sexta-feira, abril 25

Da fragilidade das nossas ilusões

Roma continuou a ser Roma depois da queda de Roma. Quem tinha que aturar um imperador despótico passou a ter de hospedar em sua casa um dos lugares tenentes do último chefe barbaro que conquistou a cidade. Alguém tão belicoso e imprevisivel como alguns membros da família imperial, mas sem as suas boas maneiras. Fora isso nada tinha mudado, excepto que agora era mais dificil arranjar escravos. Até que um dia um desse barbaros resolveu destruir o aqueduto. Como ninguém teve a vontade e a capacidade de o reconstruir, todos os que o puderam fazer abandonaram a maior cidade da cristandade, que se transformou de um dia para o outro numa aldeia.
A nossa civilização é um pouco mais fragil do que parece. As nossas cidades e as nossas vidas estão organizadas como se o petroleo fosse um recurso inesgotavel. Algumas das medidas que têm sido tomadas para contrariar essa dependência têm efeitos colaterais que podiam ter sido antecipados. Veja-se por exemplo o caso da produção de biodiesel a partir de arroz, soja, trigo e milho, que nos trazem de volta o espectro da falta de alimentos. Pois é, há por aí muito rico que se tiver de escolher entre a sua gasolina e a comida do outro, prefere a sua gasolina. Alguém tem dúvidas sobre isso? A Constituição pode garantir tudo aquilo que nós quizermos, mas ninguém come a Constituição.
Pode-se discutir à vontade se o aquecimento global é a sério ou a brincar, mas só um louco pode usar esse debate para se tentar esquecer de que não podemos continuar a poluir o planeta impunemente.
Se queremos ter um mínimo de controle sobre o nosso futuro e o futuro dos nossos filhos não podemos deixar que as instituições democraticas continuem a degradar-se, se é que ainda funcionam. Se a democracia formal não está em risco, o que é que existe para além da ilusão da escolha? A aprovação do tratado cá na terrinha sem consulta pública e, pior que isso, sem discussão, não é perigosa por pôr em risco a soberania nacional, que há muito deixou de existir. É perigosa porque as instituições europeias não estão a ser controladas pelos europeus. A democracia é cada vez mais uma ilusão.
A crise do PSD pode dar vontade de rir, mas não tem graça nenhuma. Num sistema em que pouco mais se pode fazer do que escolher entre dois partidos e usar os outros como depositários do voto de protesto, se um entra em coma ficamos nas mãos dos dirigentes do outro.
É por isso que o 25 de Abril não é mais um feriado para comemorar uma vez por ano.

quinta-feira, abril 24

O caçador desempregado 1

Aproveitando-se da omissão legal sobre o sexo do chefe de família, Carolina Beatriz Ângelo - médica, viúva e mãe de duas crianças - faz prevalecer a sua condição de chefe de família para depositar o seu voto nas eleições para a Assembleia Constitucional de 1910. Em consequência, a lei foi modificada de forma a estabelecer claramente que só os homens podem exercer o direito de voto. Em 1931 o direito de voto é concedido às mulheres com o ensino secundário concluído. Os homens podiam votar desde que soubessem ler e escrever. Em 1946 as restrições ao direito de voto das mulheres são diminuídas, mas só são completamente eliminadas em 1974. Comemora-se este ano o trigésimo aniversário da revisão do Código Civil que assumiu que os dois cônjuges gozam de direitos iguais.
As mulheres conseguiram agora uma igualdade ainda imperfeita. Começam mesmo a ser a maioria em alguns sectores importantes, como por exemplo a Universidade. Não estão porém seguras de ter feito um bom negócio. Trabalham tanto como os homens fora de casa, continuando uma boa parte delas a desempenhar o grosso das tarefas domésticas. Os casos de depressão multiplicam-se. Suspeitam que foram enganadas. Uma vez por outra usam o seu novo poder, mais as manhas antigas, para se vingarem dos preguiçosos que as exploram. Ou limitam-se a pô-los na rua.

quarta-feira, abril 23

Vou a Cuba enquanto o Diabo esfrega um olho

O Dr. Pedro Nunes, bastonário da Ordem dos Médicos exprimiu ontem a sua raiva perante o facto de quatro camaras municipais portuguesas terem estabelecido protocolos com o governo cubano no sentido de enviarem a Cuba os seus municipes com cataratas e outros problemas oftalmologicos. Acusa as camaras de eleitoralismo. Até se esquece que está a tentar ser juiz em causa propria.
A globalização é um fenomeno inevitavel ao qual nos temos de resignar quando fecha uma fabrica de texteis no vale do Ave. Quando belisca os previlégios da classe dominante, já é outra história. Actualmente um americano pode ir à India fazer uma operação ao coração num hospital de luxo, com equipamentos da última geração, operado por médicos conceituados, passar a convalescença num resort cinco estrelas junto às aguas quentes do oceano Indico, fazer a viagem de ida e volta em primeira classe e mesmo assim gastar metade do dinheiro que teria de pagar só pela operação nos Estados Unidos. Por causa dos seguros contra problemas judiciais e por causa dos preços inflacionados a que a saude é vendida nos EUA. As portuguesas já descobriram que com o euro cada vez mais forte, os aviões cada vez mais baratos e os médicos cada vez mais caros, vale mesmo a pena ir passar uma férias ao Brasil e voltar de lá a fazer inveja às amigas. Com os empréstimos loucos que a banca faz(ia), nem foram só as ricas que o fizeram.
Quem necessitar de um tratamento dentário mais sério, colocar uma protese num joelho ou na anca, ou quiser fazer um check up completo, talvez valha a pena considerar a hipótese de o ir fazer à Argentina, à Costa Rica, à Malásia ou à África do Sul. O turismo médico é uma industria em explosão. Cuba atrai vinte mil turistas da saúde por ano. Não são todos enviados pela Camara Municipal de Vila Real de Santo António.
O estrangulamento das entradas nos cursos de medicina tornou o próprio governo refém da classe médica. As reformas antecipadas de medicos e/ou a sua passagem para o sector privado colocam em risco o funcionamento do serviço nacional de saude tal como o conhecemos. Não é muito bom, mas pode vir a tornar-se bem pior. Alguma coisa tem de ser feita. Quatro camaras municipais romperam o monopólio do Dr. Nunes. Que outras lhes sigam o exemplo.

