quarta-feira, março 30

Geometric models of matter - Athiyah na Gulbenkian

Da outra vez que o Sir Michael veio a Lisboa, fiquei impressionado com a sua energia extraordinária. Chegou de manhã, deu um seminário, falou com toda a gente que tinha alguma coisa para dizer. Continuou a falar a uma velocidade louca durante todo o jantar, sem se preocupar com as horas. No dia seguinte tinha um avião para apanhar às sete da manhã, onde um dia ainda mais agitado o esperava em Barcelona. O conteúdo científico de seminário não me ficou na memória. Afinal o Athiyah tinha setenta anos e a Matemática é suposta ser um young man's game.
Fui até à Gulbenkian sem grandes expectativas. Aos 82 anos o Athiyah passou a falar à velocidade de uma pessoa normal. O seu seminário, esse não tinha nada de normal. Deu uma das palestras mais loucas e belas a que assisti em toda a minha vida. O homem quer asssociar a cada particula elementar uma variedade de dimensão quatro e por as ideias do Donaldson a render. As partículas de carga nula são variedades compactas. As ideias são tão belas e complexas que é difícil não ficar entusiasmado. O objectivo: refundar a Física Nuclear. Compreender a fissão e (suponho eu) a fusão nuclear. Trata-se de um tema tabu falar na fusão, mas não acredito que ele não sonhe com isso.
Está claro que no fim foi bombardeado pelos físicos: então e os quarks? e o neutrino? Ele tinha resposta para quase tudo. Só o Tom Girard é que conseguiu marcar um ponto quando levou o Athiyah a reconhecer que ainda não sabia muito bem que fazer com o fotão, embora tenha apresentado boas razões para que essa seja a última peça do puzzle.
Caramba, o homem ainda nem publicou o primeiro artigo. O mais impressionante é ver um gajo de 82 a falar de um projecto para vinte anos (a primeira fase!) com a energia de um pos-doc. Não é caso único: este ano vou à conferência dos oitenta anos do Hironaka, que continua a correr atrás do teorema de resolução de singularidades em caracteristica positiva com se de tal necessitasse para obter a tenure.
Velhos são os trapos!

domingo, março 27

Regicídios

Quando as cheias do Nilo não eram propícias durante vários anos, nada como matar o Faraó. Um rei é um símbolo da Vida. Quando deixa de encarnar esse princípio, havia que substitui-lo. O Sol tem de se por para voltar a nascer. O rei morreu, viva o rei. Em muitas civilizações mais primitivas procedia-se ainda à morte ritual do rei ao fim de um número fixo de anos do seu reinado. Algumas vezes era o próprio rei que se suicidava em frente dos seus subditos. O assassínio do rei Carlos e do principe herdeiro é uma manifestação tardia dessa mesma crença. Afinal Buiça era um monarquico.
Há muito tempo que os reis arranjaram maneira de se livrar desse incómodo. As eleições são um ritual que apazigua as massas. Em último caso os verdadeiros reis até deixam que os seus testas de ferro vão parar à prisão. Se for absolutamente necessário. Isto tudo para dizer que não partilho o entusiasmo que tenho entrevisto nas palavras de pessoas que deviam ser capazes de ver mais longe. Substituir Sócrates por Passos Coelho não vai resolver nada. Garantida a derrota do PS, até considero a hipótese de votar neles para evitar uma maioria absoluta.

domingo, janeiro 23

E viva a abstenção!

Pela primeira vez na vida, não vou votar numas eleições. Nem é por o Cavaco ter a vitória garantida. É que não vale mesmo a pena. Nenhuma candidatura me diz o que quer que seja.
Não venham os comentadores depois discorrer sobre a minha farta de dever cívico. Se não estou satisfeito com nenhum, devia ter feito algo para ajudar a lançar um candidato? No sistema actual, não há condições para fazer tal coisa.
Eu faço pelo meu país aquilo que sei fazer melhor.
Não votar é de momento aquilo que pode ajudar a criar condições para que da próxima vez as coisas mudem um pouco.

sábado, janeiro 1

A primeira década

Qual foi o homem que mais influenciou esta década e as próximas?
George W ganha a qualquer outro. Sem ele o acontecimento da década (o roubo descarado dos povos para pagar as falências dos bancos que só foi possível devido às desregulamentações que ele criou) nunca teria acontecido. Ao pé de Bush Richard Nixon parece um menino de coro. Afinal que fez ele? foi um pouco mais longe do que era costume em certas práticas habituais na época. No fundo o Watergate pouco mais foi do que o pagar da factura do Vietnam.
O mais grave de tudo é que normalmente o pêndulo oscila depois de chegar a um extremo. Tal não aconteceu. Obama limita-se a umas tímidas medidas. As leis criadas por Bush não foram revogadas. Afinal, dão jeito a qualquer presidente.
Nós ainda temos o nosso George W. A seguir a ele vem mais um clone de si próprio. O facto mais grave da política nacional acaba por ser a total incapacidade de dos partidos da extrema esquerda em se tornarem adultos e aceitarem os compromissos do poder, com os dilemas morais que lhe estão associados. Tornam impossível o aparecimento de alternativas e não são um alternativa. Acabam por fazer parte do Sistema.
Também aconteceram coisas positivas, mas essas acontecem de mansinho: o crescimento da internet, com a sua capacidade de resistir aos poderes instituídos. O Conhecimento é uma das armas mais importantes. A Wikipedia arrisca-se a ser a instituição do século. Ter ao nosso dispor uma fonte de conhecimento onde podemos encontrar quase tudo, que é imune às pressões de quem realmente manda, que nem sequer depende da publicidade, é algo a que apenas podemos dar o justo valor se a perdermos.
Sem a partilha de ficheiros não é possível potenciar as novas oportunidades criadas pela net. Os "direitos de autor" são essencialmente um meio de de apropriação pelas empresas distribuidoras do trabalho criativo desenvolvido pelos autores. Se a chamada pirataria é uma forma de combate contra as instituições que tudo querem controlar, é fundamental desenvolver novas formas de financiamento para as actividades que nos interessam. Por exemplo: dar uns dolares de três em três anos para a Wikipedia, se a usamos com regularidade. Mea culpa, ainda não me habituei a este novo conceito. Finalmente dei hoje o meu apoio à Wikipedia.
Do que é que eu me esqueci?

sexta-feira, dezembro 24

terça-feira, dezembro 21

O Colapso da Segurança Social

Via João Pinto e Castro. Demasiado importante para eu ter escrúpulos em republicar isto.

Feminismo, Homossexualidade, Pornografia e Prostituição

O número de livros que referem a palavra "feminismo" começa a aumentar significativamente na década de 60, atingem um máximo perto do ano 2000 e depois decresce seguindo o gráfico da distribuição normal. Como interpretar este facto? Chegou-se a um consenso relativamente ao feminismo por essa altura? Mais interessante: a frequência dos livros que referem as palavras "pornografia", "homossexualidade" e "prostituição" segue curvas semelhantes. Aconteceu alguma mudança na nossa forma de pensar por volta de 1995?

segunda-feira, dezembro 20

GoogleLabs

A Google continua a surpreender-nos. O GoogleLabs permite-nos vasculhar a base de dados do GoogleBooks e ver a frequência com que uma determinada palavra aparece nos livros publicados ao longo dos anos. Por exemplo, vejam como a frequência das palavras AIDS, pedophile e feminist tem variado ao longo dos tempos. Os gráficos falam por si.
Comparemos a frequência das palavras Google, Microsoft e IBM, Freud Marx e Darwin e Heidegger e Wittgenstein.
Deus morreu? Parece que Nietzche sabia do que estava a falar. Ultimamente, até nem se está a dar assim tão mal... Na verdade, Deus e o Ateismo seguem de mãos dadas.
Descobri o Google Labs no blog do João Pinto e Castro, que anda muito divertido a explorar este novo brinquedo.

sábado, dezembro 18

Porquê?

Porque é que não temos um partido em que valha a pena votar?
Não há homens inteligentes e relativamente altruístas na política?
Há o Francisco Louçã, por exemplo. Pelos vistos, isso não chega.
Há muita gente inteligente a escrever blogues.
Muita gente percebe que vivemos numa cleptocracia, que os bancos agora até podem correr os riscos que quiserem. Se as coisas correrem mal, cá estaremos nós para pagar.
Também há muita gente que percebe que se os franceses se reformarem aos 62 e os alemães aos 67 alguém vai pagar a conta.
Que o país esteve a saque mas que também vivemos quase todos alegremente acima das nossas
possibilidades.
O mercado é em parte um mito com que nos querem aldrabar, em parte uma realidade que não podemos ignorar.
Uma solução viável para o país só poderá sair de alguém que esteja disposto a viver estas contradições. Como vivemos numa democracia, terá de ter uma base de apoio disposta a fazer o mesmo. Poucas pessoas estão dispostas a suportar esta tensão.
As guerras que não somos capazes de travar dentro dos nossos corações acabamos por travá-las por aí.
Depois, alguém acaba por apanhar os cacos.

