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sábado, janeiro 24

Da Natureza da Verdade


Pessoas diferentes acreditam em visões diferentes do mundo.
Sempre houve uma oposição entre a visão conservadora e visão da esquerda. Ao longo dos tempos cada lado teve as suas vitorias e as suas derrotas. Já ninguém defende a escravatura, ninguém põe em causa o direito das mulheres a estudar e a votar. Já ninguém defende certas utopias da esquerda, como a abolição pura e simples do mercado.
Existia uma verdade que nós fomos pouco a pouco descobrindo, ou essa verdade foi construida?
Em última análise os consensos que foram entretanto estabelecidos que podem no futuro vir a ser invalidados?
Sempre que dois grandes grupos de uma sociedade têm posições diferentes sobre um tema, a verdade pode estar de um dos lados? Ou é uma sintese imprevisível entre os dois extremos?
Tem sentido falar na verdade?

Particularizando:
Se Deus existe, os ateus são um imbecis que perderam totalmente o sentido da vida.
O mesmo aconteceu aos que apostaram na religião errada?
Se Deus não existe, todos os crentes são uns idotas que desperdiçaram o melhor das suas vidas?
Qualquer das hipoteses é trágica!

Existe uma outra perspectiva para analisar esta questão?
Qual?

domingo, janeiro 18

Coitada, casou com um árabe


O Jahid é descendente de uma família de políticos marroquinos que decidiu ser matemático. Conheceu a Consuelo num daqueles institutos internacionais onde as nacionalidades se esbatem. Arranjaram os dois um posdoc em Lisboa e passaram a viver juntos. Um ano depois resolveram casar, em Rabat. Segundo a lei marroquina, ou muçulmana - não faço ideia, cada casamento é um caso, dando origem a um contrato que é negociado pelos cônjuges ou pelas suas famílias. Acordado os termos gerais do contrato com semanas de antecedência havia que acertar os últimos retoques da negociação na noite da véspera. De acordo com as regras, o noivo estaria presente e a noiva seria representada por um familiar. Os especialistas explicaram à família da noiva que o acordo a que tinham chegado era demasiado liberal e como tal não podia ser aceite. Um truque que deviam estar a usar pela n-ésima vez. Na véspera do casamento a noiva está num estado de especial fragilidade...
Resposta da Consuelo: muito bem, não há casamento. Uma das razões principais porque eles se iam casar, para além de estarem apaixonados, era arranjar um passaporte comunitário para o Jahid, que nos tempos pós 11 de Setembro tinha a vida ainda mais complicada cada vez que queria viajar. Por outro lado o cancelamento do casamento era um escândalo terrível. Quando a família do Jahid resolveu voltar atrás já era muito tarde. Agora era a Consuelo que não aceitava os termos anteriores. Podia-se voltar a considerar a hipótese do casamento se ela pudesse estar presente na discussão de um novo contrato, bem mais liberal que o primeiro.
Coitado no Jahid, que não teve nada a ver com esta história. Hoje a Consuelo, o Jahid e a sua filha vivem felizes no México. Quem manda lá em casa é a Consuelo. O Jahid sempre soube que assim seria.

É claro que este caso é a excepção que confirma a regra. À partida não veria com bons olhos que uma filha minha se casasse com um muçulmano? Certamente que não. Mas depois logo se via. Ela não se ia casar com um católico ou um muçulmano mas sim com um homem (ou uma mulher, sei lá). Espera-se de um cardeal algo mais do que uma boca à Alberto João Jardim. Se um senhor não tem algo mais profundo do que isso para nos dizer, mais valia estar calado. Estava num casino? O Cristiano Ronaldo é um míudo de 23 anos que só pretende saber jogar futebol e engatar umas míuda. Está sob escrutínio permanente de todos os seus actos. Pode-se pedir um tratamento especial para um senhor que se considera um modelo a seguir e que todos os dias nos diz o que como nos devemos comportar? É claro que não.
O que é pior: a traição de uma certa esquerda que faz por esquecer as violações constantes dos direitos humanos nos países muçulmanos, ou a leviandade de sua eminência? Desta vez tenho de ficar do lado do senhor Policarpo.

terça-feira, dezembro 30

"O mundo é ininteligível, mas é bom"

