terça-feira, janeiro 17
Teorias da Conspiração
Os Albuquerques
O Padre Manuel Antunes foi um homem extraordinário e um professor de filosofia excepcional. Lamentava o Lino que um programa da TSF sobre este jesuíta se limitasse a discorrer sobre questões políticas menores, ignorando o seu pensamento e sua obra.Por uma vez na vida, vou defender o José Barata Moura. Não se falou do pensamento de MA porque...
esse pensamento não existe. Mas então se ele era um homem extraordinário...
Não há contradição. A filosofia é uma flor muito frágil. Nenhum país onde a Inquisição prosperou teve uma tradição filosofica significativa. Um dos primeiros actos da República foi extinguir as faculdades de teologia das universidades portuguesas, integrando os seus professores nas faculdades de filosofia. Uma medida cosmética com consequencias trágicas.
O regime salazarista nunca estimulou ou sequer tolerou qualquer tipo de reflexão criativa. Bem aventurados eram os pobres de espírito (e só esses). Não existiam em Portugal até há umas décadas atrás cursos de Filosofia mas apenas cursos de Ciências Histórico-Filosóficas. Nestes cursos cultivava-se quando muito o comentário dos grandes autores, o pensamento original estava excluído à partida.
O Padre Manuel Antunes fez o melhor que pôde, e a mais não é obrigado. Perguntava um historiador durante um período menos bom da nossa história. Onde estão os Albuquerques? Deveria ele antes perguntar onde está a sociedade que permite aos melhores de entre nós serem novos Albuquerques.
Não pretendo com este post queixar-me seja do que for. Apenas fazer uma pequena contribuição para que olhemos para o nosso passado com lucidez e sem complexos.
segunda-feira, janeiro 16
domingo, janeiro 15
A Perfeição
Pasmo e desolo-me.
O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar;
deveria inibir-me até de dar começo.
Do livro do desassossego
Bernardo Soares/Fernando Pessoa
Souto Moura, jogador de Xadrez
Vai uma aposta que a pressão sobre o PGR vai aumentar imenso nos próximos dias, mas o PS deixa cair o assunto no Day After?
Não percam o post sobre o PGR da Grande Loja do Queijo Limiano.
sábado, janeiro 14
O PGR e as marionetas
Sampaio ou substitui o PGR antes da eleição presidencial ou já não substitui. Como Cavaco vai ganhar à primeira volta, o PS só dispõe da próxima semana para exonerar Souto Moura. Exonerar ou não o PGR é irrelevante. De qualquer maneira, o seu mandato está a acabar. Não é bem assim. Se Sampaio aceitar a exoneração do PGR durante a próxima semana, terá legitimidade política para nomear o seu sucessor. Caso contrário, o PS terá que discutir com Cavaco a escolha do próximo arquivador.Se as coisas correrem bem, SM é exonerado dois dias antes das presidenciais e nunca mais se fala nisso. O caso das facturas detalhadas surgiu portanto no momento certo. Foi pena que não tivesse sido um jornal mais reputado a lançar a notícia.
Diz-se que só a PGR podia lançar cá para fora as facturas. Mas, quem manda na Portugal Telecom?
Eu até costumo votar PS e votaria Soares contra Cavaco. Não faço parte das forças de bloqueio.
Serão os nossos opinion makers algo mais do que marionetas?
PS: Tinha acabado de escrever o post. Fiz uma busca no Google e encontrei a notícia parcialmente transcrita abaixo.
Resumindo: alguém da PT enviou para a PGR uma folha Excell onde estavam escondidos mais dados do que aqueles que se viam. Esses dados não foram pedidos pela PGR. Ninguém da PGR podia saber que eles estavam lá. No momento certo, esses dados foram enviados cá para fora. Foi repetido até à exaustão que o PGR os pediu, logo isso passa a ser verdade. Quem é que tem a ganhar com esta história? Não é certamente o PGR. Quando voltarmos aos tempos do Arquivador Geral, toda a gente vai ficar satisfeita. vai deixar de haver escandalos e o país volta à normalidade...
A Portugal Telecom (PT) assumiu um lapso na inclusão no processo da Casa Pia da facturação detalhada dos telefones fixos de algumas das mais altas individualidades do Estado, como Jorge Sampaio, Souto Moura, Mário Soares ou Almeida Santos, entre finais de 2001 e Maio de 2002, noticia hoje o Público.