segunda-feira, abril 21

Ensino-Aprendizagem 2

A antropologa Margaret Mead reparou que os nativos de Bali, embora fossem capazes de executar danças extremamente complexas, não eram capazes de passar o peso de um pé para o outra através de um pequeno salto. Será possível ensinar-lhes a executar este movimento tão simples? Só vejo uma forma de o fazer: mostrar como se faz e pedir-lhes para repetirem. Acontece que esta demonstração não ajuda nada.
Um dia Mead perguntou a Moshe Feldenkrais qual poderia ser a razão desta incapacidade. MF respondeu-lhe que provavelmente durante os primeiros meses de vida os nativos de Bali não tiveram oportunidade de aprender a rastejar. Mead respondeu-lhe que efectivamente durante os primeiros sete meses de vida os nativos de Bali não deixam as suas crianças tocar o chão. Ao que parece saltar de uma perna para a outra é algo que não pode ser ensinado mas apenas aprendido através de um longo e complexo processo que nos é estranho.
O longo processo de aprendizagem que nos leva a ser capazes de pensar racionalmente e de resolver problemas tem algo de semelhante ao longo processo que nos leva a aprender a andar e a fazer outros movimentos particularmente difíceis. O bébé necessita de passar um longo tempo a arrastar-se pelo chão e a gatinhar para desenvolver todas as conexões neuronais que lhe virão a permitir descer uma escada, andar de bicicleta ou dar um salto mortal. Não interessa aprender a gatinhar mas sim aprender a gatinhar de várias formas. A curiosidade ajuda a desenvolver novas sinapses que interligam diferentes movimentos. Se esse processo for encurtado por aplausos perante os seus progressos ou por necessidade de ser precoce para agradar aos familiares o resultado final será uma coordenação neuro-motora deficiente.
Como é que se ensina um aluno a resolver um problema de matemática? Na verdade, não se ensina. O pedagogo pouco mais pode fazer do que descobrir qual é o faixa do desenvolvimento intelectual do aluno em que um certo problema já está ao seu alcance e por outro lado ainda pode estimular o seu desenvolvimento. Como é que o aluno aprende? Experimentando, muitas vezes, de muitas formas. Há dez maneiras de multiplicar 36 por 15 e convem conhecê-las todas. Vamos aprender assim o que são as propriedades associativa, comutativa e distributiva. Se derem ao miudo uma maquina de calcular, nunca vai aprender a "gatinhar". E não vai perder mil oportunidades de aprender. De desenvolver o conjunto de ligações cerebrais que se iluminará quando o tal problema que não se ensina a resolver lhe é apresentado. É trágico que aqueles que defendem as maquinas de calcular sejam exactamente os mesmos que defendem o ensino-aprendizagem.
O bébé necessita de um ambiente de carinho à sua volta para ter condições de explorar o seu corpo com curiosidade. Aprender deve ser facil, não pode ser acompanhado de qualquer tipo de crispação. Daí concluem alguns pedagos que também o jovem que frequenta o ensino secundário necessita do mesmo tipo de ambiente. Até certo ponto, é verdade. Esquecem-se porém que, para além de necessitar de aprender, o jovem também precisa de ser ensinado. Esquecem-se de que as condições de aprendizagem para um adolescente podem ser um pouco diferentes. O stress que acompanha o processo de aprender a andar de bicicleta não só é indispensavel como nos permite aprender a aprender doutra forma.
Cada parte de nós que é menos utilizada fica velha quando deixa de aprender. Aprenda qualquer coisa um destes dias que necessite de tanto stress como aprender a andar de bicicleta. Stress can be fun.

sexta-feira, abril 18

Entrevista com um carjacker

A vida dos ladroes de automoveis esta dificil. O tempo das ligacoes directas ja passou. A SIC resolveu entrevistar outro dia um profissional obrigado a reconverter-se. Com cara tapada e voz destorcida, claro.
- Então como e que o senhor escolhe as suas vitimas?
- Olhe, prefiro assaltar homens. Sabem comportar-se.
As mulheres, nunca se sabe o que vao fazer.
Algumas ate tentam tirar-nos a mascara, veja la.

quinta-feira, abril 17

quarta-feira, abril 16

Para que serve o poder?

Ter poder serve, entre outras coisas, para que não o exerçam indevidamente sobre nós.
Eu costumava pensar que estava acima dos patéticos jogos humanos. Costumavam repugnar-me. Tentava ficar do lado de fora, e apesar disso (na verdade por causa disso) eles acabavam sempre por "encontrar-me", e atingiam-me ainda mais do que àqueles que me rodeavam e que pareciam abraçar mais naturalmente "a ordem natural das coisas". Eu costumava achar isso estranho. Agora percebo que mesmo que estejamos deles conscientes, e mesmo que nos repugnem e nos pareçam despreziveis...mais vale saber jogá-los. Às vezes a unica forma de ficar fora deles é jogá-los muito bem. É uma lição estranha que, no final de um longo percurso, por vezes acabamos por descobrir que o melhor mesmo é fazer as mesmas coisas que as outras pessoas...e jogar os mesmos jogos...mas melhor, e, acima de tudo, por motivos diferentes.
Eh, eu não digo que gosto disto, mas ninguem disse que eu tinha que gostar...

OMWO, comentário ao post A Mulher de Bath.

segunda-feira, abril 14

Paul Klee - Domes

domingo, abril 13

A mulher de Bath


Uma MULHER de BATH havia em cena;
Mas era meio surda, o que era pena.
De bons tecidos era fabricante,
Chegando a superar Yprês e Gante.
Tirar-lhe alguém na igreja a precedência
No beijo da relíquia era imprudência,
Porque ela abandonava as boas maneiras
E perdia de vez as estribeiras.
Em sua vida digna e benfazeja
Cinco vezes casara-se na igreja —
Fora os casos de sua juventude
(Falar disso, porém seria rude).

A mulher de Bath é um dos Contos de Canterbury. Chaucer narra a história de vinte e nove peregrinos que saem de Londres rumo à cidade da Cantuária, a fim de visitar o túmulo de Tomás Beckett. Para que os peregrinos se distraiam e tornem a viagem mais amena, o Taberneiro sugere que cada um dos peregrinos conte duas histórias na ida e duas histórias na volta, e que a melhor história será por ele premiada com um lauto jantar. O conjunto dos peregrinos, que retrata num amplo painel da sociedade medieval, está composto por tipos variados, homens e mulheres de diferentes ofícios e originários dos diferentes extratos sociais. Participa deste grupo uma exuberante e alegre viúva. Alice conta a história de seus cinco maridos, das suas contendas com cada um deles e apresenta a sua receita infalível para um casamento feliz. As mulheres devem manter o comando da relação. Terminado o prólogo, conta-nos a sua história.

Era uma vez um jovem da corte do Rei Artur que caçava na floresta. Encontra uma donzela e num impulso violento arrebata-lhe a virgindade. O rei decide que o jovem deverá morrer decapitado. Dado o veredicto, a Rainha dá-lhe uma possiblididade de escapar com vida. Será poupado se for capaz de explicar a todos dentro de um ano e um dia o que é que as mulheres mais desejam.
O jovem não encontra nenhuma explicação satisfatória: para uns o que as mulheres mais desejam é casar, para outros, belas roupas e adornos, cortesia e adulação masculina, ou ainda o desejo de ser livres e fazer o que bem entenderem. O jovem desesperado, já no caminho de volta, teme pela sua vida.
Encontra na floresta uma velha que oferece a sua ajuda e sabedoria. Em troca ele deverá realizar-lhe um desejo. Sussurra-lhe a resposta em segredo e ele parte ao encontro da Rainha. Majestade, o que as mulheres mais ambicionam é mandar no marido, ou dominar o amante, impondo ao homem a sua sujeição. Vossa Majestade agora pode fazer comigo o que quiser: estou a seu dispor.
O jovem é absolvido pela Rainha. Neste momento a velha entra em cena e pede à rainha que seja feita justiça. Quer que o rapaz se case com ela. A Rainha e o rapaz concordam. O jovem chora sua desgraça e parte com a velha. E ela, no entanto, faz com que ele pense nos valores verdadeiros e na superficialidade das aparências. Pergunta-lhe o que ele prefere: que ela seja uma mulher feia e velha, mas submissa e fiel ou que ela seja jovem e atraente, mas que receba visitas em sua casa. O jovem resignado diz que confia na sabedoria da velha e que, certamente, ela poderá escolher o melhor para eles. Se ela pode escolher, ele concorda que é ela quem deve mandar? O jovem concorda. Então a velha beija-o e transforma-se numa jovem deslumbrante. Garante-lhe também que nunca usará da prerrogativa de lhe ser infiel.

quinta-feira, abril 10

Aqui ao lado

Ouve-se por aí que o boom da indústria da construção em Espanha é algo totalmente anormal. Uma imagem vale mil números. A distância a percorrer desde que se entra na cidade de Valladolid até chegar ao centro, quando se vem de Portugal, triplicou em 10 anos. Pergunta-se: quem é que vai comprar aquilo tudo? Uma boa parte está por vender.

Entretanto muito espanhois andam loucos com la Bola. Não tem nada a ver com o futebol. É um esquema em piramide em que se entra com dez mil euros e se vem a ganhar setenta mil se conseguirmos convencer um número suficientemente grande de pessoas a fazer o mesmo. Fazem-se reuniões semanais para analisar a evolução do negócio. Os participantes são avisados por telemovel do hotel em que vai decorrer a reunião seguinte com meia dúzia de horas de antecedência. Depois eu conto como é que isto acabou.

Muito se especula sobre quais as razões que levam a que Ronaldinho e Deco não joguem no Barcelona. Lesões, problemas disciplinares? Fontes bem informadas dizem que eles estão cheios de cocaína até ao pescoço. Que chatice, o control anti-doping.

segunda-feira, abril 7

Subprime: o pior já passou?

