
Diz o
Manuel do Adro:
Uma das características definitórias da cultura contemporânea é a ideia de ter superado o antropocentrismo renascentista ou moderno, para passarmos ao que Miguel Ibañez chama somatocentrismo pós-moderno. O corpo é a estrela de uma sociedade ultraviolenta, supertecnificada e hipersexual. Esta explosão de corporeidade pode envernizar-se e aparecer requintada e complexa. Mas disfarça mal a animalidade a que nos reduz.
Caro Manuel, este blogue ultimamente mais parece uma exposição de corpos nus. É verdade que vivemos numa sociedade hiperconsumista que se apercebeu das consequências do hiperconsumismo a nivel da alimentação. Num mundo com cada vez mais obesos, só o culto do corpo permite equilibrar os efeitos da publicidade aos chocolates. É a guerra das calorias. Mas não é desta guerra que eu queria falar.
Este seu post levanta uma série de questões interessantes. O CA já
opinou sobre os adjectivos empregados pelo Manuel, e muito bem. Deixe-me tratar de outro aspecto da questão.
O que é que a igreja católica pode fazer a propósito deste problema? Parece que muito pouco. Porquê?
Quando tinha treze anos tentei juntar-me à equipa de basquetebol do clube da minha terra. Fui lá com um amigo, católico praticante. No fim do treino fui tomar duche nu, com toda a gente. Depois de duas horas de exercício violento num dia de verão, estavamos mesmo a precisar de um duche. O meu amigo tentou escapar-se discretamente. Alguns colegas mais velhos avisaram o meu amigo: Oh pá, homens com homens não há vergonhas! Se na próxima tentas escapar-te outra vez, vais para o duche vestido. Uma atitude extrema sem dúvida. Apesar de o meu amigo estar muito interessado em jogar basquete, nunca mais lá apareceu.
Toda a vida se intrigou esta falta de à vontade com o corpo tão vulgar entre os católicos praticantes. O corpo parece ser um envolucro descartável da alma. Algo imperfeito de que nos devemos envergonhar. Só serve para pecar.
Algumas tradições têm coisas muito mais interessantes para nos dizer sobre o corpo. Ensinam-nos a usar o corpo como uma meio para chegar ao nosso lado mais espiritual. É o caso do yoga e do
zen. O post do Manuel é apenas e só um grito de impotência. Não será possível encontrar na tradição cristã algo que nos ajude a lidar com o nosso corpo de uma forma mais saudavel?