...
Significa então que para além das folhas iniciais de ficheiros de Excel, acessíveis a quem abre o programa e onde só consta efectivamente o número do telefone fixo de ex-deputado socialista, existe outra informação que se encontra filtrada. É então aí que estão “escondidos” todos os registos telefónicos envolvendo individualidades como Jorge Sampaio, Souto Moura, Mária Soares ou Almeida Santos.
No entanto, segundo o jornal, alguma informação que suporta o envio desses registos continua sem fazer sentido. Por exemplo, existe um documento no processo, assinado por Maria de Lurdes Cunha, funcionária da PT, que dá conta do envio das disquetes, explicando que tal seria para satisfazer «o prometido na reunião no DIAP», no dia 29 de Abril de 2003. Não existe qualquer registo desse encontro nas milhares de folhas que constam nos autos.
Caridade (4): um conto científico
Sábado à noite no Mathematisches Forschungsinstitut Oberwolfach. Chegou o último autocarro com participantes nos New Developments in KAM theory. A conferência começa na manhã seguinte.
Luís encontra Mawhinski na sala de estar. Hello John, lembra-se do problema de que lhe falei em Lisboa? Gostaria que trabalhasse comigo nele. Seria uma honra se aceitasse. John olha através dele com um ar cansado e fita a fivela da sandália durante um tempo infinito.
Em Carcavelos, a Matilde afasta a mão do TóZé. Sexo, só às terças-feiras, quando os pais do TóZé vão ao Bingo. No banco de trás do carro, não.
O TóZé era o ponta de lança dos juvenis do Estoril. Quando terminou a idade das ilusões, transferiu-se para o Talho Central de Carcavelos. As matronas da Linha desenvolveram rapidamente uma apetência especial pelos bifes cortados pelos seus biceps.
A Dona Laura, a colega da mãe da Matilde que morava ao pé da estação, disfarçava mal as expressões de ciúme que a assaltavam cada vez que a via.
A Matilde lidava com o mundo apaixonando-se. Quando os pais se mudaram de Viseu para Carcavelos a meio da sua adolescência, apaixonou-se pelo TóZé. O namoro durou três meses. O tempo de ela se adaptar à vida na Linha.
A universidade era um novo desafio. A Matilde apaixonou-se pelo Lino. Uma paixão platónica, que sublima energia sexual em dezanoves.
A ida a Cambridge mudou a sua vida. Já tinha intuido o abismo que separa uma boa aluna de uma boa investigadora. Em Cambridge, contemplou esse abismo. O Lino lembrava-a a cada momento do desafio que a esperava quando acabasse o curso. Nasceu assim uma branda paixão pelo Luís. Um modelo que ela podia compreender e emular.
Seis meses atrás uma nova perturbação tinha mudado a vida da Matilde. Quando se cruzou com o TóZé, o seu corpo quis o dele. Descobriu no sexo uma forma de lidar com o seu espírito.
Mawhinski ajeita a meia direita.
(continua aqui)
sexta-feira, janeiro 13
Negociatas no país que temos
A recta final das presidenciais é o momento certo para fazer aquelas coisas que noutra altura dariam muito nas vistas. Ficamos a saber pelo DN que a Universidade Moderna pretende alienar os terrenos onde funcionam as suas instalações. Estes terrenos situam-se junto ao mar, a umas centenas de metros do CCB. Pretendem construir lá um condomínio de luxo. São provavelmente os melhores terrenos disponíveis para construção actualmente existentes em Lisboa. A oração de sapiência
A oração de sapiência é uma tradição medieval. É amplamente cultivada por muitas instituições universitárias portuguesas. Em especial por aquelas cujas origens remontam pelo menos à última década do milénio passado. Na sessão solene de abertura do ano lectivo, um professor especialmente convidado para o efeito profere um discurso sobre um tema à sua escolha. O importante não é o tema ou as ideias que expressa mas sim a forma como fala, o seu domínio da oratória.Na Idade Média era vulgar o primeiro capítulo de um livro ser destinado apenas a mostrar os dotes oratórios do autor, tendo pouca ou nenhuma relação com o resto da obra. Michel Foucault recuperou essa tradição em 1966 com Las Meninas.
