segunda-feira, maio 16

Ensino superior: qual é mais frequente?

"Universidade: Falta de dinheiro leva 40 por cento dos estudantes a desistir dos cursos"

PUBLICO.PT 16/5/05


"Há muito tempo que o estudo anda a prejudicar a diversão dos alunos do ensino superior."

Miguel Góis, jornal Metro 13/5/05

domingo, maio 15

Piece of silver moon

Piece of silver moon
Suspended in the purple sky
Not so far away.

Faça a sua tradução livre deste haiku de um karateka. Deixe-a nos comentários.

sábado, maio 14

Fui ao bruxo

Dez anos atrás surgiu-me uma hérnia discal cervical. As dores foram aumentando progressivamente. A certa altura parei de trabalhar. Alguns dias não conseguia guiar. Uma operação na zona cervical é sempre um risco. Para além disso deixa sequelas. Em desespero de causa fui a um bruxo. Pelo menos era o que lhe chamavam algumas pessoas. Na verdade era um osteopata. As dores desapareceram em duas sessões. Durante algum tempo fui visitá-lo uma vez por ano. Um ano depois de começar a fazer aulas de alongamentos, quase me esqueci dos problemas no pescoço.
Entretanto a osteopatia, a homeotapia e outras disciplinas médicas
continuam a não ser reconhecidas em Portugal. Isto apesar da existência de uma directiva comunitária que o estado português está vinculado a transpor para a nossa lei. Em países como a Inglaterra e a França estas especialidades médicas são ensinadas na universidade e tratadas da mesma forma que as outras.
Porque é que em Portugal as coisas são diferentes?

Foto: Peter Hegre

sexta-feira, maio 13

Aborto e hierarquia católica

A alteração à lei sobre o aborto em Portugal ficou, em minha opinião, decidida em Março de 2004. A publicação pela Conferência Episcopal Portuguesa do documento intitulado "Meditação sobre a vida" marcava uma posição de obstinação total perante a realidade, que levará inevitavelmente a uma maior liberalização do aborto, salvo se os grupos pró-aborto conseguirem um nível de irracionalidade que compita com o dos bispos portugueses.

A "Meditação sobre a vida" insistiu em equiparar o embrião a uma pessoa humana desde a concepção: penso que se trata de uma posição que a médio prazo levará a um beco sem saída, donde será preciso retroceder. Além disso ignorou completamente a relação da mãe com o próprio corpo durante a gravidez e ignorou o impacto sobre a opinião pública dos julgamentos que têm decorrido.

Mesmo admitindo uma posição radicalmente contra o aborto, uma leitura minimamente atenta da sociedade portuguesa deveria ter deixado claro que já só era possível "minimizar os danos". A ocasião era propícia (pois a direita estava no poder) e a proposta de Freitas do Amaral pareceu-me, nessa perspectiva, o melhor "negócio" possível: nem sequer descriminalizava o aborto mas, ao inverter o ónus da prova, permitiria acabar com quase todos os julgamentos.

Perante este quadro a Conferência Episcopal resolveu insistir em que só se devia "considerar, em sede de julgamento, eventuais circunstâncias atenuantes". Quer dizer, tudo devia ficar como estava, incluindo a exposição em julgamento das mulheres que abortaram (note-se o contraste com a prática de proteger da exposição pública os padres pedófilos).

A partir de um radicalismo destes, muitas pessoas moderadas, incluindo católicos, deixaram de poder contar com a hierarquia para um debate sereno com aqueles que defendiam o aborto livre a pedido da mulher. Dentro da Igreja saíram reforçados os grupos religiosos radicais anti-aborto e, como consequência natural neste contexto, houve padres que levaram a sério o radicalismo: foi o caso do Pe. Nuno Serras Pereira e é agora o caso do Pe. Domingos Oliveira. Estes padres limitaram-se a levar até às últimas consequências a posição expressa pelos bispos e provam, pelo seu excesso, a desadequação da "Meditação sobre a vida". O aborto será um mal mas não se pode fazer dele o mal absoluto, sob pena de se dizerem as barbaridades que disse o pároco de Lordelo do Ouro.

