quarta-feira, dezembro 2
segunda-feira, novembro 30
domingo, novembro 29
quarta-feira, novembro 25
Belle de Jour
Está na moda as prostitutas de luxo publicarem um blog e escreverem livros sobre as suas experiências. Belle de Jour foi o pseudónimo de uma das primeiras, senão a primeira a ter tal ideia. A autora conseguiu permanecer no anonimato durante anos. Algo especialmente difícil depois de produzir quatro best sellers e ter uma coluna regular num jornal de referência. A semana passada Belle descobriu que alguém ia provavelmente revelar a sua identidade. Resolveu ser ela a dar a cara.
O seu verdadeiro nome é Dr Brooke Magnanti. Tem um doutoramento em Informática e Epidemiologia. Actualmente é investigadora na Bristol Initiative for Research of Child Health. A tese prolongou-se um pouco mais do que a bolsa de doutoramento. Brook procurou um emprego suficientemente bem pago, que lhe deixasse tempo livre para acabar a tese e que não exigisse um grande investimento em formação. Resolveu o problema trabalhando a 400 euros por hora para uma agência de call girls durante catorze meses.
Trata-se de um caso difícil de encaixar no estereótipo da mulher e do chulo. Ela não foi explorada nem coagida, não se pode dizer que não tinha outras opções, divertiu-se, abandonou a prostituição depois de atingir o objectivo, tem uma vida interessante e útil para a sociedade. A experiência não parece ter deixado cicatrizes.
É um caso extremo, mas não é um caso raro. Muitas outras mulheres resolveram facturar aquilo que o mercado lhes oferecia. Apesar de tudo, a maior parte das mulheres continua a culpar os homens. Uma atitude no mínimo algo infantil. É óbvio que não têm razão.
E no entanto...
Talvez haja um chulo dentro da cabeça de cada prostituta. Cada um de nós tem aspectos masculinos e femininos. Funcionamos de uma forma mais harmoniosa se esses elementos coexistirem em equilibrio. Na nossa sociedade o lado masculino é mais pragmático e mais facil de expressar. Em termos contabilisticos, por exemplo. E em frases do tipo Porque não? Responder a essa pergunta a propósito da prostituição é bastante dificil nos tempos que correm.
Os esquimós têm dúzias de palavras para descrever a neve. Nós só temos uma. A neve é bem mais importante para eles do que para nós. Só temos uma palavra para amor. Em sanscrito há várias dúzias de palavras que nós tradiziriamos sempre por amor ou por frases onde aparece a palavra amor. O lado feminino dos homens e das mulheres, o lado que lida com os sentimentos, está em desvantagem na nossa sociedade. Temos muitas palavras para factos objectivos e racionais. Isso permitiu-nos construir uma sociedade mais rica onde nos podemos dar ao luxo de ser mais justos. Por outro lado pagámos o preço desse desenvolvimento em solidão, depressões, vazios. É o que acontece quando negligenciamos os lados mais frageis e subtis das nossas personalidades, onde estão escondidas as riquezas intangiveis de que andamos à procura algures fora de nós.
A Belle vai pagar um preço alto pelas libras que ganhou. Acontece que isso é um problema dela. Temos de acabar com a mania de não deixar os outros (e às vezes a nós mesmos) errar. O homem que as mulheres acusam está dentro de todos os homens e de todas as mulheres. É infantil projectá-lo no primeiro homem que se ponha a jeito, ou nos homens. Mas todos nós executamos esse tipo de projecções a toda a hora.
O seu verdadeiro nome é Dr Brooke Magnanti. Tem um doutoramento em Informática e Epidemiologia. Actualmente é investigadora na Bristol Initiative for Research of Child Health. A tese prolongou-se um pouco mais do que a bolsa de doutoramento. Brook procurou um emprego suficientemente bem pago, que lhe deixasse tempo livre para acabar a tese e que não exigisse um grande investimento em formação. Resolveu o problema trabalhando a 400 euros por hora para uma agência de call girls durante catorze meses.
Trata-se de um caso difícil de encaixar no estereótipo da mulher e do chulo. Ela não foi explorada nem coagida, não se pode dizer que não tinha outras opções, divertiu-se, abandonou a prostituição depois de atingir o objectivo, tem uma vida interessante e útil para a sociedade. A experiência não parece ter deixado cicatrizes.
É um caso extremo, mas não é um caso raro. Muitas outras mulheres resolveram facturar aquilo que o mercado lhes oferecia. Apesar de tudo, a maior parte das mulheres continua a culpar os homens. Uma atitude no mínimo algo infantil. É óbvio que não têm razão.
E no entanto...
Talvez haja um chulo dentro da cabeça de cada prostituta. Cada um de nós tem aspectos masculinos e femininos. Funcionamos de uma forma mais harmoniosa se esses elementos coexistirem em equilibrio. Na nossa sociedade o lado masculino é mais pragmático e mais facil de expressar. Em termos contabilisticos, por exemplo. E em frases do tipo Porque não? Responder a essa pergunta a propósito da prostituição é bastante dificil nos tempos que correm.