Escrever é só empurrar a caneta.

Para quê fazê-lo, na ausência do risco tauromático de enfrentar ideias em pontas?

José Ortega y Gasset

sábado, outubro 16

Capitalismo, a outra utopia

Há indícios de que a procissão dos bancos (principalmente nos EUA) ainda vai no adro, pois foi avistado mais um cisne negro lá para as bandas das MBS:

The Second Leg Down of America’s Death Spiral
The Wheels Are Coming Off in MBS Land: All 50 State AGs Join Probe;
Banks Abandoning MERS Foreclosures.
AD

O meu desejo não é de todo o colapso dos EUA ou da Europa, que, maus que possam ser, são ainda do melhor que temos nesta esterqueira. Não vejo com bons olhos a mudança do primeiro plano para a China ou afins, e muito menos um colapso generalizado. Roma , sendo Roma, é melhor que a barbárie. Sou daqueles papalvos que acreditam na civilização ocidental e não quero ver as bibliotecas em ruínas (agora, a "city", ou Wall Street, can both cry me a river).
Seria até a favor dos bail-outs se achasse que funcionavam, injustos como são. Mas acho que não funcionam, e que aumentar a magnitude do colapso quando ele ocorrer. Parece-me que há um ciclo crescente: Quando o Long term capital management rebentou, disseram que tinha que ser salvo porque podia fazer ruir o sistema financeiro. O bail-out foi de 5 bilioes, ou algo assim, organizado por outras instituições financeiras. Sabendo o que sabemos hoje, dá para levar a sério que isso teria causado o tal colapso global? Ou que simplesmente serviu para salvar uns amigos que tinham que ser salvos?
Desde então temos progredido de bolha em bolha, de bail-out em bail-out, e os números e as instituições em risco, e o tamanho dos bail-outs só cresce. Desta vez mede-se nos triliões de dolares e é a economia mundial que está em risco. O que eu me pergunto é: não teriam as coisas sido diferentes se tivessemos deixado cair o LTC, ou se o Greenspan não tivesse "salvo" a economia após cada bolha? O LTC - um único fundo! - era "too big to fail", diziam. Depois a AIG era "too big to fail" (pergunto-me, se ser "too big" é argumento, porque é que não salvaram o fundo do Madoff), agora, claro, a economia toda é too big to fail, e para salvá-la empenhámos o Estado. Mas o Estado, que é too big to fail, já só pode ser salvo por fundos globais. Será o FMI too big to fail? Estamos nas ultimas décadas na situação de um tipo que tem gangrena num dedo e que não o corta porque não aceita a perda; mas agora a gangrena já vai no pescoço, e chegamos ao ponto em que cortar já nem é uma opção.
Não existia nada "too big to fail". Isso não é compatível com o capitalismo. O que havia era instituições à frente das quais estavam pessoas com amigos nos lugares certos. O que havia era interesses que não podiam ser lesados, e para os salvar alastrou-se o dano exponencialmente, porque o estado inteiro tem que cair antes que os seus donos possam descer dos seus poleiros. Num sistema capitalista os incompetentes teriam falido antes de serem too big to fail, e os mais capazes teriam tomado o seu lugar. Em vez disso temos o Estado a pagar para perpetuar como lideres de mercado os falhados do mesmo.

Se acham que estou a dramatizar com "as bibliotecas em ruínas", vejam o que se passa no Reino Unido. Redução de 80% nos fundos para o ensino superior. Todo o género de cursos a fechar, e investigadores em migração. Estamos a falar do Reino Unido, a perda de património intelectual é catastrófica. Que miserável estado de coisas quando a maralha da city for too big to fail e o Queens College for um luxo descartável. Confesso que sempre que passei pela City e vi a maralhada pedante sempre apressada nos seus fatinhos (ou, mais terra a terra, certos putos pedantes do ISCTE que se acham sumidades mas não conseguem sequer fazer as suas somas na cadeira de contabilidade) sentia-me no meio de um daqueles filmes de zombies que estão a voltar à moda. Agora já sei porquê. Aquela gula toda tinha que acabar em mastigação de cérebros.
A.

Socrates versus Socrates

Prozacland

Mais do que nunca, o título do blog faz sentido. E o primeiro post tornou-se actual.

muitos portugueses já têm ou terão dificuldades em manter o seu nível de vida e sobretudo a sua auto estima. Este blog pretende discutir estratégias pessoais e políticas para lidar com este problema
(Tenho que ir reler os posts para ver se realmente postei algo sobre isto).

Que fazer?

Votar, votar aonde? Tudo o que precisamos de saber sobre política está num episódio dos Simpsons. Os Kang raptaram Homer para saber quem manda no mundo. Ele explica: o presidente dos Estados Unidos, que é eleito dentro de um mês. Os dois extraterrestes tomam o lugar dos candidatos. Homer consegue fugir e desmascara-os. Eles riem-se. São os únicos candidatos, o povo nada mais pode fazer do que escolher um deles. Os nossos Kang são o PS e o PSD. Podemos votar em mais três partidos, mas não faz grande diferença. Um dos dois ganha.

P.S. É engraçado como quase todos os meus amigos que não costumam votar, agora mudaram de ideias. Um até já me manda abaixo-assinados por mail.

segunda-feira, outubro 4

domingo, outubro 3

Triste República - Viva a República

Dificilmente o centenário da proclamação da Res pública, do governo pelo povo, poderia ser celebrado em piores circunstâncias. Nem o Povo nem os governantes mandam. A situação não é tão depressiva como nos tempos do Ultimato. Alguns dirão que para lá caminha.
Dito isto, confesso-me um ardente republicano. Ainda me lembro da última vez que fui a um mui conceituado instituto de investigação espanhol. Andavam a pintar paredes para receber A Infanta. Era da capacidade dos membros do instituto em adular a senhora, que de ciência não sabe a ponta dum corno, que dependia uma boa parte dos financiamentos da casa.
Viva a República!

sábado, outubro 2

Pensar mais, pensar melhor

A Globalização e a Moeda Única mergulharam Portugal numa crise estrutural. Só um esforço colectivo nos permitirá sair da situação em que nos encontramos. A classe média tem um papel decisivo a desempenhar na reinvenção do país. Descobriu o voto flutuante. Tornou-se mais sofisticada, permitindo que algumas empresas portuguesas lançassem com êxito produtos inovadores a nível mundial. Continua pouco esclarecida. Basta olhar para os anúncios dos produtos financeiros lançados pelos nossos bancos para o confirmar: PPR's que dão abatimentos no IRS no primeiro ano e rendimentos miseráveis nos anos seguintes, depósitos a prazo que dão um juro alto no último mês mas um juro médio ridículo. Como podemos transformar a nossa classe média?

A Inglaterra foi durante séculos o modelo que procurámos emular sempre que enfrentámos problemas. Nas últimas décadas esse papel passou a ser desempenhado pelos países nórdicos. Nunca nos preocupámos demasiado em tentar compreender quais os mecanismos que transformaram estas sociedades naquilo que são hoje. Há uma constante nos sistemas educativos destes países que ignoramos sistematicamente: o ênfase na aprendizagem do Pensamento Crítico nos ensinos secundário e universitário.

Um adolescente finlandês sabe reconhecer as falácias de raciocínio mais óbvias, aquelas que usamos todos os dias. Sabe identificar as hipóteses assumidas implicitamente pelo seu interlocutor e avaliar a sua credibilidade. Conhece os truques mais óbvios que se usam quando se quer concluir aquilo que mais nos convém de um conjunto de dados estatísticos. Reconhece facilmente uma tentativa de manipular as suas emoções de forma a mudar as suas opiniões. Quando chega ao mercado de trabalho este jovem sabe organizar as suas ideias e expô-las de forma articulada. Processa as críticas que lhe são feitas de forma racional, não as tomando como ataques pessoais. É difícil exagerar as vantagens comparativas de uma sociedade com uma percentagem significativa de membros que domina este tipo de competências. Basta lembrar que uma sociedade tem, sempre, os políticos que merece.

Não deveria o ensino da Matemática e da Física desenvolver pelo menos algumas destas capacidades? Com certeza que sim. Acontece que ao estudar ciências exactas estamos a lidar com objectos desligados das nossas emoções, o que facilita consideravelmente uma abordagem racional dos problemas. Numa língua natural a maior parte das afirmações que fazemos subentendem muitas outras afirmações não explicitadas. Há muito mais espaço para o nosso inconsciente tomar as rédeas dos acontecimentos. Pensar no dia-a-dia de forma racional exige uma disciplina que dificilmente pode ser adquirida fora dos bancos da escola. Existe uma relação de simbiose entre o ensino das Ciências Exactas e o ensino do Pensamento Crítico. As Ciências Exactas criam os hábitos de raciocínio que facilitam de forma decisiva a aprendizagem do Pensamento Crítico. Um jovem que aprende a pensar melhor no dia-a-dia vai melhorar significativamente os seus resultados a Matemática.

