quinta-feira, junho 30

Sundown

Foram escolhidas traduções do Haiku Sundown feitas pelo Faber Castell, pela M, pela Sofia e pela Wind. Podem vê-las aqui.

quarta-feira, junho 29

O metro e os arquitontos

Eu concordo com o que o OMWO escreveu aqui. Como se não bastasse a má qualidade da cobertura que as linhas do metro de Lisboa proporcionam, os desgraçados dos utentes ainda têm que suportar um inferno audiovisual de mau gosto. Tudo começou com música a metro, simplesmente: e estavam tão empenhados em que não perdêssemos pitada que o volume subia automaticamente quando um comboio entrava na estação. Agora temos um metrocanal de tv. (Eu não sei qual é a sensibilidade dos meus concidadãos a estes factos. Uma tortura ainda mais abominável, de resto, é infligida durante um mês por ano aos habitantes de certas freguesias de Lisboa onde se festejam os santos populares. É provável que os infelizes já nem notem. Não obstante, a legislação sobre ruído deve ser mais que abundante, mas é claro que isso não interessa para nada.)

O metro de Lisboa sempre se caracterizou por se ocupar dos aspectos de que não se espera que se ocupe e por negligenciar os que verdadeiramente lhe competem. Dá-nos arte em certas estações, agride-nos com o metrocanal e não planeia a rede de modo a resolver alguns problemas de transporte cruciais da cidade: as novas linhas foram traçadas mais ao sabor das possibilidades de especulação imobiliária do que ao longo das zonas com alta densidade populacional que seria importante descongestionar do transporte privado.

A arte que nos dá também tem que se lhe diga. Eu não acho mal que se cubram as paredes com azulejos de autor ou que nos lembrem que alguém disse Ah, se eu não morresse nunca etc, mas quando a arrogância dos arquitectos me obriga a percorrer um caminho que é três vezes mais longo do que poderia ser, para ir dos canais de entrada até às carruagens e vice-versa (sucede em todas as mais recentes estações), aí apetece-me praguejar. O fenómeno é comum em obras públicas recentes, em que estes arquitontos, não sujeitos ao controlo dos utilizadores directos, dão largas ao desprezo que têm por estes. No nosso metro, resolveram alongar o percurso a que somos obrigados, para não deixarmos de apreciar a sua arte em toda a extensão que julgam que ela merece.

O Anti-Zen

(Se) O Zen é: viver (n)o momento...

Vivemos num mundo anti-Zen. Nunca nos é permitida a concentração. Nunca nos é permitido o vazio. Tarefas para hoje: Tenho exames para corrigir, tenho exames para preparar, tenho que marcar as férias, tenho que comprar o selo do carro, tenho que ver se está na altura da inspecção, tenho que comprar o passe, tenho que ir ao dentista, tenho reunião de condomínio, tenho que ...tenho que...tenho que.... a vossa lista, é muito diferente? Se inclui rebentos, que Deus vos guarde...

No metro, para além da barulheira dos ecrans televisivos há uma voz feminina que anuncia a cada cinco minutos: "é proibido fumar nas instalações do metopolitano de Lisboa". Curioso. Eu nunca tinha visto ninguem a fazê-lo. Será preciso avisar as hordas invisíveis de fumadores subterrâneos a cada 5 minutos? Será que é essa voz incorpórea que nos salva de sermos asfixiados pelas multidões de chain-smokers em fúria? Ou estará lá para nos salvar, isso sim, do perturbador silêncio? O silêncio, essa besta que induz o pensamento, porque a mente abomina o vazio...

Sera isto um acidente? ou será que os capatazes finalmente decidiram que é preciso negar às massas todo e qualquer tipo de pensamento para se manterem no poleiro? Será isto uma escalada da violência, da desinformação, da interferência no canal, do aumento do quociente ruído/sinal, uma tentativa de lobotomia audio-visual colectiva?