Os esquimós têm dúzias de palavras para descrever a neve. Nós só temos uma. A neve é bem mais importante para eles do que para nós. Só temos uma palavra para amor. Em sanscrito há várias dúzias de palavras que nós tradiziriamos sempre por amor ou por frases onde aparece a palavra amor. O lado feminino dos homens e das mulheres, o lado que lida com os sentimentos, está em desvantagem na nossa sociedade. Temos muitas palavras para factos objectivos e racionais. Isso permitiu-nos construir uma sociedade mais rica onde nos podemos dar ao luxo de ser mais justos. Por outro lado pagámos o preço desse desenvolvimento em solidão, depressões, vazios. É o que acontece quando negligenciamos os lados mais frageis e subtis das nossas personalidades, onde estão escondidas as riquezas intangiveis de que andamos à procura algures fora de nós.
A Belle vai pagar um preço alto pelas libras que ganhou. Acontece que isso é um problema dela. Temos de acabar com a mania de não deixar os outros (e às vezes a nós mesmos) errar. O homem que as mulheres acusam está dentro de todos os homens e de todas as mulheres. É infantil projectá-lo no primeiro homem que se ponha a jeito, ou nos homens. Mas todos nós executamos esse tipo de projecções a toda a hora.
domingo, novembro 22
A Treta Global

From: Tom Wigley, Date: Sun, 27 Sep 2009 23:25:38 -0600
So, if we could reduce the ocean blip by, say, 0.15 degC, then this would be significant for the global mean – but we’d still have to explain the land blip. I’ve chosen 0.15 here deliberately. This still leaves an ocean blip, and i think one needs to have some form of ocean blip to explain the land blip (via either some common forcing, or ocean forcing land, or vice versa, or all of these).
Este é um dos e-mails que um hacker, ou um whistle-blower, alegadamente retirou de um computador da University of East Anglia’s Climate Research Unit. Este senhor estava a ajustar os parametros para nos convencer que realmente existe o tal aquecimento global. Estamos a falar do maior escandalo da ciencia. Vão ao google news, escrevam global warming scandal ou outra coisa semelhante, e vejam o que aparece. Ou leiam este artigo do Telegraph e passem pelo Falta de Tempo, onde eu ouvi falar nisto pela primeira vez.
Comunicado dos CRU.
So, if we could reduce the ocean blip by, say, 0.15 degC, then this would be significant for the global mean – but we’d still have to explain the land blip. I’ve chosen 0.15 here deliberately. This still leaves an ocean blip, and i think one needs to have some form of ocean blip to explain the land blip (via either some common forcing, or ocean forcing land, or vice versa, or all of these).
Este é um dos e-mails que um hacker, ou um whistle-blower, alegadamente retirou de um computador da University of East Anglia’s Climate Research Unit. Este senhor estava a ajustar os parametros para nos convencer que realmente existe o tal aquecimento global. Estamos a falar do maior escandalo da ciencia. Vão ao google news, escrevam global warming scandal ou outra coisa semelhante, e vejam o que aparece. Ou leiam este artigo do Telegraph e passem pelo Falta de Tempo, onde eu ouvi falar nisto pela primeira vez.
Comunicado dos CRU.
quarta-feira, novembro 18
Contra os cemitérios
Andam por aí uns desavergonhados que querem destruir a civilização ocidental. Onde é que já se viu pegar num terreno baldio, colocar uns muros à volta e começar a enterrar lá os filhos da terra? Não sabem esses velhacos que ainda há meia dúzia de anos andavam por Dover a embebedar-se pelas tabernas o que é o solo sagrado? Doenças? Enterrar os nossos pais e avós na santa igreja onde vamos orar todos os domingos provoca doenças? Só servos de Belzebu podiam inventar tamanho disparate! Sempre assim se fez e sempre assim se fará! Se eu não lutar para enterrar os meus antepassados perto de Deus, quem irá lutar por mim?
Esta oposição ao Novo está bem ridicularizada n'As Pupilas do Sr. Reitor, um dos poucos livros que uma menina de boas familias podia ler nos anos sessenta, tempos em que o caracter subversivo de muitas obras de Eça ainda permanecia intacto. A luta do liberalismo pela saude pública vem-me sempre à cabeça quando se discute o casamento dos homossexuais, algo à partida bem menos controverso do que por exemplo a questão do aborto. Trata-se tão só do horror ao Novo. É por isso que poucos são aqueles que se são capazes de assumir contra, escondendo-se atrás do pedido do referendo. Se este é um assunto tão secundário como eles dizem, vale a pena gastar o nosso tempo e o nosso dinheiro na realização do tal referendo?
Bem melhor seria este mundo sem estes empata fodas? Talvez não. Afinal, como é que se constroi um braço robotico de alta precisão? Para fazer um buraco para um parafuso com precisão micromilimétrica, temos de criar uma tensão: uma força que empurra para a direita e outra para a esquerda, uma para cima, outra para baixo, uma para a frente, outra para trás. Só esta oposição de forças, de musculos agonistas e antagonistas, permite a um atirador acertar na mouche. Aquilo que parece ser apenas um desperdício de energia, é muito mais do que isso. Sem a Doutora Ferreira Leite, eu e os da minha laia acabavamos por escavacar isto tudo.
