domingo, setembro 19

Sonhar

Na primeira aula de uma cadeira de um Mestrado profissionalizante que eu às vezes lecciono costumo pedir aos alunos que falem dos seus percursos anteriores. É uma informação importante. Cada um sente-se obrigado no fim a referir que de alguma forma aquele era o sonho da sua vida. Mesmo que se esteja mesmo a ver pelo contexto que em muitos casos não é bem assim. Doi-me um bocado ouvir aquilo. Prometo sempre a mim próprio que da próxima ver que der o curso não falar neste assunto. Depois esqueço-me. Não quer isto dizer que eles não tenham outros sonhos.

Com o passar dos anos, haverá algum tesouro mais precioso do que ainda ter um sonho? Isso de ter um sonho depois dos trinta, dos quarenta, dos cinquenta, é uma coisas rara ou nem por isso? Não estou a falar em ganhar o euromilhões, comprar um Porsche, ou dormir com a Angelina ou o Brad.

sábado, setembro 18

60 e quantos?

Os franceses foram para a rua protestar porque querem continuar a reformar-se aos 60. 62 não lhes parece aceitável. Curiosamente muitos dos meus colegas franceses agonizam perante a ideia da reforma compulsiva aos 65. Com ela se vai a vã glória de mandar, talvez a sua identidade e outras coisas mais importantes.Mesmo para chegar lá é preciso ser prof de class exceptionelle e sei lá mais o quê.
O José Luís Sarmento concorda com os protestos franceses os aumentos de produtividade são suficientes para pagar esse ócio.
O problema é complexo. Limito-me a alinhavar umas ideias:

1. É verdade que a produtividade aumentou, mas nós também passámos a consumir muito mais. E a maior parte de nós não quer consumir menos.
2. A riqueza de um país não é um dado adquirido para sempre. Se os alemães trabalharem mais cinco anos do que os franceses, vão crescer mais. Os franceses não vão ficar onde estão: vão regredir, porque vão ser menos competitivos. E depois há os chineses.
3. A ideia de por a trabalhar todos a trabalhar até aos 67 é em grande parte utópica. Mesmo que a pessoa reúna condições físicas mínimas, não é garantido que ainda faça o trabalho tão bem quanto alguém mais jovem. Não se pode obrigar um professor do Ensino Secundário a aturar as criancinhas até aos 67. Brevemente, o mesmo se aplicará ao Ensino Superior. Pelas mesmas razões.
4. Estamos perante uma luta de gerações. São os nossos filhos que vão pagar as nossas reformas, algo que os nossos netos não vão fazer por eles. Os nossos filhos já estão a ser suficientemente penalizados pela crise actual.

O que é que vai acontecer?
O conceito de idade da reforma vai cair. Como já acontece hoje em dia, cada um de nós vai reformar-se quando quer, recebendo em função das contribuições que fez.
Não vamos poder ficar num emprego pelo tempo que quisermos. Vai ser preciso fazer testes caso lá queiramos continuar, como para a renovação da carta de condução.
Lá por uma pessoa largar a sua actividade principal, não quer dizer que pare de trabalhar. Pode continuar a desempenhar outras funções, eventualmente a tempo parcial.

Sempre pensei ficar a trabalhar até aos setenta. Sempre foi esse o limite na universidade. Agora já não tenho a certeza, não sei se vou ter pachorra para aturar as nossas chatices que inventam todos os dias. Por outro lado, se quiser mudar para outro actividade (bruxo ou algo assim) talvez convenha fazê-lo um pouco mais cedo.

terça-feira, setembro 14

domingo, setembro 5

Como é que alguém consegue viver sabendo que é pedófilo?

Para um homem que vive só, até pode ser fácil. Quando se tem duas filhas, é inevitável que até se faça por esconder o facto de si próprio. Torna-se mais difícil fazê-lo quando todo o país conhece o seu segredo. É por isso que os advogados de Carlos Cruz dedicam quase tanto tempo a tentar ganhar o caso na secretaria como a tentar descredibilizar a justiça.
Os media adoram este reality show. A única maneira de manter a história viva é ir dando tempo de antena às "vítimas". Cruz afirma que tem um convite para um talk show. Não duvido que seja verdade. Clara de Sousa nunca seria capaz de atacar um colega de profissão. Quando o entrevistou, pouco mais fez do que parecer ser agressiva.
Era importante ouvir Carlos Cruz dizer uma vez mais que o facto de o seu assistente pessoal ser um pedófilo condenado e fugido á polícia foi uma simples coincidência. Pois claro que sim...
Convinha perguntar quando é que vão aparecer no blog do CC as denúncias de políticos de outros partidos que também são pedófilos. Ele ameaçou esta semana publicá-las imediatamente após a sentença, não foi? Já agora: se ele não é do meio, como é que tem essas informações?
Carlos Cruz afirma que já não paga há três anos aos advogados. O seu advogado principal anunciou no dia em que aceitou o trabalho que não ia receber um tostão, pois a acusação era demasiado ignóbil. Faz parte das regras do jogo aproveitar todas as hipóteses para obter mais uma vitimização e poupar nos impostos. Já agora, convém ser consistente.
Finalmente, Carlos Cruz vale mesmo a pena gastares todo o teu dinheiro a empatar, empatar, empatar? O O.J. Simpsom foi ilibado, não foi? Valeu a pena? É injusto seres o único português importante que não se escapou à nossa justiça de brincadeira? És suficientemente esperto para teres percebido que não havia escapatória. Tinhas outras opções. Agora já estava tudo acabado.
Quando nos encontramos numa enrascada destas, confiamos naqueles senhores tão simpáticos que nos prometem milagres. Mas esses senhores também têm interesses e uns bolsos muito grandes que nunca se sentem cheios. Serão realmente os teus maiores amigos?

quarta-feira, julho 28

PORTO COVO - RUI VELOSO - ILHA DO PESSEGUEIRO.wmv



Já não há pessegueiro nenhum, mas continua a valer a pena passar por lá...

domingo, julho 18

Como tornar tolerável uma gripe de Julho?



Leva-se tempo a descobrir o João Gilberto. Quando se entranha, é pior do que uma droga.

segunda-feira, julho 12

domingo, julho 11

SMS

Finalmente aprendi a usá-los. Cada meio, a sua mensagem. Menos invasivo que o telefone, mais intimo que o e-mail. O meio ideal para transmitir Haikus.

terça-feira, junho 29

Um homem de sorte

Akio Morita, o fundador da Sony era uma homem poderoso. Como todos os homens com algum poder, ninguém lhe fazia frente. Tudo o que ele dissesse, estava correcto. Quase tudo. Quando ele tinha setenta anos o seu professor de flauta tradicional japonesa, um jovem de noventa anos, ainda o tratava uma vez por outra como um miudo descuidado que precisava que lhe puxassem as orelhas. Morita achava que essas aulas de flauta eram o segredo da longevidade do seu sucesso.
Ainda tenho uns tipos a chatearem-me uma vez por outra. Mas pouco. E uma professora de yoga. Ou de natação. Mas não é a mesma coisa. Na falta de um professor de flauta tradicional japonesa, espero continuar a ter por muitos anos algum amigo que faça o seu trabalho.

Não é impossível...

quinta-feira, junho 24

A treta H1N1

Afinal há teorias da conspiração que até são mais do que isso, como se pode ver neste post do Diogo. Ou então o Conselho da Europa está a ser manipulado pelos conspiromaníacos. Devo andar muito distraído. Tenho lido o Diário de Notícias e o Público e nem por uma vez tropecei nestas notícias.

Por favor, percam com o Brasil!

Repetem-se neste campeonato do mundo alguns dos encontros míticos de 66: Coreia do Norte, Brasil. Há porém algumas diferenças. Desta vez no jogo com o Brasil não temos nada a ganhar. Não sabemos se é preferível acabar em primeiro ou segundo lugar. Se descansarmos os nossos melhores jogadores temos uma vantagem decisiva para a próxima eliminatória. A equipa do grupo H que nos vai calhar vai ter de dar o máximo para se qualificar amanhã. O tempo de recuperação vai ser mínimo. Nem a Espanha teria hipóteses contra nós. Este é um daqueles casos em que ser racional paga mesmo dividendos, senhor Carlos Queiroz.