Quatro anos antes tinha-se iniciado um dos grandes clássicos do cinema, a série 007. Todos os filmes desta série começam com uma cena que não tem nada a ver com o resto do filme. Esta cena destina-se apenas a realçar as extraordinárias capacidades de comandante Bond. Uma versão cinematográfica da oração de sapiência.Humberto Eco, um medievalista famoso, elabora a síntese entre estas duas versões da oração de sapiência n'O Nome da Rosa. Na cena inicial o Abade Guilherme demonstra-nos as suas excepcionais capacidades intelectuais ao descrever um cavalo que nunca viu. Até descobre o seu nome.
Já tropeçaram nalguma oração de sapiência?
quinta-feira, janeiro 12
Alguém me esclarece?
Acham que sim? O que será o despertar religiosos de um recém nascido?
Falemos então de Fé
Vamos a um exemplo. Um casal tem dificuldade em ter filhos. Infelizmente um problema cada vez mais actual. Não há nenhum impedimento claro, mas a verdade é que já tentaram várias técnicas e nenhuma resultou. Completaram recentemente trinta e cinco anos. O casal também enfrenta um desafio profissional sério. Acabaram os dois o mestrado e as suas universidades dão-lhes quatro anos para terminar o doutoramento. É a sua fonte de subsistência que está em jogo. Estes dois problemas interferem um com o outro. O stress resultante do desafio profissional interfere com o problema de fertilidade. O stress resultante de abandonar o desafio profissional também interferiria com o problema de fertilidade. O tempo e a atenção que gastaram a tratar do problema de infertilidade complicou-lhes a carreira académica.
Depois de uma longa meditação o casal conclui que o problema do doutoramento depende essencialmente deles, o problema da fertilidade não. Decidem deixar o problema da fertilidade nas mãos de Deus e dedicar todas as suas energias ao doutoramento durante dois anos. Nessa altura, reavaliarão a situação. Quem sabe, se se descontrairem um pouco até o problema se resolve por si próprio...
Será que vão conseguir seguir este plano? De que depende o seu sucesso? Eu diria que depende da intensidade da sua Fé. Só a sua Fé os pode salvar. Só a sua Fé os pode manter focados no objectivo e lhes pode manter a angústia a um nível suportável.
Esta Fé não tem de ser entendida no sentido cristão do termo. Pode-se ter esta Fé sendo ateu. Não é claro que todos os cristãos a tenham. Pode-se reescrever tudo o que eu disse até agora sem envolver qualquer terminologia religiosa.
Vamos a um segundo exemplo. Eu diria que é uma manifestação de Fé ser capaz de discutir abertamente todos os temas, sem fugir às questões. Ter a Fé de acreditar que nada de verdadeiramente importante em nós poderá ser destruido se abrirmos as defesas numa conversa sobre aquilo em que acreditamos. Quem não a tem também não é capaz de pensar livremente. Ser-lhe-á difícil encontrar soluções para os seus problemas. É um homem de pouca Fé...
Acreditar na virgindade da mãe de Jesus, na divindade de Jesus, ou no mistério da santíssima trindade são manifestações de Fé? Contribuem de alguma forma para que nos possamos ajudar a nós mesmos e ao próximo nos sentido de viver em maior harmonia as nossas vidas? Não serão manifestações do medo de sermos excluidos do grupo?
É preciso muita Fé para acreditar em algumas coisas racionais e ter força suficiente para as concretizar. Quando formos capazes de tratar destas, poderemos então preocupar-nos com as outras...
Ousar expressar a Fé de uma das duas maneiras referidas acima é perigoso. É preciso ter uma estrutura mental sólida e as ideias bem organizadas. É preciso ter uma Fé poderosa e entendê-La.
Como podemos fortalecer a nossa Fé?
quarta-feira, janeiro 11
Diego Velázquez, Las Meninas
nesse esconderijo essencial em que o nosso olhar se subtrai a nós mesmos no momento em que olhamos. O espectáculo é também duplo. Nós e o modelo que ele realmente observa.Da direita, derrama-se por uma janela invísivel o puro volume de uma luz que torna visível toda a representação. O fluxo de luz que ela espalha banha com a mesma generosidade a superfície da tela e o volume real que o espectador ocupa (o sítio irreal do modelo).