Defendamo-nos, camaradas, daqueles que pretendem subverter os nossos preciosos processos mentais! Às armas, às barricadas, o povo unido jamais...hâ? Ah, hum, ok, voltamos a falar disso depois, está na hora de passear o cão, pôr os putos na cama, lavar a louça, eu compreendo...adiemos a revolução para um horário mais conveniente...podes na Terça?

Boas notícias para a Europa


França vai acolher primeiro reactor experimental de fusão nuclear.

terça-feira, junho 28

OMWO

O novo membro do blogue não precisa de apresentação. Para mim ele continua a ser o A.

You are watching Big Brother



Por vezes temos que abandonar o mundo. Há alguns meses atrás decidi desligar a televisão, acabar com as conversas de café, abandonar o planeta dos assuntos correntes, e mergulhar na anacorése. Decidi seguir o caminho inverso ao do Zaratustra e refugiar-me na caverna que ele deixara vaga ( Não, não proponho isto para toda a gente. Era só adequado para mim, e para um certo momento. Que mania que os humanos têm de esperar que justifiquemos as nossas decisões pessoais com o peso da doutrina e a força de um quantificador universal! ).

Foi belo: "Não, eu não sei que o governo mudou. Não, eu não sei que começou uma guerra. Não, eu não sei que musica é essa. Não eu não sei quem ganhou o campeonato. Não, não sei, e por favor não me contes!"

E eu que costumava ser um rapaz tão bem informado....

Quando apesar de tudo mo contavam, via que recuperava o fio à meada em poucos minutos. O mundo dos assuntos correntes é uma telenovela brasileira. Dá a impressão de que se passa muita coisa, mas ao fim de dez minutos ja percebemos o que se passou em seis meses. É porque se passa sempre o mesmo!...

Várias vezes veio à minha porta um funcionário da TV cabo, determinado a tentar-me. Pobre Mefistofeles, nada conseguiu:

"Não, eu não tenho televisão. Não, não está a perceber, eu não dise que não tenho TV cabo. Eu não tenho TV. De todo. Sim, eu estou a falar a sério. O sr. nao percebe. Eu sou o mestre Zen. Eu sou o pequeno centro estável em torno do qual gira o Universo.Sim, eu sinto-me bem assim."

I am jack's raging indifference to the World

Oh, a televisão ainda cá está. Afinal, o profeta afirmou que a revolução vai ser transmitida em directo e eu não gosto de
perder o verdadeiro entertainment(Apocalipse 11:18). Quem quiser ver TV na minha casa está à vontade, não sou nenhum fundamentalista! Basta atravessar o campo de minas e o arame farpado para ligar a minha velha SONY de 13 polegadas com a imagem aos saltos e o som a estalar e a antena meia partida. Chega para uma emergência (é favor quebrar o aquario com o martelinho vermelho e secar o aparelho antes de usar. Cuidado com as piranhas).

Vivia apenas para as coisas eternas. Os livros em vez dos jornais. Bach em vez dos jingles. O Zen em vez das notícias."Ganda jogo, pá!", diziam-me. Eu sorria inocentemente, repleto de beatitude, com ar de pastorinho iluminado, ignorante de tudo excepto dos desígnios do Senhor. Já esperava a visita dos anjinhos, já esperava que Krishna me mostrásse a sua verdadeira forma...e de súbito...

E de súbito colocaram ecrans no metropolitano. Qual a minha surpesa, entro no metro e sou bombardeado com luz e som. A imagem ainda vai, mas "os ouvidos nao têm palpebras", dizia o Pascal Quignard. Nao há como escapar. Em poucos segundos
fiquei a saber quem era o Presidente da Republica ( era o mesmo, nada muda ) quem era o Primeiro Ministro ( era outro, nada muda ), que estavam todos preocupados com a insegurança ( como sempre ), e mais importante de tudo, sou "discretamente" informado, aos berros e com musica histrionica à mistura, de que cuecas, fraldas, telemóvel e automóvel devo comprar esta semana.

