quinta-feira, março 9

O tempo do corpo


Diz o Manuel do Adro: Uma das características definitórias da cultura contemporânea é a ideia de ter superado o antropocentrismo renascentista ou moderno, para passarmos ao que Miguel Ibañez chama somatocentrismo pós-moderno. O corpo é a estrela de uma sociedade ultraviolenta, supertecnificada e hipersexual. Esta explosão de corporeidade pode envernizar-se e aparecer requintada e complexa. Mas disfarça mal a animalidade a que nos reduz.

Caro Manuel, este blogue ultimamente mais parece uma exposição de corpos nus. É verdade que vivemos numa sociedade hiperconsumista que se apercebeu das consequências do hiperconsumismo a nivel da alimentação. Num mundo com cada vez mais obesos, só o culto do corpo permite equilibrar os efeitos da publicidade aos chocolates. É a guerra das calorias. Mas não é desta guerra que eu queria falar.
Este seu post levanta uma série de questões interessantes. O CA já opinou sobre os adjectivos empregados pelo Manuel, e muito bem. Deixe-me tratar de outro aspecto da questão. O que é que a igreja católica pode fazer a propósito deste problema? Parece que muito pouco. Porquê?
Quando tinha treze anos tentei juntar-me à equipa de basquetebol do clube da minha terra. Fui lá com um amigo, católico praticante. No fim do treino fui tomar duche nu, com toda a gente. Depois de duas horas de exercício violento num dia de verão, estavamos mesmo a precisar de um duche. O meu amigo tentou escapar-se discretamente. Alguns colegas mais velhos avisaram o meu amigo: Oh pá, homens com homens não há vergonhas! Se na próxima tentas escapar-te outra vez, vais para o duche vestido. Uma atitude extrema sem dúvida. Apesar de o meu amigo estar muito interessado em jogar basquete, nunca mais lá apareceu.
Toda a vida se intrigou esta falta de à vontade com o corpo tão vulgar entre os católicos praticantes. O corpo parece ser um envolucro descartável da alma. Algo imperfeito de que nos devemos envergonhar. Só serve para pecar.
Algumas tradições têm coisas muito mais interessantes para nos dizer sobre o corpo. Ensinam-nos a usar o corpo como uma meio para chegar ao nosso lado mais espiritual. É o caso do yoga e do zen. O post do Manuel é apenas e só um grito de impotência. Não será possível encontrar na tradição cristã algo que nos ajude a lidar com o nosso corpo de uma forma mais saudavel?

41 comentários:

Confessionário disse...

Eu lido com o corpo de forma saudável. Nem as mazelas que ele possa ter me envergonham. Como sabes, sou padre desta Igreja Católica. Quase todas as semanas vou jogar futebol com paroquianos amigos. Tomo duche no final, como sempre, sem roupa e sem pudor.
Afinal, essa da Igreja Católica não estará muito correcta. Há gente católica assim como dizes, tal e qual como haverá gente assim sem ser católica. Não é a instituição, mas as pessoas e suas personalidades que ficam em causa...

Confessionário disse...

Ahhh, e deixa-me acrescentar que gosto das imagens de nú que aqui colocas. Sempre achei que a melhor arte que existe no mundo é a arte que Deus criou...

on disse...

Caro Confessionário,
fico feliz por saber que os tempos mudam, nos dias em que andava pela igreja (até andei numa procissão com umas roupas vermelhas) os hábitos eram bem diferentes!

on disse...

Mas não respondeste aos meus desafios:)

Manuel disse...

Caro On
Começo por dizer que as imagens do teu blog te däo desde logo vantagem... :)

O que eu afirmei näo é, de maneira nenhuma uma condenaçäo do corpo e da corporeidade. Pelo contrário. Entendo que o ser humano é corpo. Näo só, mas também e a começar por aí. Ou seja, näo há pessoa sem corpo. SEndo assim, a corporeidade deve ser parte integrante, natural, descomplexada e completamente assumida. É preciso gostar e cuidar do corpo.

Feito este esclarecimento, fica claro que näo concebo qualquer visäo dualista ou outras que desvalorizem o corpo humano.
Quanto às questöes que levantas:

1. A doutrina católica actual é clara: a pessoa é uma unidade. Rejeitam-se, portanto, visöes que possam entender a corporeidade como a "parte" menos digna do homem... O ser humano é um todo e é como todo que redimido...