Agora que a maioria política mudou, andam as deputadas católicas do PS a tentar sem sucesso salvar uma posição análoga àquela que, há um ano, a Conferência Episcopal se dava ao luxo de desprezar e andam os movimentos anti-aborto a ser desacreditados por declarações desligadas da realidade.

quinta-feira, maio 12

Regresso às origens

Jean Couch era instrutora de yoga na California e autora do best seller The Runners Yoga Book. Apesar de o yoga ter melhorado substancialmente a sua condição física e psicológica continuava a ter uma certa dificuldade em se descontrair e sofria regularmente de problemas de ciática. Jean procurou na Índia junto de BKS Iyengar a solução dos seus problemas. Acabou por encontrar o seu caminho com uma aluna de Iyengar, a antropologa francesa Noelle Perez. Podemos ver Noelle e Iyengar na foto abaixo.

Noelle começou a notar diferenças fundamentais de postura entre as populações dos países onde desenvolvia os seus estudos antropologicos e as populações dos países ditos desenvolvidos. Chegou à conclusão que por volta de 1920 se deu uma modificação radical na postura da maioria dos cidadãos dos países desenvolvidos.

Na figura da esquerda vê-se uma senhora do início do século XIX. A sua postura é a mesma do senhor do lado esquerdo do post sobre a dança Bharatanatyam. A partir de certa altura as pessoas passam a querer ter um ar cool, a pelvis desloca-se para a frente, as costas para trás, as pernas deixam se encontrar na vertical. As consequências mais obvias desta nova postura são as famosas dores de costas, um fenomeno desconhecido noutras civilizações. Mas esse problema é só a ponta do iceberg. As causas prováveis desta transformação são o sedentarismo, razões estéticas e a utilização cada vez mais frequente de cadeiras e sofás.

Em relação ao Yoga os nossos problemas de postura tem consequências exasperantes. Esticar um musculo durante um minuto dificilmente resultará em progresso se a nossa postura encurtar esse musculo dezasseis horas por dia. Muitas pessoas fazem alongamentos várias vezes por semana sem conseguirem resultados significativos. Acabam por se contentar com o facto de não perderem flexibilidade. Para progredir é preciso resolver um puzzle. Encontrar a cada momento os dois ou três exercícios que naquele momento podem fazer a diferença. Esses exercícios podem ser bastante diferentes dos exercícios que podem ajudar o nosso colega. Os conceitos aflorados acima são as linhas gerais do mapa que nos pode ajudar a resolver o puzzle. Pelo menos acho que tem funcionado comigo. Os problemas posturais de Jean são bem claros nesta foto. A pelvis está deslocada para a frente, as coxas estão constantemente em tensão, as costas compensam deslocando-se para trás, a cabeça está chegada para a frente, criando tensão no pescoço... A postura da rapariga do lado esquerdo não é muito melhor.

Como Noelle observou, o Yoga desenvolveu-se numa sociedade em que estes problemas de postura não existiam. Havia por isso que adaptá-lo aos novos problemas da nossa sociedade. Jean seguiu os passos de Noelle e visitou vários países exóticos procurando encontrar pessoas que mantinham essa postura natural. Podem encontrar aqui e aqui artigos de Jean Couch sobre os temas deste post. Podem encontrar aqui e aqui vários livros de Noelle Perez.
Jean Couch deslocou-se à Costa Rica ao Mali, e por três vezes a ... Portugal. Foi na sequência dessas viagens que resolveu os seus problemas posturais e desenvolveu o Yoga in Balance, a sua perspectiva pessoal sobre o ensino do yoga.

