domingo, setembro 19

Sonhar

Na primeira aula de uma cadeira de um Mestrado profissionalizante que eu às vezes lecciono costumo pedir aos alunos que falem dos seus percursos anteriores. É uma informação importante. Cada um sente-se obrigado no fim a referir que de alguma forma aquele era o sonho da sua vida. Mesmo que se esteja mesmo a ver pelo contexto que em muitos casos não é bem assim. Doi-me um bocado ouvir aquilo. Prometo sempre a mim próprio que da próxima ver que der o curso não falar neste assunto. Depois esqueço-me. Não quer isto dizer que eles não tenham outros sonhos.

Com o passar dos anos, haverá algum tesouro mais precioso do que ainda ter um sonho? Isso de ter um sonho depois dos trinta, dos quarenta, dos cinquenta, é uma coisas rara ou nem por isso? Não estou a falar em ganhar o euromilhões, comprar um Porsche, ou dormir com a Angelina ou o Brad.

sábado, setembro 18

60 e quantos?

Os franceses foram para a rua protestar porque querem continuar a reformar-se aos 60. 62 não lhes parece aceitável. Curiosamente muitos dos meus colegas franceses agonizam perante a ideia da reforma compulsiva aos 65. Com ela se vai a vã glória de mandar, talvez a sua identidade e outras coisas mais importantes.Mesmo para chegar lá é preciso ser prof de class exceptionelle e sei lá mais o quê.
O José Luís Sarmento concorda com os protestos franceses os aumentos de produtividade são suficientes para pagar esse ócio.
O problema é complexo. Limito-me a alinhavar umas ideias:

1. É verdade que a produtividade aumentou, mas nós também passámos a consumir muito mais. E a maior parte de nós não quer consumir menos.
2. A riqueza de um país não é um dado adquirido para sempre. Se os alemães trabalharem mais cinco anos do que os franceses, vão crescer mais. Os franceses não vão ficar onde estão: vão regredir, porque vão ser menos competitivos. E depois há os chineses.
3. A ideia de por a trabalhar todos a trabalhar até aos 67 é em grande parte utópica. Mesmo que a pessoa reúna condições físicas mínimas, não é garantido que ainda faça o trabalho tão bem quanto alguém mais jovem. Não se pode obrigar um professor do Ensino Secundário a aturar as criancinhas até aos 67. Brevemente, o mesmo se aplicará ao Ensino Superior. Pelas mesmas razões.
4. Estamos perante uma luta de gerações. São os nossos filhos que vão pagar as nossas reformas, algo que os nossos netos não vão fazer por eles. Os nossos filhos já estão a ser suficientemente penalizados pela crise actual.

O que é que vai acontecer?
O conceito de idade da reforma vai cair. Como já acontece hoje em dia, cada um de nós vai reformar-se quando quer, recebendo em função das contribuições que fez.
Não vamos poder ficar num emprego pelo tempo que quisermos. Vai ser preciso fazer testes caso lá queiramos continuar, como para a renovação da carta de condução.
Lá por uma pessoa largar a sua actividade principal, não quer dizer que pare de trabalhar. Pode continuar a desempenhar outras funções, eventualmente a tempo parcial.

Sempre pensei ficar a trabalhar até aos setenta. Sempre foi esse o limite na universidade. Agora já não tenho a certeza, não sei se vou ter pachorra para aturar as nossas chatices que inventam todos os dias. Por outro lado, se quiser mudar para outro actividade (bruxo ou algo assim) talvez convenha fazê-lo um pouco mais cedo.

domingo, setembro 5

Como é que alguém consegue viver sabendo que é pedófilo?

Para um homem que vive só, até pode ser fácil. Quando se tem duas filhas, é inevitável que até se faça por esconder o facto de si próprio. Torna-se mais difícil fazê-lo quando todo o país conhece o seu segredo. É por isso que os advogados de Carlos Cruz dedicam quase tanto tempo a tentar ganhar o caso na secretaria como a tentar descredibilizar a justiça.
Os media adoram este reality show. A única maneira de manter a história viva é ir dando tempo de antena às "vítimas". Cruz afirma que tem um convite para um talk show. Não duvido que seja verdade. Clara de Sousa nunca seria capaz de atacar um colega de profissão. Quando o entrevistou, pouco mais fez do que parecer ser agressiva.
Era importante ouvir Carlos Cruz dizer uma vez mais que o facto de o seu assistente pessoal ser um pedófilo condenado e fugido á polícia foi uma simples coincidência. Pois claro que sim...
Convinha perguntar quando é que vão aparecer no blog do CC as denúncias de políticos de outros partidos que também são pedófilos. Ele ameaçou esta semana publicá-las imediatamente após a sentença, não foi? Já agora: se ele não é do meio, como é que tem essas informações?
Carlos Cruz afirma que já não paga há três anos aos advogados. O seu advogado principal anunciou no dia em que aceitou o trabalho que não ia receber um tostão, pois a acusação era demasiado ignóbil. Faz parte das regras do jogo aproveitar todas as hipóteses para obter mais uma vitimização e poupar nos impostos. Já agora, convém ser consistente.
Finalmente, Carlos Cruz vale mesmo a pena gastares todo o teu dinheiro a empatar, empatar, empatar? O O.J. Simpsom foi ilibado, não foi? Valeu a pena? É injusto seres o único português importante que não se escapou à nossa justiça de brincadeira? És suficientemente esperto para teres percebido que não havia escapatória. Tinhas outras opções. Agora já estava tudo acabado.
Quando nos encontramos numa enrascada destas, confiamos naqueles senhores tão simpáticos que nos prometem milagres. Mas esses senhores também têm interesses e uns bolsos muito grandes que nunca se sentem cheios. Serão realmente os teus maiores amigos?