I am Bill's scorching anachoretic remains

Escrevi um mail ao metropolitano de Lisboa. Responderam-me com um enlatado, dizendo que o propósito dos ecrans no metro era "formar" e "informar". Deformar parece ser mais o caso. Especialmente quando foi admitido recentemente que "se as torres caíssem hoje isso não passava logo no metro". Nada de notícias a sério, só padding para anúncios, só coisas leves "adequadas ao local", género programa da manhã para velhotas e indigentes. Para que servem os meus impostos? Para que serve o preço do meu bilhete? Ainda tenho que ouvir a publicidade mal disfarçada de notícia? Ainda tenho que ser submerso em lixo? Para quando os forceps oculares, a la Clockwork Orange para prender ainda melhor a minha atenção à "mensagem"?

No dia seguinte, de volta às catacumbas do metro, fui informado de que havia um grupo de faux-pseudo-semi-meta-celebridades retardadas fechado numa quinta qualquer onde os quadrúpedes eram mais inteligentes do que os bípedes. Isto, claramente, era uma versão rural do Big Brother, à qual eu tinha sido misericordiosamente poupado até este trágico instante.

E de repente fez-se luz.

George Orwell estava errado. Isto é finalmente 1984, mas a tragédia absolutista não é que o "Big Brother is watching You".

A tragédia é que "You are watching Big Brother". Quer queira quer não.

Perguntar não ofende

Quando eu morrer, podem esquartejar-me à vontade desde que isso possa ajudar alguém a viver mais uns anos. Algumas pessoas não pensam assim. Estão no seu direito. Conheço algumas que até foram assinar o documento que impede os médicos de um hospital de lhe retirarem um órgão para salvar uma vida. Essa pessoa continua a ter o mesmo direito que eu a poder beneficiar de um transplante de um morto, caso necessite dele.
Será inteligente da nossa parte dar-lhe esse direito?
Será que ele assinaria o papel se tivesse no mesmo momento de abdicar do direito de vir a beneficiar de um transplante, ou perdesse a prioridade no acesso a transplantes?
Seria razoável implementar essa medida?
Discutir isto é secundário ou é de alguma forma relevante?

segunda-feira, junho 27

Zen


Lembro-me muitas vezes de um desempenho do Joaquim Monchique que ouvi o ano passado nos cromos TSF. Não por causa das graças do bispo Tadeu, mas porque quando estava a ouvir o programa de rádio eu estava mais vivo do que o costume. Era mais eu. Talvez porque tinha acabado de fazer uma hora de meditação Zen num pequeno templo que existe no quintal de um prédio na Morais Soares.

O que é que se passou na sessão de meditação? Dois períodos de meditação de meia hora na posição de lotus, tomando consciência do nosso corpo, da forma como respiramos, sem interferir. Não devemos estar a pensar em nada mas se fizermos um esforço nesse sentido obteremos o resultado contrário. Temos apenas de deixar os pensamentos passar, de forma desapegada. Durante o intervalo caminhamos lentamente em torno da sala, desentorpecendo as pernas, continuando a meditação. No final realiza-se um pequeno ritual.
A postura é extremamente importante. Os joelhos devem pressionar o chão. Só assim conseguimos manter uma posição estável e as costas direitas. Enquanto os nossos joelhos pressionam a terra a nossa cabeça caminha para o céu. É como se o nosso corpo estivesse em perpétua expansão.