A leitura do artigo da Jean Couch lembrou-me um programa de televisão que eu tinha visto uns anos antes na RTP2. Tratava-se de uma entrevista com uma antropologa francesa que viveu durante vários anos com os moradores do bairro dos Quatro Caminhos, na minha cidade natal, Setúbal. Este bairro ficava situado entre o cruzamento que marca o fim da auto-estrada Lisboa-Setúbal e o hospital de São Bernardo. Até à década de cinquenta este bairro era uma aldeia nas proximidades da cidade. Confirmei antes de escrever o post que se tratava de Noelle Perez.
Noelle reparou que todos os habitantes do bairro tinham uma excelente postura. Os muitos carregadores de peixe da doca de Setúbal que aí habitavam tinham uma postura particularmente boa. O facto de terem de carregar à cabeça cargas enormes parecia não os afectar. Uma vez que à partida a sua postura era correcta, carregar o peixe funcionava como um exercício de consciencialização do seu corpo. Noelle vivia com um dos carregadores. Apesar de uma vida difícil cheia de fomes e outras privações este homem tinha uma saúde de ferro e uma alegria contagiante. Aceitava tudo o que a vida lhe dava com naturalidade e gratidão. O casal passava os verões em Setúbal e os invernos em Paris. Na cidade luz os nosso carregador de peixe dava aulas de postura a doutores, fazendo-os dançar as suas danças com uma canastra de peixe equilibrada na cabeça. Nas horas vagas dedicava-se à pintura e tornou-se num pintor naif muito bem sucedido.
A família da minha avó materna viveu nos Quatro Caminhos entre as décadas de vinte e de cinquenta. Alguns familiares meus continuaram no bairro até à década de oitenta. Era frequente as visitas lá de casa assinalarem o facto de a minha avó manter uma postura erecta perfeita apesar dos seus noventa anos.

June Stein tinha graves problemas de costas.

quarta-feira, maio 11

Objecção de consciência

A propósito do casamento homossexual em Espanha e seguindo uma sugestão pública do Vaticano, os bispos espanhóis exigiram aos católicos que se opusessem à nova lei invocando a objecção de consciência. Só que o argumento de que se deve seguir a própria consciência contra uma ordem injusta é muito poderoso e agora há um grupo de católicos espanhóis que invoca a própria objecção de consciência para se negar a obedecer aos bispos.

terça-feira, maio 10

Size matters

Se é certo que atirar dinheiro à educação não resolve problemas, também é certo que educar os alunos mais desfavorecidos é mais caro do que educar aqueles que têm uma boa base familiar. Um aspecto particular tem a ver com o tamanho das turmas: segundo este artigo as turmas pequenas ao longo de vários anos beneficiam os alunos, sobretudo os mais pobres.

(via Jaime C. Silva)

segunda-feira, maio 9

Nove valores para Marcelo

- Também foi seu aluno?
- Sim, era um bom aluno. Dei-lhe dezasseis. Não podia dar mais. Havia dois melhores do que ele. Só tiveram dezassete...

Foi mais ou menos assim. Esta semana calhou a vez a António Costa. Na outra semana falou do antigo assistente, antes do doutorando...

Comparar é odioso. Comparar alunos vinte anos depois já só revela alguma coisa sobre quem faz a comparação. Caro Marcelo Rebelo de Sousa, os professores não avaliam pessoas. Avaliam o trabalho produzido por um aluno, numa cadeira, num determinado momento. A média final da licenciatura é um bilhete para se entrar no jogo da vida. Vai para o lixo no dia em que conseguimos o primeiro emprego sério. António Costa é o número dois do governo. Bem ou mal toma regularmente decisões que afectam milhões de pessoas. Falar das suas notas escolares só apequena a quem o faz.

Você é uma das cabeças mais brilhantes deste país. Ainda não conseguiu transformar esse brilhantismo em algo que lhe sobreviva. Acredite em si, vá à luta, arrisque, faça alguma coisa que fique e que o orgulhe!


Entretanto, evite envergonhar os seus colegas.

Ainda a Igreja em Timor

O que se tem passado em Timor continua à espera de esclarecimento. Hoje no DN, uma opinião de alguém insuspeito de anticlericalismo.

domingo, maio 8

Dezassete por cento

Segundo a sondagem do Expresso de ontem, 40% dos portugueses estão desiludidos com a escolha do papa e só 17% dizem ter gostado da notícia.

O artigo sobre o papa da Wikipedia tem uma discussão bem documentada sobre as responsabilidades do Cardeal Ratzinger na condução da política do Vaticano em relação aos casos de pedofilia ocorridos no interior da igreja católica.

sábado, maio 7

O que é que falhou?