Dito isto, se não se lutar com toda a energia contra os imbecis que por aí andam, expondo-os ao ridiculo antes e depois da passagem da lei, não vamos a lado nenhum.
Mas sempre com muita compaixão.
Bem melhor seria este mundo sem estes empata fodas? Talvez não. Afinal, como é que se constroi um braço robotico de alta precisão? Para fazer um buraco para um parafuso com precisão micromilimétrica, temos de criar uma tensão: uma força que empurra para a direita e outra para a esquerda, uma para cima, outra para baixo, uma para a frente, outra para trás. Só esta oposição de forças, de musculos agonistas e antagonistas, permite a um atirador acertar na mouche. Aquilo que parece ser apenas um desperdício de energia, é muito mais do que isso. Sem a Doutora Ferreira Leite, eu e os da minha laia acabavamos por escavacar isto tudo.
Dito isto, se não se lutar com toda a energia contra os imbecis que por aí andam, expondo-os ao ridiculo antes e depois da passagem da lei, não vamos a lado nenhum.
Mas sempre com muita compaixão.
quinta-feira, novembro 12
quarta-feira, novembro 4
Só ofende quem pode?

Sempre achei que sim. Que uma atitude nossa só desiquilibra emocionalmente alguém, voluntaria ou involuntariamente, se essa pessoa se sente ligada a nós por sentimentos de amor, amizade ou admiração, se nós lhe provocamos alguma insegurança, se ela tem algumas expectativas em relação a nós ou projecta em nós o melhor que existe nela.
Algumas pessoas ofendem-se muito facilmente porque são bastante inseguras, ou têm muitos problemas por resolver à flor da pele. As pessoas ofendem-se porque não são capazes de distinguir o pessoal do objectivo. Muito poucas pessoas são capazes de reagir racionalmente numa situação que envolva algum stress.
Sempre tive um certo orgulho dessa capacidade de não me deixar ofender por dá cá aquela palha. Quantas vezes alguém tentou ofender-me, desestabilizar-me ou impressionar-me, ficando meio para o estupefacto quando não o conseguiu.
Entretanto um destes dias ofendi-me mesmo. Continuo indignado. Uma sensação estranha. Uma sensação nova. Não sabe a fraqueza. Se calhar não me ofendi algumas vezes porque me faltava qualquer coisa. Quem não se ofende não é filho de boa gente. Talvez haja alguma verdade nisso. Não sei se mudar é bom ou não. Mas é interessante.
Algumas pessoas ofendem-se muito facilmente porque são bastante inseguras, ou têm muitos problemas por resolver à flor da pele. As pessoas ofendem-se porque não são capazes de distinguir o pessoal do objectivo. Muito poucas pessoas são capazes de reagir racionalmente numa situação que envolva algum stress.
Sempre tive um certo orgulho dessa capacidade de não me deixar ofender por dá cá aquela palha. Quantas vezes alguém tentou ofender-me, desestabilizar-me ou impressionar-me, ficando meio para o estupefacto quando não o conseguiu.
Entretanto um destes dias ofendi-me mesmo. Continuo indignado. Uma sensação estranha. Uma sensação nova. Não sabe a fraqueza. Se calhar não me ofendi algumas vezes porque me faltava qualquer coisa. Quem não se ofende não é filho de boa gente. Talvez haja alguma verdade nisso. Não sei se mudar é bom ou não. Mas é interessante.
Claude Levy-Strauss 1908-2009
Tristes Trópicos, a autobiografia de Claude Levy Strauss, é uma das maiores obras primas da Literatura do século XX. As suas descrições das suas viagens pelo Novo Mundo são inesqueciveis. Metade do livro é dedicado ao Brasil. Começa em Salvador da Bahia, e vai-se internando pela selva até chegar aos pontos mais inesplorados da selva amazónica. Fala-nos sobretudo das pessoas e mostra-nos que elas não são diferentes de nós. Não devido aos imperativos do politicamente correcto, mas por razões bem claras.Os "primitivos" não são estúpidos. A haver estúpidos, somos nós.
Um habitante do Amazonas conhece a fauna e a flora da região tão bem como qualquer equipa de biologos composta por um botanico, um entomologista e um zoologo que tenham queimado as pestanas a fazer o seu PhD e depois tenham passado uns anos a complementar os seus conhecimentos in loco. Quando se desloca a uma região nova por qualquer razão, o primitivo recolhe exemplares da flora da região que não conhece e leva-as para tentar perceber para que servem, realizando todo o tipo de experiencias. Se possivel, conferencia com os habitantes da região, procurando obter informações sobre as plantas que descobriu e sobre outras que lhe tenham escapado.
A nossa sobrevivencia está assegurada e nós não precisamos de puxar pela cabeça para sobreviver. O cérebro dos animais domésticos é mais pequeno do que o dos seus equivalentes selvagens pela mesma razão: falta de uso.
quinta-feira, outubro 29
Demasiadas perguntas
Cada pergunta tem quatro respostas possíveis:
DD - discordo totalmente.