A Classe Média é um estrato social que se define mais pelas capacidades intelectuais do que pelo rendimento disponível. Introduzir o ensino do Pensamento Crítico no Ensino Secundário português seria uma contribuição importante para criar a médio prazo uma classe média capaz de gerar as elites, criar as dinâmicas e fazer as escolhas que nos permitirão ultrapassar os nossos problemas estruturais.

Perigoso, perigoso, é implementar ideias. O estudo do Pensamento Crítico está a ser introduzido no ensino universitário. Já existe uma cadeira de Pensamento Crítico na licenciatura em Informática da Universidade Nova e uma cadeira de opção de Pensamento Crítico nas licenciaturas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

domingo, setembro 19

Sonhar

Na primeira aula de uma cadeira de um Mestrado profissionalizante que eu às vezes lecciono costumo pedir aos alunos que falem dos seus percursos anteriores. É uma informação importante. Cada um sente-se obrigado no fim a referir que de alguma forma aquele era o sonho da sua vida. Mesmo que se esteja mesmo a ver pelo contexto que em muitos casos não é bem assim. Doi-me um bocado ouvir aquilo. Prometo sempre a mim próprio que da próxima ver que der o curso não falar neste assunto. Depois esqueço-me. Não quer isto dizer que eles não tenham outros sonhos.

Com o passar dos anos, haverá algum tesouro mais precioso do que ainda ter um sonho? Isso de ter um sonho depois dos trinta, dos quarenta, dos cinquenta, é uma coisas rara ou nem por isso? Não estou a falar em ganhar o euromilhões, comprar um Porsche, ou dormir com a Angelina ou o Brad.

sábado, setembro 18

60 e quantos?

Os franceses foram para a rua protestar porque querem continuar a reformar-se aos 60. 62 não lhes parece aceitável. Curiosamente muitos dos meus colegas franceses agonizam perante a ideia da reforma compulsiva aos 65. Com ela se vai a vã glória de mandar, talvez a sua identidade e outras coisas mais importantes.Mesmo para chegar lá é preciso ser prof de class exceptionelle e sei lá mais o quê.
O José Luís Sarmento concorda com os protestos franceses os aumentos de produtividade são suficientes para pagar esse ócio.
O problema é complexo. Limito-me a alinhavar umas ideias:

1. É verdade que a produtividade aumentou, mas nós também passámos a consumir muito mais. E a maior parte de nós não quer consumir menos.
2. A riqueza de um país não é um dado adquirido para sempre. Se os alemães trabalharem mais cinco anos do que os franceses, vão crescer mais. Os franceses não vão ficar onde estão: vão regredir, porque vão ser menos competitivos. E depois há os chineses.
3. A ideia de por a trabalhar todos a trabalhar até aos 67 é em grande parte utópica. Mesmo que a pessoa reúna condições físicas mínimas, não é garantido que ainda faça o trabalho tão bem quanto alguém mais jovem. Não se pode obrigar um professor do Ensino Secundário a aturar as criancinhas até aos 67. Brevemente, o mesmo se aplicará ao Ensino Superior. Pelas mesmas razões.
4. Estamos perante uma luta de gerações. São os nossos filhos que vão pagar as nossas reformas, algo que os nossos netos não vão fazer por eles. Os nossos filhos já estão a ser suficientemente penalizados pela crise actual.

O que é que vai acontecer?
O conceito de idade da reforma vai cair. Como já acontece hoje em dia, cada um de nós vai reformar-se quando quer, recebendo em função das contribuições que fez.
Não vamos poder ficar num emprego pelo tempo que quisermos. Vai ser preciso fazer testes caso lá queiramos continuar, como para a renovação da carta de condução.
Lá por uma pessoa largar a sua actividade principal, não quer dizer que pare de trabalhar. Pode continuar a desempenhar outras funções, eventualmente a tempo parcial.

Sempre pensei ficar a trabalhar até aos setenta. Sempre foi esse o limite na universidade. Agora já não tenho a certeza, não sei se vou ter pachorra para aturar as nossas chatices que inventam todos os dias. Por outro lado, se quiser mudar para outro actividade (bruxo ou algo assim) talvez convenha fazê-lo um pouco mais cedo.

terça-feira, setembro 14

domingo, setembro 5

Como é que alguém consegue viver sabendo que é pedófilo?

Para um homem que vive só, até pode ser fácil. Quando se tem duas filhas, é inevitável que até se faça por esconder o facto de si próprio. Torna-se mais difícil fazê-lo quando todo o país conhece o seu segredo. É por isso que os advogados de Carlos Cruz dedicam quase tanto tempo a tentar ganhar o caso na secretaria como a tentar descredibilizar a justiça.
Os media adoram este reality show. A única maneira de manter a história viva é ir dando tempo de antena às "vítimas". Cruz afirma que tem um convite para um talk show. Não duvido que seja verdade. Clara de Sousa nunca seria capaz de atacar um colega de profissão. Quando o entrevistou, pouco mais fez do que parecer ser agressiva.
Era importante ouvir Carlos Cruz dizer uma vez mais que o facto de o seu assistente pessoal ser um pedófilo condenado e fugido á polícia foi uma simples coincidência. Pois claro que sim...
Convinha perguntar quando é que vão aparecer no blog do CC as denúncias de políticos de outros partidos que também são pedófilos. Ele ameaçou esta semana publicá-las imediatamente após a sentença, não foi? Já agora: se ele não é do meio, como é que tem essas informações?
Carlos Cruz afirma que já não paga há três anos aos advogados. O seu advogado principal anunciou no dia em que aceitou o trabalho que não ia receber um tostão, pois a acusação era demasiado ignóbil. Faz parte das regras do jogo aproveitar todas as hipóteses para obter mais uma vitimização e poupar nos impostos. Já agora, convém ser consistente.
Finalmente, Carlos Cruz vale mesmo a pena gastares todo o teu dinheiro a empatar, empatar, empatar? O O.J. Simpsom foi ilibado, não foi? Valeu a pena? É injusto seres o único português importante que não se escapou à nossa justiça de brincadeira? És suficientemente esperto para teres percebido que não havia escapatória. Tinhas outras opções. Agora já estava tudo acabado.
Quando nos encontramos numa enrascada destas, confiamos naqueles senhores tão simpáticos que nos prometem milagres. Mas esses senhores também têm interesses e uns bolsos muito grandes que nunca se sentem cheios. Serão realmente os teus maiores amigos?

quarta-feira, julho 28

PORTO COVO - RUI VELOSO - ILHA DO PESSEGUEIRO.wmv



Já não há pessegueiro nenhum, mas continua a valer a pena passar por lá...

domingo, julho 18

Como tornar tolerável uma gripe de Julho?



Leva-se tempo a descobrir o João Gilberto. Quando se entranha, é pior do que uma droga.

segunda-feira, julho 12

domingo, julho 11

SMS

Finalmente aprendi a usá-los. Cada meio, a sua mensagem. Menos invasivo que o telefone, mais intimo que o e-mail. O meio ideal para transmitir Haikus.

terça-feira, junho 29

Um homem de sorte

Akio Morita, o fundador da Sony era uma homem poderoso. Como todos os homens com algum poder, ninguém lhe fazia frente. Tudo o que ele dissesse, estava correcto. Quase tudo. Quando ele tinha setenta anos o seu professor de flauta tradicional japonesa, um jovem de noventa anos, ainda o tratava uma vez por outra como um miudo descuidado que precisava que lhe puxassem as orelhas. Morita achava que essas aulas de flauta eram o segredo da longevidade do seu sucesso.
Ainda tenho uns tipos a chatearem-me uma vez por outra. Mas pouco. E uma professora de yoga. Ou de natação. Mas não é a mesma coisa. Na falta de um professor de flauta tradicional japonesa, espero continuar a ter por muitos anos algum amigo que faça o seu trabalho.

Não é impossível...

quinta-feira, junho 24

A treta H1N1

Afinal há teorias da conspiração que até são mais do que isso, como se pode ver neste post do Diogo. Ou então o Conselho da Europa está a ser manipulado pelos conspiromaníacos. Devo andar muito distraído. Tenho lido o Diário de Notícias e o Público e nem por uma vez tropecei nestas notícias.

Por favor, percam com o Brasil!