Mourinho atingiu hoje os 91 pontos quando ainda faltam duas jornadas para acabar o campeonato. O melhor resultado de sempre eram os 90 pontos do Arsenal na época passada. Mas nada disso contará no dia em que o Zé estiver a ver a final da Liga dos Campeões na televisão. Terá sido só falta de sorte? Se Joe Cole não tivesse falhado o remate no último minuto, se o arbitro não tivesse validado o golo que não entrou...
Neste fim de época os extremos e os laterais estavam lesionados, os avançados estavam exaustos. Lampard deu tudo para resolver o campeonato no sábado e não sobrou nada para terça-feira. Não foi só falta de sorte. O campeonato inglês é um pouco mais duro do que Mourinho pensava e a equipa deixou de dar garantias num momento chave. Ele próprio o admitiu implicitamente na véspera do primeiro jogo com o Liverpool. Agora já sabe como é. Para o ano há mais...

sexta-feira, maio 6

Bharatanatyam


é a dança clássica do sul da india. A mais antiga e mais conhecida. Nunca me agradou por aí além. Tem cores a mais. Faz-me lembrar os filmes indianos de Bollywood. O verão passado assisti a uma palestra introdutória a esta dança feita por umas das suas melhores executantes e fui conquistado. É uma espécie de yoga em movimento.
Muitas das esculturas religiosas hindus são baseadas em posturas desta dança. A postura da figura acima é a postura tradicional de Shiva, o dançarino, o poderoso deus da criação e da destruição, representado nesta estátua:


Como devem ter reparado, falta a Shiva um dos seus quatro braços. Manter esta postura durante alguns segundos que seja é um feito atlético não trivial. É necessário estar completamente descontraído e ter a coluna perfeitamente direita.

A jovem dançarina japonesa da figura acima executa a mesma postura. A fotografia foi tirada de outro angulo. Trata-se de uma principiante que ainda não dobra a perna direita como manda a tradição. Experimentem as duas versões e vejam a diferença. Como podem ver todo o peso repousa sobre o osso talar, o osso que fica por cima do estribo quando se anda a cavalo. Só alguém com uma postura perfeita pode executar esta postura de forma a podermos reconhecer nela a graciosidade e a força que são os atributos tradicionais de Shiva. Mesmo que o nosso objectivo não seja ganhar a vida como bailarinos, temos muito a ganhar em sermos mais parecidos com o senhor da esquerda.


O esqueleto do lado esquerdo está em equilíbrio. O senhor da esquerda quase que não necessita de utilisar os seus musculos para se aguentar de pé. Usa-os apenas para se mover. Quando um musculo que devia ser usado para nos movermos passa a ser usado para nos sustentar, encurta e começa a causar problemas. Um dos problemas são as famosas dores de costas.
O nosso corpo guarda na sua memória muscular todas as tensões do dia a dia. Se já tivermos uma má postura essas tensões gravam-se com mais facilidade. Depois transformam-se em dores de cabeça, depressões...
Dançar Bharatanatyam é certamente uma alternativa ao Prozac
. O yoga é outra. Será que somos capazes de encontrar nas nossas tradições alternativas ao Prozac, sem ser preciso ir beber nas culturas alheias?
Podem ver aqui um conjunto de fotografias e videos de Bharatanatyam. Reparem na postura em cada posição de equilíbrio e na graciosidade com que a dançarina se move. Todos nós ajudaremos a tornar este mundo um pouco melhor se conseguirmos captar uma parte infima dessa graciosidade.

quinta-feira, maio 5

Bartoon


Hoje, no Público:
- O Presidente da República diz que é errada a atitude ... de achar que a culpa é sempre dos outros.
- Concordo, eles têm de mudar de atitude.
- Eles! Quem?

- Os outros, esses que acham que a responsabilidade é sempre dos outros.

Mercado da fé


Dois artigos que aplicam as leis da economia e do mercado à eleição do Papa Bento XVI.