D - não concordo
C - concordo parcialmente.
CC - concordo totalmente.
O melhor é arranjarem um papel ou um ficheiro word e anotar as respostas juntamente com os asteriscos.
O resto das instruções estão no primeiro comentário.
Agora clikem aqui e leiam os dois comentários.
Se publicar os resultados pode comprometer a acuidade das respostas, mais vale não publicar!
DD - discordo totalmente.
D - não concordo
C - concordo parcialmente.
CC - concordo totalmente.
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I
- A minha vida satisfaz-me.
- Sinto-me à vontade quando encontro novas pessoas.
- Situações novas causam-me stress.*
- O meu trabalho não usa as minhas capacidades.*
- Tenho uma atitude positica para com o dinheiro.
- Não uso o meu tempo de forma eficiente.*
- Sou uma pessoa cheia de energia.
- Em geral encaro uma responsabilidade como sendo um fardo.*
- Não me sobra tempo para relaxar e divertir.*
- Normalmente atinjo os objectivos a que me proponho.
II
- Gosto de mim enquanto uma pessoa.
- Tenho (tinha) uma relação terna com os meus pais.
- Passo frequentemente por situações emocionais difíceis (tristeza/ansiedade/raiva/stress).*
- Sinto-me desconfortavel quando estou só.*
- Consigo manter um equilíbrio entre o tempo que dedico a mim próprio e o que dedico aos outros.
- Tenho dificuldades em concentrar-me e em pensar com clareza.*
- É-me facil demonstrar aos outros amor e afecto.
- Não estou satisfeito com as minhas relações pessoais.*
- Nunca sei exactamente o que estou a sentir.*
- Tenho uma boa relação com o meu corpo.
III
- Acho que sei o que é o melhor para mim.
- Sou capaz de exprimir a minha criatividade de várias maneiras diferentes.
- Não estou interessado no que se passa no meu inconsciente.*
- Não acredito em intuições ou em guias interiores.*
- Tenho uma visão positiva do meu futuro.
- Raramente dou atenção aos meus sonhos.*
- Acho que estou a crescer espiriritualmente e a desenvolver-me.
- Não me parece que o meu espírito possa ter um papel activo na recuperação dos meus problemas físicos ou psicologicos.*
- Tenho dificuldade de imaginar o que nunca experimentei.*
- Sinto frequentemente uma ligação à natureza.
IV
- Sinto a presença de algo mais poderoso do que eu (Deus/Dharma/Tao...).
- Cultivo o amor e a compaixão por tudo o que me rodeia.
- Nenhuma forma espiritualidade faz sentido para mim.*
- Não me parece que a minha existência tenha algum grande propósito.*
- É importante para mim que a minha vida tenha um impacto no Mundo.
- Não pratico qualquer forma de prática espiritual (meditação/contemplação/oração).*
- Realizo regularmente actividades que me ajudam a recuperar o equilíbrio emocional.
- Sou facilmente apanhado a realizar actividades superficiais ou a com preocupações do mesmo tipo.*
- Raramente me confronto com o significado das minhas experiencias de vida.*
- Quando tomo decisões sigo aquilo que me parece correcto de um ponto de vista espiritual.
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quarta-feira, outubro 28
O eixo do Mal
The American Academy of Family Physicians has announced a corporate sponsorship with Coca-Cola and is also accepting an undisclosed amount of money from them as well.
A AAFP assinou um acordo com a Coca Cola no sentido de lançar uma campanha para educar as crianças no uso adequado de bebidas não alcoolicas e adoçantes artificiais.
A AAFP assinou um acordo com a Coca Cola no sentido de lançar uma campanha para educar as crianças no uso adequado de bebidas não alcoolicas e adoçantes artificiais.
Não havia provas
Mas os indicios eram suficientes para compreender o que se passava. Agora temos a certeza.
quarta-feira, outubro 21
Algumas perguntas banais sobre o aquecimento global

Uns dizem que há, outros que não é bem assim. Quem tem razão? Como podemos saber quem tem razão? Podemos saber quem tem razão? Há por aí toda uma série de pessoas e empresas que promovem a ideia da existência do aquecimento global, porque têm bastante a lucrar com isso, ou porque usam essa ameaça como arma política para tentar converter as pessoas a um outro modo de vida. Podemos concluir daí que se trata de uma farsa? E se não for e o ignorarmos?
sexta-feira, outubro 16
O Astrologo e o Cientista

As manhãs e as tardes dos nossos canais generalistas estão desde há alguns anos ocupadas com programas de entretenimento para donas de casa que tentam imitar Oprah Winfrey, com um orçamento bem mais reduzido. Uma das lutas de galos baratinhas que eles gostam de organizar é colocar de um lado um ateu ou um cientista e do outro uma cartomante, um astrologo ou uma vidente. A variante astrologo versus cientista é a que corre pior para o representate da Razão. A posteriori, o cientista arranja boas explicações para o facto de a discussão não lhe ter corrido tão bem como ele esperava. A televisão é um meio de comunicação que não se presta muito bem à transmissão de mensagens complexas. As mais simplistas passam com mais facilidade e o astrologo está à partida em vantagem. Mas porque é que ele não pensou nisso antes de aceitar o convite?
