecer afinal é bom. É saber mais. O suficiente para cair nas armadilhas em que caíamos a década passada. Mas será que aquelas em que caímos agora sao assim tao diferentes?

E afinal, qual foi a última vez que alguma coisa mudou em nós? Para melhor.

domingo, julho 6

If You Meet the Buddha on the Road, Kill Him!

Um excelente livro sobre crescimento pessoal. Para quem estiver interessado. Nem sequer tem muito a ver com psicoterapia.

sábado, julho 5

Crescer

Como é que a nossa vida cresce? Como é que se mede esse crescimento? Pergunta a Sofia. Será que nós crescemos? Claro que sim, até ao fim da adolescência. Depois, a maior parte do tempo, só envelhecemos. Porque desistimos de crescer. Durante alguns anos podemos distrair-nos vendo os nossos rebentos crescer. Julgamos que crescemos como eles. Mas esse é o tipo de crescimento que compartilhamos com os vegetais.
Medir aquilo que crescemos ao longo da vida adulta é muito facil. Bastam os dedos de uma mao. Nem sequer é obvio que vamos precisar de todos os dedos.