Uma lição de música...

domingo, junho 20

Não vou ao funeral de Saramago

Não conheço a família. Não ia lá fazer nada. Mas há uns tipos que gostam dos rituais sociais e até concorreram a cargos onde são pagos pelos nossos impostos para participar neles. Façam o seu trabalho! Não é pelo Saramago. Se o Cavaco pretende ser o presidente de todos os portugueses, era agora que tinha de o demonstrar. Não é, não senhor.
Como eu aqui escrevi na altura, a gafe de Cavaco não lhe atrapalhou a corrida para o segundo mandato, que agora parece garantido. Basta-lhe manter Sócrates no poder até à sua eleição. Por outro lado deixei de ver qualquer utilidade em votar Cavaco na esperança de ele fiscalizar Sócrates. Porque Cavaco não tem fiscalizado grande coisa. Porque Sócrates vai cair e vamos ter um presidente e um governo da mesma cor. O segundo mandato de Cavaco vai provavelmente esgotar-se no dia em que dissolver a Assembleia da República, algures durante o próximo ano. Votar em quem? Nem me consigo iludir com nenhum candidato. Na altura logo se vê, mas nem sei se vale a pena ir votar ou escolher alguém.
Já há algum tempo que se começa a pôr em causa a capacidade intelectual de Cavaco. Há por aí tantas doenças neurológicas degenerativas... É uma hipótese. Talvez o escloresamento da sua personalidade seja suficiente para explicar as suas atitudes menos conseguidas. De qualquer maneira, o seu segundo mandato afigura-se penoso. Como ele disse erradamente de Soares, vai precisar de toda a nossa ajuda para o completar. E não a vai ter.

sexta-feira, junho 18

Saramago

Diga-se o que se quiser da Pilar, a verdade é que ela (com a ajuda do Nobel) conseguiu contradizer toda a sua obra. O homem zangado com o mundo viveu e provavelmente morreu feliz.
PS: Alguém leu o último livro do Saramago? Muito se falou dele, mas ninguém se deu ao trabalho. Eu pedi-o emprestado outro dia, vamos a ver se agora arranjo tempo.

quinta-feira, junho 17

No les gusta los entrenadores

No Real Madrid o treinador foi sempre o elo mais fraco. Que o diga o Queiroz quando aceitou o cargo sem ter condições para impor as suas escolhas. Luís Aragonês levou a Espanha ao título europeu. Mas teve a lata de fazer o que era preciso: pôs o Raul a andar. Foi desterrado para o Galatasaray. Foram buscar o del Bosque, o gajo porreiro que não faz ondas. A equipa espanhola estava montada, era só manter. No Suiça-Espanha defrontavam-se dois treinadores que ganharam duas vezes a Champions League. A Espanha devia ganhar. Só que o antipático do Hitzfeld ganhou uma Taça com um Borussia Dortmund em quem ninguém tinha ouvido falar e outra com um Bayern mediano. O del Bosque chegou lá ao colo de duas super-equipas do Real Madrid. Não é a mesma coisa. O Hitzfeld mostrou como é.
Para nós foi o melhor resultado possível. A incerteza da vitória no grupo da Espanha dá-nos a hipótese de, caso a sorte nos sorria e consigamos acabar à frente da Costa do Marfim, apanharmos um adversário ultrapassavel nos oitavos de final. Seria a ironia suprema.

sábado, junho 12

Saldanha Sanches

Como é que eu não fiz um post quando este Homem morreu? Nunca se pôs em bicos de pés a reinvidicar o seu passado antifascistas, dizia as verdades mais inconvenientes como se da maior trivialidade se tratasse. Felizmente o Diogo tratou do assunto.

quinta-feira, junho 10

LIE TO ME

é a última série da Fox inspirada em "House". Cal Lightman, o "homem da luz" é o especialista do lado negro: ganha a vida a detectar as mentiras dos outros e descobrir as razões que os levam a mentir. Passa às quartas-feiras no Fox Channel e passa ou vai passar fora de horas na TVI. O paralelo com House é total: o protagonista, Tim Roth, é inglês como Hugh Laurie. A sua ajudante é tão doce como a doutora Cameron, etc.
Tudo gira à volta das consequências de apontar a luz para as sombras das nossas vidas. A multiplicação deste tipo de séries significa que algo mudou na psicologia e sociologia das sociedades em que vivemos. Vinte anos atrás estas este fenómeno seria impossível.

Este video é uma aplicação das conhecimentos divulgados na série à análise do comportamento do Berlusconi. Aqui vai a versão de nuestros hermanos. Falta agora a versão Socrates...
Neste vídeo Tim Roth procura distanciar-se do personagem. Não consegue evitar desviar os olhos quando afirma que não percebe nada nessa coisa de detectar mentiras. This is only to use when we watch politicians. Right! Ninguém quer viver com o peso de ser o Dr. Cal Lightman...
Aqui fica o mais famoso video de Tim Roth, quando ele era mais novinho.

domingo, junho 6

Soren Kierkegaard

Sem a ciência a nossa sociedade não podia pura e simplesmente continuar a existir. Mas a ciência não tem nada para nos dizer sobre a nossa vida. Devia ser a religião a ter algo a dizer sobre essas questões, mas as suas propostas perdem a sua força a cada dia que passa. Pelo menos se excluirmos os pensamentos de meia dúzia de pensadores mais ou menos periféricos. Dez anos depois da morte de Kierkeggard a sua obra parecia completamente esquecida. Foi redescoberta no princípio do século XX e teve uma influência decisiva em Heidegger. Sartre tentou construir uma versão ateia do pensamento de Kierkegaard. Deitou fora o bébé com a água do banho. Recentemente Kierkegaard voltou a receber o interesse que merece. A Relógio de Água está a publicar uma tradução portuguesa dos seus trabalhos e o Guardian dedicou-lhe um série de artigos bastante interessante. Várias obras estão disponíveis online. Tanbém há traduções da Guimarães.

sexta-feira, junho 4

"Deus morreu" (2)

Costuma-se identificar mito com ilusão. Prefiro usar mito no sentido de algo que dá sentido à vida. Aquilo que Nietzche acha que morreu, ou passou a estar de má saúde, foi o mito cristão. Algures durante o século dezanove alguma coisa mudou. Nem tem a ver com deixar de acreditar. Basta acreditar de outra maneira. Ou passar apenas a acreditar em acreditar.

quinta-feira, junho 3

Alguém tem dúvidas de que a história é escrita pelos vencedores?

O OMWO chamou-me a atenção para o último livro de Pat Buchanan, que põe em causa as nossas certezas acerca da duas grandes guerras da primeira metade do século XX. O Churchill não fica lá muito bem visto. Vale a pena ler o artigo da Wikipedia sobre o livro.
Abandonei as longas metragens. Isto agora é mais telenovelas.

terça-feira, junho 1

"Deus morreu"

O vosso Deus está morto e só os ignorantes o choram. Nietzsche, Assim falava Zaratustra

Que fazer perante um aforismo? Vale por si? Se não somos capazes de o interpretar, não percebemos nada?

segunda-feira, maio 31

Especial, porquê? (3)

O que é que te fascina tanto no Mourinho? É por ser de Setúbal como tu?
Nos resultados dos diversos campeonatos é um vencedor. Mas será mesmo? Não percebo nada de futebol, mas já tenho lido críticas. Mas no futebol contam é os resultados. E na vida?

domingo, maio 30

Há algum projecto de vida "tipo"?

Pergunta a MC nos comentários, acrescentando: Não me parece.

sábado, maio 29

What about the struggle to be the best, in your field?

The strugle to be good is overrated...

É claro que há toda uma série de medidas que podem minorar o problema do desemprego. É claro que melhorar a Justiça e a Educação aumenta a competitividade e potencia o crescimento económico a médio prazo. Isso não altera o essencial: uma política económica virada para promover o crescimento e combater a besta negra que retira às pessoas o seu amor próprio não funciona.

Happiness is overrated... (2)

É claro que há toda uma série de medidas que podem minorar o problema do desemprego. É claro que melhorar a Justiça e a Educação aumenta a competitividade e potencia o crescimento económico a médio prazo. Isso não altera o essencial: uma política económica virada para promover o crescimento e combater a besta negra que retira às pessoas o seu amor próprio não funciona.

segunda-feira, maio 24

Especial, porquê? (2)

Os Albuquerques que dominaram a Índia não eram mais homens do que aqueles que capitularam perante o Ultimato Britânico. Uma tecnologia superior decidiu ambas as situações. São os métodos de treino do Mourinho que marcam a diferença. Quem explica a um jogador o que fazer na situação X não pode competir com quem sabe ajudar o corpo desse jogador a descobrir como resolver a situação X.

domingo, maio 23

Happiness is overrated...

A crise económica e social em que estamos mergulhados ataca as fragilidades da nossa atitude perante a vida. Afinal, de que andamos à procura? Da felicidade? A maioria responderá que sim, claro. A maioria dos cristãos... a maioria dos comunistas...
Até o Bertrand Russel não resistiu a escrever um livro sobre A Conquista da Felicidade. A maioria está sempre errada.

sábado, maio 22

Especial, porquê?