Passamos as nossas vidas remoendo o passado, preocupando-nos com o futuro, desperdiçando o presente. A única coisa que o Zen tem para nos dar é ajudar-nos a viver um pouco mais intensamente cada momento. Mas isso é quase tudo.
Mas afinal porque é que é importante estar sentado sem fazer nada durante uma hora? Não podíamos aproveitar melhor o nosso tempo? As zonas mais primitivas do cérebro estão constantemente a vigiar o equilíbrio do corpo humano através da análise da temperatura do corpo, da composição química do sangue e de outros indicadores do mesmo tipo, tomando medidas para corrigir os desiquilibrios encontrados. Quando o stress aumenta o sistema nervoso central não pode dar a atenção necessária ao nosso corpo. Períodos prolongados de stress põem a nossa saúde em risco. A adopção da postura e da respiração correctas, acompanhadas da redução da actividade intelectual criam condições para que o nosso sistema nervoso possa restabelecer o equilíbrio da nossa fisiologia. Todo o nosso organismo é assim revigorado.
A meditação Zen é um método de treino da consciência através do treino do corpo. A forma de consciência mais básica, a pura consciência da existência, está associada aos mecanismos de auto regulação referidos acima. A forma com esta consciência está relacionada com a actividade do neocórtex é complexa. A descrição dada por António Damásio para os mecanismos que explicam estas relações parecem estar em concordância com as concepções tradicionais do Budismo Zen. Em particular com os ensinamentos de Taizen Deshimaru (foto abaixo). Podem encontrar aqui um interessante artigo sobre este assunto.

Passamos a vida a ouvir falar da necessidade de realizar actividades de relaxamento. Relaxar não resolve nada. Podemos sempre relaxar afastando-nos dos nossos problemas. Se estivermos em risco de perder o controle das nossas vidas, convém que o façamos. Mas quando temos de voltar a enfrentá-los...
Aquilo que necessitamos é de awareness: consciência do nosso corpo, de cada uma das suas partes, daquilo que nos rodeia, do aqui e do agora. É essa consciência que podemos reforçar regularmente através da prática da meditação Zen. Só assim conseguimos ultrapassar situações de stress com danos mínimos. Quando tomamos consciência de uma parte do corpo, o sistema nervoso autónomo dá-lhe mais atenção, aumenta a irrigação sanguínea nessa zona. As tensões diminuem. Reciprocamente, quando surgem problemas numa zona do corpo, a nossa consciência dessa zona diminui.
Só fui uma vez ao dojo Zen da Morais Soares. Pratiquei este tipo de meditação durante alguns meses num pequeno templo budista a caminho para a minha universidade. A minha postura do lotus é muito má e isso complica as coisas. A meditação Zen é um outro nome para o Raja Yoga. As diferenças são mínimas. É muito difícil permanecer em lotus durante meia hora sem tonificar e alongar o corpo com a prática regular de alguns exercícios de Yoga. Como escrevi aqui o Yoga nasceu a partir deste tipo de meditação. O (Hatha) Yoga também proporciona todos os benefícios da meditação Zen, embora de uma forma diferente.

A meditação Zen é uma técnica que não tem nada a ver com uma religião específica ou sequer com um sentimento de religiosidade. Podem ver aqui a foto de um dojo zen cristão na Alemanha. Estes cristãos já perceberam que olhar para o corpo como algo perecível e descartável não é a melhor solução para viver plenamente a vida.

domingo, junho 26

Um pequeno teste político

O objectivo deste teste é determinar o seu grau de clubite política. Escolha quatro concelhos que lhe digam alguma coisa e diga em que partido político pensaria votar nas próximas autárquicas em cada um deles.

Diagnóstico: se consegue votar em três partidos políticos políticos diferentes, os meus parabéns. Se só consegue votar em dois faça um pouco de ginástica. Que tal votar noutro partido para a Junta de Freguesia? Ou para a Assembleia Municipal?
Se vota sempre no mesmo, imagine ao menos que votava noutro. Seria assim tão horrível? Se o seu voto está cativo à partida, não há razão nenhuma para que eles se preocupem consigo. Existem métodos estatísticos que permitem medir a clubite média de cada região. Alguns eleitores são menos iguais do que outros. E você é um deles.

sábado, junho 25

Sundown




Sundown
Cabin lights strech
onto the lake

Aqui fica mais um haiku para traduzir!
Imagem daqui.