Temos o fim da crise ao virar da esquina? O gráfico do Nasdaq pode levar alguns a querer acreditar que sim. O novo livro de George Soros, The New Paradigm for Financial Markets: The Credit Crisis of 2008 and What It Means, apresenta-nos um cenário um pouco diferente. Ver também o seu artigo no Financial Times.
Ao que parecem existem várias bombas semelhantes ao Subprime Lending prontas a rebentar a qualquer momento. Duas delas são os Credit Default Swaps e os Rising Foreclosures.
Os SL são revendas de hipotecas feitas a pessoas cuja capacidade de as pagar não é propriamente solida. Os CDS são revendas de créditos de todos os tipos. Estas revendas são feitas várias vezes. Um inocente investidor português que comprou um produto supostamente de risco muito baixo pode na prática estar a comprar também CDS's. O valor dos CDS em circulação equivale a metade do valor do mercado imobiliário dos EUA. Se este mercado rebenta, a bolsa vai por aí a baixo e muitos bancos irão à falência. O problema vai ser essencialmente nos EUA, mas algo sobrará para nós. Não tive pachorra para perceber o que são os RF. Se alguém se quiser dar a esse trabalho, explique-me. Estes derivados do crédito foram feitos para não serem percebidos. Devem ser suficientemente obscuros para poderem ser vendidos aos orfãos e às viuvas como algo tão seguro como um fundo de obrigações. O único ponto positivo destes produtos é darem tranbalho aos alunos dos mestrados de Matemática Financeira.
GS acha que o risco de rebentamento dos CDS teve algo a ver com a ajuda do Fed ao Bear Stearns, que de outra forma teria falido, iniciando a queda de um castelo de cartas. Entretanto os reguladores continuam a pretender que acreditam na tese da capacidade auto-reguladora dos mercados, limitando-se a reagir aos acontecimentos. O próximo presidente dos EUA que apague depois os fogos.

Um comentário final sobre o livro do Soros. Só se encontra à venda numa versão pdf que não pode ser copiada nem impressa. A versão hardcover só vai sair daqui por uns tempos. É claro que neste caso ele tem a faca e o queijo na mão. Não podemos é deixar que a moda pegue.

sábado, abril 5

Ensino-Aprendizagem

Quando ensino uma cadeira de matemática começo por explicar aquilo que vou ensinar durante o semestre. Algumas vezes pergunto aos alunos para que é que lhes parece que vão servir esses ensinamentos. Após o silêncio habitual explico-lhes que para a maior parte deles aquilo que lhes vou ensinar não lhes vai servir para grande coisa, talvez para coisa nenhuma. Noto então dois ou três sorrisos na audiência do tipo pois, eu até já suspeitava disso.
Tal acontece em grande parte dos cursos universitários. Muitos engenheiros dedicam-se à gestão, muitos advogados ao jornalismo. Acabam por esquecer a maior parte das coisas que lhes ensinaram. Um engenheiro civil acaba por usar meia dúzia de tabelas, podendo dispensar boa parte das teorias com que lhe encheram a cabeça durante todos aqueles anos da sua vida. A maior parte dos licenciados só usa alguma vez na vida um terço daquilo que lhes foi ensinado. Falta então explicar porque é que as pessoas continuam a frequentar uma universidade. Porque é que as empresas preferem contratar pessoas a quem foram ensinadas todas essas coisas inúteis. O que é que os meus alunos têm a ganhar em frequentar a minha cadeira.
Vale a pena eles virem assistir às minha aulas porque podem aprender lá muita coisa extremamente importante. Podem aprender a identificar um problema, a formulá-lo, a estimar a sua dificuldade, a parti-lo em problemas mais faceis de resolver, a comunicar a sua solução. Podem aprender também a saber o que sabem e o que não sabem fazer, a extrair da informação que vos é comunicada por outrem aquilo que é ou não relevante, a ajudá-lo a formular melhor um problema e muitas outras coisas que só um número assustadoramente pequeno de pessoas sabe fazer.
Podem aprender essas competências nas minhas aulas porque eu aprendi a fazer essas coisas e sei criar condições para que os alunos as possam aprender. Não sei é ensiná-las. Ninguém sabe.
Ninguém sabe ensinar outra pessoa a ser criativo, embora muita gente ganhe bom dinheiro a pretender que o ensina. Acontece que há pessoas que sabem criar condições que facilitam aos outros desenvolver a sua criatividade num campo específico quando ensinam esse campo específico. É possível que algumas dessas pessoas aprendam mais tarde a ser mais criativas noutros campos que conheçam razoavelmente bem. Mais nada.
Como é que isso se faz? Tem tudo a ver com a maneira como se ensina aquilo que se ensina. A forma é mais importante do que o conteúdo. Mas a forma não existe independentemente do conteudo. Se a cadeira funciona com minitestes e os professores carregam com os meninos ao colo, conseguem maximizar a relação entre aquilo que se ensina e os esforço feito pelos alunos. Conseguem ser bons ensinadores. Mas os alunos perdem uma oportunidade de aprender alguma coisa. E é só isso que importa.
É vulgar um professor sobravaliar a importância de um determinado assunto. Normalmente um assunto que gosta de ensinar e um assunto que lhe permitiu aprender muitas outras coisas enquanto lho ensinavam. Se esse assunto não for incluido no curriculum, acha que a qualidade do curso está ferida de morte. O Eduquês conclui do facto de a forma ser mais importante que o conteúdo que se pode descartar o conteúdo e que não é necessário ser especialmente conhecedor do assunto que se está a ensinar.
A cair nalgum dos erros, prefiro cair no primeiro. Mas o melhor é evitar os dois.

sexta-feira, abril 4

Educar o Jaime

Uma boa parte dos posts deste blogue tinham algo a ver com evangelizar ou provocar. Provocar foi-se tornando cada vez mais difícil. A epiderme dos blogonautas mais susceptiveis mudou para que tudo o resto pudesse ficar na mesma. As minhas tentativas de evangelização também não têm tido grande êxito.
Analisemos por exemplo a tentativa de educar o Jaime. Os leitores deste blogue que se dedicaram a esta nobre tarefa demonstraram um admiravel poder de argumentação e as mais louvaveis intenções. É claro que o Jaime poderia ter tido uma atitude um pouco mais aberta. Seria mais compatível com o seu interesse pelo assunto, que o levou a voltar ao tema regularmente no seu blog. Acontece que os educadores do Jaime são suficientemente sofisticados para terem obrigação de saber que daí nunca poderia advir algo mais do que coisa nenhuma. Já agora, terá o autor destas linhas tido um comportamento a roçar o cobarde, lançando a cruzada e não participando depois na luta?
Boas razões para esquecer o affaire Jaime e guardar a evangelização na gaveta.
É provavel que esteja a acontecer exactamente o contrário.

quinta-feira, abril 3

O Monstro

O jovem Adso foi encarregado pelo seu abade de acabar com a teimosia dos camponeses. Recusam-se a ceifar o trigo por causa dos monstros verdes que nasceram na planície. Bem tentou o piedoso Adso lembrar-lhes as escrituras, ensinar-lhes que o diabo sempre veste de vermelho, convencê-los de que nada havia que temer. Dois dias depois o abade envia o despenseiro, homem prático mais habilitado para falar com gente simples. O despenseiro caminha para um dos monstros armado com a sua enorme faca de cozinha. Corta-lhe o pescoço de um só golpe. Dirige-se em seguida à aldeia com o monstro esquartejado debaixo do braço, enquanto lhe come as entranhas vermelhas e lhe cospe os dentes. Compreendem agora que não há nada a temer? Os aldeões fogem aterrorizados daquele novo monstro manchado de sangue, até que uma pedrada na cabeça o derruba. Minutos depois pouco resta do homem que comeu o monstro e como tal só podia ser também um monstro, esquartejado em tantos pedaços quanto as fatias em que tinha dividido a melancia.
Perante a confusão do Abade, Adso atreve-se a sugerir-lhe que chame o seu antigo mestre, um frade franciscano bem conhecido pela sua codícia. Frei Guilherme pede a hospitalidade do chefe da aldeia. Também ele partilha do temor pelos monstros. Roga a todos os camponeses que o acompanhem numa prece ao Senhor para que os alivie daquele tormento. Todos os dias repetia a oração e cada dia a faziam um pouco mais próximo dos monstros. Criou assim as condições para que os pobres aldeões aprendessem por eles próprios aquilo que ninguém lhes podia ensinar. Ensinou-os depois a semear melancias, cuja frescura lhes passou a mitigar a sede durante a ceifa.