É o novo subtítulo do blog da Maria da Conceição. Vale a pena gastar umas linhas a analisar este aforismo de uma senhora simpática chamada Adélia Prado.
Inintelegível porquê? Porque não se pode saber de que são feitos as estrelas e os planetas? Nem por isso, até já se foi à Lua... Mas levou muito tempo a se descobrir que havia umas luas a andar à volta de Júpiter. A partir daí foi mais fácil acreditar que a Terra girava em volta do Sol. Foi um senhor chamado Galileu que se deu ao trabalho de construir um telescópio. Devia ter juízo.
Foi o que se pensou durante muito tempo. Agora já não. No entanto há muito quem continue a ignorar a eviedência: as fronteiras do conhecimento movem-se.
Ininteligível porquê? Porque não se pode compreender a mente humana? Nunca se desvendará o mistério do livre arbítrio? Quem quiser acreditar que assim é, está no seu direito. Não é algo que se compreenda sem empenhamento. Não é algo se explique nos comentários de um blog. Daqui a umas décadas uma nova geração crescerá com duas ou três novas palavras, a destilação de décadas de trabalho. Para eles nada haverá a explicar sobre o livre arbítrio. É assim que as novas ideias se propagam. poucas pessoas notam os progressos essenciais.
Afinal, Ininteligível porquê? Porque se quer acreditar que o mundo é bom, que existe um deus bom. Na verdade,

O mundo só pode ser bom se for inintelígivel.

Como se pode aceitar de outra forma a morte de uma criança?
Qual é o preço que se paga por acreditar no tal aforismo? Acabamos por nos fechar ao mundo. Estou a ouvir o clamor da indignação: eu sou bom, estar aberto ao mundo é bom, logo eu estou aberto ao mundo. Não é assim tão simples. Definimo-nos pelas nossas acções, não pelas nossas intenções. Ou pelas intenções que julgamos ser as nossas.

sexta-feira, maio 30

Não adianta

Durante séculos foi proibido dissecar cadáveres. Quantas vidas se perderam devido a este interdito idiota? Agora é sobre as células estaminais que se procura exercer um tabu. Não interessa se essa investigação podia vir a curar doenças como Parkinson e a diabetes. Outros valores mais altos se alevantam. Os líderes religiosos parecem não querer aprender nada com os erros do passado. Acontece que é impossível na sociedade globalizada de hoje brincar à inquisição por muito tempo, mesmo que a rebaptizemos com um nome mais apelativo. O supremo tribunal brasileiro autoriza a investigação utilizando células estaminais. Curiosamente, a igreja católica brasileira resolveu ter juízo. Os países que mantiverem o interdito vão abdicar de desenvolver esta nova e lucrativa indústria. A Grã-Bretanha já percebeu isso.
Repete-se esta rábula mais uma vez (via Que treta!).

quarta-feira, maio 14

sábado, janeiro 26

Fariseus

As liberdades são normalmente invocadas para defender os mais fracos e não para facilitar ainda mais a vida dos mais fortes. Jesus não foi tolerante para com os vendilhões do templo ou os fariseus mas para com as prostitutas e os pobres.

sexta-feira, janeiro 25

A Dona Elisa passa a vida a dizer mal do marido, mas ai de quem concordar com ela

Dois anos e meio depois da eleição, os católicos progressistas interiorizaram finalmente o facto incontornável: o cardeal Ratzinger é o Papa Bento XVI.

quinta-feira, janeiro 24

La Sapienza (2)

O caso do Papa na La Sapienza tocou, inesperadamente, nalgum nervo: de outra forma não consigo explicar-me que tantas pessoas, até umas de cujo juízo e boa fé normalmente não duvido, julgam estar perante um escândalo, um ataque vil contra a Igreja Católica e a liberdade de expressão dos crentes.

Não é estranho que também pessoas não católicas reconhecem ao Papa um tal estatuto que ele estaria, à partida, sempre bem vindo para discursar nos seus eventos. Mas a ideia de que todos têm obrigação de lhe reconhecer esse estatuto, é obviamente inadmissível e viola, ao querer impor um privilégio de um, a liberdade de expressão de outros.