Por mim tenho a impressão que a Igreja não quer começar a disponibilizar no mercado europeu (o mais exigente) uma versão do produto que dê ao utilizador mais possibilidades de configuração e quer apenas convencer o mercado de que a linha mais simples, que tem vendido até agora em todo o mundo, é a única adequada. Ora os clientes europeus têm pouca paciência para quem, habituado ao monopólio, não se preocupa com as suas necessidades. Depois há uns clientes que também são accionistas e que continuam a pressionar no sentido de que lhes forneçam um produto mais configurável.

Este novo CEO, depois de anos no departamento de controlo de qualidade, sempre a arranjar maneira de atrapalhar a vida a todo o departamento de inovação que propunha alterações aos produtos, pode vir ter muitas dificuldades em evitar a decadência se não alterar a sua postura.

(via Insurgente)
Foto: cota de armas do papa Bento XVI, desenho preliminar.

quarta-feira, maio 4

terça-feira, maio 3

Supercordas: o novo paradigma?

No princípio da década de 70 um recém-licenciado em História telefona à mãe para meter uma cunha ao pai. Os seus pais eram divorciados e ele não falava com o pai desde a adolescência. Ele pretendia que o pai, um físico teórico famoso, lhe arranjasse um lugar como aluno de doutoramento em física na universidade de Princeton. Como poderia um licenciado em História fazer em doutoramento em Física? Vinte anos depois Edward Witten ocupava o lugar de Einstein como a superestrela do Institute for Advanced Studies. Witten é oconsiderado por muita gente como o único candidato sério a ombrear com Newton e Einstein na lista dos grandes génios da Física. No entanto ainda não ganhou o prémio Nobel da Física. Nem é provável que o ganhe durante as próximas décadas. A maioria dos físicos não está certa sequer que aquilo que ele faz é Física. Os jovens que procuram explorar as suas ideias tem muito mais dificuldades em arranjar emprego do que os seus colegas que trabalham em àreas menos prometedoras. Porquê? É este fenómeno sociológico que procurarei explicar neste post. Não ponho sequer a hipótese de estar a decorrer alguma caixa às bruxas ou que alguém esteja a ser menos honesto.
Aqui fica o link da Wikipedia sobre Witten. Aqui, aqui e aqui encontram-se escritos de Witten relativamente acessíveis sobre o seu trabalho.

O mais interessante problema da física moderna é o de unificar a teoria da gravitação de Einstein, uma teoria essencialmente contínua, com a mecânica quântica, uma teoria essencialmente descontínua. Einstein procurou resolvê-lo durante décadas sem chegar a nenhum resultado. Vejamos algumas ideias para conseguir ultrapassar este impasse:

1. É preciso ter uma visão histórica das leis da Física. O universo começou pelo BigBang. Esta ideia proposta por uma padre católico, o abade George Lemaitre, reconcilia a Física com o Génesis e tornou-se agora mais ou menos consensual. Quando o universo começou o seu nível de energia é muito alto. A este nível de energia as leis da física deveriam ser mais simples. Conforme o universo se vai expandindo e arrefecendo a queda do nível de energia vai produzindo quebras de simetria nas leis da física, que se tornam mais complicadas. É outra vez a Alegoria da Caverna de Platão.
2. Exemplo de quebras de simetria: enquanto a força electromagnética pode ser atractora e repulsiva a força da gravitação é sempre atractora.
3. Outro exemplo de quebra de simetria, mais difícil de aceitar. Nós não vivemos num universo a três dimensões de espaço e uma de tempo. Existem mais do que três dimensões de espaço, só que as restantes encolheram. Quer isto dizer que não devemos olhar para um ponto como sendo um ponto mas sim como sendo um pequeno círculo de um diâmetro muito mais pequeno do que o diâmetro de um electrão. Um electrão deve ser imaginado como sendo um pequeno anel a vibrar.
4. Estratégia para resolver o problema: Começar por estabelecer uma teoria física que funcione bem a altas energias. Essa teoria deve ser relativamente simples. Uma vez estabelecida essa teoria vamos procurar deduzir dela outras teorias suficientemente mais complexas que funcionam a níveis de energia mais baixos até chegarmos ao nível energético actualmente existente no nosso universo.
5. O grande problema desta teoria é que só pode ser testada em experiências que necessitam de níveis energéticos muito acima do que somos capazes de produzir. O acelerador do CERN tem alguns quilómetros de diâmetro. Necessitaríamos de uma acelerador com o diâmetro do sistema solar.