domingo, fevereiro 10

Paul Klee - Highway

5 Livros

1. O Capital, Karl Marx
2. Diálogos sobre Física Atómica, Werner Eisenberg
3. O Quarteto de Alexandria, Lawrence Durrell
4. Tipos Psicologicos, Jung
5. I Ching

Quando comecei a blogar já as listas mais interessantes tinham percorrido a blogosfera. Quais foram os cinco livros que mais me marcaram? Escolhi só livros que li no fim da adolescência, a época em que o nosso intelecto ganha forma.
Quando pus a pergunta a mim próprio, O Capital era a única resposta obvia. Foi a primeira vez que entrei dentro de uma grande construção intelectual, podendo examinar todos os seus pilares, a qualidade das suas fundações, a beleza das suas cupulas. Descobrir passados uns anos que havia um erro logo ao princípio, só tornou a experiência ainda mais relevante.
Heisenberg mostra-nos que fazer ciência tem tanto a ver com dialogar com os outros como tem a ver com estar sentado a olhar para uma folha de papel em branco.
O romance de Durrel e o tratado de psicologia de Jung mostram-nos que a vida é um quadro cubista: cada facto pode ser sentido e interpretado de mil maneiras diferentes. O mesmo se aplicando a cada uma das nossas acções.
Quando a racionalidade se esgota, existem várias opções. O I Ching é uma das poucas que não nos exige ajoelhar primeiro e sacrificar a nossa racionalidade logo a seguir.

Fica a proposta a todos os que passam por aqui: publiquem as vossas listas. No vosso blog ou na caixa de comentários.

13. Quem me dera ter feito aquilo. Então FAZ!

O mundo está dividido nos que olham para os outros com inveja e nos que os encaram como um instrumento de motivação.

sábado, fevereiro 9

12. Sem Medo, Sem Surpresa, Sem Hesitação, Sem Dúvida

Qualquer que seja o seu medo, olhe-o de frente e vença-o.

A vida surpreeende-nos porque normalmente andamos meio a dormir.
Ao longo do caminho surgem pistas do que vai acontecer. Acorde!

Pese os prós e os contras. Depois vá em frente.
Muitas vezes, o pior é não decidir.

Depois de tomar uma decisão, não a remoa.

sexta-feira, fevereiro 8

11. Escute a sua voz interior

Quando temos um problema para resolver, ajuda bastante esperar que o nosso ego se cale. É nessa altura que uma voz que fala um pouco mais baixo tem oportunidade de se fazer ouvir.

quarta-feira, fevereiro 6

As guerras do copyright

Continua a greve dos argumentistas de Hollywood para receberem royalties resultantes da venda do seu trabalho através da net. E afinal as lei do copyright destinam-se a defender os interesses das grandes empresas ou a estimular e defender o trabalho intelectual? Se alguém tinha dúvidas sobre a resposta, acho que já está esclarecido.
A partir de 2006 a Suécia passou a ser o epicentro das guerras do copyrigth. A Pirate Bay poderá tornar-se brevemente no equivalente da Green Peace em questões de copyright e liberdade de expressão na net. A sua principal criação é o server do mesmo nome, destinado à partilha de ficheiros. Mantém também o um site onde podemos guardar fotos livre de censura, o BayImg. E o SlopBox, um serviço de e-mail descartável. Se lhe pedirem um endereço electronico, invente um na altura: kalkerkoisa@slopsbox.com. Quando desejar ler as respostas ao mail que inventou, basta ir ao site da Slopobox e escrever kalkerkoisa. As respostas são guardadas durante 24 horas. Privacidade e anonimato garantidos. A PB lançou recentemente The Video Bay, um server de vídeos livre de censura, ainda em fase experimental. O You Tube tem retirado vídeos apenas porque alguém fez contra eles uma vaga acusação de quebra de copyright, algumas vezes completamente ridícula. Tal não é suposto acontecer no VB.
A sede da Pirate Bay foi invadida pela polícia, que deitou o site abaixo durante três dias. O efeito principal desta acção foi a descentralização dos servidores e uma onda de apoio à Pirate Bay por grande parte da sociedade sueca. No dia 1 de Janeiro de 2006 Rickard Falkvinge lançou uma página web destinada a angariar assinaturas para a criação do Piratpartiet.

We have a lot in common with the environmental movement," he says. Where environmentalists see destruction of natural resources, the pirates see culture at risk. "(We) saw a lot of hidden costs to society in the way companies maximize their copyright.

Este partido concorreu às eleições nesse ano, tendo obtido 0,5% dos votos. A criação do partido teve várias consequências práticas imediatas: O partido ecologista mudou radicalmente de posição sobre as leis de copyright. Os partidos de esquerda mudaram de posição sobre a ilegalidade dos downloads da internet. Ambos os candidatos a primeiro ministro afirmaram que os downloads da internet feitos por jovens não deviam ser criminalizados. Entretanto o movimento pirata têm-se espalhado um pouco por todo o mundo.

9. Só os peixes mortos se deixam levar pela corrente

Aceite os obstáculos. É mesmo verdade: bem aproveitados, tornam-nos mais fortes.
A vida é uma sucessão de esforços e pausas. As pausas só sabem bem se forem isso mesmo:
pausas entre esforços.

terça-feira, fevereiro 5

8. Anjos ou Demónios?

Ao contrário do que possa parecer, alinhar do lado dos anjos compensa.

segunda-feira, fevereiro 4

Analfabetismo

A taxa de analfabetismo em Portugal é de 9%. O triplo da taxa de analfabetismo nos países nórdicos no final do século XIX. Existe um concelho onde um terço da população é analfabeta. Existem 30.000 analfabetos abaixo dos trinta anos. Existem adolescentes urbanos analfabetos.
Não vale a pena andar a encher as escolas de portateis para os miúdos andarem a namoriscar na net nem levar os alunos ao colo até ao 12º ano. Não enganamos ninguém.
Tenho pena de ter perdido o programa que a SIC passou ontem. Não sei até que ponto é que os números são afectados pela imigração. De qualquer forma, eles vivem cá, é um problema nosso. E a imigração é apenas uma parte do problema. Via da Literatura.

O efeito Nixon

Jimmy Carter foi o mais improvavel dos presidentes americanos das últimas décadas. A guerra do Vietnam e o caso Watergate tornaram este agricultor que dava aulas de catequese aos domingos no homem certo no lugar certo. As mentiras de George W e o atentado das Torres Gémeas recriam na sociedade americana a necessidade de tomar um duche que a lave da imundice. Só assim se compreende que um tipo decente como John McCain tenha praticamente assegurado a nomeação republicana. Um facto que me parece mais importante do que saber se o Obama vai ganhar à Hilary. Embora eu bem gostasse que tal acontecesse.