Levar umas palmadinhas nas costas em Espanha, na Alemanha ou na Argentina por ser compatriota do Figo ou do Ronaldo é giro. Mas quando se fala no Mourinho, é outra coisa. Aí as palmadinhas são substituídas pelo respeito. O tipo não sabe só dar uns pontapés na bola. O tipo sabe pensar e sabe ser um líder. Esse respeito não tem preço.

segunda-feira, maio 10

A tirania de um príncipe numa oligarquia não é tão perigosa para o bem público como a apatia dos cidadãos numa democracia - Montesquieu

Pior ainda nas cleptocracias mal disfarçadas em que actualmente vivemos...
Mais que não seja, há que publicar uns posts no blog, se é que alguém ainda se lembra da sua existência.
A propósito do excelente post de Palmira F. Silva, no Jugular.

sábado, fevereiro 6

O Sexo dos Anjos


A Doutora Manuela ainda é líder do PSD? Não faço ideia! Bem, suponho que sim... Se não fosse, seria difícil passar por um blog sem tropeçar no seu nome. O que é que ela está lá a fazer? Ouvi no outro dia numa radio críticas ao facto de o ministro das finanças não se demitir. Pois, parece que a Assembleia da República anda um pouco mais irresponsavel do que o costume. A verdade é que o PS estava a pedi-las.
Há meses que evito os telejornais. Tenho dificuldade em perceber como é que alguém tem estomago para isso. Quando houver eleições antecipadas, avisem.

domingo, dezembro 27

Brincar aos Raios X

Dizia-me um colega muito bem informado. Nos últimos dias do anterior governo Socrates veio cá para fora a habitual enxurrada de decretos-lei. Uma delas revoga nas entrelinhas o essencial das leis que obrigam os hospitais públicos e privados a manterem medidas de segurança nos departamentos de radiologia e afins. Uma disposição legal que não foi assinada pelo Ministro da Ciência e Tecnologia, o único membro do governo que entende alguma coisa de medicina nuclear. Está agora à espera de ser regulamentada. E em França a situação ainda está pior, acrescentava ele, enquanto terminava a bica. Se um dia destes lerem uma notícia destas a propósito de Portugal, não se admirem.

As resoluções de Ano Novo

deviam ser tomadas logo a seguir ao Natal. E postas em prática no primeiro dia útil que esteja a jeito.

quinta-feira, dezembro 24

sábado, dezembro 12

quarta-feira, dezembro 9

O argumento de Pascal

Foram propostas muitas provas da existência de Deus. Blaise Pascal propôs uma das mais originais, de natureza probabilistica: Que perdemos se acreditarmos em Deus, e Deus não existir? Nada! Que perdemos se não acreditarmos e ele existir? Tudo! Na dúvida, é mais seguro acreditar em Deus.
Rui Tavares repetiu o argumento de Pascal a propósito da questão das mudanças climáticas. Reconhece que há dúvidas sobre a sua existência, ou sobre o facto de serem provocadas pela industrialização. Que perdemos se os críticos tiverem razão? Nada! Se eles estiverem errados? Tudo! Será mesmo assim? Nem pouco mais ou menos. Rui Tavares comete o erro de confundir as mudanças provocadas pelo clima com o problema global do ambiente. Se quase todos os nosso recursos forem usados para resolver um pseudo problema, como vamos resolver todos os outros problemas do ambiente: chuvas ácidas, poluição das águas, acumulação de lixo e metais pesados nos ocenos, destruição das florestas equatoriais. Precisamos simultaneamente de mais recursos e de restringir o crescimento. Escolher a frente de combate errada é um erro que não nos podemos dar ao luxo de cometer.
Rui Tavares dia também que os cientistas acreditam na realidade do aquecimento global e quem se opõe são os leigos. Está mal informado. Há muita gente a tentar-nos convencer disso. Há mecanismos que contribuem para que muitos cientistas se calem. Há muitas verbas para investigar o aquecimento global. Quem falar publicamente contra fica excluido dessas verbas. Isso vai afectar a carreira do whistleblower e dos seus colaboradores. Os cientistas não são nem mais nem menos corajosos do que as outras pessoas. Não é por acaso que a pessoa que mais tem falado sobre o assunto em Portugal, o Professor Delgado Domingues, é reformado.
Não era sobre estes temas que eu gostava de estar a escrever, acreditem.

Com a verdade me enganas

Temperatura em Portugal aumentou 1,2 graus desde 1930. Que podemos concluir desta frase?
Que nada é mais fácil do que mentir com números.
Sempre que estamos a trabalhar com séries numéricas, só o gráfico traduz alguma verdade.
Ao longo dos ultimos oitentas anos houve anos em que a temperatura média foi superior à do ano passado e outros em que foi inferior. Comparando 1930 com 2009 chegamos a uma conclusão. Comparando outras duas datas bem escolhidas, chegaríamos à conclusão oposta. Quem compara dois números desta forma, é ignorante ou está de má fé.
Este truque é bem velho. Se exceptuarmos momentos de crise grave, os gráficos com a evolução dos valores de um indice da bolsa publicados pelos bancos, pelas correctoras ou pelos livros para imbecis começam sempre na última grande crise. É tão bonito ver como é facil investir na bolsa...

sábado, dezembro 5

quarta-feira, dezembro 2

quarta-feira, novembro 25

Belle de Jour

Está na moda as prostitutas de luxo publicarem um blog e escreverem livros sobre as suas experiências. Belle de Jour foi o pseudónimo de uma das primeiras, senão a primeira a ter tal ideia. A autora conseguiu permanecer no anonimato durante anos. Algo especialmente difícil depois de produzir quatro best sellers e ter uma coluna regular num jornal de referência. A semana passada Belle descobriu que alguém ia provavelmente revelar a sua identidade. Resolveu ser ela a dar a cara.
O seu verdadeiro nome é Dr Brooke Magnanti. Tem um doutoramento em Informática e Epidemiologia. Actualmente é investigadora na Bristol Initiative for Research of Child Health. A tese prolongou-se um pouco mais do que a bolsa de doutoramento. Brook procurou um emprego suficientemente bem pago, que lhe deixasse tempo livre para acabar a tese e que não exigisse um grande investimento em formação. Resolveu o problema trabalhando a 400 euros por hora para uma agência de call girls durante catorze meses.
Trata-se de um caso difícil de encaixar no estereótipo da mulher e do chulo. Ela não foi explorada nem coagida, não se pode dizer que não tinha outras opções, divertiu-se, abandonou a prostituição depois de atingir o objectivo, tem uma vida interessante e útil para a sociedade. A experiência não parece ter deixado cicatrizes.
É um caso extremo, mas não é um caso raro. Muitas outras mulheres resolveram facturar aquilo que o mercado lhes oferecia. Apesar de tudo, a maior parte das mulheres continua a culpar os homens. Uma atitude no mínimo algo infantil. É óbvio que não têm razão.

E no entanto...

Talvez haja um chulo dentro da cabeça de cada prostituta. Cada um de nós tem aspectos masculinos e femininos. Funcionamos de uma forma mais harmoniosa se esses elementos coexistirem em equilibrio. Na nossa sociedade o lado masculino é mais pragmático e mais facil de expressar. Em termos contabilisticos, por exemplo. E em frases do tipo Porque não? Responder a essa pergunta a propósito da prostituição é bastante dificil nos tempos que correm.
Os esquimós têm dúzias de palavras para descrever a neve. Nós só temos uma. A neve é bem mais importante para eles do que para nós. Só temos uma palavra para amor. Em sanscrito há várias dúzias de palavras que nós tradiziriamos sempre por amor ou por frases onde aparece a palavra amor. O lado feminino dos homens e das mulheres, o lado que lida com os sentimentos, está em desvantagem na nossa sociedade. Temos muitas palavras para factos objectivos e racionais. Isso permitiu-nos construir uma sociedade mais rica onde nos podemos dar ao luxo de ser mais justos. Por outro lado pagámos o preço desse desenvolvimento em solidão, depressões, vazios. É o que acontece quando negligenciamos os lados mais frageis e subtis das nossas personalidades, onde estão escondidas as riquezas intangiveis de que andamos à procura algures fora de nós.
A Belle vai pagar um preço alto pelas libras que ganhou. Acontece que isso é um problema dela. Temos de acabar com a mania de não deixar os outros (e às vezes a nós mesmos) errar. O homem que as mulheres acusam está dentro de todos os homens e de todas as mulheres. É infantil projectá-lo no primeiro homem que se ponha a jeito, ou nos homens. Mas todos nós executamos esse tipo de projecções a toda a hora.

domingo, novembro 22

A Treta Global


From: Tom Wigley, Date: Sun, 27 Sep 2009 23:25:38 -0600
So, if we could reduce the ocean blip by, say, 0.15 degC, then this would be significant for the global mean – but we’d still have to explain the land blip. I’ve chosen 0.15 here deliberately. This still leaves an ocean blip, and i think one needs to have some form of ocean blip to explain the land blip (via either some common forcing, or ocean forcing land, or vice versa, or all of these).