A Física ignorou a Matemática durante os últimos oitenta anos. Chegou o momento da Física pagar um preço por isso. Witten e outros concluíram que para compreender a geometria da natureza a nível subatómico era necessário saber tudo o que os matemáticos tinham descoberto sobre geometria durante o último século e progredir pelo menos outro tanto. Os físicos clássicos não estão em condições de entender as novas teorias porque não compreendem os instrumentos matemáticos necessários. Os novos físicos não estão em condições de forçar os físicos clássicos a aceitar as novas teorias porque não conseguem arranjar provas experimentais. Os novos físicos tem por isso muita dificuldade em arranjar emprego num departamento de física. Estamos perante um choque de paradigmas.

A primeira tentativa séria de desenvolver uma teoria deste tipo ocorreu nos anos oitenta. Quando se compreendeu que a teoria da supergravidade tinha falhado uma geração inteira de novos doutores perdeu qualquer hipótese de arranjar um emprego na universidade. Muitos deles trabalham agora em bancos e empresas de software. Ganham bastante bem mas passaram ao lado do sonho das suas vidas. Quando a primeira geração das supercordas falhou as pessoas foram um pouco mais diplomáticas a anunciar o falhanço. O aparecimento de Witten e outros permitiu a muitos dos novos físicos arranjar emprego em departamentos de matemática. Não é sequer claro que eles sejam físicos ou matemáticos. As supercordas usam muita matemática extremamente sofisticada e tem consequências a nível matemático. A matemática tornou-se o campo experimental da nova física. Todos os meses algum físico propõe uma conjectura matemática completamente louca e extremamente precisa com base na teoria das supercordas. Muitas vezes essa conjectura revela-se verdadeira!

Veremos como evolui esta luta entre os dois paradigmas. Note-se que no dia em que se venha a conseguir a comprovação experimental da teoria das supercordas é de esperar que tenhamos acesso a fontes de energia que transformarão a bomba de hidrogénio numa brincadeira de crianças. Teremos também novos problemas com que nos preocupar. Como sempre...

segunda-feira, maio 2

Eça, o relativista moral


E Afonso da Maia respondia com bom humor:
- Então que lhe ensinava você, abade, se eu lhe entregasse o rapaz? Que não se deve roubar o dinheiro das algibeiras, nem mentir, nem maltratar os inferiores, porque isso é contra os mandamentos da lei de Deus, e leva ao inferno, hem? É isso?...

- Há mais alguma coisa...
- Bem sei. Mas tudo isso que você lhe ensinaria que não se deve fazer, por ser pecado que ofende a Deus, já ele sabe que não deve praticar, porque é indigno de um cavalheiro e de um homem de bem...
- Mas, meu senhor...
- Ouça, abade. Toda a diferença é essa. Eu quero que o rapaz seja virtuoso por amor da virtude e honrado por amor da honra, mas não pelo medo das caldeiras de Pero Botelho, nem com o engodo de ir para o Reino do Céu...
- Mas o verdadeiro dever de um homem de bem, abade, é quando vem, depois de semanas de chuva, um dia destes, ir respirar pelos campos e não estar aqui a discutir moral. Portanto arriba! E se o Vilaça não está muito cansado, vamos dar aí um giro pelas redondezas.
O abade suspirou como um santo que vê a negra impiedade dos tempos de Belzebu arrebatando as melhores reses do rebanho; depois olhou para a chávena e sorveu com delícia o resto do seu café.

Eça de Queirós, Os Maias, Capítulo III

domingo, maio 1

Aulas de religião imoral católica

1. Em Timor há grupos de cidadãos que nas ruas agridem, detêm, levam para interrogatórios privados e julgam em tribunais populares outros cidadãos. Isto sucedeu com dois portugueses mas tem sucedido com timorenses. Tudo isto põe radicalmente em causa os direitos humanos e o estado de direito.