O Sagrado e o Profano

Os temas tratados neste blogue flutuam um pouco ao sabor dos acontecimentos. Ultimamente destacaram-se dois temas. Os problemas de segurança e questões religiosas. Estes dois temas não estão assim tão separados. Vou resumir o que se passou correndo o risco de simplificar demasiado as coisas.
O Lutz levantou o problema da existência do Diabo para os cristãos. Os cristãos conservadores acham que existe. Eu lembrei que o diabo é o bad cop que é fundamental para que o sistema funcione. É o Diabo que pune os que prevaricam. Os cristãos mais progressistas ficaram numa posição delicada, pois não queriam cair em heresia. Depois de uma longa discussão chegou-se a um certo consenso entre a Maria da Conceição, O CA, a MaDi e eu, entre outros. Os cristãos progressistas afirmam que o Diabo não existe própriamente e não compete à religião punir ninguém, que as pessoas se punem a elas próprias ao se afastarem do bem. Não é esta a minha opção, mas acho-a coerente e respeito-a. Passemos então do sagrado para o profano.
Os comentários do CA ao post do Lino parecem indicar que ele transpõe para o profano a sua posição religiosa. Obviamente que o pode fazer, enquanto alguém lutar para que esta sociedade funcione e ele possa viver numa democracia. Será essa a única atitude coerente?

sexta-feira, junho 24

Expedientes

O meu pc resolveu tirar umas férias. Foi só por isso que não cumpri a minha penitência, Sofia.
Nos tempos que correm temos de usar alguns estratagemas para nos desenrascarmos. Contaram-me ontem este:

Cheguei hoje a casa e descubro que estão quatro ladrões a roubar carros na garagem. Telefono à polícia. Dizem que agora não podem vir, não há viaturas disponíveis. A necessidade aguça o engenho. Passados dois minutos telefono novamente. Senhor guarda, já não precisa de vir. Já matei os ladrões. Dez minutos depois aparecem dois carros da polícia e uma ambulância, cercam o prédio e acabam por prender os ladrões.
Então o sr. não tinha morto os ladrões?
Então o sr. não podia vir?

Factos politicamente incorrectos


Pim Fortuyn, era um professor universitário que considerava que os imigrantes muçulmanos radicais estavam a ameaçar a sociedade holandesa, pois não respeitavam os valores da tolerância e democracia. Pretendia que fossem criadas limitações à sua imigração para a Holanda. Era um indivíduo bastante complexo a quem era difícil enfiar a carapuça racista. Por exemplo, era um homossexual assumido.
Considerava que a Holanda, com 16 milhões de habitantes, não podia continuar a receber 40.000 exilados por ano. Pretendia restringir fortemente a imigração de muçulmanos, garantindo a nacionalidade a muitos dos que já lá se encontravam, desde que aceitassem a democracia, os direitos das mulheres e dos homossexuais e renegassem práticas como o apedrejamento dos adúlteros e o a decepação das mãos dos ladrões.
Foi eleito primeiro candidato de um novo partido que pretendia concorrer às eleições de legislativas de Maio de 2002. Uma sua entrevista a um jornal levou à sua demissão do partido. Na sequência dessa demissão criou um outro partido. Muitos dos seus apoiantes seguiram-no. Em Março de 2002 o seu partido obteve 36% dos votos nas eleições locais em Roterdão, tornando-se a maior força política da cidade. O Partido Socialista perdeu as eleições pela primeira vez desde a segunda guerra mundial.

Fortuyn foi assassinado por um ecologista defensor dos direitos dos animais chamado Volkert van der Graaf poucos dias antes das eleições nacionais. O seu partido obteve 17% dos votos nessas eleições. O seu lugar foi tomado pelo número dois do partido, um negro de origem cabo-verdiana.
Esta história foi rapidamente calada pela comunicação social.
Amanhã apresento um facto politicamente incorrecto onde os muçulmanos são os bons da fita. Adivinham qual é?