O caso do astrologo é especialmente emblemático. A força gravítica dos planetas é demasiado fraca para ter qualquer efeito sobre as pessoas. Mesmo que assim não fosse, a precessão dos equinócios desactualizou todos os cálculos. O astrologo faz uma figura ridícula aos olhos do cientista.
Acontece que os cientistas são operários especializados, artesões que sabem produzir sapatos de alta qualidade. Normalmente não lhes sobra tempo para pensar em muito mais. Sobretudo não lhes sobra muito tempo para pensar em como funcionam as pessoas. É claro que estas palavras também se aplicam a mim.
Um bom astrologo passa a vida a pensar em como funcionam as pessoas. Os horoscopos são apenas um pretexto, um ponto de partida para começar uma consulta. O que se passa depois não sei. Não me atrevo a emitir opiniões sobre o que desconheço. Se a crença no determinismo dos astros pode agir como um placebo em favor dos objectivos do astrologo, que mal há nisso? Claro que o astrologo nunca o pode admitir. E alguns até acreditarão nos astros. Os advogados também acabam por acreditar nos clientes que defendem, mesmo quando há todas as razões para pensar o oposto.
Para muitos astrologos, o idiota é o cientista que supõe que o seu trabalho consiste em analisar cartas astrologicas. O idiota é o cientista que só conhece a dimensão racional de uma pessoa, ignorando tudo o resto. O astrologo age sobre o inconsciente das pessoas, algo em geral muito mais poderoso do que apelar à sua racionalidade. Numa disputa realizada fora das paredes de uma universidade o cientista dificilmente terá alguma hipótese. Nem alguma vez perceberá o que lhe aconteceu.
O caso do astrologo é especialmente emblemático. A força gravítica dos planetas é demasiado fraca para ter qualquer efeito sobre as pessoas. Mesmo que assim não fosse, a precessão dos equinócios desactualizou todos os cálculos. O astrologo faz uma figura ridícula aos olhos do cientista.
Acontece que os cientistas são operários especializados, artesões que sabem produzir sapatos de alta qualidade. Normalmente não lhes sobra tempo para pensar em muito mais. Sobretudo não lhes sobra muito tempo para pensar em como funcionam as pessoas. É claro que estas palavras também se aplicam a mim.
Um bom astrologo passa a vida a pensar em como funcionam as pessoas. Os horoscopos são apenas um pretexto, um ponto de partida para começar uma consulta. O que se passa depois não sei. Não me atrevo a emitir opiniões sobre o que desconheço. Se a crença no determinismo dos astros pode agir como um placebo em favor dos objectivos do astrologo, que mal há nisso? Claro que o astrologo nunca o pode admitir. E alguns até acreditarão nos astros. Os advogados também acabam por acreditar nos clientes que defendem, mesmo quando há todas as razões para pensar o oposto.
Para muitos astrologos, o idiota é o cientista que supõe que o seu trabalho consiste em analisar cartas astrologicas. O idiota é o cientista que só conhece a dimensão racional de uma pessoa, ignorando tudo o resto. O astrologo age sobre o inconsciente das pessoas, algo em geral muito mais poderoso do que apelar à sua racionalidade. Numa disputa realizada fora das paredes de uma universidade o cientista dificilmente terá alguma hipótese. Nem alguma vez perceberá o que lhe aconteceu.
sábado, outubro 10
O Símbolo Perdido
É o novo livro de Dan Brown, o tipo do Código da Vinci. O techno-triller, criado por Michael Crichton e Tom Clancy, é um novo genre da literatura de suspense, caracterizada pelo extraordinário detalhe das discrições da tecnologia envolvida, o que de alguma forma compensa a menor riqueza com que são descritas as personagens e a relativa simplicidade do enredo. Os três últimos livros de Dan Brown contam a mesma história, personagens semelhantes representam os mesmos papeis, só variam os detalhes. Mas são esses detalhes que verdadeiramente interessam.Brown começou por seguir as pegadas de Crichton. Em Anjos e Demónios criou um novo sub-genre. A tecnologia que invadiu as nossas vidas desde há um século é combinada com um conhecimento detalhado da forma como se expressaram ao longo dos tempos todos os medos e esperanças que povoam o nosso inconsciente desde há milénios. And thats when the big bucks started rolling in. Dois outros ingredientes contribuiram para o sucesso de vendas:
Toda a história se desenrola a um ritmo alucinante, normalmente em 24 horas. Esta ideia já foi tão copiada (ver a série 24, por exemplo) que agora Dan Brown reduziu para 12.