Na parede que constitui o fundo da sala, o autor representou uma série de quadros. Entre todas essas telas suspensas,
uma brilha com singular fulgor. Mas não é um quadro, é um espelho. O espelho nada mostra do que o quadro representa. O que nele se reflecte é o que todas as personagens da tela fixam nesse momento, olhando em frente, diante delas. As figuras que o pintor olha e representa na tela.Ao lado do espelho recorta-se um rectangulo cuja luz dourada não irradia pela sala. O homem que nos fita é o contraponto do casal real reflectido no espelho. Tão próximos quando não podiam estar mais distantes.
O primeiro e o segundo plano do quadro representam oito personagens. O centro do grupo é ocupado pela pequena infanta, com o seu amplo vestido cinzento e rosa.
Uma linha que dividisse o quadro ao meio passaria entre os olhos da princesa. O seu rosto está a um terço da altura total do quadro. É ela o tema central da composição. À esquerda, uma aia de joelhos contempla-a. Tal como o anjo contemplando a Virgem nas composições clássicas, sublinha a sua importância.
À direita, outra aia enquadra Margarita. Esta aia olha para o casal real, o outro centro organizador da composição, situado simultaneamente dentro e fora da tela. Na extrema direita, o anão da princesa ocupa mais ou menos o mesmo espaço de tela, sublinhando a sua elegância.Perante a recusa de Margarita em posar mais uma vez,
Velázquez convidada-a a assistir a uma sessão do retrato dos pais e subverte todos os canones da representação. O quadro representa aquele que representa, o pintor, e aqueles que assistem ao acto da representação. O modelo a ser representado está fora dela ou quase, remetido para um reflexo no espelho, e no entanto é o polo organizador de toda a cena.Este post é baseado no texto dedicado por Michel Foucault à genial tela de Velasquez que podem ver aqui. Mais estudos sobre este quadro aqui, aqui, e aqui.
terça-feira, janeiro 10
Caridade (3): Um conto científico
Quando o Luís saiu do carro deu de caras com o Lino. Agradeceu-lhe a cotovelada com um sorriso de circunstância. O Lino retribuiu a delicadeza não perguntando o que ele estava ali a fazer, completamente fora de si.
Uma hora antes o Lino não conseguia disfarçar a sua raiva perante a imbecilidade do Luís. A Matilde arrastava as duas amigas do restaurante para o café, perdida de amores pelo Luís, sem que este se apercebesse do que quer que fosse. Só tinha olhos para o John. O Lino estava irremediavelmente apaixonado pela Matilde, que o ignorava. Este paralelo irritava-o mais do que tudo o resto.
O Lino foi tutor da Matilde quando esta entrou na universidade. Empenhou-se a fundo, como era costume em tudo o que fazia. Arranjou-lhe uma bolsa para um curso de verão em Cambridge. Quando deu por isso, já estava irremediavelmente apaixonado. Aquelas pernas longas terminadas em olhos transparentes envolviam-no durante sonhos húmidos.
A Matilde voltou das férias com as marcas do bikini a sair das calças de cintura descaída. O Lino começou a baralhar definições, errar cálculos, empastelar demonstrações. Perfeccionista compulsivo, se algo corria mal tudo acabava por correr mal. Como sempre, foi a investigação que mais sofreu. Os colegas só murmuravam comentários nas suas costas mas tudo se lhes adivinhava no olhar. Não tinham coragem de lhe dizer nada. Com excepção do Luís, claro. Até isso o Lino tolerava. Sempre tinha achado graça ao feitio conflituoso do Luís, uma novidade refrescante no ambiente do departamento.
Até ao dia em que o Lino suspeitou que a Matilde estava interessada no Luís. Aí, as coisas complicaram-se. Sempre que o Luís iniciava uma cruzada contra algo ou alguém, o Lino desmontava o seu raciocínio, expunha as suas motivações ou ridicularizava as suas intenções. A plateia aplaudia. Vindo do Lino, uma dos poucos colegas que o Luís respeitava, estas palavras certeiras feriam como punhais. A escalada do conflito continuava e já se faziam apostas sobre o seu desenlace.
Quando a Matilde se sentou na mesa ao lado do Lino, a bandeja dos cafés descontrolou-se. Quando o seu cotovelo finalmente encontrou um apoio, as faces coradas da Matilde deram ao Lino a certeza de que ela finalmente descobrira a sua existência.
(continua aqui)