To find the moon

Lembram-se do tempo em que neste blog se traduzia umas poesias? Um leitor do Prozacland escolheu as traduções de To find the moon feitas pela Sofia, pela Wind e pelo Faber Castell. Podem vê-las aqui. Voltaremos em breve com mais uns desafios poéticos.

quinta-feira, junho 23

...Blog existo

Faço minhas as palavras do Lutz. Foi o ...Blog existo que me contaminou com esse vírus não identificado que leva alguém a ter a ideia louca de se meter num blog. Parabéns pelo dois anos!
O post de hoje deste blogger veterano devia ser motivo de reflexão para todos os bloggers.

Vem aí um Le Pen?


O desemprego em Portugal vai continuar a aumentar. Estamos a passar pelos fenómenos que ocorreram em Espanha no tempo de Felipe Gonzalez. Agravados por um período de diminuição de fundos comunitários, crescimento da economia chinesa e aumento dos preços do petróleo. Os tempos difíceis ainda nem começaram. Eu esta semana estou optimista. Quando ando pessimista, faço posts sobre yoga.

Existem três grupos sociais que podem criar problemas sérios:
A comunidade imigrante, principalmente os imigrantes de segunda geração. São sempre os primeiros a sentir os efeitos da crise económica.
Os desempregados de longa duração que vão ser criados pela crise económica. É possível que cresçam as aitudes racistas e as atitudes xenófobas em relação aos emigrantes de leste. Especialmente quando eles começarem a subir na escala social.
Os filhos família com expectativas extremamente elevadas que não conseguem sequer sair de casa dos pais. O comportamento político destes jovens é completamente imprevisível e potencialmente explosivo. Ninguém lhes explicou que a vida é difícil. A sua fúria será mais do que justificada.

A emigração em Portugal segue a percurso da emigração em França com uns anos de atraso. O aparecimento de um partido ao estilo Front Nationale em Portugal na próxima década é uma possibilidade muito séria. Muitos dos votantes da Front Nationale eram antigos comunistas. Agora que Cunhal morreu, esse tipo de transição torna-se possível. A nossa sociedade civil não se pode dar ao luxo de não olhar para estes problemas de forma racional. Se ignorarmos os problemas, eles não vão desaparecer.
Ser inconveniente a ponto de levantar a possibilidade do aparecimento de um fenómeno Le Pen em Portugal não significa nem de perto nem de longe que eu desejo que tal aconteça.

Acreditam que existe o risco de surgir uma partido racista em Portugal com mais de 10% dos votos? Porquê?
Se acreditam, que podemos nós fazer para o evitar?

Para um arrastão não traumático

Anuncia-se para este verão um forte policiamento das praias. Como é difícil com lençol curto tapar os pés e a cabeça, arriscamo-nos a ter problemas em terra.

Tem-se registado uma preocupação grande entre as populações e em vários sectores de opinião, na sequência do caso do arrastão e das notícias sobre assaltos em comboios. As preocupações vão em sentidos desencontrados: há quem receie a insegurança e há quem esteja mais inclinado a denunciar os riscos de surgimento de racismo e xenofobia. Esta última atitude tem sido bem visível em declarações do BE e de sectores próximos de outros partidos que se convenciona referir como de esquerda e dá voz ao sentir de estratos sociais numericamente significativos. Uma discussão que teve lugar neste blog a respeito do assunto é exemplo ilustrativo.

Foi aqui proposta e debatida uma ideia para resolver o problema. Consiste em treinar os cidadãos em artes marciais para fazer face a eventuais tentativas de agressão. Eu creio que a ideia peca por não ser universalmente aplicável: não podemos exigir isso a crianças, senhoras e idosos, o que os tornaria presas ainda mais fáceis.