Repetem-se neste campeonato do mundo alguns dos encontros míticos de 66: Coreia do Norte, Brasil. Há porém algumas diferenças. Desta vez no jogo com o Brasil não temos nada a ganhar. Não sabemos se é preferível acabar em primeiro ou segundo lugar. Se descansarmos os nossos melhores jogadores temos uma vantagem decisiva para a próxima eliminatória. A equipa do grupo H que nos vai calhar vai ter de dar o máximo para se qualificar amanhã. O tempo de recuperação vai ser mínimo. Nem a Espanha teria hipóteses contra nós. Este é um daqueles casos em que ser racional paga mesmo dividendos, senhor Carlos Queiroz.

Uma lição de música...

domingo, junho 20

Não vou ao funeral de Saramago

Não conheço a família. Não ia lá fazer nada. Mas há uns tipos que gostam dos rituais sociais e até concorreram a cargos onde são pagos pelos nossos impostos para participar neles. Façam o seu trabalho! Não é pelo Saramago. Se o Cavaco pretende ser o presidente de todos os portugueses, era agora que tinha de o demonstrar. Não é, não senhor.
Como eu aqui escrevi na altura, a gafe de Cavaco não lhe atrapalhou a corrida para o segundo mandato, que agora parece garantido. Basta-lhe manter Sócrates no poder até à sua eleição. Por outro lado deixei de ver qualquer utilidade em votar Cavaco na esperança de ele fiscalizar Sócrates. Porque Cavaco não tem fiscalizado grande coisa. Porque Sócrates vai cair e vamos ter um presidente e um governo da mesma cor. O segundo mandato de Cavaco vai provavelmente esgotar-se no dia em que dissolver a Assembleia da República, algures durante o próximo ano. Votar em quem? Nem me consigo iludir com nenhum candidato. Na altura logo se vê, mas nem sei se vale a pena ir votar ou escolher alguém.
Já há algum tempo que se começa a pôr em causa a capacidade intelectual de Cavaco. Há por aí tantas doenças neurológicas degenerativas... É uma hipótese. Talvez o escloresamento da sua personalidade seja suficiente para explicar as suas atitudes menos conseguidas. De qualquer maneira, o seu segundo mandato afigura-se penoso. Como ele disse erradamente de Soares, vai precisar de toda a nossa ajuda para o completar. E não a vai ter.

sexta-feira, junho 18

Saramago

Diga-se o que se quiser da Pilar, a verdade é que ela (com a ajuda do Nobel) conseguiu contradizer toda a sua obra. O homem zangado com o mundo viveu e provavelmente morreu feliz.
PS: Alguém leu o último livro do Saramago? Muito se falou dele, mas ninguém se deu ao trabalho. Eu pedi-o emprestado outro dia, vamos a ver se agora arranjo tempo.

quinta-feira, junho 17

No les gusta los entrenadores

No Real Madrid o treinador foi sempre o elo mais fraco. Que o diga o Queiroz quando aceitou o cargo sem ter condições para impor as suas escolhas. Luís Aragonês levou a Espanha ao título europeu. Mas teve a lata de fazer o que era preciso: pôs o Raul a andar. Foi desterrado para o Galatasaray. Foram buscar o del Bosque, o gajo porreiro que não faz ondas. A equipa espanhola estava montada, era só manter. No Suiça-Espanha defrontavam-se dois treinadores que ganharam duas vezes a Champions League. A Espanha devia ganhar. Só que o antipático do Hitzfeld ganhou uma Taça com um Borussia Dortmund em quem ninguém tinha ouvido falar e outra com um Bayern mediano. O del Bosque chegou lá ao colo de duas super-equipas do Real Madrid. Não é a mesma coisa. O Hitzfeld mostrou como é.
Para nós foi o melhor resultado possível. A incerteza da vitória no grupo da Espanha dá-nos a hipótese de, caso a sorte nos sorria e consigamos acabar à frente da Costa do Marfim, apanharmos um adversário ultrapassavel nos oitavos de final. Seria a ironia suprema.

sábado, junho 12

Saldanha Sanches

Como é que eu não fiz um post quando este Homem morreu? Nunca se pôs em bicos de pés a reinvidicar o seu passado antifascistas, dizia as verdades mais inconvenientes como se da maior trivialidade se tratasse. Felizmente o Diogo tratou do assunto.

quinta-feira, junho 10

LIE TO ME

é a última série da Fox inspirada em "House". Cal Lightman, o "homem da luz" é o especialista do lado negro: ganha a vida a detectar as mentiras dos outros e descobrir as razões que os levam a mentir. Passa às quartas-feiras no Fox Channel e passa ou vai passar fora de horas na TVI. O paralelo com House é total: o protagonista, Tim Roth, é inglês como Hugh Laurie. A sua ajudante é tão doce como a doutora Cameron, etc.
Tudo gira à volta das consequências de apontar a luz para as sombras das nossas vidas. A multiplicação deste tipo de séries significa que algo mudou na psicologia e sociologia das sociedades em que vivemos. Vinte anos atrás estas este fenómeno seria impossível.

Este video é uma aplicação das conhecimentos divulgados na série à análise do comportamento do Berlusconi. Aqui vai a versão de nuestros hermanos. Falta agora a versão Socrates...
Neste vídeo Tim Roth procura distanciar-se do personagem. Não consegue evitar desviar os olhos quando afirma que não percebe nada nessa coisa de detectar mentiras. This is only to use when we watch politicians. Right! Ninguém quer viver com o peso de ser o Dr. Cal Lightman...
Aqui fica o mais famoso video de Tim Roth, quando ele era mais novinho.

domingo, junho 6

Soren Kierkegaard

Sem a ciência a nossa sociedade não podia pura e simplesmente continuar a existir. Mas a ciência não tem nada para nos dizer sobre a nossa vida. Devia ser a religião a ter algo a dizer sobre essas questões, mas as suas propostas perdem a sua força a cada dia que passa. Pelo menos se excluirmos os pensamentos de meia dúzia de pensadores mais ou menos periféricos. Dez anos depois da morte de Kierkeggard a sua obra parecia completamente esquecida. Foi redescoberta no princípio do século XX e teve uma influência decisiva em Heidegger. Sartre tentou construir uma versão ateia do pensamento de Kierkegaard. Deitou fora o bébé com a água do banho. Recentemente Kierkegaard voltou a receber o interesse que merece. A Relógio de Água está a publicar uma tradução portuguesa dos seus trabalhos e o Guardian dedicou-lhe um série de artigos bastante interessante. Várias obras estão disponíveis online. Tanbém há traduções da Guimarães.

sexta-feira, junho 4

"Deus morreu" (2)

Costuma-se identificar mito com ilusão. Prefiro usar mito no sentido de algo que dá sentido à vida. Aquilo que Nietzche acha que morreu, ou passou a estar de má saúde, foi o mito cristão. Algures durante o século dezanove alguma coisa mudou. Nem tem a ver com deixar de acreditar. Basta acreditar de outra maneira. Ou passar apenas a acreditar em acreditar.

quinta-feira, junho 3

Alguém tem dúvidas de que a história é escrita pelos vencedores?

O OMWO chamou-me a atenção para o último livro de Pat Buchanan, que põe em causa as nossas certezas acerca da duas grandes guerras da primeira metade do século XX. O Churchill não fica lá muito bem visto. Vale a pena ler o artigo da Wikipedia sobre o livro.
Abandonei as longas metragens. Isto agora é mais telenovelas.

terça-feira, junho 1

"Deus morreu"

O vosso Deus está morto e só os ignorantes o choram. Nietzsche, Assim falava Zaratustra

Que fazer perante um aforismo? Vale por si? Se não somos capazes de o interpretar, não percebemos nada?

segunda-feira, maio 31

Especial, porquê? (3)

O que é que te fascina tanto no Mourinho? É por ser de Setúbal como tu?
Nos resultados dos diversos campeonatos é um vencedor. Mas será mesmo? Não percebo nada de futebol, mas já tenho lido críticas. Mas no futebol contam é os resultados. E na vida?

domingo, maio 30

Há algum projecto de vida "tipo"?

Pergunta a MC nos comentários, acrescentando: Não me parece.

sábado, maio 29

What about the struggle to be the best, in your field?

The strugle to be good is overrated...

É claro que há toda uma série de medidas que podem minorar o problema do desemprego. É claro que melhorar a Justiça e a Educação aumenta a competitividade e potencia o crescimento económico a médio prazo. Isso não altera o essencial: uma política económica virada para promover o crescimento e combater a besta negra que retira às pessoas o seu amor próprio não funciona.