2. Isto näo te tira uma certa razäo no que dizes. A tradiçäo católica cultivou, durante muitos séculos, uma visao dualista do homem, em que o corpo era a "prisäo" que nos impedia de chegar a Deus. A "carne" era má, impura, pecaminosa. Na velha tradiçäo de SAnto Agostinho, esta visäo contaminou a concepçäo de sexualidade (carnalidade...) e fez com que ainda hoje haja uma certa visäo negativista da sexualidade e da corporeidade. A Igreja continua a lidar mal com a "carne".

3. Parece-me abusivo, ainda assim, estabelecer uma correlaçäo entre ser católico praticante e uma concepçäo negativa do corpo.

4. É normal e desejável que um católico aceite, trate, cuide e se comunique assumindo toda a sua corporalidade. Näo há nenhuma contradiçäo.

A minha crítica queria apenas frisar o que considero ser uma excessiva centralidade do corpo (somatos) na cultura actual: uma erotizaçäo hedonista desproporcionada em relaçäo ao todo da pessoa.

Manuel disse...

E entretanto... tratei-o atrevidamente por tu. Peço desculpa :)

on disse...

Ora essa, na blogosfera somos quase todos tus:)

on disse...

"uma erotizaçäo hedonista desproporcionada em relaçäo ao todo da pessoa"
em parte, é o efeito do pendulo. Esteve muitos anos do outro lado. A familia da minha mãe fazia jezuns às sextas-feiras, jezuns pela quaresma...
O eros era um tabu.
A culpa é em grande parte de quem prendeu o pendulo do outro lado. Se a igreja está igreja preocupada com o prolema, dizer como se devia fazer, não chega. É preciso dar às pessoas instrumentos que os ajudem a desenvolver alternativas.

Anónimo disse...

O tabu não é solução. Nem tãopouco o trivial. Se houver consenso nisto, já se dá um passo significativo, para a reconciliação com o corpo e a sexualidade.
Na tradição cristã mais genuína encontramos as seguintes pistas:
- Deus é o criador do mundo, uma criação acontecida por pura bondade. Por isso, toda a criação é boa, incluindo a sexualidade.
- Deus encarnou neste mundo, assumindo para si um corpo, em Jesus Cristo. Por isso, a corporeidade é digna de Deus, incluindo a sexualidade.
- A bondade e a dignidade da sexualidade abrem para um projecto e um destino que convocam o físico, o afecto e o espírito: amar e ser amado, num encontro de liberdades sagradas.
- A bondade e a dignidade da sexualidade não escamoteiam a fragilidade e ambiguidade que marcam a sua vivência terrena. Mas também aqui, há uma esperança de sentido: a ressurreição de todo o homem e do homem todo.
Para quem quiser algo de mais concreto, fica uma sugestão: fazer amor ao som do Cântico dos Cânticos... :)

CA disse...

O comentário do(a) anonymous das 00:43 diz algumas coisas muito importantes (só não estou de acordo com a sugestão final :) ).

Penso que por vezes se mistura sexualidade com corpo, o que é uma visão extremamente redutora. A sexualidade está ligada a todas as dimensões da pessoa e o corpo é apenas uma pequena parte. No fundo é normal que a sexualidade esteja hiperpresente. O erro foi tentar reduzi-la ao corpo e aí tentar abafá-la. Mas reprimir a sexualidade não é um pecado só contra o corpo, é um pecado contra a pessoa.

/me disse...

Pois... (e mais não digo :P)

Manuel disse...

ON
Sim, concordo que possamos falar de efeito pendular. Vês? Afinal estamos de acordo nalgumas coisas!

on disse...

Manuel,nunca duvidei disso!

Anónimo disse...

Caro CA:
Lamento não estares de acordo com a minha sugestão. Afinal, o Cântico dos Cânticos é um dos livros mais eróticos da literatura mundial...

«Por vezes se mistura sexualidade com corpo», afirmas. A verdade é que não existe uma dimensão sem a outra. Parece-me bem que queiras resgatar a sexualidade ao domínio do puramente biológico e genital; mas já será um erro considerares a corporeidade apenas nessa dimensão.
O corpo humano é corpo consciente, corpo-sujeito, corpo pessoal.
Libertar a sexualidade duma concepção naturalista só é possível com idêntico movimento relativamente à corporeidade.

on disse...

Deixem lá o sexo! o corpo não tem só a ver com o sexo.