Em contrapartida, lanço aqui uma proposta diferente. Trata-se apenas de pôr as pessoas certas nos lugares certos: como agora se diz, fazer uma gestão eficiente de recursos humanos. Em particular, dispensa o policiamento intensivo de certos locais deixando outros em perigo. E procura harmonizar as preocupações de sentidos diferentes.

1. O BE e demais partidos interessados promoverão a formação de uma bolsa de cidadãos, que poderemos designar por arrastados voluntários, dispostos a cooperar na operação. Estes cidadãos deverão comprovar um elevado sentido de culpa pelo passado colonial europeu e tendências fortemente multiculturalistas, tudo certificado pelos Drs Júlio Machado Vaz e Daniel Sampaio.

2. A CP cria uma carreira semanal Benfica-Cacém e volta, onde voluntários recrutados têm passagem gratuita. Cada voluntário deve ser portador de um telemóvel com ecran a cores e 50 euros (assalto mínimo). O horário será divulgado junto dos potenciais interessados em arrastar o que quer que seja, juntamente com a indicação de que a PSP se compromete a manter-se longe dos locais de trajecto durante a viagem.

(A julgar pelos indícios que temos, voluntários não faltarão. E a operação deixará todos felizes. Algum jornalista que queira inteirar-se do sucedido terá dificuldade em saber quem é vítima de quem.)

3. Para evitar cair na monotonia pode reservar-se, uma vez por mês, uma carruagem destinada aos rapazolas que promoveram a manifestação no Martim Moniz. Esses estão dispensados de levar o telemóvel e os euros.

Eu não me ofereço porque entendo que já dei o suficiente. Tendo morado durante 15 anos numa rua de Lisboa vizinha de bairros problemáticos, fui assaltado três vezes, por pequenos grupos (nunca mais de 12 jovens), tendo-me sido arrastados 3 telemóveis e alguns euros. Também tive um vidro de um carro partido e levaram-me o canhão da ignição. Por duas vezes ao dirigir-me para casa tive de ir dar uma volta para bem longe porque um grupo que eu já bem conhecia estava à porta do prédio para ver quem chegava. Certa noite um vizinho meu foi espancado no hall e não me apetecia que repetissem a mesma dose comigo.

quarta-feira, junho 22

Crime e Castigo


Para que a sociedade funcione, convém que exista a polícia. Convinha também que no fim das nossas vidas fosse feito um balanço. Que se separassem os bons dos maus. Que se premiassem os bons e se castigassem os maus.
Isto porque todos nós sabemos que a polícia não resolve todos os problemas. Para além do mais do mais, existem muitos actos imorais e altamente lesivos para quem os sofre que não infringem a legalidade.
Na catequese forneceram-me um modelo que fazia sentido. Depois da morte os bons, os maus e os assim-assim eram separados. Os assim-assim juntavam-se aos bons depois de purgados. Os maus eram torturados pelo Diabo. O Diabo era um uma espécie de bad cop. Castigava os maus, portanto servia o Bem.
Se não existe diabo (e não existe inferno), qual é o castigo para os nossos pecados?
Qual é a razão para ser bom?
A questão põe-se em dois planos. O plano teológico, aquilo que se ensina às pessoas cultas, e o plano catequético, aquilo que se ensina às massas incultas. Sei que não estou a usar correctamente as palavras teológico e catequético.
Se no plano teológico não se tiver uma boa resposta, a morte do Diabo acarreta a morte de Deus. Se no plano catequético não tivermos uma resposta, ficamos um passo mais perto da anarquia.
As minhas respostas, numa versão simplificada: Os Maias, e a polícia.
Gostava de saber a resposta dos cristãos. Penso ter percebido a posição do Bernardo Motta: o inferno existe. Quanto à Céu, à Maria da Conceição e ao CA, não imagino qual possa ser a sua resposta.

terça-feira, junho 21

O essencial e o acessório 2


Como a corrupção no futebol ultrapassou novamente todos os limites, há que fazer alguma coisa para que fique tudo na mesma. Como os árbitros agora são nomeados, vão passar a ser sorteados. Quando são sorteados, voltam a ser nomeados.
Toda a gente sabe que o problema da arbitragem é o método como os árbitros são avaliados. Mas se mudassem o método de avaliação, corriam o risco de acabar com a corrupção no futebol.