Este é um dos e-mails que um hacker, ou um whistle-blower, alegadamente retirou de um computador da University of East Anglia’s Climate Research Unit. Este senhor estava a ajustar os parametros para nos convencer que realmente existe o tal aquecimento global. Estamos a falar do maior escandalo da ciencia. Vão ao google news, escrevam global warming scandal ou outra coisa semelhante, e vejam o que aparece. Ou leiam este artigo do Telegraph e passem pelo Falta de Tempo, onde eu ouvi falar nisto pela primeira vez.
Comunicado dos CRU.

quarta-feira, novembro 18

Contra os cemitérios

Andam por aí uns desavergonhados que querem destruir a civilização ocidental. Onde é que já se viu pegar num terreno baldio, colocar uns muros à volta e começar a enterrar lá os filhos da terra? Não sabem esses velhacos que ainda há meia dúzia de anos andavam por Dover a embebedar-se pelas tabernas o que é o solo sagrado? Doenças? Enterrar os nossos pais e avós na santa igreja onde vamos orar todos os domingos provoca doenças? Só servos de Belzebu podiam inventar tamanho disparate! Sempre assim se fez e sempre assim se fará! Se eu não lutar para enterrar os meus antepassados perto de Deus, quem irá lutar por mim?
Esta oposição ao Novo está bem ridicularizada n'As Pupilas do Sr. Reitor, um dos poucos livros que uma menina de boas familias podia ler nos anos sessenta, tempos em que o caracter subversivo de muitas obras de Eça ainda permanecia intacto. A luta do liberalismo pela saude pública vem-me sempre à cabeça quando se discute o casamento dos homossexuais, algo à partida bem menos controverso do que por exemplo a questão do aborto. Trata-se tão só do horror ao Novo. É por isso que poucos são aqueles que se são capazes de assumir contra, escondendo-se atrás do pedido do referendo. Se este é um assunto tão secundário como eles dizem, vale a pena gastar o nosso tempo e o nosso dinheiro na realização do tal referendo?
Bem melhor seria este mundo sem estes empata fodas? Talvez não. Afinal, como é que se constroi um braço robotico de alta precisão? Para fazer um buraco para um parafuso com precisão micromilimétrica, temos de criar uma tensão: uma força que empurra para a direita e outra para a esquerda, uma para cima, outra para baixo, uma para a frente, outra para trás. Só esta oposição de forças, de musculos agonistas e antagonistas, permite a um atirador acertar na mouche. Aquilo que parece ser apenas um desperdício de energia, é muito mais do que isso. Sem a Doutora Ferreira Leite, eu e os da minha laia acabavamos por escavacar isto tudo.
Dito isto, se não se lutar com toda a energia contra os imbecis que por aí andam, expondo-os ao ridiculo antes e depois da passagem da lei, não vamos a lado nenhum.
Mas sempre com muita compaixão.

quarta-feira, novembro 4

Só ofende quem pode?

Sempre achei que sim. Que uma atitude nossa só desiquilibra emocionalmente alguém, voluntaria ou involuntariamente, se essa pessoa se sente ligada a nós por sentimentos de amor, amizade ou admiração, se nós lhe provocamos alguma insegurança, se ela tem algumas expectativas em relação a nós ou projecta em nós o melhor que existe nela.
Algumas pessoas ofendem-se muito facilmente porque são bastante inseguras, ou têm muitos problemas por resolver à flor da pele. As pessoas ofendem-se porque não são capazes de distinguir o pessoal do objectivo. Muito poucas pessoas são capazes de reagir racionalmente numa situação que envolva algum stress.
Sempre tive um certo orgulho dessa capacidade de não me deixar ofender por dá cá aquela palha. Quantas vezes alguém tentou ofender-me, desestabilizar-me ou impressionar-me, ficando meio para o estupefacto quando não o conseguiu.
Entretanto um destes dias ofendi-me mesmo. Continuo indignado. Uma sensação estranha. Uma sensação nova. Não sabe a fraqueza. Se calhar não me ofendi algumas vezes porque me faltava qualquer coisa. Quem não se ofende não é filho de boa gente. Talvez haja alguma verdade nisso. Não sei se mudar é bom ou não. Mas é interessante.

Claude Levy-Strauss 1908-2009

Tristes Trópicos, a autobiografia de Claude Levy Strauss, é uma das maiores obras primas da Literatura do século XX. As suas descrições das suas viagens pelo Novo Mundo são inesqueciveis. Metade do livro é dedicado ao Brasil. Começa em Salvador da Bahia, e vai-se internando pela selva até chegar aos pontos mais inesplorados da selva amazónica. Fala-nos sobretudo das pessoas e mostra-nos que elas não são diferentes de nós. Não devido aos imperativos do politicamente correcto, mas por razões bem claras.
Os "primitivos" não são estúpidos. A haver estúpidos, somos nós.
Um habitante do Amazonas conhece a fauna e a flora da região tão bem como qualquer equipa de biologos composta por um botanico, um entomologista e um zoologo que tenham queimado as pestanas a fazer o seu PhD e depois tenham passado uns anos a complementar os seus conhecimentos in loco. Quando se desloca a uma região nova por qualquer razão, o primitivo recolhe exemplares da flora da região que não conhece e leva-as para tentar perceber para que servem, realizando todo o tipo de experiencias. Se possivel, conferencia com os habitantes da região, procurando obter informações sobre as plantas que descobriu e sobre outras que lhe tenham escapado.
A nossa sobrevivencia está assegurada e nós não precisamos de puxar pela cabeça para sobreviver. O cérebro dos animais domésticos é mais pequeno do que o dos seus equivalentes selvagens pela mesma razão: falta de uso.

quinta-feira, outubro 29

Demasiadas perguntas

Cada pergunta tem quatro respostas possíveis:

DD - discordo totalmente.
D - não concordo
C - concordo parcialmente.
CC - concordo totalmente.

O melhor é arranjarem um papel ou um ficheiro word e anotar as respostas juntamente com os asteriscos.
O resto das instruções estão no primeiro comentário.

I
  1. A minha vida satisfaz-me.
  2. Sinto-me à vontade quando encontro novas pessoas.
  3. Situações novas causam-me stress.*
  4. O meu trabalho não usa as minhas capacidades.*
  5. Tenho uma atitude positica para com o dinheiro.
  6. Não uso o meu tempo de forma eficiente.*
  7. Sou uma pessoa cheia de energia.
  8. Em geral encaro uma responsabilidade como sendo um fardo.*
  9. Não me sobra tempo para relaxar e divertir.*
  10. Normalmente atinjo os objectivos a que me proponho.

II
  1. Gosto de mim enquanto uma pessoa.
  2. Tenho (tinha) uma relação terna com os meus pais.
  3. Passo frequentemente por situações emocionais difíceis (tristeza/ansiedade/raiva/stress).*
  4. Sinto-me desconfortavel quando estou só.*
  5. Consigo manter um equilíbrio entre o tempo que dedico a mim próprio e o que dedico aos outros.
  6. Tenho dificuldades em concentrar-me e em pensar com clareza.*
  7. É-me facil demonstrar aos outros amor e afecto.
  8. Não estou satisfeito com as minhas relações pessoais.*
  9. Nunca sei exactamente o que estou a sentir.*
  10. Tenho uma boa relação com o meu corpo.
III
  1. Acho que sei o que é o melhor para mim.
  2. Sou capaz de exprimir a minha criatividade de várias maneiras diferentes.
  3. Não estou interessado no que se passa no meu inconsciente.*
  4. Não acredito em intuições ou em guias interiores.*
  5. Tenho uma visão positiva do meu futuro.
  6. Raramente dou atenção aos meus sonhos.*
  7. Acho que estou a crescer espiriritualmente e a desenvolver-me.
  8. Não me parece que o meu espírito possa ter um papel activo na recuperação dos meus problemas físicos ou psicologicos.*
  9. Tenho dificuldade de imaginar o que nunca experimentei.*
  10. Sinto frequentemente uma ligação à natureza.

IV
  1. Sinto a presença de algo mais poderoso do que eu (Deus/Dharma/Tao...).
  2. Cultivo o amor e a compaixão por tudo o que me rodeia.
  3. Nenhuma forma espiritualidade faz sentido para mim.*
  4. Não me parece que a minha existência tenha algum grande propósito.*
  5. É importante para mim que a minha vida tenha um impacto no Mundo.
  6. Não pratico qualquer forma de prática espiritual (meditação/contemplação/oração).*
  7. Realizo regularmente actividades que me ajudam a recuperar o equilíbrio emocional.
  8. Sou facilmente apanhado a realizar actividades superficiais ou a com preocupações do mesmo tipo.*
  9. Raramente me confronto com o significado das minhas experiencias de vida.*
  10. Quando tomo decisões sigo aquilo que me parece correcto de um ponto de vista espiritual.
Retirado daqui.

Agora clikem aqui e leiam os dois comentários.
Se publicar os resultados pode comprometer a acuidade das respostas, mais vale não publicar!

quarta-feira, outubro 28

O eixo do Mal

The American Academy of Family Physicians has announced a corporate sponsorship with Coca-Cola and is also accepting an undisclosed amount of money from them as well.
A AAFP assinou um acordo com a Coca Cola no sentido de lançar uma campanha para educar as crianças no uso adequado de bebidas não alcoolicas e adoçantes artificiais.