domingo, fevereiro 3

Tribal Wars

Os meus sobrinhos andam loucos com este jogo. Convém saber o que eles andam a fazer. Aqui fica o relatório. É um típico jogo de estratégia. Temos de construir uma cidade, resolver problemas logísticos, criar um exército, conquistar um império. Tem a novidade de funcionar online, ser interactivo e ser gratuito. Quem quiser algumas comodidades suplementares e umas pequenas vantagens, pode ter acesso à versão premium por cerca de vinte euros/ano. O jogo funciona na filosofia tamagochi: temos de executar tarefas a intervalos regulares. O jogo pode durar anos, exigindo dois ou três minutos, meia dúzia de vezes por dia.
Este tipo de jogo atrai miúdos com capacidades intelectuais acima da média, desfiando-os a resolver problemas relativamente complexos e a tomar decisões. Aprendem aqui coisas úteis que ninguém lhes ensina na escola. Neste jogo aprendem algo mais. Aprendem que a sua capacidade intelectual só por si não chega para ganhar. Têm de desenvolver uma política de alianças com os vizinhos que lhes garanta mais hipoteses de sobrevivência. Podem assim investir menos na criação de exercitos, crescendo mais depressa. Bem gostaria eu de ter aprendido esta lição aos doze anos.
Cada nova geração sabe coisas novas melhor e mais cedo do que a anterior. Por outro lado deixa cair capacidades e conhecimentos a que as gerações anteriores dão grande valor. Platão salientava a influência nefasta da escrita, que desvalorizou a capacidade de saber longos textos de memória. Convém fazer um esforço para não olhar só para o que eles perdem, tendando vislumbrar o outro lado da moeda. Não desdenhemos completamente as telenovelas, que dão aos miúdos a possiblidade de já saberem de antemão todas as voltas e reviravoltas que os esperam nos labirintos do amor. Que preço estariam os adolescentes da minha geração dispostos a pagar pelo acesso a essa informação?

tribalwars.net tribalwars.com.br

sábado, fevereiro 2

7. FLEXIBILIDADE! Nas atitudes e no pensamento

A vida é também uma sucessão de aventuras onde nos podemos divertir.
Leia outros livros, conheça outras pessoas. Considere outras visões do mundo.

sexta-feira, fevereiro 1

Milton Friedman versus John Maynard Keynes

O Fundo Monetário Internacional exporta para todos os países as teorias da escola de Chicago: quando há crise, aperta-se o cinto. Bush acha bem. Mas para os Estados Unidos, a um ano das eleições, mostra-se um bom Keynesiano. O João Pinto e Castro expressa a sua indignação. Até concordo com ele, mas o mais importante é ver se a terapia usada por Bush funciona ou não. Cá estaremos para ver os resultados.

6. Descubra dentro de si um objectivo a que valha a pena dedicar a vida

Ganha assim uma identidade. E uma fita métrica para medir os resultados.

quarta-feira, janeiro 30

Um Strip Tease

para ver até ao fim. Via Vida Breve.

4. Aceitemo-nos a nós próprios tal como somos

Com todas as nossas verrugas, fraquezas, limitações, medos e inseguranças.

terça-feira, janeiro 29

segunda-feira, janeiro 28

2. Nunca deixaremos de cometer erros

Mas podemos aprender a sair deles com a nossa dignidade e nosso amor próprio intactos.

Athena, 51

sábado, janeiro 26

O fim dos certificados de aforro

Com a mania do deficit, cortaram nos juros dos certificados para poupar uns tostões. Julgam que eu sou parvo? Já comecei a transferir o dinheiro para o meu banco. O Sócrates que se lixe.

Será que o Sócrates se importa? Ao contrário do que parece, esta medida não vai poupar dinheiro ao estado, que vai ter de pedir emprestado a um juro mais alto o dinheiro que até agora obtinha ao preço da chuva. Qual é então a sua motivação?
O negócio dos bancos é essencialmente emprestar dinheiro. É aí que ganham comissões. Não se preocupavam por aí além em assegurar depósitos. Como foi discutido aqui noutros posts, os bancos podem emprestar o dinheiro que não possuem. A recente crise financeira veio complicar as coisas. Existe muito crédito mal parado. Os bancos têm necessidade da entrada de dinheiro fresco. O BPI está a discutir a realização de um aumento de capital a fim de melhorar o seu ratio. Está a pedir dinheiro aos accionistas, porque têm falta dele. Todos os bancos estão a enfrentar esse tipo de problemas. Precisam de captar dinheiro rápido, o mais barato possível, para que os lucros não caiam muito e os bónus dos administradores não se percam. Sócrates está a tratar dos interesses dos bancos, à nossa custa.

Porque é que o governo toma uma medida que prejudica os cidadãos, custa dinheiro ao estado e só beneficia os bancos?

Fariseus

As liberdades são normalmente invocadas para defender os mais fracos e não para facilitar ainda mais a vida dos mais fortes. Jesus não foi tolerante para com os vendilhões do templo ou os fariseus mas para com as prostitutas e os pobres.

Wendy, 54

sexta-feira, janeiro 25

A Dona Elisa passa a vida a dizer mal do marido, mas ai de quem concordar com ela

Dois anos e meio depois da eleição, os católicos progressistas interiorizaram finalmente o facto incontornável: o cardeal Ratzinger é o Papa Bento XVI.

quinta-feira, janeiro 24

La Sapienza (2)

O caso do Papa na La Sapienza tocou, inesperadamente, nalgum nervo: de outra forma não consigo explicar-me que tantas pessoas, até umas de cujo juízo e boa fé normalmente não duvido, julgam estar perante um escândalo, um ataque vil contra a Igreja Católica e a liberdade de expressão dos crentes.

Não é estranho que também pessoas não católicas reconhecem ao Papa um tal estatuto que ele estaria, à partida, sempre bem vindo para discursar nos seus eventos. Mas a ideia de que todos têm obrigação de lhe reconhecer esse estatuto, é obviamente inadmissível e viola, ao querer impor um privilégio de um, a liberdade de expressão de outros.

Em 1990 Ratzinger citou Feyerabend para dizer que «A igreja na altura de Galileu foi muito mais fiel à razão que o próprio Galileu, e também considerou as consequências éticas e sociais da doutrina de Galileu. O seu veredicto contra Galileu foi racional e justo». Cientificamente, Galileu devia ter esperado por mais evidências antes de defender com tanto afinco o modelo de Copérnico. Cientificamente, isso justificava que o revisor do seu primeiro trabalho lhe pedisse que apresentasse mais dados. Mas não há nada de racional, científico, ou sequer minimamente aceitável em pôr o homem na prisão por causa disso. É isto que Ratzinger e os Católicos que o defendem varrem para debaixo do tapete, mas é isto que importa. A Igreja Católica tinha o direito de discordar de Galileu mas não tinha o direito de o prender por isso.
Ninguém quer fazer o mesmo ao Papa. O espírito académico de abertura e diálogo faz-me opor que ponham Ratzinger na prisão ou o torturem pelas tretas que diz. Mas é um disparate que o representante de uma religião inaugure o ano académico de uma universidade séria. A universidade não tem nada a ver com religião, não deve ter, e tinha-se poupado muito sofrimento a muita gente se nunca tivesse tido.

Já agora, leiam os posts do Luís M. Jorge sobre O Templo.

sábado, janeiro 19

La Sapienza

Da próxima vez que alguém contestar uma reunião dos G7, Bush e os seus colegas cancelam a reunião ultrajados perante o ataque à liberdade de expressão. Nunca mais ninguém vai ter a coragem de repetir a graça.

domingo, janeiro 13

domingo, janeiro 6

Luiz Pacheco (1925-2008)




Tenho um subsídio de 120 contos, graças ao Alçada Batista. E também ao Balsemão que teve a feliz ideia de inventar o decreto do mérito cultural. O Santana despachou um decreto que favorece pessoas que estão na minha situação. Mas não é por isso que gosto do rapaz. O tipo sabe o que é bom. O que é bom para mim são umas garotas, que vêm cá de manhã para me fazerem a higiene. Não é mau.


Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor.

sábado, janeiro 5

A estrela de Mandelbrot


Udo de Aachen foi o monge beneditino do século XIII que escreveu o poema Fortuna Imperatrix Mundi, onde antecipou uma parte do trabalho pioneiro de Pascal sobre a teoria das probabilidades e os jogos de azar. No seu tempo era mais conhecido pelos seus trabalhos de teologia.

Udo teve direito aos seus quinze minutos de fama no dia em que Bob Schipke visitou a catedral de Aachen e passou os seus olhos pela iluminura ao lado, que se encontra num manuscrito obscuro que nesse dia de reis era exibido em lugar de destaque. A estrela dos reis magos era demasiado parecida com o conjunto de Mandelbrot para que se tratasse de uma coincidência.