O ataque a uma instituição: o Vaticano em Anjos e Demónios, a Opus Day no codigo. Este último ingrediente perdeu-se. Os católicos não mordem por aí além. Não há por aí muitas outras instituições que de alguma forma ainda dêem a outra face. Dizia-se que este livro saíria pouco antes das eleições americanas do ano passado, referindo o papel da Skull and Bonnes nas eleições americanas. Brown percebeu que não era boa ideia atacar a família Bush e os falcões do partido republicano. Foi aí que perdeu a hipótese de repetir o impacto do Código.
Dito isto, o livro está cheio de pequenas pérolas, como a referência à ignorada ascensão aos céus de George Washington, pintada no tecto do Capitólio e a análise da gravura de Dürer reproduzida acima.
quarta-feira, outubro 7
Benfica Stars Fund: A aritmética segundo Luís Filipe Vieira
A SAD benfiquista anunciou esta terça-feira que subscreveu 15 por cento do valor total do "Benfica Stars Fund - Fundo Especial de Investimento Mobiliário Fechado", num investimento global de 6 milhões de euros.
Se a SAD investe, deve ser seguro...
Deixem lá ver se eu percebo este comunicado. Quem comprar unidades de participação do Benfica Stars Fund, compra direitos sobre futuras vendas dos passes de certos jogadores do Benfica. A quem pertencem actualmente esses passes? À SAD. O que significa subscrever 15% do fundo? Significa que a SAD comprou a si própria unidades de subscrição do fundo. Significa também que a SAD vendeu só 85% do valor nominal desses passe, qualquer coisa como 34 milhões de euros. Comprar 6 milhões de euros ou vender 34 não é exactamente a mesma coisa.
Se a SAD investe, deve ser seguro...
Deixem lá ver se eu percebo este comunicado. Quem comprar unidades de participação do Benfica Stars Fund, compra direitos sobre futuras vendas dos passes de certos jogadores do Benfica. A quem pertencem actualmente esses passes? À SAD. O que significa subscrever 15% do fundo? Significa que a SAD comprou a si própria unidades de subscrição do fundo. Significa também que a SAD vendeu só 85% do valor nominal desses passe, qualquer coisa como 34 milhões de euros. Comprar 6 milhões de euros ou vender 34 não é exactamente a mesma coisa.
terça-feira, outubro 6
"Termos tecnicos": Violação e Recessão
O que é uma recessão? É um período durante a qual a economia se contrai. As vendas diminuem, os inventários começam a crescer, depois a produção diminui para se ajustar à procura e as ofertas de empregos começam por diminuir. Se a contracção continua, alguns trabalhadores vão parar ao desemprego.
Toda a contracção é uma recessão? Não. Existem efeitos sazonais. Em certos trimestres há mais actividade económica do que outros. Durante o verão o turismo estimula a actividade económica, em Dezembro temos o Natal. Para além do mais nessas alturas uma boa parte da população recebe um mês suplementar de salário e gasta boa parte dele.
Como se deveria então definir recessão? Um definição razoavel seria: estamos em recessão se durante dois trimestres consecutivos a actividade economica for inferior à actividade economica do mesmo semestre do ano anterior. É esse o fenomeno que mexe com os nossos bolsos e os nossos empregos.
Quando é que estamos em recessão tecnica? Quando a produção diminui em dois trimestres consecutivos. Só num período de crise extrema se produz menos no trimestre do Verão do que no trimestre da Primavera. O que permite a muitos primeiros ministros anunciar no fim de cada verão o fim da recessão tecnica. Já viram este filme?
Por outro lado, cada vez que caímos em recessão tecnica devemos estar descansados. Afinal não é uma recessão a sério, é só uma recessao tecnica. Uma technicality. Mas afinal, o que é uma recessão sem o qualificativo tecnico? Não está definido...
Se não temos palavra para o definir algo, é quase como se esse algo não existisse.
Polanski violou uma jovem de treze anos? O que quer dizer violou?
A palavra violação costuma ser usada quando existe sexo não consensual. Não foi o caso. A jovem em causa sempre o afirmou e continua a afirmar.
Não estou a dizer que Polanski não tenha cometido um crime e não deva ser punido. Só estou a referir que a palavra violação está a ser usada no seu sentido tecnico. Quem detem o poder também detem o poder de manipular a linguagem. E a palavra violação faz toda a diferença.
O caso Polanski é sobretudo um problema legal e não um problema moral ou um problema de direitos humanos. Qualquer um de nós arranjaria problemas legais gravíssimos se se comportasse na Arábia Saudita da forma como se comporta aqui. Pela minha parte tenho muitas duvidas sobre varias decisões ou não decisões dos tribunais portugueses. A justiça americana também não é exemplar em termos de direitos humanos. Pense cada um de nós o que quiser sobre o enquadramento legal do caso Polanski. Por mim, preferia deixar de fora os direitos humanos e a moral. Se vamos por aí, se há alguém a querer e poder invocar os direitos humanos neste caso, esse alguém até é o Polanski. A suposta violada já disse de sua justiça.
Depois de me chamarem a atenção sobre a história do crime cometido por Polansky, fiz uma busca pela internet. Trata-se efectivamente de uma violação. Espero que se faça justiça. Estamos sempre a aprender...