Não havia provas

Mas os indicios eram suficientes para compreender o que se passava. Agora temos a certeza.

quarta-feira, outubro 21

Algumas perguntas banais sobre o aquecimento global

Uns dizem que há, outros que não é bem assim. Quem tem razão? Como podemos saber quem tem razão? Podemos saber quem tem razão? Há por aí toda uma série de pessoas e empresas que promovem a ideia da existência do aquecimento global, porque têm bastante a lucrar com isso, ou porque usam essa ameaça como arma política para tentar converter as pessoas a um outro modo de vida. Podemos concluir daí que se trata de uma farsa? E se não for e o ignorarmos?

sexta-feira, outubro 16

O Astrologo e o Cientista


As manhãs e as tardes dos nossos canais generalistas estão desde há alguns anos ocupadas com programas de entretenimento para donas de casa que tentam imitar Oprah Winfrey, com um orçamento bem mais reduzido. Uma das lutas de galos baratinhas que eles gostam de organizar é colocar de um lado um ateu ou um cientista e do outro uma cartomante, um astrologo ou uma vidente. A variante astrologo versus cientista é a que corre pior para o representate da Razão. A posteriori, o cientista arranja boas explicações para o facto de a discussão não lhe ter corrido tão bem como ele esperava. A televisão é um meio de comunicação que não se presta muito bem à transmissão de mensagens complexas. As mais simplistas passam com mais facilidade e o astrologo está à partida em vantagem. Mas porque é que ele não pensou nisso antes de aceitar o convite?
O caso do astrologo é especialmente emblemático. A força gravítica dos planetas é demasiado fraca para ter qualquer efeito sobre as pessoas. Mesmo que assim não fosse, a precessão dos equinócios desactualizou todos os cálculos. O astrologo faz uma figura ridícula aos olhos do cientista.
Acontece que os cientistas são operários especializados, artesões que sabem produzir sapatos de alta qualidade. Normalmente não lhes sobra tempo para pensar em muito mais. Sobretudo não lhes sobra muito tempo para pensar em como funcionam as pessoas. É claro que estas palavras também se aplicam a mim.
Um bom astrologo passa a vida a pensar em como funcionam as pessoas. Os horoscopos são apenas um pretexto, um ponto de partida para começar uma consulta. O que se passa depois não sei. Não me atrevo a emitir opiniões sobre o que desconheço. Se a crença no determinismo dos astros pode agir como um placebo em favor dos objectivos do astrologo, que mal há nisso? Claro que o astrologo nunca o pode admitir. E alguns até acreditarão nos astros. Os advogados também acabam por acreditar nos clientes que defendem, mesmo quando há todas as razões para pensar o oposto.
Para muitos astrologos, o idiota é o cientista que supõe que o seu trabalho consiste em analisar cartas astrologicas. O idiota é o cientista que só conhece a dimensão racional de uma pessoa, ignorando tudo o resto. O astrologo age sobre o inconsciente das pessoas, algo em geral muito mais poderoso do que apelar à sua racionalidade. Numa disputa realizada fora das paredes de uma universidade o cientista dificilmente terá alguma hipótese. Nem alguma vez perceberá o que lhe aconteceu.

sábado, outubro 10

O Símbolo Perdido

É o novo livro de Dan Brown, o tipo do Código da Vinci. O techno-triller, criado por Michael Crichton e Tom Clancy, é um novo genre da literatura de suspense, caracterizada pelo extraordinário detalhe das discrições da tecnologia envolvida, o que de alguma forma compensa a menor riqueza com que são descritas as personagens e a relativa simplicidade do enredo. Os três últimos livros de Dan Brown contam a mesma história, personagens semelhantes representam os mesmos papeis, só variam os detalhes. Mas são esses detalhes que verdadeiramente interessam.
Brown começou por seguir as pegadas de Crichton. Em Anjos e Demónios criou um novo sub-genre. A tecnologia que invadiu as nossas vidas desde há um século é combinada com um conhecimento detalhado da forma como se expressaram ao longo dos tempos todos os medos e esperanças que povoam o nosso inconsciente desde há milénios. And thats when the big bucks started rolling in. Dois outros ingredientes contribuiram para o sucesso de vendas:
Toda a história se desenrola a um ritmo alucinante, normalmente em 24 horas. Esta ideia já foi tão copiada (ver a série 24, por exemplo) que agora Dan Brown reduziu para 12.
O ataque a uma instituição: o Vaticano em Anjos e Demónios, a Opus Day no codigo. Este último ingrediente perdeu-se. Os católicos não mordem por aí além. Não há por aí muitas outras instituições que de alguma forma ainda dêem a outra face. Dizia-se que este livro saíria pouco antes das eleições americanas do ano passado, referindo o papel da Skull and Bonnes nas eleições americanas. Brown percebeu que não era boa ideia atacar a família Bush e os falcões do partido republicano. Foi aí que perdeu a hipótese de repetir o impacto do Código.
Dito isto, o livro está cheio de pequenas pérolas, como a referência à ignorada ascensão aos céus de George Washington, pintada no tecto do Capitólio e a análise da gravura de Dürer reproduzida acima.

quarta-feira, outubro 7

Benfica Stars Fund: A aritmética segundo Luís Filipe Vieira

A SAD benfiquista anunciou esta terça-feira que subscreveu 15 por cento do valor total do "Benfica Stars Fund - Fundo Especial de Investimento Mobiliário Fechado", num investimento global de 6 milhões de euros.

Se a SAD investe, deve ser seguro...
Deixem lá ver se eu percebo este comunicado. Quem comprar unidades de participação do Benfica Stars Fund, compra direitos sobre futuras vendas dos passes de certos jogadores do Benfica. A quem pertencem actualmente esses passes? À SAD. O que significa subscrever 15% do fundo? Significa que a SAD comprou a si própria unidades de subscrição do fundo. Significa também que a SAD vendeu só 85% do valor nominal desses passe, qualquer coisa como 34 milhões de euros. Comprar 6 milhões de euros ou vender 34 não é exactamente a mesma coisa.

terça-feira, outubro 6

"Termos tecnicos": Violação e Recessão

O que é uma recessão? É um período durante a qual a economia se contrai. As vendas diminuem, os inventários começam a crescer, depois a produção diminui para se ajustar à procura e as ofertas de empregos começam por diminuir. Se a contracção continua, alguns trabalhadores vão parar ao desemprego.
Toda a contracção é uma recessão? Não. Existem efeitos sazonais. Em certos trimestres há mais actividade económica do que outros. Durante o verão o turismo estimula a actividade económica, em Dezembro temos o Natal. Para além do mais nessas alturas uma boa parte da população recebe um mês suplementar de salário e gasta boa parte dele.
Como se deveria então definir recessão? Um definição razoavel seria: estamos em recessão se durante dois trimestres consecutivos a actividade economica for inferior à actividade economica do mesmo semestre do ano anterior. É esse o fenomeno que mexe com os nossos bolsos e os nossos empregos.
Quando é que estamos em recessão tecnica? Quando a produção diminui em dois trimestres consecutivos. Só num período de crise extrema se produz menos no trimestre do Verão do que no trimestre da Primavera. O que permite a muitos primeiros ministros anunciar no fim de cada verão o fim da recessão tecnica. Já viram este filme?
Por outro lado, cada vez que caímos em recessão tecnica devemos estar descansados. Afinal não é uma recessão a sério, é só uma recessao tecnica. Uma technicality. Mas afinal, o que é uma recessão sem o qualificativo tecnico? Não está definido...
Se não temos palavra para o definir algo, é quase como se esse algo não existisse.

Polanski violou uma jovem de treze anos? O que quer dizer violou?
A palavra violação costuma ser usada quando existe sexo não consensual. Não foi o caso. A jovem em causa sempre o afirmou e continua a afirmar.
Não estou a dizer que Polanski não tenha cometido um crime e não deva ser punido. Só estou a referir que a palavra violação está a ser usada no seu sentido tecnico. Quem detem o poder também detem o poder de manipular a linguagem. E a palavra violação faz toda a diferença.
O caso Polanski é sobretudo um problema legal e não um problema moral ou um problema de direitos humanos. Qualquer um de nós arranjaria problemas legais gravíssimos se se comportasse na Arábia Saudita da forma como se comporta aqui. Pela minha parte tenho muitas duvidas sobre varias decisões ou não decisões dos tribunais portugueses. A justiça americana também não é exemplar em termos de direitos humanos. Pense cada um de nós o que quiser sobre o enquadramento legal do caso Polanski. Por mim, preferia deixar de fora os direitos humanos e a moral. Se vamos por aí, se há alguém a querer e poder invocar os direitos humanos neste caso, esse alguém até é o Polanski. A suposta violada já disse de sua justiça.