Happiness is overrated... (2)

É claro que há toda uma série de medidas que podem minorar o problema do desemprego. É claro que melhorar a Justiça e a Educação aumenta a competitividade e potencia o crescimento económico a médio prazo. Isso não altera o essencial: uma política económica virada para promover o crescimento e combater a besta negra que retira às pessoas o seu amor próprio não funciona.

segunda-feira, maio 24

Especial, porquê? (2)

Os Albuquerques que dominaram a Índia não eram mais homens do que aqueles que capitularam perante o Ultimato Britânico. Uma tecnologia superior decidiu ambas as situações. São os métodos de treino do Mourinho que marcam a diferença. Quem explica a um jogador o que fazer na situação X não pode competir com quem sabe ajudar o corpo desse jogador a descobrir como resolver a situação X.

domingo, maio 23

Happiness is overrated...

A crise económica e social em que estamos mergulhados ataca as fragilidades da nossa atitude perante a vida. Afinal, de que andamos à procura? Da felicidade? A maioria responderá que sim, claro. A maioria dos cristãos... a maioria dos comunistas...
Até o Bertrand Russel não resistiu a escrever um livro sobre A Conquista da Felicidade. A maioria está sempre errada.

sábado, maio 22

Especial, porquê?

Levar umas palmadinhas nas costas em Espanha, na Alemanha ou na Argentina por ser compatriota do Figo ou do Ronaldo é giro. Mas quando se fala no Mourinho, é outra coisa. Aí as palmadinhas são substituídas pelo respeito. O tipo não sabe só dar uns pontapés na bola. O tipo sabe pensar e sabe ser um líder. Esse respeito não tem preço.

segunda-feira, maio 10

A tirania de um príncipe numa oligarquia não é tão perigosa para o bem público como a apatia dos cidadãos numa democracia - Montesquieu

Pior ainda nas cleptocracias mal disfarçadas em que actualmente vivemos...
Mais que não seja, há que publicar uns posts no blog, se é que alguém ainda se lembra da sua existência.
A propósito do excelente post de Palmira F. Silva, no Jugular.

sábado, fevereiro 6

O Sexo dos Anjos


A Doutora Manuela ainda é líder do PSD? Não faço ideia! Bem, suponho que sim... Se não fosse, seria difícil passar por um blog sem tropeçar no seu nome. O que é que ela está lá a fazer? Ouvi no outro dia numa radio críticas ao facto de o ministro das finanças não se demitir. Pois, parece que a Assembleia da República anda um pouco mais irresponsavel do que o costume. A verdade é que o PS estava a pedi-las.
Há meses que evito os telejornais. Tenho dificuldade em perceber como é que alguém tem estomago para isso. Quando houver eleições antecipadas, avisem.

domingo, dezembro 27

Brincar aos Raios X

Dizia-me um colega muito bem informado. Nos últimos dias do anterior governo Socrates veio cá para fora a habitual enxurrada de decretos-lei. Uma delas revoga nas entrelinhas o essencial das leis que obrigam os hospitais públicos e privados a manterem medidas de segurança nos departamentos de radiologia e afins. Uma disposição legal que não foi assinada pelo Ministro da Ciência e Tecnologia, o único membro do governo que entende alguma coisa de medicina nuclear. Está agora à espera de ser regulamentada. E em França a situação ainda está pior, acrescentava ele, enquanto terminava a bica. Se um dia destes lerem uma notícia destas a propósito de Portugal, não se admirem.

As resoluções de Ano Novo

deviam ser tomadas logo a seguir ao Natal. E postas em prática no primeiro dia útil que esteja a jeito.

quinta-feira, dezembro 24

sábado, dezembro 12

quarta-feira, dezembro 9

O argumento de Pascal

Foram propostas muitas provas da existência de Deus. Blaise Pascal propôs uma das mais originais, de natureza probabilistica: Que perdemos se acreditarmos em Deus, e Deus não existir? Nada! Que perdemos se não acreditarmos e ele existir? Tudo! Na dúvida, é mais seguro acreditar em Deus.
Rui Tavares repetiu o argumento de Pascal a propósito da questão das mudanças climáticas. Reconhece que há dúvidas sobre a sua existência, ou sobre o facto de serem provocadas pela industrialização. Que perdemos se os críticos tiverem razão? Nada! Se eles estiverem errados? Tudo! Será mesmo assim? Nem pouco mais ou menos. Rui Tavares comete o erro de confundir as mudanças provocadas pelo clima com o problema global do ambiente. Se quase todos os nosso recursos forem usados para resolver um pseudo problema, como vamos resolver todos os outros problemas do ambiente: chuvas ácidas, poluição das águas, acumulação de lixo e metais pesados nos ocenos, destruição das florestas equatoriais. Precisamos simultaneamente de mais recursos e de restringir o crescimento. Escolher a frente de combate errada é um erro que não nos podemos dar ao luxo de cometer.
Rui Tavares dia também que os cientistas acreditam na realidade do aquecimento global e quem se opõe são os leigos. Está mal informado. Há muita gente a tentar-nos convencer disso. Há mecanismos que contribuem para que muitos cientistas se calem. Há muitas verbas para investigar o aquecimento global. Quem falar publicamente contra fica excluido dessas verbas. Isso vai afectar a carreira do whistleblower e dos seus colaboradores. Os cientistas não são nem mais nem menos corajosos do que as outras pessoas. Não é por acaso que a pessoa que mais tem falado sobre o assunto em Portugal, o Professor Delgado Domingues, é reformado.
Não era sobre estes temas que eu gostava de estar a escrever, acreditem.

Com a verdade me enganas

Temperatura em Portugal aumentou 1,2 graus desde 1930. Que podemos concluir desta frase?
Que nada é mais fácil do que mentir com números.
Sempre que estamos a trabalhar com séries numéricas, só o gráfico traduz alguma verdade.
Ao longo dos ultimos oitentas anos houve anos em que a temperatura média foi superior à do ano passado e outros em que foi inferior. Comparando 1930 com 2009 chegamos a uma conclusão. Comparando outras duas datas bem escolhidas, chegaríamos à conclusão oposta. Quem compara dois números desta forma, é ignorante ou está de má fé.
Este truque é bem velho. Se exceptuarmos momentos de crise grave, os gráficos com a evolução dos valores de um indice da bolsa publicados pelos bancos, pelas correctoras ou pelos livros para imbecis começam sempre na última grande crise. É tão bonito ver como é facil investir na bolsa...

sábado, dezembro 5

quarta-feira, dezembro 2

quarta-feira, novembro 25

Belle de Jour

Está na moda as prostitutas de luxo publicarem um blog e escreverem livros sobre as suas experiências. Belle de Jour foi o pseudónimo de uma das primeiras, senão a primeira a ter tal ideia. A autora conseguiu permanecer no anonimato durante anos. Algo especialmente difícil depois de produzir quatro best sellers e ter uma coluna regular num jornal de referência. A semana passada Belle descobriu que alguém ia provavelmente revelar a sua identidade. Resolveu ser ela a dar a cara.
O seu verdadeiro nome é Dr Brooke Magnanti. Tem um doutoramento em Informática e Epidemiologia. Actualmente é investigadora na Bristol Initiative for Research of Child Health. A tese prolongou-se um pouco mais do que a bolsa de doutoramento. Brook procurou um emprego suficientemente bem pago, que lhe deixasse tempo livre para acabar a tese e que não exigisse um grande investimento em formação. Resolveu o problema trabalhando a 400 euros por hora para uma agência de call girls durante catorze meses.
Trata-se de um caso difícil de encaixar no estereótipo da mulher e do chulo. Ela não foi explorada nem coagida, não se pode dizer que não tinha outras opções, divertiu-se, abandonou a prostituição depois de atingir o objectivo, tem uma vida interessante e útil para a sociedade. A experiência não parece ter deixado cicatrizes.
É um caso extremo, mas não é um caso raro. Muitas outras mulheres resolveram facturar aquilo que o mercado lhes oferecia. Apesar de tudo, a maior parte das mulheres continua a culpar os homens. Uma atitude no mínimo algo infantil. É óbvio que não têm razão.

E no entanto...