Toda a contracção é uma recessão? Não. Existem efeitos sazonais. Em certos trimestres há mais actividade económica do que outros. Durante o verão o turismo estimula a actividade económica, em Dezembro temos o Natal. Para além do mais nessas alturas uma boa parte da população recebe um mês suplementar de salário e gasta boa parte dele.
Como se deveria então definir recessão? Um definição razoavel seria: estamos em recessão se durante dois trimestres consecutivos a actividade economica for inferior à actividade economica do mesmo semestre do ano anterior. É esse o fenomeno que mexe com os nossos bolsos e os nossos empregos.
Quando é que estamos em recessão tecnica? Quando a produção diminui em dois trimestres consecutivos. Só num período de crise extrema se produz menos no trimestre do Verão do que no trimestre da Primavera. O que permite a muitos primeiros ministros anunciar no fim de cada verão o fim da recessão tecnica. Já viram este filme?
Por outro lado, cada vez que caímos em recessão tecnica devemos estar descansados. Afinal não é uma recessão a sério, é só uma recessao tecnica. Uma technicality. Mas afinal, o que é uma recessão sem o qualificativo tecnico? Não está definido...
Se não temos palavra para o definir algo, é quase como se esse algo não existisse.
Polanski violou uma jovem de treze anos? O que quer dizer violou?
A palavra violação costuma ser usada quando existe sexo não consensual. Não foi o caso. A jovem em causa sempre o afirmou e continua a afirmar.
Não estou a dizer que Polanski não tenha cometido um crime e não deva ser punido. Só estou a referir que a palavra violação está a ser usada no seu sentido tecnico. Quem detem o poder também detem o poder de manipular a linguagem. E a palavra violação faz toda a diferença.
O caso Polanski é sobretudo um problema legal e não um problema moral ou um problema de direitos humanos. Qualquer um de nós arranjaria problemas legais gravíssimos se se comportasse na Arábia Saudita da forma como se comporta aqui. Pela minha parte tenho muitas duvidas sobre varias decisões ou não decisões dos tribunais portugueses. A justiça americana também não é exemplar em termos de direitos humanos. Pense cada um de nós o que quiser sobre o enquadramento legal do caso Polanski. Por mim, preferia deixar de fora os direitos humanos e a moral. Se vamos por aí, se há alguém a querer e poder invocar os direitos humanos neste caso, esse alguém até é o Polanski. A suposta violada já disse de sua justiça.
Depois de me chamarem a atenção sobre a história do crime cometido por Polansky, fiz uma busca pela internet. Trata-se efectivamente de uma violação. Espero que se faça justiça. Estamos sempre a aprender...
segunda-feira, outubro 5
A sobremesa
Durante dois anos Sócrates passou por ser um governante decidido e equilibrado. Depois começaram as gafes. Que aconteceu? A mudança pode ter tido alguma coisa a ver a saida de António Costa para a camara de Lisboa. Alguém que quase me merece o benefício da dúvida. Ele e Rui Rio são os únicos nomes com possibilidade de chegar a primeiro ministro a quem eu reconheço alguma capacidade para o cargo. Em Lisboa temos ainda a possibilidade de manter Santana Lopes a andar por aí. Já percebi que não podemos esperar mais do que isso, quando lidamos com ervas daninhas.
Felizmente não voto no concelho com mais licenciados do país. Tinha de decidir se votava ou não no sr. Isaltino.
Onde eu gostava mesmo de votar era em Almada. Contribuir para a não eleição de Paulo Pedroso, esse sim é um verdadeiro dever civico.
Felizmente não voto no concelho com mais licenciados do país. Tinha de decidir se votava ou não no sr. Isaltino.
Onde eu gostava mesmo de votar era em Almada. Contribuir para a não eleição de Paulo Pedroso, esse sim é um verdadeiro dever civico.
sexta-feira, outubro 2
Greg House 3

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita.
Da nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.
Assim começa a Divina Comédia. Dante confessa-nos que ao atingir a meia idade se sentiu perdido. A vida deixou de fazer sentido. As lembranças das causas porque lutou, daquilo que construiu, só lhe deixam um travo amargo na boca. A vida não passa de um desespero tranquilo. O poema é simultaneamente a história da sua auto-cura, contada de forma alegórica, e o remédio que o curou.
Dante começa por encontrar Virgílio, o autor da Eneida, o poema épico que ele espera emular ao escrever a Divina Comédia. Virgílio conduz Dante através do Inferno, levando-o até ao Purgatório. Virgilio representa a razão, o lado intelectual de Dante, o grande responsável pela situação actual de Dante mas também a única força que o mantem inteiro. Visitar o Inferno é ganhar consciencia total da sua situação. Dante está a viver o Inferno na Terra. É esse o primeiro passo da sua viagem interior.
Virgílio conduz Dante até às portas do Purgatório, onde Beatriz o espera. Dante apaixonou-se por Beatrice Portinari aos nove anos, tinha ela oito. Viu-a meia dúzia de vezes durante toda a sua vida. Beatriz casou aos vinte e um e morreu de peste aos vinte e quatro. Dante dedicou-lhe todos os seus poemas mais importantes e nunca a esqueceu. É através do seu lado feminino que um homem se relaciona com o seu inconsciente e produz trabalho criativo. Por isso se fala da musa inspiradora. Muitas vezes esse lado feminino ganha uma representação mais concreta. A musa ganha um rosto.