Depois de me chamarem a atenção sobre a história do crime cometido por Polansky, fiz uma busca pela internet. Trata-se efectivamente de uma violação. Espero que se faça justiça. Estamos sempre a aprender...

segunda-feira, outubro 5

A sobremesa

Durante dois anos Sócrates passou por ser um governante decidido e equilibrado. Depois começaram as gafes. Que aconteceu? A mudança pode ter tido alguma coisa a ver a saida de António Costa para a camara de Lisboa. Alguém que quase me merece o benefício da dúvida. Ele e Rui Rio são os únicos nomes com possibilidade de chegar a primeiro ministro a quem eu reconheço alguma capacidade para o cargo. Em Lisboa temos ainda a possibilidade de manter Santana Lopes a andar por aí. Já percebi que não podemos esperar mais do que isso, quando lidamos com ervas daninhas.
Felizmente não voto no concelho com mais licenciados do país. Tinha de decidir se votava ou não no sr. Isaltino.
Onde eu gostava mesmo de votar era em Almada. Contribuir para a não eleição de Paulo Pedroso, esse sim é um verdadeiro dever civico.

sexta-feira, outubro 2

Greg House 3


Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita.

Da nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.

Assim começa a Divina Comédia. Dante confessa-nos que ao atingir a meia idade se sentiu perdido. A vida deixou de fazer sentido. As lembranças das causas porque lutou, daquilo que construiu, só lhe deixam um travo amargo na boca. A vida não passa de um desespero tranquilo. O poema é simultaneamente a história da sua auto-cura, contada de forma alegórica, e o remédio que o curou.
Dante começa por encontrar Virgílio, o autor da Eneida, o poema épico que ele espera emular ao escrever a Divina Comédia. Virgílio conduz Dante através do Inferno, levando-o até ao Purgatório. Virgilio representa a razão, o lado intelectual de Dante, o grande responsável pela situação actual de Dante mas também a única força que o mantem inteiro. Visitar o Inferno é ganhar consciencia total da sua situação. Dante está a viver o Inferno na Terra. É esse o primeiro passo da sua viagem interior.
Virgílio conduz Dante até às portas do Purgatório, onde Beatriz o espera. Dante apaixonou-se por Beatrice Portinari aos nove anos, tinha ela oito. Viu-a meia dúzia de vezes durante toda a sua vida. Beatriz casou aos vinte e um e morreu de peste aos vinte e quatro. Dante dedicou-lhe todos os seus poemas mais importantes e nunca a esqueceu. É através do seu lado feminino que um homem se relaciona com o seu inconsciente e produz trabalho criativo. Por isso se fala da musa inspiradora. Muitas vezes esse lado feminino ganha uma representação mais concreta. A musa ganha um rosto.
Beatriz conduz Dante através do Purgatório, ajudando-o a reencontrar o seu caminho. É aí que começa a Purga. Finalmente atingem o Céu, o extase momentaneo associado ao alivio de recuperar o sentido da vida.

House é a história da mid life crisis de Greg House, MD. Greg já completou a sua travessia do inferno e encontra agora a sua Beatriz, personificada em Amber, a ex-namorada do seu amigo James Wilson, morta num acidente. Cada um tem a musa que merece e Amber é bem diferente da doce Beatriz. Cada tipo de obra de arte tem as suas convenções. Nós vemos Amber em carne e osso, uma imagem bem definida. Não podia ser de outra forma. Não significa isso que seria assim que o House a sentia. Seria mais razoavel que o lado feminino de House se manifestasse através de uma voz interior e de uma sensação de presença indefinida.
House lida mal com o aparecimento do seu lado feminino. Pergunta-se se estará louco. O aparecimento de Amber é o ingrediente fundamental do gran finale da quinta série. Estou mais ou menos seguro que a sexta série vai começar com House de volta ao hospital, uns meses mais tarde. Vai ser curioso ver como a série evolui. Num one hour drama algo muda para que tudo fique na mesma. Mesmo na Divina Comédia, o Inferno é bem mais interessante do que o paraíso. Os autores não se podem dar ao luxo de deixar que House ultrapasse a crise da meia idade.
Convem no entanto salientar que o aparecimento de Amber faz bem mais sentido do que muitas outras leviandades que encontramos nos one hour dramas. É por isso que House é diferente.

House 1
House 2

quinta-feira, outubro 1

quarta-feira, setembro 30

Desta vez deu Cavaco

O homem irrita-me. Sempre me irritou. Para meu grande espanto, dei por mim a pensar antes das últimas presidenciais: espero que o Cavaco ganhe à primeira volta, senão ainda vou ter de votar nele. Lá por isso o homem continuou a irritar-me. Depois veio o estatuto dos Açores. Todos os partidos desceram até à mais rasteira das demagogias. Só Cavaco disse o que tinha de ser dito. Estas eleições o PS ultrapassou todos os limites da manipulação. Deu resultado. As pessoas até se esqueceram de como será dificil a Sócrates governar em minoria. Bastará que o PCP e o Bloco se abstenham para que o voto conjunto do CDS e do PSD derrote o PS. O PS só terá hipoteses de chegar ao fim da legislatura com um presidente da mesma cor. Sócrates sabe-o e provocou Cavaco. Cavaco mordeu o isco. Resta saber se Sócrates tem arcaboiço para pescar em aguas profundas.
Muitos acusaram Sócrates de muitas coisas. Algumas das acusações, embora não decisivas, estão provadas para lá de toda a dúvida. Quando o presidente se junta ao coro, muitos mais deixarão de ignorar que algo está podre no reino da Dinamarca.

Cavaco conquistou a sua primeira maioria absoluta devido ao seu especial talento para irritar Vitor Constancio, lider do PS à altura, levando-o a avançar para uma moção de censura suicida. Seria irónico que quem pela irritação matou pela irritação morra. Se Cavaco perder as eleições retira-se da política com um gosto amargo na boca, mas será apenas um epsilon na sua carreira política. Outros terão muito mais a perder.

Numa disputa entre o presidente e um partido sem maioria absoluta ninguém dúvida quem é que está em desvantagem. Quando essa disputa nos leva a comparar a integridade de dois homens, a quem é que nós compraríamos um carro usado? A intervenção de Cavaco pode ter sido desajeitada. Pela minha parte acho que a indignação de um homem honrado perante a perfídia vigente é altamente refrescante.
De momento estão todos contra Cavaco. Um ano em política é uma eternidade e o tempo joga a favor do presidente. Quem se desgasta todos os dias é o governo. Não sei quantos portugueses se sentiriam descansados com um governo Sócrates não vigiado. Vamos ter um ano bem interessante.
Quando surgiram problemas no final do primeiro mandato, todos os presidentes assobiaram para o lado. Cavaco não o fez. A sua coragem pode até vir a custar-lhe o segundo mandato. Mas terá certamente o meu voto.

domingo, setembro 27

Matemática Ilegal

584201=733 x 797 ? Parece que sim.
Mas cuidado, quando decompuserem um número nos seus factores primos podem estar a cometer uma ilegalidade.

sábado, setembro 26

Uma das mil razões porque eu não voto PS

Dentro em breve os jovens com dificuldades de aprendizagem vão passar a ser tratados condignamente pelo estado português. Até agora era-lhes negado o direito a estar numa aula com alunos normais, a viver a vida em sociedade. Essa injustiça tem os seus dias contados. Estou a falar de jovens com problemas leves mas também de autistas (e estava a ser ironico, caso não tenham reparado). Por acaso até parece que a maioria dos pais dessas crianças nem estão nada interessados no fim desta discriminação, antes pelo contrário. Esta medida humanitária tem ainda a vantagem de aliviar os cofres do estado. Se os pais não entendem as vantagens inerentes a este novo direito, eles que paguem do bolso deles para ter os seus filhos educados à parte.
O efeito desta medida sobre a qualidade do ensino só não é obvia para aqueles que são bem piores do que os cegos, porque não querem ver. Em tempos a escola pública permitia a um jovem inteligente proveniente de uma família sem grandes recursos económicos ou culturais ter as oportunidades que os seus pais não tiveram. Se hoje já não podemos dizer o mesmo, pior é sempre possível.
Só um país rico pode dar aos seus cidadãos mais desfavorecidos pela biologia a possibilidade de minorarem os handicaps com que nasceram. Os recursos são finitos. Portugal até é um país relativamente rico à escala mundial, mas está a empobrecer. A maior riqueza de um país é a educação dos seus cidadãos. Não é um tema com que se brinque ou com que se façam experiencias caprichosas. No fim são sempre os mais desfavorecidos a pagar a factura.

domingo, setembro 20

Como aprendemos, como comunicamos, como armazenamos informação?