De volta a Harvard Schipke contactou um medievalista seu conhecido. Cerca de um ano depois conseguiu reconstruir o trajecto intelectual de Udo, que durante oito anos executou religiosamente os penosos calculos que lhe permitiram esboçar o conjunto de Mandelbrot. Um milagre da paciência impensavel antes da descoberta dos computadores. Tendo sido completamente ignorado pelos homens do seu tempo, Udo decidiu gravar a sua descoberta em duas iluminuras. Esta foi a única que chegou aos nossos dias.

Quando li pela primeira vez esta historia passaram-me pela cabeça duas ou três ideias. Os números complexos só foram descobertos uma par de séculos mais tarde. A interpretação geométrica dos números complexos só surgiu no século XIX. No entanto só no dia seguinte pus verdadeiramente em causa esta página da internet. Uma rápida consulta à Wikipedia permitiu rapidamente tirar tudo a limpo.

A verdade é que a nossa confiança na internet está a crescer. Felizmente, há boas razões para que assim seja. Convém no entanto praticar o cepticismo metódico. Este foi outro caso em que me deixei levar por umas horas. Mais uma vez, a Wikipedia esclareceu as dúvidas.

Caridade: um conto científico

Luís Rodriguez acordou bem cedo naquela manhã de segunda feira. A aula estava preparada, a roupa escolhida de véspera. Comeu à pressa. Não estava atrasado mas era como se o tempo lhe faltasse. O seminário do Mawhinsky acabava ao meio dia. Depois havia cinco minutos de perguntas e respostas e iam todos almoçar. Ele acabava a teórica de Equações Diferenciais à mesma hora. Tinha de atravessar o campus à pressa para conseguir uma lugar na mesa do conferencista. De preferência bem perto. Era uma manobra delicada.
Ele estava no EQUADIF o ano passado, mas passou a hora a fazer contas. Nem levantou a cabeça enquanto eu dava o meu seminário. Não se lembra de mim, de certeza. Ainda por cima, nem vou ao seminário dele...
Rodriguez tinha completado a sua tese dois anos atrás. A passagem a Professor definitivo costumava ser uma formalidade mas as coisas estão a mudar rapidamente. E o Luís era demasiado orgulhoso e perfeccionista. Quatro artigos, um deles no Journal of Differential Equations era o mínimo para que ele pudesse andar de cabeça levantada. Uma meta ambiciosa, mas o Luís não fazia as coisas por menos. Já tinha dois aceites. Fazer mais dois a tempo não seria difícil. O problema era fazer um suficientemente bom para o JDF. Tinha uma boa ideia mas há três meses que não conseguia avançar. Uma conversa de dois minutos com o Mawhinsky podia ajudar a desbloquear o problema.
Quando a aula acabou a Matilde barrou-lhe o caminho para a porta. Não tinha percebido a terceira passagem da segunda demonstração. Até era agradavel ter uma aluna que prestava atenção à aulas. Mas naquele dia! Não teve coragem de a despachar.
Ficou sózinho noutra mesa, a ouvir as conversas. Quando se convida um colega para dar uma conferência, esta é mais um pretexto para justificar a viagem do que outra coisa. O importante são as discussões nos gabinetes e durante o almoço. E ali estavam os colegas dele a gastar o tempo do Mawhinsky com graçolas e trivialidades. No fim combinaram ir tomar café do outro lado da rua. Por timidez ou orgulho, o Luís nem tentou arranjar maneira de se fazer convidar para os acompanhar. Quando tentava engolir a sua frustração juntamente com os ultimos pedaços do arroz de pato, sentiu uma mão gorda e pesada no cachaço. Helloouh Rodriguezz! That trick you performed with the Hamiltonian at EQUADIFF was very funny indeed! AhAhAhAh. Join us for a coffeeeh?
(continua)

domingo, dezembro 30

Fat Ladies


Só um louco recusa um menu dégustation de um bom restaurante de francês. Fora isso, faço por ter juízo. Duas senhoras gordas apanharam o Luis M. Jorge num momento de maior credulidade. DVD's com senhoras gordas, eu prefiro cantoras de ópera.

Quando se abate um animal ao estilo kosher, retira-se-lhe o sangue e com ele se vai o aço úrico que dá à carne aquele gostinho tão apreciado. Um bom naco de carne contém catorze gramas de ácido úrico que o animal ainda não teve oportunidade de transformar em urina. O nossos rins só conseguem eliminar oito gramas por dia. Umas das fat ladies está sentada num side-car. Ataque de gota?
As senhoras gordinhas gostam com certeza de uma carne bem tenrinha. A carne só fica tenrinha uns dias depois do animal estar morto, quando as bactérias putrefactoras deixam o colon do animal e se espalham por todo o corpo. Convém esperar.

Substituir uma salada por um raminho de salsa? Uma boa receita para uma vida breve.

A piramide alimentar recomendada pelo governo americano nos anos cinquenta era ditada pelos interesses dos produtores de carne e leite. Os EUA e a Europa gastam fortunas em subsidios à produção de leite quando esta é altamente excedentária. Depois há que tentar escoar este leite, dizendo às pessoas que o leite evita a osteoporose e que necessitam de mais protéinas. Não é bem assim.

O LMJ envia receitas de cabidela às amigas vegetarianas que se preocupam com o sofrimento dos animais. Prefiro enviar-lhes uma cópia deste post.

Dedico estas linhas ao Luís, acompanhadas de votos de rápido restabelecimento das desventuras natalícias.

sábado, dezembro 29

Please

Eles já começaram a campanha. Coitados, há anos que se queixam. Falam muito dos Estados Unidos. Para ver se nós nos esquecemos que cá pela nossa terrinha continua a ser impossível entrar num café ou num bar sem inalar as baforadas de fumo que nos atiram para cima.
Para variar acho que desta vez nós, as vítimas, não deveríamos ficar calados.

sexta-feira, dezembro 28

quinta-feira, dezembro 27

segunda-feira, dezembro 24

Mandelbrot Set - Jonathan Coulton

Pathological monsters! cried the terrified mathematician
Every one of them is a splinter in my eye
I hate the Peano Space and the Koch Curve
I fear the Cantor Ternary Set
And the Sierpinski Gasket makes me want to cry
And a million miles away a butterfly flapped its wings
On a cold November day a man named Benoit Mandelbrot was born

His disdain for pure mathematics and his unique geometrical insights
Left him well equipped to face those demons down
He saw that infinite complexity could be described by simple rules
He used his giant brain to turn the game around
And he looked below the storm and saw a vision in his head
A bulbous pointy form
He picked his pencil up and he wrote his secret down

Take a point called Z in the complex plane
Let Z1 be Z squared plus C
And Z2 is Z1 squared plus C
And Z3 is Z2 squared plus C and so on
If the series of Z’s should always stay
Close to Z and never trend away
That point is in the Mandelbrot Set

Mandelbrot Set you’re a Rorschach Test on fire
You’re a day-glo pterodactyl
You’re a heart-shaped box of springs and wire
You’re one badass fucking fractal
And you’re just in time to save the day
Sweeping all our fears away
You can change the world in a tiny way

Mandelbrot’s in heaven, at least he will be when he’s dead
Right now he’s still alive and teaching math at Yale
He gave us order out of chaos, he gave us hope where there was none
And his geometry succeeds where others fail
If you ever lose your way, a butterfly will flap its wings
From a million miles away, a little miracle will come to take you home

Links: versão editada de Changing Places.

domingo, dezembro 23

sexta-feira, dezembro 21

As Mulheres segundo Feynman

Quase toda a gente leu Surely You're Joking, Mr. Feynman. No entanto quase ninguém se lembra de uma pequena secção intitulada You just Ask! Porquê? O conto anterior é apenas um resumo dessa secção. Esse livro ficou famoso pela história onde Feynman ensina a abrir cofres. Mas quem é que está interessado em abrir cofres?

Mulheres: um conto científico (epílogo)

Nesse outono estava a dançar numa festa da universidade com a irmã de um estudante de doutoramento quando me lembrei da Pam. Que tal se fossemos a um bar? Será que a lição do John também funcionava com um jovem de boas familias? Enchi-me de coragem e perguntei: olha, antes que eu te compre esta bebida. Vais dormir comigo esta noite? Ela respondeu que sim.
Nunca mais voltei a usar as lições do John. Não me dava prazer fazer as coisas daquela maneira. Mas não deixou de ser interessante saber que funcionava.