Em 1990 Ratzinger citou Feyerabend para dizer que «A igreja na altura de Galileu foi muito mais fiel à razão que o próprio Galileu, e também considerou as consequências éticas e sociais da doutrina de Galileu. O seu veredicto contra Galileu foi racional e justo». Cientificamente, Galileu devia ter esperado por mais evidências antes de defender com tanto afinco o modelo de Copérnico. Cientificamente, isso justificava que o revisor do seu primeiro trabalho lhe pedisse que apresentasse mais dados. Mas não há nada de racional, científico, ou sequer minimamente aceitável em pôr o homem na prisão por causa disso. É isto que Ratzinger e os Católicos que o defendem varrem para debaixo do tapete, mas é isto que importa. A Igreja Católica tinha o direito de discordar de Galileu mas não tinha o direito de o prender por isso.
Ninguém quer fazer o mesmo ao Papa. O espírito académico de abertura e diálogo faz-me opor que ponham Ratzinger na prisão ou o torturem pelas tretas que diz. Mas é um disparate que o representante de uma religião inaugure o ano académico de uma universidade séria. A universidade não tem nada a ver com religião, não deve ter, e tinha-se poupado muito sofrimento a muita gente se nunca tivesse tido.

Já agora, leiam os posts do Luís M. Jorge sobre O Templo.

terça-feira, novembro 20

A outra Religião

Tenho entre os meus amigos pessoas que considero decentes e intelectualmente honestas, embora que não partilham certas opiniões políticas comigo.
Eles têm entre os seus amigos pessoas que consideram decentes e intelectualmente honestas, embora que não partilham certas opiniões políticas com eles.
Pessoas que considero criminosos.


Homens bem intencionados realizam em geral boas obras e homens maus cometem actos contra o bem comum. Só a religião consegue fazer com que homens bons cometam as acções mais maléficas sem qualquer remorso.

Richard Dawkins, A Desilusão de Deus. Citado de Memória.

O Lutz exprimiu ontem o seu ultraje perante as palavras do Sr. Correia da Fonseca a propósito dos atiradores que matavam quem tentasse atravessar o muro de Berlim. Subscrevo a posição do Lutz. No entanto acho que vale a pena tentar compreender o que se passa na cabeça do sr. Correia da Fonseca.

Muitos cristãos, pessoas decentes preocupadas como seu semelhante, acreditam na omnipotência de Deus. Acham que, se uma criança morre ao nascer, foi a vontade de Deus. Como podem então defender Deus? Algumas vezes com muita dificuldade. Mas acabam por de alguma forma se reconciliar com esse facto. Fazendo acrobacias que a sua honestidade intelectual não lhes permitiria caso se estivesse a falar de qualquer outro aspecto das suas vidas.

Os comunistas comportam-se de forma semelhante em relação às suas crenças.

Claro que há uma diferença, Lutz. Provavelmente achas, tal como eu, que Deus nunca matou uma criança, porque pura e simplesmente não existe. Mas muitos dos meus amigos cristãos acreditam que Deus matou a criança e defendem-no. Muitas vezes com conflitos interiores. Acredita que também existem alguns conflitos interiores no sr. Correia da Fonseca. Só que ele não os vai revelar a ti.

domingo, novembro 11

A Desilusão de Deus &

Nunca tinha lido um livro sobre ateísmo. A igreja católica já faz o seu trabalho suficientemente bem feito. Recentemente li dois. Desiludi-me um pouco com A Desilusão de Deus, de Richard Dawkins. Esperava-se que um especialista em evolução utilizasse esta teoria para estudar a religião. Dawkins limita-se a usar o senso comum. Dele, esperava-se algo mais. Ficou-me na memória a frase

Homens bem intencionados realizam em geral boas obras e homens maus cometem actos contra o bem comum. Só a religião consegue fazer com que homens bons cometam as acções mais maléficas sem qualquer remorso.

Bem mais profundo do que o livro de Dawkins é o livro de Daniel Dennett Breaking the Spell: Religion as a Natural Phenomenon. Dennett analisa em detalhe o processo de formação das religiões de um ponto de vista antropológico e evolutivo. As religiões organizadas começam exactamente no momento em que surge a divisão do trabalho. O conceito de meme, introduzido por Dawkins, é utilizado em detalhe para explicar a evolução das religiões.
Quando se fala na sobrevivência do mais forte pensa-se em geral em individuos. A teoria da evolução não se refere a individuos mas sim aos seus genes. Não somos nós que possuimos os genes, somos apenas o seu envolucro mortal. Um meme é o equivalente cultural de um gene. São exemplos de memes canções, receitas de cozinha, cortes de cabelo e teoremas matemáticos. Uma religião é um agregado extremamente complexo de memes. Os memes mais aptos são reproduzidos e sobrevivem. Os outros não. A ideia de Deus e conceito de ateismo são dois memes em competição.

