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sábado, abril 18

Rituais de Transição

Um casamento cigano dura três dias.
Algumas vezes as famílias dos noivos ficam endividadas.
Um desperdício?
Ao fim dos três dias todos os intervenientes interiorizaram o facto de que aqueles dois jovens se casaram e entraram numa nova etapa das suas vidas.
Muitos ajustes que se iriam realizar ao longo de uma década entre os noivos e as suas famílias foram realizados em poucas horas, num ambiente bastante mais propício, enquanto cantavam, comiam e dançavam.
Esses ajustes podem gastar muita energia, muito tempo e muito dinheiro.
Talvez o gasto tenha sido um bom investimento...
Na nossa sociedade o casamento era essencialmente uma cerimónia centrada na noiva. O seu dia de glória. Em troca ela abdicava da sua identidade em prole da harmonia da sua futura família. Para o resto da sua vida.
É claro que se uma cerimónia do casamento já não cumpre nenhum propósito e se transforma apenas em mais uma forma de consumismo, mais vale guardar a massa para outro fim.

A transição mais importante das nossas vidas é a entrada na idade adulta.
Esta transição era acompanhada de rituais que nos ajudavam a compreender e ajustar a essas mudanças. Nalgumas sociedades as crianças eram ritualmente raptadas das suas familias, era-lhes dado a conhecer os segredos da tribo e da vida adulta. Chegar à idade adulta era considerado algo inquestionavelmente positivo. Nunca mais se falava nisso.
A nossa sociedade acabou com a maioria desses rituais. Os segredos da tribo já não se podem transmitir numa semana ou num mês. Já não se ordenam cavaleiros nem se cumpre o serviço militar obrigatório. Até as mais elementares cerimónias de iniciação, como as praxes académicas, foram aniquiladas pelos pruridos dos politicamente correctos.

As experiências associadas a terminar a quarta classe, o ensino secundário ou uma licenciatura cumpriam modestamente esse papel. Já não é o caso. A entrada na idade adulta atrasou-se tanto que um doutoramento acaba por algumas vezes cumprir as funções de um rito de passagem. Quando não é uma forma de atrasar por mais uns anos o contacto com as responsabilidades da idade adulta...

Qual o preço que se paga quando não passamos por estas experiências de transição?
As crises de identidade e outros conflitos interiores arrastam-se por mais uns anos...
Toda uma série de ajustamentos que deveriam ocorrer mais ou menos naturalmente acabam por se revelar mais dificeis.