Mulheres: um conto científico (2)

Passei o dia a mentalizar-me: a miúda só quer a comissão das bebidas. Não tenho obrigação nenhuma de ser simpático ou comportar-me como um cavalheiro! Essa noite a Tamara acenou-me e apontou para a Pam. Sorri à moça mas não saí da minha mesa. Ela acabou por aparecer. Não lhe paguei a bebida. Foi-se embora. Via-a a dançar com um tenente da força aérea bem parecido. Olhava para mim enquanto dançava. Tentava fazer-me ciúmes. Ignorei-a. Começava a duvidar que a estratégia funcionasse.
Depois do show ela foi buscar o casaco e atirou a frase. Está-me a apetecer dar um passeio, alguém quer vir? Não podia ignorá-la sempre. Ofereci-me para a acompanhar. Sem demonstrar entusiasmo. Sempre era a primeira vez que saía do bar acompanhado. O tenente tinha desaparecido.Estava a fazer progressos. Fomos beber um café. Ela encomendou umas sandes mas tinha-se esquecido da carteira. Eu paguei-as. Estavamos quase a chegar à porta do hotel. Desculpa, gostava muito que subisses para beber outro café mas combinei com o tenente... Não a deixei acabar a frase: és pior do que uma puta!
O quê?!
Paguei as sandes e o que é que recebo em troca? Nada!!!
Eu devolvo-te o dinheiro!
Ok, devolve lá.
Apanhei-a no bluff. Surpreendida, lá descobriu a carteira e tirou uns trocos. Voltei para o night cub e fiz o relatório ao John: falhei, mas tentei recuperar...
Não te preocupes. Vais dormir com ela esta noite.
Mas ela está a comer o tenente!
Não te preocupes...
Duas horas depois, ajudava eu o John a fechar o bar quando apareceu a Pam.
Agarrou-me o braço e levou-me de volta para o hotel.

quinta-feira, dezembro 20

Mulheres: um conto científico

Eu ia àquele night club muitas vezes. A Tamara apresentava-me sempre a uma das dançarinas. Ela sentava-se na minha mesa, eu pedia umas bebidas e falavamos. Ela ia fazer o show e depois voltava. Os homens das mesas em volta invejavam-me. Depois ela dizia qualquer coisa do tipo: gostava que viesses ao meu quarto esta noite mas ... talvez amanhã.
Uma noite a Tamara apresentou-me a Gloria. Quando ela se levantava da mesa por qualquer razão acabava sempre por trocar umas palavras ou uns olhares com o mestre de cerimónias. Tratava-se de uma cumplicidade calma, não de um engate. Resolvi arriscar. Da vez seguinte que a Gloria se levantou passei pelo mestre de cerimónias e atirei: a sua mulher é muito simpática. Acertei. Ele achou que ela me tinha dito. Ficamos na conversa. Quando ela voltou, achou que ele me tinha dito. Depois do cabaret fechar fui até casa deles e assim nasceu uma bela amizade. Acabei por lhes perguntar porque é que a Tamara era tão simpática e me apresentava todas aquelas moças. A Gloria explicou-me: pouco antes da Tamara me apresentar a ti, disse-me: agora vou-te apresentar ao maior mãos largas cá do bar. Parece que tu da primeira vez que cá vieste pagaste uma rodada de champagne a toda a gente. Então era isso!
Confessei que andava meio frustrado. Como era possível que um tipo esperto como eu nunca tinha conseguido levar uma moça para a cama, quando tantos outros, que tratavam as moças abaixo de cão, o faziam sem qualquer dificuldade?

O John ficou de me dar uns conselhos. O problema fundamental é o seguinte: tu queres ser um cavalheiro simpático. Enquanto te comportares dessa forma, ela sabe como lidar contigo, conduz-te onde ela quiser. Como tal

1. Não te podes comportar como um cavalheiro em nenhuma circunstância.
2. Deves desrespeitar as moças.
3. Não lhes vais pagar NADA. Nem sequer um maço de cigarros até lhe perguntares se ela dorme contigo, ela responder que sim, e tu ficares absolutamente convencido que ela fala verdade.

uuhhhhh, isso pergunta-se?

quarta-feira, dezembro 19

>Porque é que o amor não entra nessa "equação económica"?

Caro Jaime,

por amor referes-te àquele sentimento sublime e profundo cujas causas são sempre um mistério mas que por algum motivo só surge nos gajos face às tipas de mamas grandes e nas gajas face aos tipos que as tratam mal?
Isto é uma equação, não é um caixote de lixo para mitologias infantis. Nem mesmo no Natal.
Um conselho: lá porque as gajas dizem que gostam que os homens sejam gays, digo, sensíveis, e tal, não quer dizer que elas ofereçam alguma coisa aos tipos que cumprem com esses preceitos. Já o deves ter observado muitas vezes. Uma ideia: se calhar, se uma coisa se repete frequentemente, é porque não é acidental.
As mulheres falam de amor como os Ingleses falam de sabão: Se ouvires o que eles dizem, parece que o inventaram, mas se vires o que eles fazem, parece que não sabem o que é nem para que serve.
Se queremos perceber as mulheres, pedimos-lhes que nos expliquem. Depois pomos o som em off e anotamos como de facto elas agem.
Isto não é ser misógeno, pelo contrário, eu ADORO as gajas. Mas se vais ter cascavéis como bichos de estimação convém que aprendas primeiro qual é o lado que morde. ;)

PS: Bate lá, Sofia, anda. Today is a good day to die! ;)

OMWO

Cartas de condução com pontos

Vamos ter dentro em breve cartas de condução digitais com um sistema de pontos. Cada infracção reduz o nosso número de pontos, podendo-se chegar rapidamente à inibição de conduzir. Este tipo de cartas já existe em França e Espanha. Alguns espanhóis da raia começaram mesmo a vir a Portugal tirar a carta. O sistema é mesmo eficaz a travar os excessos de velocidade. É sim senhor. Tenho vários amigos espanhóis que passaram a andar na linha. São eficazes a tornar a estrada mais segura? Está por provar. O ministro espanhol responsável pelo sector anda muito chateado com os automobilistas. Depois de alguns sinais de melhoria, o número de acidentes durante as férias do verão disparou. O homem disse que ia procurar desenhar novas medidas. Chegaram agora: Pena de prisão para quem for apanhado acima dos 180 km/h. Se esta medida não resultar, qual será o próximo passo?
Que tal fazer um estudo estatístico sério sobre as verdadeiras causas que estão por detrás dos acidentes? Dá muito trabalho?
É verdade: Todos os acidentes acontecem por excesso de velocidade. Se dois carros estiverem parados, nunca chocam um com o outro.

PS: Aqui vai o link. Afinal é apartir de 200km/h na estrada e 110km/h no que é considerado cidade. Até SEIS meses de prisão.