Beatriz conduz Dante através do Purgatório, ajudando-o a reencontrar o seu caminho. É aí que começa a Purga. Finalmente atingem o Céu, o extase momentaneo associado ao alivio de recuperar o sentido da vida.
House é a história da mid life crisis de Greg House, MD. Greg já completou a sua travessia do inferno e encontra agora a sua Beatriz, personificada em Amber, a ex-namorada do seu amigo James Wilson, morta num acidente. Cada um tem a musa que merece e Amber é bem diferente da doce Beatriz. Cada tipo de obra de arte tem as suas convenções. Nós vemos Amber em carne e osso, uma imagem bem definida. Não podia ser de outra forma. Não significa isso que seria assim que o House a sentia. Seria mais razoavel que o lado feminino de House se manifestasse através de uma voz interior e de uma sensação de presença indefinida.
House lida mal com o aparecimento do seu lado feminino. Pergunta-se se estará louco. O aparecimento de Amber é o ingrediente fundamental do gran finale da quinta série. Estou mais ou menos seguro que a sexta série vai começar com House de volta ao hospital, uns meses mais tarde. Vai ser curioso ver como a série evolui. Num one hour drama algo muda para que tudo fique na mesma. Mesmo na Divina Comédia, o Inferno é bem mais interessante do que o paraíso. Os autores não se podem dar ao luxo de deixar que House ultrapasse a crise da meia idade.
Convem no entanto salientar que o aparecimento de Amber faz bem mais sentido do que muitas outras leviandades que encontramos nos one hour dramas. É por isso que House é diferente.
House 1
House 2
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita.
Da nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.
Assim começa a Divina Comédia. Dante confessa-nos que ao atingir a meia idade se sentiu perdido. A vida deixou de fazer sentido. As lembranças das causas porque lutou, daquilo que construiu, só lhe deixam um travo amargo na boca. A vida não passa de um desespero tranquilo. O poema é simultaneamente a história da sua auto-cura, contada de forma alegórica, e o remédio que o curou.
Dante começa por encontrar Virgílio, o autor da Eneida, o poema épico que ele espera emular ao escrever a Divina Comédia. Virgílio conduz Dante através do Inferno, levando-o até ao Purgatório. Virgilio representa a razão, o lado intelectual de Dante, o grande responsável pela situação actual de Dante mas também a única força que o mantem inteiro. Visitar o Inferno é ganhar consciencia total da sua situação. Dante está a viver o Inferno na Terra. É esse o primeiro passo da sua viagem interior.
Virgílio conduz Dante até às portas do Purgatório, onde Beatriz o espera. Dante apaixonou-se por Beatrice Portinari aos nove anos, tinha ela oito. Viu-a meia dúzia de vezes durante toda a sua vida. Beatriz casou aos vinte e um e morreu de peste aos vinte e quatro. Dante dedicou-lhe todos os seus poemas mais importantes e nunca a esqueceu. É através do seu lado feminino que um homem se relaciona com o seu inconsciente e produz trabalho criativo. Por isso se fala da musa inspiradora. Muitas vezes esse lado feminino ganha uma representação mais concreta. A musa ganha um rosto.
Beatriz conduz Dante através do Purgatório, ajudando-o a reencontrar o seu caminho. É aí que começa a Purga. Finalmente atingem o Céu, o extase momentaneo associado ao alivio de recuperar o sentido da vida.
House é a história da mid life crisis de Greg House, MD. Greg já completou a sua travessia do inferno e encontra agora a sua Beatriz, personificada em Amber, a ex-namorada do seu amigo James Wilson, morta num acidente. Cada um tem a musa que merece e Amber é bem diferente da doce Beatriz. Cada tipo de obra de arte tem as suas convenções. Nós vemos Amber em carne e osso, uma imagem bem definida. Não podia ser de outra forma. Não significa isso que seria assim que o House a sentia. Seria mais razoavel que o lado feminino de House se manifestasse através de uma voz interior e de uma sensação de presença indefinida.
House lida mal com o aparecimento do seu lado feminino. Pergunta-se se estará louco. O aparecimento de Amber é o ingrediente fundamental do gran finale da quinta série. Estou mais ou menos seguro que a sexta série vai começar com House de volta ao hospital, uns meses mais tarde. Vai ser curioso ver como a série evolui. Num one hour drama algo muda para que tudo fique na mesma. Mesmo na Divina Comédia, o Inferno é bem mais interessante do que o paraíso. Os autores não se podem dar ao luxo de deixar que House ultrapasse a crise da meia idade.
Convem no entanto salientar que o aparecimento de Amber faz bem mais sentido do que muitas outras leviandades que encontramos nos one hour dramas. É por isso que House é diferente.
House 1
House 2
quinta-feira, outubro 1
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