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sexta-feira, abril 3

O Guerreiro

Algumas vezes temos de ficar e lutar. Sempre foi assim ao longo da história da humanidade. Era matar ou ser morto. Um homem só contava se era um guerreiro. Mas o guerreiro não tem de matar para defender os seus valores. O guerreiro sabe afirmar o seu poder e assumir a sua identidade no mundo. Esse poder pode ser físico, psicologico, intelectual ou espiritual. Luta-se para subir no emprego. Também se luta para engravidar ou para ultrapassar um limitação pessoal.
Se o martir enfrenta a dor e o viajante a solidão, o guerreiro enfrenta o medo. Só se consegue viver plenamente um destes arquetipos quando já se conhecem razoavelmente bem os outros. Para enfrentar o medo, temos de saber lidar com a dor e a solidão.
Durante milénios poucas guerreiras existiram. Felizmente as coisas mudaram. Por outro lado, conheço bastantes senhoras da classe média alta que não concebem outra forma de estar na vida que não seja comportarem-se como guerreiras. Pelo menos a partir do momento que saiem da garagem do prédio onde vivem. Um dia descobrem que o marido não é perfeito. Quando dão por elas já estão divorciadas. Algumas vezes por coisa nenhuma...

domingo, março 29

O Peregrino

Podiamos também chamar-lhe o vagabundo, ou o viajante. Algumas vezes faz sentido falar de uma travessia do deserto.
Paul Gaugin abandonou o seu lucrativo trabalho de compra e venda de acções na bolsa de Copenhaga, resolvendo voltar para França e dedicar-se à pintura, abandonando a mulher e os filhos. Tal mudança não o satisfez completamente, só tendo encontrado a sua verdadeira identidade quando se instalou no Tahiti. Um acto de coragem ou de cobardia? Gaugin ganhou o seu lugar na história da pintura e a sociedade perdoou-o, a família talvez não. Gaugin abraçou para toda a vida a figura do viajante. Toda a gente parte numa viagem alguma vez na vida. É a única maneira de encontrar a nossa identidade ou restabelecer o equilíbrio perdido. Mesmo que seja apenas uma viagem interior. Mesmo que seja só discordar de um amigo quando era tão facil dizer que sim, mas isso punha em causa a nossa identidade.
Algumas vezes dizem-nos que vivemos no paraíso, a nós parece-nos mais uma prisão. Quando comeu a maçã, Eva iniciou a viagem da humanidade. Teria alguma graça ter ficado no Paraíso?

quinta-feira, março 26

O Martir

Sacrificar uma semana por causa da doença de um filho é diferente de sacrificar uma carreira para tomar conta dele. No segundo caso, o sacrifício passa a fazer parte da identidade da pessoa, ela vive a história do martir. O verdadeiro martir dá sem esperar nada em troca. Nem sempre assim é. Algumas vezes espera-se em troca a pertença a um grupo ou algum tipo de recompensa futura. Muitas vezes não sabe receber tão bem como sabe dar.
O sacrifício era algo muito habitual na nossa cultura. A mulher sacrificava a possibilidade de se desenvolver enquanto pessoa pela harmonia do lar. Os homens sacrificariam a vida pelo seu país caso tal fosse necessário. Hoje em dia o sacrifício não é tão bem visto como já foi. Quando surge a ocasião em que seria natural alguma forma de sacrifício, muitos falhamos redondamente, por falta de modelos ou pura e simplesmente pela falta de hábito. Por outro lado ainda existem muitas pessoas, especialmente mulheres, que quando colocadas perante a opção entre o sacrifício e outra possível atitude, têm dificuldades em levar a sério a possibilidade de escolher a outra. Algumas vezes nem dão pela sua existência.

terça-feira, março 24

O Orfão

Acabamos por cair do Paraíso. Quem é expulso do Paraíso sente-se orfão. Quando um Inocente descobre que Deus não toma conta da sua vida, o Governo nos engana, as leis não são justas e os futebolistas ganham milhões, transforma-se num orfão. Alguns homens mais conservadores sentem-se orfãos quando descobrem que as suas mulheres têm desejos sexuais e ambições profissionais e não existem só para os servir. Algumas mulheres mais inseguras sentem-se orfãs quando descobrem que afinal os seus maridos não existem só para as proteger.
O orfão pode procurar consolo nas drogas, ou na esperança de ganhar a lotaria, ou em casar rico, ou na crença num Deus patriarcal que vai tomar conta dele, agora ou mais tarde, ou na reforma antecipada que lhe vai permitir voltar à infancia.
Um dia não vai ter alternativa. Terá de crescer.

domingo, março 22

O Inocente

E tomou o SENHOR Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar.
E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente,
Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

O mundo e as outras pessoas existem para satisfazer o Inocente. Se sempre foi assim em criança, porque não continuará a ser? Quem abandona o Paraíso de livre vontade? São Inocentes o homem que nada faz em casa quando os dois voltam do trabalho e a mulher que não trabalha e passa o dia a gastar o dinheiro que o marido ganha no emprego. Para o Inocente uma pequena dor ou qualquer forma de sofrimento são um sinal de que algo de fundamentalmente errado está a acontecer.
Raramente o Inocente se pode manter inocente por muito tempo. A queda do Paraíso não vai demorar...
Mas ser Inocente é também saber ter esperança e confiar.