quinta-feira, abril 28

Etapas de uma neocolonização

1. O 25 de Abril de 1974. Provavelmente o acontecimento mais importante da minha vida. Ganhámos a liberdade de expressão. Ganhámos a possibilidade de nos juntar à Comunidade Europeia. Entrámos no jogo de ilusões da democracia, onde os governos se sucedem, só se pensa no presente e ninguém é responsável por nada.

2. A entrada na "CEE". Deixa de ser humilhante passar a fronteira da França ou da Inglaterra. Ainda passei por isso.

3. Os fundos estruturais. Entra muito dinheiro no país. As regras são bem claras: é difícil usar o dinheiro para tornar a nossa economia mais competitiva. Boa parte do dinheiro tem de ser propositadamente mal gasto ou gasto em obras de fachada. As regras facilitam o encher dos bolsos dos corruptos. Apesar de tudo cria-se um ambiente de prosperidade em que seria possível tomar decisões difíceis sem grandes custos para a população. Cavaco Silva prefere a solução mais facil, que lhe dá maiorias absolutas. Em vez de se estimular a produtividade, premeia-se deixar de produzir.

4. Criação do Euro. Uma moeda que não poderia nunca servir os interesses de todos os membros. Uma moeda que foi desenhada para servir os interesses dos mais fortes.

5. Alargamento ultra rápido da comunidade. Assim não havia hipóteses de assimilar os países menos desenvolvidos e fazê-los crescer. também não era isso que se pretendia.

6. Liberalização do comércio internacional. As vantagens para a economia portuguesa de ter livre acesso dos seus produtos aos países da comunidade desapareceram. Passamos a competir com países que usam mão de obra semi escrava e não têm quaisquer preocupações ambientais. Sabíamos que o problema estava ali a esquina e ignorámo-lo completamente.

7. Novas regras de voto dentro da comunidade. A comunidade ficaria ingovernavel se se continuasse a votar por unanimidade. Sobretudo, nada do que está a acontecer agora poderia ter acontecido, não é?

8. Os deficits orçamentais, consequências inevitáveis pelas regras estabelecidas pela criação do euro, obrigam os países periféricos a ajoelhar e perceber de uma vez por todas quem são os Senhores e quem são os servos. Nada nos prende à União Europeia. Podemos sair quando quisermos. Só que as condições da saída não foram pré-estabelecidas e serão decididas pelos Senhores.

9. ...?

Como vamos descalçar esta bota? Haveria soluções de curto prazo, caso tivéssemos outros políticos ou outra classe média. As que tenho visto até agora são pouco mais do que atitudes destinadas a conservar algum do nosso amor próprio. Quem não estiver a pensar em tentar arranjar um passaporte alemão, australiano ou brasileiro, deverá começar a pensar a médio prazo. A neocolonização é muito mais subtil do que as anteriores formas de dominação. Só uma mudança estrutural da consciencia social da classe média pode mudar alguma coisa.
Não há condições para isso? A austeridade vai mudar muita coisa...

Não vale a pena culpar os alemães pelo que está a acontecer. O homem é o lobo do homem. Se nós abrimos o flanco, os outros aproveitam. Como é possivel que nenhum dos principais candidatos a primeiro ministro tenha uma licenciatura por uma universidade decente ou tenha feito alguma coisa na vida para além de chafurdar na política? É agora a altura de deixar o conforto da poltrona e encontrar um caminho que nos dê alternativas em quem votar. Ou deixar que as poucas dezenas de milhares de pessoas que são membros dos principais partidos continuem a decidir por nós.