Anónimo disse...

Nem o sexo tem só a ver com o corpo...

MC disse...

Foi interessante assistir a esta conversa de balneário...
embora fiquem algumas dúvidas...

on disse...

como por exemplo...

MC disse...

como hoje estou maldade pura, só gostava de saber se há infiltrados...

on disse...

!?

mi disse...

"não é possível encontrar na tradição cristã algo que nos ajude a lidar com o nosso corpo de uma forma mais saudável?"

sugestão - fechar os olhos e pensar que Deus me ama desde a ponta dos cabelos até à ponta dos dedos dos pés, tal e qual como eu sou; que sou parte da sua criação.

Deixo-vos também estas palavras:
"Alimenta o amor, segundo a tua vocação pessoal, seja ela qual for. Ama o prazer - foi Deus que o inventou - mas tem cuidado com as fugas, pois de algumas não há retorno. (...)Aceita o desafio de construir pacientemente, no mundo real, relações de afectividade e amor.(...) Dá valor à tua intimidade e nunca a desbarates só por aventura, ou por paixão, ou por medo da solidão. Antes aprende a dar tempo ao tempo, até que estejas preparado para entregares não só o teu corpo, mas a tua vida toda, num projecto de futuro. E quando chegar o momento, aceita sem medo a responsabilidade de assumir uma outra vida por amor."
(nota: são palavras da igreja católica, dirigidas a jovens)

para acabar - vim-me meter na vossa "conversa de homens", não foi?! :-)

on disse...

Conversa de homens?
M, este blogue foi sempre unisexo!

on disse...

"fechar os olhos e pensar que Deus me ama desde a ponta dos cabelos até à ponta dos dedos dos pés, tal e qual como eu sou; que sou parte da sua criação."

Uma boa sugestão!
Era de coisas deste tipo que eu estava à procura. Mas ainda é pouco!

MaDi disse...

On,
Porque não mostras as partes genitais nas fotos? É pornográfico?


Mi,
Fechar os olhos e pensar que Deus me ama????

E porque não olhar no espelho e dizer que criação tão perfeita de Deus?
Com mais que um espelho ainda és capaz de explorar visualmente as partes mais inalcançáveis.
Devias fazer, vais ver que até é belo.

MaDi disse...

E desculpa lá, Mi, mas essas palavras para jovens parecem-me um tanto conversa da treta.
No fundo, a maior parte das pessoas gostaria de construir uma relação com amor e que durasse para sempre e que toda a gente era feliz. Só que isso é raro, muito raro. E não basta esperar, sabes bem!
Há quem encontre, há quem não encontre. Mas não me venhas dizer que se não encontrares ninguém com quem verdadeiramente possas construir uma vida em conjunto, não podes ter umas aventuras sexuais por fora que te façam bem ao ego, que eu acho isso completamente absurdo.
A minha tia é hoje maníaco-depressiva porque ouviu essas palavras. Se tivesse tido umas boas noites de sexo nos últimos 20 anos duvido que ficasse assim.

on disse...

Madi,
não tenho nenhuma foto de qualidade com genitais masculinos à mostra.
Femininos, talvez se arranjasse qualquer coisa.
Concordo contigo sobre as palavras deixadas pela Mi. Cada um sabe de si.
Não me aparece que contenham uma verdade universal. E se devemos alimentar o amor segundo a nossa vocação pessoal...
Sobre olhar ao espelho: acho que para o fim em causa, não funciona. Penso voltar ao assunto.
Andei a pregar ao /me as ideias que tu propões sobre aproveitar aquilo que vem à rede, mas ele não comprou.

Estavas a fazer falta por estas bandas:)

MaDi disse...

:)

Estive no outro lado da cidade sem acesso à internet...

on disse...