A parte final do livro é dedicada a enfatizar uma série de ideias que valem a pena ser repetidas:

1. A religião é um fenómeno cultural como qualquer outro que pode e deve ser estudado por todos, crentes e não crentes.

2. Os crentes acreditam na existência de um estatuto especial para a sua religião, que a coloca acima da possibilidade de esta ser estudada. Encaram muitas vezes estes estudos como actos hostis contra a sua religião. Os cientistas olham em geral para o estudo das religiões como uma disciplina menor.

3. Num mundo globalizado e turbulento como aquele em que vivemos estudar as religiões usando métodos cientiíicos é algo quase tão urgente como estudar o clima.

4. Ninguém sabe como vão evoluir as religiões. Se perdurarão para sempre ou se definharão dentro de um ou dois séculos.

Mais do que apresentar certezas, o livro levanta questões e discute metodologias de trabalho.

Algum tempo atrás o Helder Sanches perguntava se as religiões eram eternas e inevitáveis. A resposta de Dennet é um pouco mais modesta do que a maioria das respostas dadas pelos vários bloggers: vamos primeiro estudar o assunto a sério. Depois logo se vê.

domingo, julho 15

Deuses

Os filósofos estendem o sentido das palavras até que estas passem a reter muito pouco do seu sentido original, chamando Deus a uma vaga abstracção que eles criaram para si próprios, apresentam-se como crentes perante o mundo, orgulhando-se até de terem atingido uma ideia mais pura e mais elevada de Deus, quando na verdade o seu Deus não é mais do que uma pálida e insubstancial sombra da poderosa personalidade que encontramos na doutrina religiosa.
Sigmund Freud

sexta-feira, junho 29

O Amor, a Fé e a Vontade

Dizia o CA aqui que "O amor é uma acto de vontade". Decidimos amar.

E a Fé, também é um acto de vontade?

sábado, junho 16

Vão acabar as religiões?

Quem pergunta dá a resposta:)

Perguntas inevitáveis



Helder Sanches propõe um debate interessante no seu blogue. Aqui fica uma pequena contribuição.
É quase inevitavel que cada ser humano se pergunte o que é que acontece depois da morte, que princípios morais deve seguir, que sentido dar à sua vida, onde arranjar energia para ultrapassar as dificuldades da vida, como encontrar outros seres humanos com que partilhar as suas alegrias e desventuras. Uma religião é uma espécie de pronto a vestir onde se pode encontrar respostas para estas perguntas e rituais que nos ajudam a ultrapassar os momentos de fraqueza. Claro que há um preço a pagar por estas benesses.
Um ateu é alguém que compreende as desvantagens do pronto a vestir e prefere pensar pela sua cabeça. Acontece que proclamar-se ateu não é o final de um caminho, mas o princípio. A inevitabilidade da confrontação com as questões referidas acima (ou de as bloquear) leva muitos de nós a cair numa pseudo religião pouco depois de nos libertarmos da religião:
-Dedicamo-nos ao estudo dos ovnis.
-Seguimos um guru que advoga a meditação transcendental.
-Passamos a ser fanáticos do Benfica.
-Criamos um odio de estimação à nossa religião preferida.
-Entramos para a Maçonaria.
-Gastamos o nosso dinheiro em consultas à abelha Maya ou ao professor Karamba.

É muito dificil não cair no lume quando se salta da frigideira. Muitos dos que abandonam uma religião acabam por abraçar uma pseudo-religião. Procurar respostas genuinas às questões de que falei é um caminho arduo mas que vale a pena seguir. Não seria mais util que os blogs ateus gastassem um pouco menos de tempo a cascar na padraria e o usassem para discutir estas questões?
Não me dedico por aí além à propaganda anti religiosa porque se convencermos uma pessoa a abandonar uma religião tradicional o mais provavel é ela acabar por ser presa de algum culto ainda pior. Poucos são capazes de pensar pela sua cabeça e estão dispostos a fazer o esforço. As religiões existem desde sempre e não vão acabar este século.
Não posso deixar de mencionar o facto de haver algumas pessoas que, permanecendo dentro de uma religião organizada, tentam apesar de tudo pensar por si próprias. Seria mais esperto tentar dialogar com elas do que hostilizá-las.

segunda-feira, junho 11

Aceitámos o Egoísmo

Fazer um aborto é o acto egoista por excelência. Negar o direito ao aborto é uma das formas mais visiveis de querer obrigar os outros a serem bons. Nunca veio nenhum bem ao mundo de tentar tal coisa. O último referendo mostra que demos mais um passo no sentido de não nos metermos todos os dias na vida dos outros.