O catecismo e o diabo


A propósito de um post sobre o diabo no catolicismo, que apareceu no Espectadores o Lutz pediu comentários aos amigos católicos. Aqui ficam alguns comentários (sobre os vários posts) que, pela sua extensão, me pareceu que mereciam um post. Encorajam-se naturalmente comentários.

Há um núcleo restrito da doutrina católica que corresponde aos dogmas ou verdades da fé e que, esse sim, é o que define o catolicismo. E mesmo as verdades da fé são expressões humanas de uma realidade que transcende largamente a nossa inteligência, pelo que nunca deveriam ser abordadas com a arrogância de certos movimentos mais conservadores. Bem podemos dizer que sabemos tudo sobre Deus, os anjos e os demónios que, se isso não servir para vivermos a vida a amar como Deus ama, ficaremos na mesma.

A frase "porque aquilo que é compreeendido é mais facilmente professado" poderia dar a entender que se conseguia compreender muita coisa sobre o diabo. Mas a verdade é que aquilo que é afirmado no catecismo, por exemplo, não nos permite propriamente compreender mais sobre o diabo nem detectar efectivamente a sua acção.

O catecismo tem claramente mais do que aquilo que é verdade essencial da fé e está a ser constantemente alterado. Um exemplo é a afirmação do então cardeal Ratzinger:


Pensar que um católico tem que seguir cegamente tudo o que diz o catecismo é não perceber todas estas nuances. Quanto aos autores católicos, como S. Tomás de Aquino, têm que ser enquadrados na sua época e, em si mesmos, não têm um valor autónomo. Posso ignorar totalmente S. Tomás de Aquino e ser um católico perfeito.

Quanto ao diabo, a Igreja, com base na Bíblia, foi desenvolvendo certas convicções sobre esta entidade que personifica o mal. Para algumas pessoas, em certas épocas, a ideia do Diabo tê-las-á ajudado a viverem melhor a sua fé. Hoje é-nos mais difícil explicar tal entidade e parece pouco útil do ponto de vista pastoral. A atitude de muitos católicos é admitir o mistério, é admitir que há mais coisas do que aquelas que podem hoje compreender e centrar-se noutros aspectos. Isto não quer dizer que neguem ostensivamente a existência do Diabo mas também não sabem bem o que dizer de útil sobre ele.

Quanto à afirmação do Bernardo: "no dia em que o ritual do exorcismo desaparecer da prática da Igreja Católica, ter-se-á dado uma enorme machadada na estrutura basilar da concepção católica do mundo criado por Deus" ela mostra a confusão entre o essencial e o acessório. Um ritual não é essencial e pode desaparecer da prática sem qualquer problema. Mesmo hoje o ritual está sujeito a grandes restrições e, sendo católico há bastantes anos, nunca tive conhecimento directo de que tivesse sido praticado.

Finalmente, é um pouco cansativa a insistência de certos católicos em procurarem aspectos específicos para atirarem a outros católicos dizendo-lhes: se não pensam como eu não se podem dizer católicos.

João disse a Jesus: «Mestre, vimos um homem que expulsa demónios em teu nome. Mas nós proibimos-lho, porque ele não nos segue». Jesus disse: «Não lho proibais, pois ninguém faz um milagre em meu nome e depois vai dizer mal de Mim. Quem não está contra nós está a nosso favor. (Mc. 9, 38-40)