Espreitem isto. Aprendi muito sobre como é que comunicava com as pessoas quando fiz um teste deste género. Qual é o vosso tipo?

terça-feira, setembro 15

O dever cívico

Suponhamos que era nosso dever cívico votar. Então tínhamos direito a exprimir a nossa opinião. Podíamos votar negro, o voto dos que não se sentem representados. O voto branco? Nada distingue quem vota em branco de quem coloca o cruzinha fora do sítio por displicencia ou imbecilidade. É claro que nenhum político quer que o eleitor possa manifestar-se contra o sistema. Os políticos formam uma casta mais ou menos fechada. A sua alternância e eventual sacrifício de um dos seus membros pouco mais é do que a ilusão que mantem a casta no poder.
À falta de melhor, esqueçamos a treta do dever cívico: o voto é um direito lúdico. Por exemplo: imaginem qual foi o prazer que me deu ver a cara do João Soares quando eu votei no Santana Lopes. O homem bem se queixou dos votos da esquerda que foram indevidamente parar ao Santana. Seria meu dever cívico votar nele? É verdade que eu não podia sonhar quanto é que me custaria a brincadeira. Como também não sei qual seria a conta que o João me apresentaria, mais vale lembrar-me que o consulado do Santana foi o mais divertido de sempre.
Azar, azar é a Manuela não ter graça nenhuma. Mas a cara do Pedro quinze dias depois, sempre pode equilibrar as coisas. Votar é um assunto sério? Votei no Socrates para tirar o país da bancarrota. Para depois ele nos endividar outra vez com aeroportos, TGV's para o Porto, BPN's e BPP's, rebentar com a educação e com a justiça. Não vale a pena chorar. As coisas sempre foram mais ou menos assim, e lá temos sobrevivido. Na dúvida, mais vale rir.

domingo, setembro 13

Mecanismos

Se se faz um teste a meio do semestre, vamos aceitar que vão ao teste alunos que tenham faltado a mais de 20% das aulas? Será que devemos antes colocar a fasquia nos 10%? Se nos decidirmos pelos 25%, um professor deverá ter liberdades para aceitar um aluno que tenha faltado a 26,3% das aulas? Haverá mesmo necessidade de deliberar colectivamente sobre estes temas e uniformizar tudo? Até ao mínimo detalhe? Que convicções destinguem um apoiante dos 20% de alguém que prefira os 25? Não podem ser assim tão profundas. Que leva algumas pessoas a baterem-se pela imposição destas regras?
Quais são as semelhanças e as diferenças entre estas questões e outras bem mais mediáticas, do tipo: Só se pode chamar casamento a uma união entre pessoas de sexos diferentes? Só se pode morrer de uma forma? Suicídio e eutanásia são crimes? Alguém pode decidir por nós sobre fazer um aborto? As touradas devem ser proibidas por toda a parte?
Dirão alguns que neste segundo caso estão em jogo convicções profundas.
No primeiro caso, quais são as motivações das pessoas? Basta ouvir as suas justificações. Se todos usarmos a mesma bitola, não podemos ser postos em causa pelos estudantes, os responsáveis das licenciaturas, o conselho pedagógico. Não temos de nos preocupar com os assuntos, não temos de pensar neles, não somos responsáveis. Era assim que funcionava a sociedade algumas gerações atrás. Em muitos países do mundo as pessoas continuam a não se perguntar se são felizes no casamento, se realmente fazem ou não sentido para elas toda uma série de rituais /obrigações que repetem/cumprem sem verdadeiramente os sentir, se estão realmente a fazer da sua vida aquilo que queriam fazer. Na nossa sociedade, a liberdade criou-nos a ansiedade da escolha. Ainda não aprendemos a lidar com ela.
Tenho dúvidas que os mecanismos que levam alguns de nós a querer decidir por mim como posso casar, ter filhos ou morrer, sejam muito diferentes dos mecanismos que levam outros de nós a querer decidir por mim que número é mais bonito: o 15, o 20 ou o 25?

sexta-feira, agosto 28

OTAS

A questão essencial nunca foi Ota ou não Ota mas sim proporcionar ou não negócios a certas pessoas. Entretanto as obras de ampliação da Portela continuam alegremente. Desde o princípio da crise que quem passa por lá nota uma queda acentuada de tráfego. Mas foi a primeira vez que lá passei a meio de Agosto nestes últimos anos. O aeroporto estava às moscas. Quem precisa do novo aeroporto?

quarta-feira, agosto 26

O medo de serviço

Dizia um jornalista no outro dia: espera-se que este inverno morram mais de mil pessoas com a gripe mexicana. Apesar de tudo acabou por reconhecer: com a gripe normal, costumam morrer mais pessoas. Nesse caso, para quê tantos planos de contingência e tanta confusão à volta da gripe? Bem, a verdade é que o terrorismo já não mete medo a ninguém, os comunistas e a ameaça nuclear também não, o aquecimento global está em crise. A Crise já não assusta ninguém que tenha conservado o emprego. Muita gente não se sente confortavel sem um medo fresquinho. Sobretudo, os jornais têm de vender. Nada vende tanto como o medo.
Quem tiver alguma responsabilidade e não participar na histeria generalizada torna-se automaticamente responsável por tudo o que venha a acontecer. Até apareceram logo umas ameaças de prisão, não vá alguém brincar com o assunto. Ontem um jornal reproduzia as opiniões de um comandante de bombeiros sobre as medidas a tomar para combater a Ameaça. E porque não um gestor informático, um controlador de tráfico aéreo ou um jogador de bridge?
Nada como um bom medo para nos afastar dos medos mais sérios, aqueles que preferimos esquecer. Acreditar neste medo permite-nos crer por um instante que a morte é uma brincalhona que nos prega umas partidas de vez em quando. Quem estiver atento e tomar todos os tamiflus que forem sendo inventados talvez lhe consiga escapar indefinidamente. Mas não é assim, pois não?
Do mal o menos, salvou-se a rica semana que eu acabei de passar no México por metade do preço, cortesia do Correio da Manhã e da TVI. Aqui fica o meu obrigado.

sábado, agosto 8

sexta-feira, junho 26

domingo, junho 14

O VOTO ÚTIL MORREU

Depois logo escrevo o post, acho eu.
Mas não é obvio?

domingo, junho 7

... e viva o RUI TAVARES!

Daqueles candidatos todos, é o único que diz com regularidade algo que me faça pensar. O único que alguma vez me fez pensar...
O último a ser eleito, é o primeiro. Valeu a pena votar no Bloco.
Mas onde eu queria votar mesmo, era no Pirate Party, que elegeu o primeiro deputado. Um partido tão importante quanto alguma vez se pensou que os verdes poderiam ser.
Foram até ao aeroporto da Portela nos ultimos tempos? Em que ano é que é suposto o aeroporto já não chegar para as necessidades? Alguém fez um estudo depois da crise internacional começar? Vamos deixar o Socrates empenhar-nos até à sétima geração? Que estes três meses passem bem depressa...

The day after: O MEP obteve um excelente resultado. Parece que entrou logo para o sexto lugar, com 1,5% dos votos. Ainda acabam por eleger um deputado em Setembro...

quinta-feira, maio 28

As aventuras de Psyche 2

Psyche está maravilhada com o seu novo destino. Eros a visita-a todas as noites, invisível. Ela descobre com alegria que ficou grávida. Eros diz-lhe que pode fazer tudo aquilo que desejar naquele paraíso, desde que lhe prometa não lhe fazer perguntas nem tentar vê-lo. Feliz perante a inesperada reviravolta do seu destino, Psyche aceita estas regras.
As irmãs de Psyche descobrem o que lhe aconteceu. A sua inveja é sem limites. Conseguem contactá-la. Eros avisa-a: elas vão tentar corrompê-la com intrigas. Se ela cumprir a sua promessa, dará à luz um Deus. Caso contrário, dará à luz uma mortal. Além disso, tudo acabará entre eles. Psyche reafirma as suas promessas.
As irmãs voltam a insistir. Não será o marido dela uma serpente? Não irá ela comer o próprio filho quando este nascer? Psyche arranja uma lamparina e a mais afiada das facas. A meio da noite acende a lamparina e empunha a faca enquanto descobre o lençol que tapava Eros. Maravilhada pela sua beleza e envergonhada por ter ter cumprido a promessa, Psyche recua, ferindo-se numa das flechas de Eros. Fica ainda mais apaixonada, se tal é possível. É então que derrama o óleo quente da lamparina sobre o ombro direito de Eros, que voa para longe. Ela persegue-o. No momento em que o perde de vista repara que já não se encontra no Vale do Paraíso. Não consegue encontrar o caminho de volta.

