
Nunca tinha lido um livro sobre ateísmo. A igreja católica já faz o seu trabalho suficientemente bem feito. Recentemente li dois. Desiludi-me um pouco com
A Desilusão de Deus, de
Richard Dawkins. Esperava-se que um especialista em evolução utilizasse esta teoria para estudar a religião. Dawkins limita-se a usar o senso comum. Dele, esperava-se algo mais. Ficou-me na memória a frase
Homens bem intencionados realizam em geral boas obras e homens maus cometem actos contra o bem comum. Só a religião consegue fazer com que homens bons cometam as acções mais maléficas sem qualquer remorso.Bem mais profundo do que o livro de Dawkins é o livro de Daniel Dennett
Breaking the Spell: Religion as a Natural Phenomenon. Dennett analisa em detalhe o processo de formação das religiões de um ponto de vista antropológico e evolutivo. As religiões organizadas começam exactamente no momento em que surge a divisão do trabalho. O conceito de
meme, introduzido por Dawkins, é utilizado em detalhe para explicar a evolução das religiões.
Quando se fala na
sobrevivência do mais forte pensa-se em geral em individuos. A teoria da evolução não se refere a individuos mas sim aos seus genes. Não somos nós que possuimos os genes, somos apenas o seu envolucro mortal. Um meme é o equivalente cultural de um gene. São exemplos de memes
canções, receitas de cozinha, cortes de cabelo e
teoremas matemáticos. Uma religião é um agregado extremamente complexo de memes. Os memes mais aptos são reproduzidos e sobrevivem. Os outros não. A ideia de Deus e conceito de ateismo são dois memes em competição.
A parte final do livro é dedicada a enfatizar uma série de ideias que valem a pena ser repetidas:
1. A religião é um fenómeno cultural como qualquer outro que pode e deve ser estudado por todos, crentes e não crentes.
2. Os crentes acreditam na existência de um estatuto especial para a sua religião, que a coloca acima da possibilidade de esta ser estudada. Encaram muitas vezes estes estudos como actos hostis contra a sua religião. Os cientistas olham em geral para o estudo das religiões como uma disciplina menor.
3. Num mundo globalizado e turbulento como aquele em que vivemos estudar as religiões usando métodos cientiíicos é algo quase tão urgente como estudar o clima.
4. Ninguém sabe como vão evoluir as religiões. Se perdurarão para sempre ou se definharão dentro de um ou dois séculos.
Mais do que apresentar certezas, o livro levanta questões e discute metodologias de trabalho.
Algum tempo atrás o
Helder Sanches perguntava se as religiões eram eternas e inevitáveis. A resposta de Dennet é um pouco mais modesta do que a maioria das respostas dadas pelos vários bloggers:
vamos primeiro estudar o assunto a sério. Depois logo se vê.