2. Como se não bastasse o facto de tudo isto ser feito por grupos ligados à Igreja Católica, os "tribunais populares" funcionam na casa do Bispo de Díli. Enquanto nos preocupamos com a violência do fundamentalismo religioso islâmico, somos surpreendidos com a violência organizada apoiada por Bispos da Igreja Católica.

3. Tão graves acontecimentos poderiam levar-nos a pensar que as manifestações se destinavam a proteger direitos essenciais do povo de Timor. Afinal, ainda recentemente, Timor estava sujeito a um regime ditatorial estrangeiro que massacrava pessoas apenas por se manifestarem. Mas aí percebemos que o que está em causa é saber se as aulas de religião e moral católicas são ou não obrigatórias.

Recapitulando: os timorenses estão preocupados com a formação e o futuro dos jovens, pelo que começam por querer obrigá-los a todos a ter aulas de religião e moral, mesmo que os seus pais não estejam de acordo, de modo a que eles entendam o respeito pelos outros e pelo papel das famílias na educação dos seus filhos. Para continuar a garantir um futuro assim risonho e moral põem em causa o estado de direito e a democracia de modo a que os jovens se vão treinando para respeitarem as suas próprias instituições. Finalmente aproveitam para algum exercício de violência e desrespeito pelos direitos humanos, também altamente formativo. O Bispo de Díli empresta a sua casa para estas actividades e explica-lhes que quando os fins justificam os meios e quando por coisas pequenas fazemos grandes guerras estamos a construir a paz e a concórdia.

Será que no Vaticano ou entre os bispos católicos não há ninguém que ajude os bispos de Timor a perceberem o que estão a fazer? Alguém conhece um endereço de e-mail ou site onde se possa dar uma sugestão aos bispos de Timor ou ao Vaticano sobre este assunto?

O meu amigo Mehmet


O Mehmet era um doutorando em robótica. Vivíamos na mesma residência de estudantes. Os seus olhos brilhavam no dia em que comeu umas farófias tipicamente portuguesas: são iguaizinhas às da minha mãe! Fez uma rotura de ligamentos no primeiro dia de sky. Eu costumava ir visitá-lo ao hospital.
Foi nessa altura que rebentou o affaire Rushdie. Memhet era um muçulmano devoto. Aprovava os movimentos islâmicos mais radicais, embora não fosse capaz de fazer mal a uma mosca. Não se vai ao hospital insultar um doente. Talvez não tenha tomado a atitude mais correcta. A verdade é que não fui capaz de lá voltar.
Quando nos encontrámos outra vez puxou imediatamente pelo assunto. Perguntou-me o que é que se passava. Queria ouvir a história da minha boca. Expliquei-lhe a minha posição. Não havia grande coisa para dizer. Cada um de nós sabia muito bem o que o outro pensava sobre a fatwa a Salman Rushdie. O problema é que nós gostamos mais de vocês do que vocês gostam de nós. Vocês querem que nós entremos para a Comunidade europeia para destruir a nossa cultura. Disse-lhe que não me parecia que isso fosse verdade. Para além do mais, eu não queria que a Turquia entrasse na Comunidade Europeia. Vocês não tem o direito de recusar a nossa entrada! Perguntei-lhe se afinal ele queria entrar e porquê. Porque em compensação vamos destruir a vossa! Com o passar do tempo as nossas relações voltaram a uma certa normalidade, embora nunca mais fossem como antes.
A Comunidade Europeia vai escolhendo lideres cada vez mais imbecis: Delors-Prodi-Barroso, é sempre a descer. Na falta de ideias para fazer avançar o projecto europeu, aumenta-se o número de países. Com a entrada da Turquia será extremamente difícil desenvolver uma política externa comum. A CE nunca será muito mais do que uma zona de comércio livre. A hegemonia americana nunca será posta em causa. A Turquia merece um estatuto de membro associado com vantagens comerciais substanciais. Ir para além disso é dizer adeus ao projecto europeu.
Afinal para que é que se vai fazer um referendo sobre a Europa? Caso se diga não a única consequência é levarmos um puxão de orelhas do Presidente da República e do Primeiro Ministro e termos direito a corrigir o nosso voto no referendo seguinte. Mais vale poupar o dinheiro.