Nota Mental: já não posso comprar o Porsche.

segunda-feira, dezembro 17

Logica Difusa 3

O ex-Presidente Italiano, Francesco Cossiga, afirmou que foram a CIA e a Mossad que executaram os atentados do 11 de Setembro de 2001. Que credibilidade se pode dar a estas afirmações? Bem, o homem já tinha feito afirmações semelhantes no passado. Denunciou a existência da Operação Gladio. Segundo Cossiga a CIA teria executado operações terroristas na Europa com o objectivo de as inputar a grupos terroristas e daí retirar dividendos políticos. Entre essas operações incluem-se o rapto e posterior assassínio de Aldo Moro, primeiro ministro de Itália e vários atentados à bomba. O homem já é reincidente. Acontece que o Parlamento Europeu ordenou em 1990 uma investigação ao caso, reconhecendo alguma credibilidade a Cossiga.
A ideia de que a CIA teria sido capaz de infligir um ataque em pleno território americano parece algo insana. Vamos admiti-la por um instante. Que teria a direita americana a ganhar com um acto deste tipo. Bem, Bush estava em muito maus lençois, dificilmente seria reeleito. O 11 de Setembro foi a melhor coisa que lhe podia ter acontecido. O 11 de Setembro também permitiu limitar as liberdades civis, atacar o Afeganistão e o Iraque, dar dinheiro a ganhar aos amigos de Bush... Mas o Bin-Laden confessou! Pois confessou. Em troca dessa confissão tornou-se o heroi de todo o mundo Islamico. Um bom negócio. Seria de esperar que os EUA desenvolvessem esforços sérios para o apanhar. Não foi o caso. Para além do mais a sua família teve direito a um salvo conduto para sair dos EUA a 12 de Setembro, quando todos os aeroportos estavam fechados. Pois, também existiram movimentos altamente suspeitos na bolsa de Nova York nos dias que antecederam as explosões. Esses movimentos só não foram considerados crimes porque não se estabeleceram relações entre as pessoas que os fizeram e a Al Qaeda. Se não foi só a Al Qaeda que esteve por detrás dos atentados, o caso muda de figura.

Concluindo: podemos acreditar com intensidade 100% que os atentados de 11 de Setembro foram executados pela Al Qaeda ou devemos considerar que esta afirmação não é completamente segura? Estamos preparados para nos movermos neste mundo sem certezas?

sábado, dezembro 15

A Economia do Sexo

A Isabela escreveu recentemente vários posts condenando moralmente uma transação comercial que considera que é estabelecida de livre vontade entre dois adultos. Como é que a existência dessas transacções afecta os seus interesses?
A existência de prostitutas perturba significativamente a economia (não monetária) das transacções sexuais entre homens e mulheres. Se os homens que vão às prostitutas não o pudessem fazer, teriam de negociar sexo com mulheres não prostitutas. Aceitar as suas condições. Esse aumento da procura reflectir-se-ia no mercado das transações sexuais, afectando o comportamento de todos os homens, mesmo dos que não vão às prostitutas. O poder das mulheres aumentaria significativamente.
Até que ponto é que as nossas posições morais são influenciadas pelos nossos interesses?

PS: A economia trata de todas as interacções entre pessoas que envolvam bens escassos. Não se esgota nas transações monetárias nem nos bens tangíveis.

Knol: Google versus Wikipedia

Actualmente um quinto do tráfico da Google dirige-se à Wikipedia. Imaginem que a Wikipedia permitia Google Ads. Quanto é que a Google podia ganhar com isso? Que tal criar uma nova Wikipedia com Google Ads? Está em fase experimental e chama-se Knol. Durante a fase experimental os artigos são escritos por especialistas convidados. Depois, qualquer pessoa se pode candidatar a escrever um artigo. Os autores recebem o dinheiro dos Ads, caso decidam incluí-los. Os outros podem comentar.
A Google distingui-se pelo seu motor de busca super eficiente, pelo seu código ético e por trabalhar sempre com ideia originais. Pela primeira vez faz lembrar a MicroSoft. Veremos o que acontece. Via Razão Crítica.

Vês, ouves e lês

Francisco Chimoio, arcebispo do Maputo, desaconselha o uso do preservativo. Afirma que várias marcas de preservativos produzidas na Europa são deliberadamente infectadas com sida, o mesmo acontecendo com os medicamentos que são usados para tratar a doença.
Neste momento 16% da população moçambicana está infectada com o vírus.
Como pode a hierarquia da igreja católica ignorar estes factos?
E tu, católico praticante, vais ignorar estes factos?

Rejecta Matematica Caveat Emptor

Não deite fora os seus papers rejeitados. Esvazie o seu caixote do lixo. Via A última Dança.

quinta-feira, dezembro 13

As Ordenações Afonsinas

foram mais indulgentes para com as senhoras.
Sê-lo-á também o nosso José Maria?

Rare Erotica

quarta-feira, dezembro 12

O Talibã da Rua de São Lázaro

As lições de Chang

Ou tudo o que um cidadão bem informado deveria saber sobre economia em geral e a globalização em particular para entender o mundo em que vivemos. Um serviço público dos ladrões de bicicletas.
Indexado para nós pelo Daniel Oliveira.

Futebol e Economia

Por muito que nos custe, a maneira mais eficiente de organizar uma equipa de futebol é montar um bom sistema defensivo, um sistema de pressão alta, treinar as transições rápidas defesa-ataque, escolher dois ou três jogadores criativos que se complementem, e ser optimista. Por cada equipa que joga deliberadamente ao ataque, há duas que lhe dão a volta. O Barcelona do Cruyft levou 5-0 do Milan. A Holanda perde sempre com Portugal.
Por muito que nos custe, a médio prazo os economistas só sabem controlar a inflação e impedir a economia de aquecer demasiado, evitando as consequências nefastas do sobreaquecimento. Consequências que conhecemos várias vezes nas últimas décadas. É mais ao menos fácil estimular a economia e fazer um brilharete durante dois aos três anos. Depois vem a ressaca.
Muita gente boa anda a pedir a Sócrates que jogue mais ao ataque, com a melhor das intenções. Tenham cuidado com o que pedem, podem vir a consegui-lo.

Pensar Bem - Pensar Melhor

Qualquer pessoa que tenha frequentado o Cambridge teve oportunidade de aprender por lá algo mais do que inglês. Aprende por exemplo a estruturar uma apresentação, começando com uma introdução onde explica os seus objectivos, terminando com um resumo das conclusões a que chegou. Expor melhor obriga-nos a pensar melhor. Não se ensina nada disto ao longo de doze anos de estudo da língua portuguesa. Apesar de a Inglaterra ser o nosso mais velho aliado, nunca aprendemos nada com o pragmatismo da cultura inglesa. Da cultura francesa assimilámos o bom Rosseau, que considera que já nascemos ensinados. Não é bem assim.
Sabia que é muito comum a existência de cursos de pensamento crítico nas universidades dos países de cultura anglo-saxónica. Por alguma razão o fazem. Não sabia é que existia um desses cursos aqui por Lisboa. Vejam o post do Ludwig Krippahl no Rerum Natura.

terça-feira, dezembro 11

Em busca do tempo perdido

O amor nos tempos de internet (13).

Revisitando o Gato de Schrödinger

As partículas que compõem o mundo seguem as leis da física quântica. Podem estar ao mesmo tempo em vários lugares, saltar de uma lado para o outro. Até agora achava-se que nós nunca observamos esse tipo de fenómenos devido a questões de escala. De alguma forma era como se a diferença de escala criasse uma diferença qualitativa. Afinal, parece que essa diferença é apenas quantitativa.
Agora alguns físicos argumentam que só não observamos esses fenómenos porque não fazemos medições suficientemente precisas. Se as fizéssemos podíamos por vezes observar a agulha de uma bússola saltar de uma posição para outra sem passar pelas intermédias, em consequência de uma flutuação discreta do campo magnético terrestre. Mais detalhes em Anaximandrake, um blog deliciosamente francês.

segunda-feira, dezembro 10

Logica Difusa 2

Durante muito tempo defendi a justificação moral do lançamento das bombas de Hiroxima. O argumento é simples: depois da resistência suicida das forças japonesas em Okinawa, seria de esperar um número de baixas gigantesco no caso de uma invasão do arquipelago japonês. Só essa invasão podia acabar com a guerra. Não compreendia muito bem o sentimento de culpa de Openheimer e de outras pessoas ligadas à criação da bomba.
A posição mais comum sobre o assunto até é a condenação do lançamento da bomba. Quanto a mim, é feita por razões emocionais demasiado primárias para serem levadas a sério.
Se afinal os japoneses tinham proposto aos americanos uma rendição em termos semelhantes aos que foram obtidos depois do lançamento da bomba como é referido neste jornal de referência alguns meses depois do fim da guerra, parece-me que o caso muda de figura. Que vos parece?
Se se pode mudar de opinião sobre factos tão importantes, é melhor começar a medir a intensidade com que acreditamos em cada facto histórico.
Agradeço ao Diogo ter-nos dado a conhecer este facto.

domingo, dezembro 9