Talvez haja um chulo dentro da cabeça de cada prostituta. Cada um de nós tem aspectos masculinos e femininos. Funcionamos de uma forma mais harmoniosa se esses elementos coexistirem em equilibrio. Na nossa sociedade o lado masculino é mais pragmático e mais facil de expressar. Em termos contabilisticos, por exemplo. E em frases do tipo Porque não? Responder a essa pergunta a propósito da prostituição é bastante dificil nos tempos que correm.
Os esquimós têm dúzias de palavras para descrever a neve. Nós só temos uma. A neve é bem mais importante para eles do que para nós. Só temos uma palavra para amor. Em sanscrito há várias dúzias de palavras que nós tradiziriamos sempre por amor ou por frases onde aparece a palavra amor. O lado feminino dos homens e das mulheres, o lado que lida com os sentimentos, está em desvantagem na nossa sociedade. Temos muitas palavras para factos objectivos e racionais. Isso permitiu-nos construir uma sociedade mais rica onde nos podemos dar ao luxo de ser mais justos. Por outro lado pagámos o preço desse desenvolvimento em solidão, depressões, vazios. É o que acontece quando negligenciamos os lados mais frageis e subtis das nossas personalidades, onde estão escondidas as riquezas intangiveis de que andamos à procura algures fora de nós.
A Belle vai pagar um preço alto pelas libras que ganhou. Acontece que isso é um problema dela. Temos de acabar com a mania de não deixar os outros (e às vezes a nós mesmos) errar. O homem que as mulheres acusam está dentro de todos os homens e de todas as mulheres. É infantil projectá-lo no primeiro homem que se ponha a jeito, ou nos homens. Mas todos nós executamos esse tipo de projecções a toda a hora.

domingo, novembro 22

A Treta Global


From: Tom Wigley, Date: Sun, 27 Sep 2009 23:25:38 -0600
So, if we could reduce the ocean blip by, say, 0.15 degC, then this would be significant for the global mean – but we’d still have to explain the land blip. I’ve chosen 0.15 here deliberately. This still leaves an ocean blip, and i think one needs to have some form of ocean blip to explain the land blip (via either some common forcing, or ocean forcing land, or vice versa, or all of these).

Este é um dos e-mails que um hacker, ou um whistle-blower, alegadamente retirou de um computador da University of East Anglia’s Climate Research Unit. Este senhor estava a ajustar os parametros para nos convencer que realmente existe o tal aquecimento global. Estamos a falar do maior escandalo da ciencia. Vão ao google news, escrevam global warming scandal ou outra coisa semelhante, e vejam o que aparece. Ou leiam este artigo do Telegraph e passem pelo Falta de Tempo, onde eu ouvi falar nisto pela primeira vez.
Comunicado dos CRU.

quarta-feira, novembro 18

Contra os cemitérios

Andam por aí uns desavergonhados que querem destruir a civilização ocidental. Onde é que já se viu pegar num terreno baldio, colocar uns muros à volta e começar a enterrar lá os filhos da terra? Não sabem esses velhacos que ainda há meia dúzia de anos andavam por Dover a embebedar-se pelas tabernas o que é o solo sagrado? Doenças? Enterrar os nossos pais e avós na santa igreja onde vamos orar todos os domingos provoca doenças? Só servos de Belzebu podiam inventar tamanho disparate! Sempre assim se fez e sempre assim se fará! Se eu não lutar para enterrar os meus antepassados perto de Deus, quem irá lutar por mim?
Esta oposição ao Novo está bem ridicularizada n'As Pupilas do Sr. Reitor, um dos poucos livros que uma menina de boas familias podia ler nos anos sessenta, tempos em que o caracter subversivo de muitas obras de Eça ainda permanecia intacto. A luta do liberalismo pela saude pública vem-me sempre à cabeça quando se discute o casamento dos homossexuais, algo à partida bem menos controverso do que por exemplo a questão do aborto. Trata-se tão só do horror ao Novo. É por isso que poucos são aqueles que se são capazes de assumir contra, escondendo-se atrás do pedido do referendo. Se este é um assunto tão secundário como eles dizem, vale a pena gastar o nosso tempo e o nosso dinheiro na realização do tal referendo?
Bem melhor seria este mundo sem estes empata fodas? Talvez não. Afinal, como é que se constroi um braço robotico de alta precisão? Para fazer um buraco para um parafuso com precisão micromilimétrica, temos de criar uma tensão: uma força que empurra para a direita e outra para a esquerda, uma para cima, outra para baixo, uma para a frente, outra para trás. Só esta oposição de forças, de musculos agonistas e antagonistas, permite a um atirador acertar na mouche. Aquilo que parece ser apenas um desperdício de energia, é muito mais do que isso. Sem a Doutora Ferreira Leite, eu e os da minha laia acabavamos por escavacar isto tudo.
Dito isto, se não se lutar com toda a energia contra os imbecis que por aí andam, expondo-os ao ridiculo antes e depois da passagem da lei, não vamos a lado nenhum.
Mas sempre com muita compaixão.

quarta-feira, novembro 4

Só ofende quem pode?

Sempre achei que sim. Que uma atitude nossa só desiquilibra emocionalmente alguém, voluntaria ou involuntariamente, se essa pessoa se sente ligada a nós por sentimentos de amor, amizade ou admiração, se nós lhe provocamos alguma insegurança, se ela tem algumas expectativas em relação a nós ou projecta em nós o melhor que existe nela.
Algumas pessoas ofendem-se muito facilmente porque são bastante inseguras, ou têm muitos problemas por resolver à flor da pele. As pessoas ofendem-se porque não são capazes de distinguir o pessoal do objectivo. Muito poucas pessoas são capazes de reagir racionalmente numa situação que envolva algum stress.
Sempre tive um certo orgulho dessa capacidade de não me deixar ofender por dá cá aquela palha. Quantas vezes alguém tentou ofender-me, desestabilizar-me ou impressionar-me, ficando meio para o estupefacto quando não o conseguiu.
Entretanto um destes dias ofendi-me mesmo. Continuo indignado. Uma sensação estranha. Uma sensação nova. Não sabe a fraqueza. Se calhar não me ofendi algumas vezes porque me faltava qualquer coisa. Quem não se ofende não é filho de boa gente. Talvez haja alguma verdade nisso. Não sei se mudar é bom ou não. Mas é interessante.

Claude Levy-Strauss 1908-2009

Tristes Trópicos, a autobiografia de Claude Levy Strauss, é uma das maiores obras primas da Literatura do século XX. As suas descrições das suas viagens pelo Novo Mundo são inesqueciveis. Metade do livro é dedicado ao Brasil. Começa em Salvador da Bahia, e vai-se internando pela selva até chegar aos pontos mais inesplorados da selva amazónica. Fala-nos sobretudo das pessoas e mostra-nos que elas não são diferentes de nós. Não devido aos imperativos do politicamente correcto, mas por razões bem claras.
Os "primitivos" não são estúpidos. A haver estúpidos, somos nós.
Um habitante do Amazonas conhece a fauna e a flora da região tão bem como qualquer equipa de biologos composta por um botanico, um entomologista e um zoologo que tenham queimado as pestanas a fazer o seu PhD e depois tenham passado uns anos a complementar os seus conhecimentos in loco. Quando se desloca a uma região nova por qualquer razão, o primitivo recolhe exemplares da flora da região que não conhece e leva-as para tentar perceber para que servem, realizando todo o tipo de experiencias. Se possivel, conferencia com os habitantes da região, procurando obter informações sobre as plantas que descobriu e sobre outras que lhe tenham escapado.
A nossa sobrevivencia está assegurada e nós não precisamos de puxar pela cabeça para sobreviver. O cérebro dos animais domésticos é mais pequeno do que o dos seus equivalentes selvagens pela mesma razão: falta de uso.

quinta-feira, outubro 29

Demasiadas perguntas

Cada pergunta tem quatro respostas possíveis:

DD - discordo totalmente.
D - não concordo
C - concordo parcialmente.
CC - concordo totalmente.

O melhor é arranjarem um papel ou um ficheiro word e anotar as respostas juntamente com os asteriscos.
O resto das instruções estão no primeiro comentário.

I
  1. A minha vida satisfaz-me.
  2. Sinto-me à vontade quando encontro novas pessoas.
  3. Situações novas causam-me stress.*
  4. O meu trabalho não usa as minhas capacidades.*
  5. Tenho uma atitude positica para com o dinheiro.
  6. Não uso o meu tempo de forma eficiente.*
  7. Sou uma pessoa cheia de energia.
  8. Em geral encaro uma responsabilidade como sendo um fardo.*
  9. Não me sobra tempo para relaxar e divertir.*
  10. Normalmente atinjo os objectivos a que me proponho.

II
  1. Gosto de mim enquanto uma pessoa.
  2. Tenho (tinha) uma relação terna com os meus pais.
  3. Passo frequentemente por situações emocionais difíceis (tristeza/ansiedade/raiva/stress).*
  4. Sinto-me desconfortavel quando estou só.*
  5. Consigo manter um equilíbrio entre o tempo que dedico a mim próprio e o que dedico aos outros.
  6. Tenho dificuldades em concentrar-me e em pensar com clareza.*
  7. É-me facil demonstrar aos outros amor e afecto.
  8. Não estou satisfeito com as minhas relações pessoais.*
  9. Nunca sei exactamente o que estou a sentir.*
  10. Tenho uma boa relação com o meu corpo.
III
  1. Acho que sei o que é o melhor para mim.
  2. Sou capaz de exprimir a minha criatividade de várias maneiras diferentes.
  3. Não estou interessado no que se passa no meu inconsciente.*
  4. Não acredito em intuições ou em guias interiores.*
  5. Tenho uma visão positiva do meu futuro.
  6. Raramente dou atenção aos meus sonhos.*
  7. Acho que estou a crescer espiriritualmente e a desenvolver-me.
  8. Não me parece que o meu espírito possa ter um papel activo na recuperação dos meus problemas físicos ou psicologicos.*
  9. Tenho dificuldade de imaginar o que nunca experimentei.*
  10. Sinto frequentemente uma ligação à natureza.