sábado, abril 16

Carta Aberta ao José Luís Sarmento

Caro José Luís Sarmento,

considero-o um homem inteligente e tenho seguido mais ao menos regularmente o seu blog. Só por isso me dou ao trabalho de escrever o que se segue. Muitas outras pessoas não mereceriam que eu me desse a este trabalho. Compreendo parcialmente o desgaste a que está sujeito. A avaliação dos professores do ensino secundário é um insulto à profissão e a todos os seus profissionais. É verdade que muitos professores contestariam qualquer forma de avaliação, mas esta de avaliação só tem o nome.
É verdade que o sistema educativo mentiu aos jovens e lhes deu uma visão completamente errada do mundo. Que tornou quase impossível eles compreenderem uma série de valores que para a nossa geração eram bem claros. Que o seu desinteresse e indisciplina durante as aulas é completamente desmotivante, que não foi para fazer "isto" que decidiu seu professor. Sei disso porque alguns desses efeitos já chegam à universidade onde dou aulas.
É verdade que vivemos numa cleptocracia e que estamos a ser constantemente roubados. Pelos nossos governantes, pelos especuladores, pelas empresas petrolíferas, por todos os que o podem fazer. Também acho que vivemos vários anos acima do nível de vida que podíamos suportar. O que nos roubaram foi apenas uma parte daquilo que pediram emprestado para nós pagarmos.
Compreendo que lhe apeteça mandar tudo às malvas, pedir a reforma e partir para uma segunda adolescência. Começo por lhe fazer notar que esta decisão pode ter consequências imprevistas. Boa parte das pessoas que se reformaram antecipadamente no princípio da década de 70 acabaram na miséria envergonhada. Mesmo os que tinham altos cargos na administração pública. As reformas não foram actualizadas e a inflação comeu rapidamente o seu poder de compra. Agora a inflação é baixa? É verdade, mas tudo isso pode mudar de um dia para o outro. Uma saída do euro envolveria desvalorizações da moeda da ordem dos 50% em poucos anos. Mesmo sem sair do euro muito coisa mudará. As pessoas acreditam que o Estado é uma pai que toma conta de nós. Apesar de tudo o que aconteceu, ainda não mudaram de opinião. Custa-me perceber como é que, numa situação destas, pode escrever um post tão leviano. Acha mesmo que se vai safar? Quem lê o seu escrito fica a pensar que vivemos num país maravilhoso em que um tipo se pode reformar aos cinquenta e tal e gozar a vida despreocupadamente. A menos que não nos tenha contado a história toda. Quando voltar da sua viagem vai dar aulas num colégio privado ou montar um negócio de explicações? Isso já seria mais realista.
Seja como for, tem o direito de mandar isto tudo às malvas e deixar nas minhas mãos pagar uma parte da sua reforma. A lei permite-o. Não espere porém que eu vá lutar pelos seus direitos, OK? De alguma forma o senhor é só mais um dos que, porque a lei o permite, me vai complicar um bocadinho mais a vida.

PS: Como eu disse antes, não me daria ao trabalho de escrever esta carta a uma pessoa qualquer. Espero que isto possa ser um ponto de partida para um diálogo constructivo. Gostava de compreender melhor as suas motivações.

quinta-feira, abril 14

domingo, abril 10

Razões científicas para pagar menos aos gestores

Atenção, não estamos a falar de alguma investigação manhosa feita por um cientista comuna mas sim de estudos pagos pelo Fed. Estudos que justificam a prática de empresas como o Google.
As conclusões são as seguintes: quando estamos a falar de problemas que exigem soluções criativas pagar grandes quantias não só não melhora a performance como até a pode piorar.

As formas mais efectivas de motivar alguém que faz um trabalho criativo passam por:
- Dar-lhe autonomia. Na Google os investigadores dedicam 20% do seu tempo a fazer o que querem. Muitos dos projectos mais importantes são incubados desta forma.
- Dar-lhe a capacidade de ser bom a fazer o que faz.
- Garantir que esse alguém sente que faz parte de algo maior do que si próprio e que o seu trabalho tem um sentido.
Este comentário ao livro de Dan Pink sumariza o tema de uma forma brilhante.

sexta-feira, abril 8

Está tudo dito...

Lembro-me perfeitamente de ter lido esta cartoon há muitos anos. Na altura achei graça. Agora, nem por isso...
Via Carlos Albuquerque.

domingo, abril 3

Cinco Atitudes perante a Vida

1. A vida é uma merda.
2. A minha vida é uma merda.
3. Eu sou bom, tu és uma merda.
4. Nós somos bons, os outros são uma merda.
5. A vida é boa.
Quem vê o mundo ao nível um difícilmente fará algo mais notavel do que roubar um banco.
O nível dois dá-nos acesso a todas as mediocridades a que temos direito.
O nível três é muito comum. Todos vocês são uma merda e não aprendem nada com do que eu vos quero ensinar neste blog.
Nós somos optimos e vamos andar para a frente. ELES que fiquem onde estão.
Só um grupo que acredita que todos podem fazer a diferença pode mudar o mundo.

O pior da crise actual é corrermos o risco de regredirmos todos para o nível dois.
Do mal o menos, continuemos a achar que só os outros são uma merda.
Não deixem que isso vos aconteça. Vejam o vídeo e enviem-o a alguém.
Nota: a parte interessante do vídeo começa ao fim de quatro minutos.
Via John Doe.