segunda-feira, maio 25

As aventuras de Psyche 1

Algures num reino muito distante uma rainha deu à luz a sua terceira princesa. Os ventos espalharam pela terra o quanto era impossível explicar por palavras a beleza, a inocência e a virginalidade de Psyche. Dizia-se até que um dia ela acabaria por destronar a deusa Afrodite no coração de todos os homens.
As qualidades que levavam os homens a venerá-la acabavam também por os intimidar. A idade do casamento aproximava-se e nenhum pretendente surgia. O rei achou por bem consultar um oráculo. Invejosa e vingativa, Afrodite levou o oráculo a determinar que só a Morte poderia desposar Psyche. Ela deveria ser deveria ser acorrentada a uma rocha no topo da mais alta montanha do reino, onde ficaria à mercê da mais horrível das criaturas.
Ninguém se atrevia a não respeitar a decisão do oráculo. Afrodite não se deu por satisfeita. Ordenou ao seu filho Eros que atingisse Psyche com uma das suas flechas momentos antes do monstro a despedaçar. A sua vingança só seria completa se a virgem se entregasse ao monstro. Quando preparava a flecha, Eros feriu-se nela. Nem ele próprio escapa à sua magia. Apaixonado por Psyche, Eros pede ao seu amigo, o Vento de Oeste, que a liberte e a leve para o Vale do Paraíso.
continua

segunda-feira, maio 18

Mais uns quantos estereótipos

Podemos assistir ao longo dos tempos a um "conflito dialéctico" entre as posições políticas mais conservadoras e as mais progressistas. Parece-me claro que ninguém tem propriamente razão. A situação tem evoluído de formas por vezes bem inesperadas. Quando escrevi este post comparava as oposições direita/esquerda e crentes/ateus. Neste segundo caso não conseguia imaginar como é que a razão podia ser de alguma forma partilhada pelos dois lados. Era essa a ideia principal que queria exprimir. O post foi um flop. Quando a Madi apareceu a comentar, o que não fazia há muito tempo, senti-me na obrigação de dizer que

não se nota nada mas isto ( o blog) vai avançando. É preciso olhar com muita atenção.

A verdade é que estávamos a ter mais uma estúpida guerra crentes/descrentes. Vamos lá a ver se a perspectiva que se segue muda alguma coisa. Pelo menos não agrada gregos ou a troianos, o que já não é mau.

Digamos que existem pelo menos cinco níveis de consciência humana.

1. Não temos uma consciência clara da fronteira entre nós e o mundo que nos rodeia. Uma criança de colo não distingue claramente onde é que ela acaba e a sua mãe começa. Todos nós podemos ter recaídas a este nível. Quantas pessoas ficam doentes quando o seu carro tem um problema ou o seu clube perde um jogo.

2. Passamos a diferenciar as nossas percepções daquilo que percepcionamos. Deixamos de nos projectar sobre tudo o que nos rodeia. Passamos a projectar partes de nós sobre algumas pessoas que nos rodeiam. Uma criança acha que a mãe sabe tudo e pode fazer milagres, que o pai tudo pode fazer e é o homem mais forte do mundo. Na adolescência essas projecções passam a recair sobre os amigos mais velhos e as estrelas rock. Os pais passam a não saber nada de nada. Os adultos voltam a realizar este tipo de projecções sempre que se apaixonam.

3. Nesta fase a omnipotência e a omnisciência já não são projectadas sobre pessoas mas sobre entidades abstractas (princípios, símbolos ou ensinamentos) ou instituições: Deus, o Destino, a Verdade. Torna-se possível o pensamento teológico e filosófico. Nas formas mais primitivas deste nível Deus encarna ainda as funções dos pais, sendo-lhes atribuído o poder de punir ou recompensar as pessoas de forma antropomórfica.
Nesta fase deixamos de nos guiar ao sabor da emoção do momento e da empatia inconsciente, passando a seguir regras e valores. Passamos a fazer aquilo que achamos correcto do ponto de vista ecológico não porque ficamos doentes de raiva quando testemunhamos a destruição da natureza mas devido a um imperativo moral que faz parte de um conjunto de valores razoavelmente coerente.

4. Dá-se a extinção radical das projecções. Deixa de existir um sentido a priori na vida. Deixa-se de acreditar na imortalidade. Dá-se um passo em frente no sentido da objectividade. Funciona? passa a ser a questão fundamental. Vê-se a relatividade dos princípios em que se acredita. Os valores pessoais são expressos em termos de talvez, não tenho a certeza. O ateísmo pode ou não ser completamente assumido.
O estádio 4 é altamente perigoso. Aquilo que se ganhou em clareza nem sempre é compensado por aquilo que se perdeu em significado. Muitas pessoas conseguem viver lidar com este estádio de consciência, mantendo uma real ou aparente estabilidade. Outras acabam por regredir para estádios mais primitivos ou passar por neuroses graves. Uma sociedade onde uma boa parte da elite está no nível quatro está condenada a passar por dificuldades graves. Estas pessoas acabam por de alguma forma minar a crença das restantes pessoas, sem lhes apresentar alternativas que lhes sirvam.

5. Que fazer quando nos apercebemos dos problemas criados pelo nível quatro? Que tal uma revolução coperniciana? Tal como a Terra não é o centro do mundo, talvez o Ego não seja o centro da nossa personalidade. Talvez seja apenas a ponte de um grande iceberg mergulhado no nosso inconsciente. Mergulhando nesse oceano, talvez encontremos algo que dê um significado às nossas vidas. Talvez até seja algo parecido com aquilo que muitas religiões afirmam. E também bastante diferente.

sexta-feira, maio 1

Brunello

Depois de outro troço de estrada, ouvimos ruídos, e numa curva aparece um grupo agitado de monges e servos. Um deles veio ao nosso encontro com grande urbanidade:
- Bem-vindo senhor, e não vos admireis se imagino quem sois, porque fomos advertidos da vossa visita. Eu sou o despenseiro. E se vós sois, como creio, frei Guilherme de Baskerville, o abade deve ser avisado.
Tu, sobe a avisar que o nosso visitante está prestes a entrar a cerca!

- Agradeço-vos, senhor despenseiro - respondeu cordialmente o meu mestre - e tanto mais aprecio a cortesia quanto para em saudar haveis interrompido a perseguição. Mas não temais, o cavalo passou por aqui e dirigiu-se para o carreiro da direita. Não poderá ir muito longe, porque chegando ao depósito de estrume terá de parar. É demasiado inteligente para se lançar pelo terreno íngreme.

- Quando o haveis visto? - perguntou o despenseiro.

- Não o vimos de modo algum, mas se procurais Brunello, o animal não pode estar senão onde eu disse.

O despenseiro hesitou, fitou Guilherme, depois o caminho e perguntou:
- Brunello, como sabeis?

- Vamos - disse Guilherme - é evidente que andais à procura de Brunello, o cavalo preferido do Abade,o melhor galopador da vossa estrebaria, de pelo negro, cinco pés de altura, cauda majestosa, casco pequeno e redondo mas de galope bem regular; cabeça miúda, orelhas finas mas olhos grandes. Foi para a direita, digo-vos, e apressai-vos, em todo o caso.

O despenseiro teve um momento de hesitação, depois fez um sinal aos seus e lançou-se pelo caminho da direita, enquanto os nossos machos continuavam a subir. Quando estava para interrogar Guilherme, porque me roía a curiosidade, ele fez-me sinal para esperar: e, de facto, poucos minutos depois ouvimos gritos de júbilo, e na curva do caminho reapareceram os monges e servos trazendo o cavalo pelo freio. Passaram ao nosso lado, continuando a olhar-nos algo atónitos, e precederam-nos em direcção à abadia. Creio mesmo que Guilherme afrouxava o passo à sua mula para lhes permitir contar o que tinha sucedido.

- E agora dizei-me - por fim não soube conter-me - como fizeste para saber?

- Meu bom Adso - disse o mestre. - Em toda a viagem te tenho ensinado a reconhecer os traços com que o mundo nos fala como um grande livro. Quase me envergonho de te dizer aquilo que deverias saber. No trívio, sobre a neve ainda fresca, desenhavam-se com muita clareza as pegadas dos cascos de um cavalo que apontava para um carreiro à nossa esquerda. A bela e igual distância uns dos outros aqueles sinais diziam que o casco era pequeno e redondo e o galope de grande regularidade... de modo que daí deduzi a natureza do cavalo e o facto de ele não correr desordenadamente como faz um animal irritado. Ali, onde os pinheiros formavam como que um tecto natural, alguns ramos tinham sido quebrados de fresco justamente à altura de cinco pés. Um dos silvados de amoras, por onde o animal deve ter andado para meter pelo caminho à direita, conservava ainda entre os espinhos belas crinas negras...

- Sim - disse -, mas a cabeça pequena, as orelhas aguçadas, os olhos grandes...

- Não sei se os tem mas decerto os monges o crêem firmemente. Dizia Isidoro de Sevilha que a beleza de uma animal tal exige. Se o cavalo não fosse o melhor da estrebaria, não se explicava porque a persegui-lo não foram só os moços, mas se incomodou o próprio despenseiro. E um monge que considera um cavalo excelente não pode deixar de o ver como as auctoritates lho descreveram, especialmente se - e aqui sorriu com malícia - é um douto beneditino...

- Está bem - disse - mas porquê Brunello?

- Que o Espírito Santo te ponha miolos na cabeça, meu filho! Que outro nome lhe terias dado se o grande Buridano, que vai ser reitor em Paris, tendo de falar de um cavalo, não encontrou nome mais natural?