IV
  1. Sinto a presença de algo mais poderoso do que eu (Deus/Dharma/Tao...).
  2. Cultivo o amor e a compaixão por tudo o que me rodeia.
  3. Nenhuma forma espiritualidade faz sentido para mim.*
  4. Não me parece que a minha existência tenha algum grande propósito.*
  5. É importante para mim que a minha vida tenha um impacto no Mundo.
  6. Não pratico qualquer forma de prática espiritual (meditação/contemplação/oração).*
  7. Realizo regularmente actividades que me ajudam a recuperar o equilíbrio emocional.
  8. Sou facilmente apanhado a realizar actividades superficiais ou a com preocupações do mesmo tipo.*
  9. Raramente me confronto com o significado das minhas experiencias de vida.*
  10. Quando tomo decisões sigo aquilo que me parece correcto de um ponto de vista espiritual.
Retirado daqui.

Agora clikem aqui e leiam os dois comentários.
Se publicar os resultados pode comprometer a acuidade das respostas, mais vale não publicar!

quarta-feira, outubro 28

O eixo do Mal

The American Academy of Family Physicians has announced a corporate sponsorship with Coca-Cola and is also accepting an undisclosed amount of money from them as well.
A AAFP assinou um acordo com a Coca Cola no sentido de lançar uma campanha para educar as crianças no uso adequado de bebidas não alcoolicas e adoçantes artificiais.

Não havia provas

Mas os indicios eram suficientes para compreender o que se passava. Agora temos a certeza.

quarta-feira, outubro 21

Algumas perguntas banais sobre o aquecimento global

Uns dizem que há, outros que não é bem assim. Quem tem razão? Como podemos saber quem tem razão? Podemos saber quem tem razão? Há por aí toda uma série de pessoas e empresas que promovem a ideia da existência do aquecimento global, porque têm bastante a lucrar com isso, ou porque usam essa ameaça como arma política para tentar converter as pessoas a um outro modo de vida. Podemos concluir daí que se trata de uma farsa? E se não for e o ignorarmos?

sexta-feira, outubro 16

O Astrologo e o Cientista


As manhãs e as tardes dos nossos canais generalistas estão desde há alguns anos ocupadas com programas de entretenimento para donas de casa que tentam imitar Oprah Winfrey, com um orçamento bem mais reduzido. Uma das lutas de galos baratinhas que eles gostam de organizar é colocar de um lado um ateu ou um cientista e do outro uma cartomante, um astrologo ou uma vidente. A variante astrologo versus cientista é a que corre pior para o representate da Razão. A posteriori, o cientista arranja boas explicações para o facto de a discussão não lhe ter corrido tão bem como ele esperava. A televisão é um meio de comunicação que não se presta muito bem à transmissão de mensagens complexas. As mais simplistas passam com mais facilidade e o astrologo está à partida em vantagem. Mas porque é que ele não pensou nisso antes de aceitar o convite?
O caso do astrologo é especialmente emblemático. A força gravítica dos planetas é demasiado fraca para ter qualquer efeito sobre as pessoas. Mesmo que assim não fosse, a precessão dos equinócios desactualizou todos os cálculos. O astrologo faz uma figura ridícula aos olhos do cientista.
Acontece que os cientistas são operários especializados, artesões que sabem produzir sapatos de alta qualidade. Normalmente não lhes sobra tempo para pensar em muito mais. Sobretudo não lhes sobra muito tempo para pensar em como funcionam as pessoas. É claro que estas palavras também se aplicam a mim.
Um bom astrologo passa a vida a pensar em como funcionam as pessoas. Os horoscopos são apenas um pretexto, um ponto de partida para começar uma consulta. O que se passa depois não sei. Não me atrevo a emitir opiniões sobre o que desconheço. Se a crença no determinismo dos astros pode agir como um placebo em favor dos objectivos do astrologo, que mal há nisso? Claro que o astrologo nunca o pode admitir. E alguns até acreditarão nos astros. Os advogados também acabam por acreditar nos clientes que defendem, mesmo quando há todas as razões para pensar o oposto.
Para muitos astrologos, o idiota é o cientista que supõe que o seu trabalho consiste em analisar cartas astrologicas. O idiota é o cientista que só conhece a dimensão racional de uma pessoa, ignorando tudo o resto. O astrologo age sobre o inconsciente das pessoas, algo em geral muito mais poderoso do que apelar à sua racionalidade. Numa disputa realizada fora das paredes de uma universidade o cientista dificilmente terá alguma hipótese. Nem alguma vez perceberá o que lhe aconteceu.

sábado, outubro 10

O Símbolo Perdido

É o novo livro de Dan Brown, o tipo do Código da Vinci. O techno-triller, criado por Michael Crichton e Tom Clancy, é um novo genre da literatura de suspense, caracterizada pelo extraordinário detalhe das discrições da tecnologia envolvida, o que de alguma forma compensa a menor riqueza com que são descritas as personagens e a relativa simplicidade do enredo. Os três últimos livros de Dan Brown contam a mesma história, personagens semelhantes representam os mesmos papeis, só variam os detalhes. Mas são esses detalhes que verdadeiramente interessam.
Brown começou por seguir as pegadas de Crichton. Em Anjos e Demónios criou um novo sub-genre. A tecnologia que invadiu as nossas vidas desde há um século é combinada com um conhecimento detalhado da forma como se expressaram ao longo dos tempos todos os medos e esperanças que povoam o nosso inconsciente desde há milénios. And thats when the big bucks started rolling in. Dois outros ingredientes contribuiram para o sucesso de vendas:
Toda a história se desenrola a um ritmo alucinante, normalmente em 24 horas. Esta ideia já foi tão copiada (ver a série 24, por exemplo) que agora Dan Brown reduziu para 12.
O ataque a uma instituição: o Vaticano em Anjos e Demónios, a Opus Day no codigo. Este último ingrediente perdeu-se. Os católicos não mordem por aí além. Não há por aí muitas outras instituições que de alguma forma ainda dêem a outra face. Dizia-se que este livro saíria pouco antes das eleições americanas do ano passado, referindo o papel da Skull and Bonnes nas eleições americanas. Brown percebeu que não era boa ideia atacar a família Bush e os falcões do partido republicano. Foi aí que perdeu a hipótese de repetir o impacto do Código.
Dito isto, o livro está cheio de pequenas pérolas, como a referência à ignorada ascensão aos céus de George Washington, pintada no tecto do Capitólio e a análise da gravura de Dürer reproduzida acima.

quarta-feira, outubro 7

Benfica Stars Fund: A aritmética segundo Luís Filipe Vieira

A SAD benfiquista anunciou esta terça-feira que subscreveu 15 por cento do valor total do "Benfica Stars Fund - Fundo Especial de Investimento Mobiliário Fechado", num investimento global de 6 milhões de euros.

Se a SAD investe, deve ser seguro...
Deixem lá ver se eu percebo este comunicado. Quem comprar unidades de participação do Benfica Stars Fund, compra direitos sobre futuras vendas dos passes de certos jogadores do Benfica. A quem pertencem actualmente esses passes? À SAD. O que significa subscrever 15% do fundo? Significa que a SAD comprou a si própria unidades de subscrição do fundo. Significa também que a SAD vendeu só 85% do valor nominal desses passe, qualquer coisa como 34 milhões de euros. Comprar 6 milhões de euros ou vender 34 não é exactamente a mesma coisa.

terça-feira, outubro 6

"Termos tecnicos": Violação e Recessão

O que é uma recessão? É um período durante a qual a economia se contrai. As vendas diminuem, os inventários começam a crescer, depois a produção diminui para se ajustar à procura e as ofertas de empregos começam por diminuir. Se a contracção continua, alguns trabalhadores vão parar ao desemprego.
Toda a contracção é uma recessão? Não. Existem efeitos sazonais. Em certos trimestres há mais actividade económica do que outros. Durante o verão o turismo estimula a actividade económica, em Dezembro temos o Natal. Para além do mais nessas alturas uma boa parte da população recebe um mês suplementar de salário e gasta boa parte dele.
Como se deveria então definir recessão? Um definição razoavel seria: estamos em recessão se durante dois trimestres consecutivos a actividade economica for inferior à actividade economica do mesmo semestre do ano anterior. É esse o fenomeno que mexe com os nossos bolsos e os nossos empregos.
Quando é que estamos em recessão tecnica? Quando a produção diminui em dois trimestres consecutivos. Só num período de crise extrema se produz menos no trimestre do Verão do que no trimestre da Primavera. O que permite a muitos primeiros ministros anunciar no fim de cada verão o fim da recessão tecnica. Já viram este filme?
Por outro lado, cada vez que caímos em recessão tecnica devemos estar descansados. Afinal não é uma recessão a sério, é só uma recessao tecnica. Uma technicality. Mas afinal, o que é uma recessão sem o qualificativo tecnico? Não está definido...
Se não temos palavra para o definir algo, é quase como se esse algo não existisse.