Madi, não me digas que vais mudar de casa:)

mi disse...

olá!

eu percebo o que querem dizer com as "conversas da treta", percebo mesmo! e subscrevo o "cada um sabe de si"...

só queria mesmo que soubessem que a igreja não é assim tão conservadora, que tem lugar para todos nós, apesar das nossas diferenças de maneira de ser e estilos de vida. nisto eu acredito mesmo!

eu sei bem que é raro ter uma relação feliz que dure toda a vida, mas há que procurá-la se ela nos faz falta, não? se pelo caminho tropeçarmos, é natural! ;-)

nós podemos fazer e escolher aquilo que quisermos, mas é muito mais fácil quando sabemos aquilo que queremos e, para isso, temos que pensar, temos que discernir, temos que sentir as coisas... sejam elas quais forem.

a sugestão do espelho, porque não?! se acharem que ajuda mais a amar, que torna o exercício mais intenso, porque não?! o objectivo era precisamente fazer aumentar o ego!!! :D

acreditem que pensar que Deus nos ama e que ama o nosso corpo TODO nos aumenta o ego! (embora não substitua necessariamente outras formas, obviamente!)

nem sei porque me meti na vossa conversa, acho que estava entediada com o que estava a fazer e achei este blog muito interessante e descontraído.

garanto-vos que não queria vir para aqui com conversas piedosas e moralidades chatas, ok?!

bom fim-de-semana!

mi, que quando está a apanhar secas no trabalho se torna uma voyeur dos blogues alheios...

CA disse...

Madi

"No fundo, a maior parte das pessoas gostaria de construir uma relação com amor e que durasse para sempre e que toda a gente era feliz. Só que isso é raro, muito raro. E não basta esperar, sabes bem!"

Construir uma relação de amor que dure para toda a vida e em que ambos são felizes não é assim tão raro. Mas está normalmente associado a uma vontade de ambos em que assim seja. O amor não acontece: constrói-se dia-a-dia. Não basta esperar: há que preparar-se e procurar uma pessoa certa.

"Mas não me venhas dizer que se não encontrares ninguém com quem verdadeiramente possas construir uma vida em conjunto, não podes ter umas aventuras sexuais por fora que te façam bem ao ego, que eu acho isso completamente absurdo."

A questão não será de se saber se se pode ou não mas sim de se saber se é compatível procurar as aventuras e procurar alguém com quem viver uma vida em conjunto.

"A minha tia é hoje maníaco-depressiva porque ouviu essas palavras. Se tivesse tido umas boas noites de sexo nos últimos 20 anos duvido que ficasse assim."

Seria possível ter essas boas noites de sexo sem ter umas más pelo meio? E como ficaria a doença depois das más?

on disse...

Ok Mi!
e sem "voyeurs" não havia blogues:)

Anónimo disse...

"A questão não será de se saber se se pode ou não mas sim de se saber se é compatível procurar as aventuras e procurar alguém com quem viver uma vida em conjunto."

Claro que é. Para umas pessoas será mais fácil, para outras, mais dificil.

"Seria possível ter essas boas noites de sexo sem ter umas más pelo meio?"

Depende das pessoas. Para umas será mais facil, para outras mais dificil.

Não haverá um medinho muito grande da vida?:))))

Anónimo disse...

Queria dizer:
Não haverá por aí um medinho muito grande da vida?:))))

anonymous 2 disse...

não, não há.:P

CA disse...

"saber se é compatível procurar as aventuras e procurar alguém com quem viver uma vida em conjunto"
"Claro que é."

Pessoalmente não me parece assim tão óbvio. Convém não esquecer que o objectivo é "construir uma relação com amor e que durasse para sempre e que toda a gente era feliz".

Normalmente se escolhemos um objectivo exigente temos que nos dedicar intensamente a ele para o atingir: se quero ser rico e não o sou, talvez venha a consegui-lo mas terei que colocar esse objectivo acima de muitos outros; se quero uma carreira de sucesso, o mesmo se aplica; viver uma vida a dois não é muito diferente: não se compagina com muitas distracções e com outros objectivos postos acima.

"Não haverá por aí um medinho muito grande da vida?:)))) "

Bem, a resposta depende daquilo a que se chama a vida. Se a vida for viver muitas experiências sem perder muito tempo com nenhuma delas, então diria que tenho medo dessa vida. Mas se a vida for viver um objectivo a fundo, apostando totalmente nesse objectivo, então não há medo da vida mas sim concentração no essencial. Para quem escolhe o compromisso com um objectivo, viver à base de muitas experiências e poucos compromissos também é ter medo da vida. Mas quantas pessoas têm a coragem de apostar a sua vida num objectivo e num compromisso?

anonymous 2 disse...

destemidas, sábias palavras estas, as do último post. Estavam a fazer falta.

Anónimo disse...

Caro CA,
faça as suas opções de vida, respeite as dos outros.

anonymous 2 disse...

onde é que está a falta de respeito?? não se vislumbra.

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

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