Polanski violou uma jovem de treze anos? O que quer dizer violou?
A palavra violação costuma ser usada quando existe sexo não consensual. Não foi o caso. A jovem em causa sempre o afirmou e continua a afirmar.
Não estou a dizer que Polanski não tenha cometido um crime e não deva ser punido. Só estou a referir que a palavra violação está a ser usada no seu sentido tecnico. Quem detem o poder também detem o poder de manipular a linguagem. E a palavra violação faz toda a diferença.
O caso Polanski é sobretudo um problema legal e não um problema moral ou um problema de direitos humanos. Qualquer um de nós arranjaria problemas legais gravíssimos se se comportasse na Arábia Saudita da forma como se comporta aqui. Pela minha parte tenho muitas duvidas sobre varias decisões ou não decisões dos tribunais portugueses. A justiça americana também não é exemplar em termos de direitos humanos. Pense cada um de nós o que quiser sobre o enquadramento legal do caso Polanski. Por mim, preferia deixar de fora os direitos humanos e a moral. Se vamos por aí, se há alguém a querer e poder invocar os direitos humanos neste caso, esse alguém até é o Polanski. A suposta violada já disse de sua justiça.

Depois de me chamarem a atenção sobre a história do crime cometido por Polansky, fiz uma busca pela internet. Trata-se efectivamente de uma violação. Espero que se faça justiça. Estamos sempre a aprender...

segunda-feira, outubro 5

A sobremesa

Durante dois anos Sócrates passou por ser um governante decidido e equilibrado. Depois começaram as gafes. Que aconteceu? A mudança pode ter tido alguma coisa a ver a saida de António Costa para a camara de Lisboa. Alguém que quase me merece o benefício da dúvida. Ele e Rui Rio são os únicos nomes com possibilidade de chegar a primeiro ministro a quem eu reconheço alguma capacidade para o cargo. Em Lisboa temos ainda a possibilidade de manter Santana Lopes a andar por aí. Já percebi que não podemos esperar mais do que isso, quando lidamos com ervas daninhas.
Felizmente não voto no concelho com mais licenciados do país. Tinha de decidir se votava ou não no sr. Isaltino.
Onde eu gostava mesmo de votar era em Almada. Contribuir para a não eleição de Paulo Pedroso, esse sim é um verdadeiro dever civico.

sexta-feira, outubro 2

Greg House 3


Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita.

Da nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.

Assim começa a Divina Comédia. Dante confessa-nos que ao atingir a meia idade se sentiu perdido. A vida deixou de fazer sentido. As lembranças das causas porque lutou, daquilo que construiu, só lhe deixam um travo amargo na boca. A vida não passa de um desespero tranquilo. O poema é simultaneamente a história da sua auto-cura, contada de forma alegórica, e o remédio que o curou.
Dante começa por encontrar Virgílio, o autor da Eneida, o poema épico que ele espera emular ao escrever a Divina Comédia. Virgílio conduz Dante através do Inferno, levando-o até ao Purgatório. Virgilio representa a razão, o lado intelectual de Dante, o grande responsável pela situação actual de Dante mas também a única força que o mantem inteiro. Visitar o Inferno é ganhar consciencia total da sua situação. Dante está a viver o Inferno na Terra. É esse o primeiro passo da sua viagem interior.
Virgílio conduz Dante até às portas do Purgatório, onde Beatriz o espera. Dante apaixonou-se por Beatrice Portinari aos nove anos, tinha ela oito. Viu-a meia dúzia de vezes durante toda a sua vida. Beatriz casou aos vinte e um e morreu de peste aos vinte e quatro. Dante dedicou-lhe todos os seus poemas mais importantes e nunca a esqueceu. É através do seu lado feminino que um homem se relaciona com o seu inconsciente e produz trabalho criativo. Por isso se fala da musa inspiradora. Muitas vezes esse lado feminino ganha uma representação mais concreta. A musa ganha um rosto.
Beatriz conduz Dante através do Purgatório, ajudando-o a reencontrar o seu caminho. É aí que começa a Purga. Finalmente atingem o Céu, o extase momentaneo associado ao alivio de recuperar o sentido da vida.

House é a história da mid life crisis de Greg House, MD. Greg já completou a sua travessia do inferno e encontra agora a sua Beatriz, personificada em Amber, a ex-namorada do seu amigo James Wilson, morta num acidente. Cada um tem a musa que merece e Amber é bem diferente da doce Beatriz. Cada tipo de obra de arte tem as suas convenções. Nós vemos Amber em carne e osso, uma imagem bem definida. Não podia ser de outra forma. Não significa isso que seria assim que o House a sentia. Seria mais razoavel que o lado feminino de House se manifestasse através de uma voz interior e de uma sensação de presença indefinida.
House lida mal com o aparecimento do seu lado feminino. Pergunta-se se estará louco. O aparecimento de Amber é o ingrediente fundamental do gran finale da quinta série. Estou mais ou menos seguro que a sexta série vai começar com House de volta ao hospital, uns meses mais tarde. Vai ser curioso ver como a série evolui. Num one hour drama algo muda para que tudo fique na mesma. Mesmo na Divina Comédia, o Inferno é bem mais interessante do que o paraíso. Os autores não se podem dar ao luxo de deixar que House ultrapasse a crise da meia idade.
Convem no entanto salientar que o aparecimento de Amber faz bem mais sentido do que muitas outras leviandades que encontramos nos one hour dramas. É por isso que House é diferente.

House 1
House 2

quinta-feira, outubro 1

quarta-feira, setembro 30

Desta vez deu Cavaco

O homem irrita-me. Sempre me irritou. Para meu grande espanto, dei por mim a pensar antes das últimas presidenciais: espero que o Cavaco ganhe à primeira volta, senão ainda vou ter de votar nele. Lá por isso o homem continuou a irritar-me. Depois veio o estatuto dos Açores. Todos os partidos desceram até à mais rasteira das demagogias. Só Cavaco disse o que tinha de ser dito. Estas eleições o PS ultrapassou todos os limites da manipulação. Deu resultado. As pessoas até se esqueceram de como será dificil a Sócrates governar em minoria. Bastará que o PCP e o Bloco se abstenham para que o voto conjunto do CDS e do PSD derrote o PS. O PS só terá hipoteses de chegar ao fim da legislatura com um presidente da mesma cor. Sócrates sabe-o e provocou Cavaco. Cavaco mordeu o isco. Resta saber se Sócrates tem arcaboiço para pescar em aguas profundas.
Muitos acusaram Sócrates de muitas coisas. Algumas das acusações, embora não decisivas, estão provadas para lá de toda a dúvida. Quando o presidente se junta ao coro, muitos mais deixarão de ignorar que algo está podre no reino da Dinamarca.

Cavaco conquistou a sua primeira maioria absoluta devido ao seu especial talento para irritar Vitor Constancio, lider do PS à altura, levando-o a avançar para uma moção de censura suicida. Seria irónico que quem pela irritação matou pela irritação morra. Se Cavaco perder as eleições retira-se da política com um gosto amargo na boca, mas será apenas um epsilon na sua carreira política. Outros terão muito mais a perder.

Numa disputa entre o presidente e um partido sem maioria absoluta ninguém dúvida quem é que está em desvantagem. Quando essa disputa nos leva a comparar a integridade de dois homens, a quem é que nós compraríamos um carro usado? A intervenção de Cavaco pode ter sido desajeitada. Pela minha parte acho que a indignação de um homem honrado perante a perfídia vigente é altamente refrescante.
De momento estão todos contra Cavaco. Um ano em política é uma eternidade e o tempo joga a favor do presidente. Quem se desgasta todos os dias é o governo. Não sei quantos portugueses se sentiriam descansados com um governo Sócrates não vigiado. Vamos ter um ano bem interessante.
Quando surgiram problemas no final do primeiro mandato, todos os presidentes assobiaram para o lado. Cavaco não o fez. A sua coragem pode até vir a custar-lhe o segundo mandato. Mas terá certamente o meu voto.

domingo, setembro 27

Matemática Ilegal

584201=733 x 797 ? Parece que sim.
Mas cuidado, quando decompuserem um número nos seus factores primos podem estar a cometer uma ilegalidade.