sexta-feira, maio 26

A fraqueza do hábito

Durão Barroso queria enviar forças militares para o Iraque. Jorge Sampaio não estava de acordo. Encontraram a solução de compromisso possível. Enviaram um contingente da GNR para desempenhar (mal!) funções destinadas aos militares. Eu até nem apoiava o envio de tropas, mas não é isso que está em causa. Quando se faz alguma coisa, faz-se bem feito.
Com a situação em Timor a complicar-se todos os dias, o que é que a GNR vai lá fazer? Desta vez nós não vamos lá só para se poder hastear mais uma bandeira...

Ainda Timor

Diziam que só íamos para Timor com uma resolução da ONU. Uma atitude prudente que evitaria algumas confusões. Agora parece que já não é preciso. Daniel Oliveira levanta algumas dúvidas pertinentes.
Não me parece que os jornais expliquem o que realmente se está a passar. Os factos não serão talvez suficientemente politicamente correctos.

quinta-feira, maio 25

4-4-2 versus 4-3-3

Por que é que os treinadores de futebol se equivocam tantas vezes? São tão estúpidos como os treinadores de bancada pensam? Aqui está uma das razões. Nunca é tarde para aliar à paixão do futebol algum conhecimento do jogo.
No 433 joga-se com um avançado e dois extremos, que centram bolas para o avançado. No 442 joga-se com dois avançados. O papel dos extremos é efectuado pelo médios alas, que jogam um pouco mais atrasados. Não atacam tanto, mas defendem melhor.
Quando se escolhe os jogadores que vão formar uma equipa, deve-se ter ideias claras sobre o sistema em que se vai jogar. No 433 o avançado tem de ser um avançado completo, capaz de jogar sózinho e de jogar bem de cabeça. É o caso do Jardel e do Pauleta. Não é o caso do Nuno Gomes ou do Liedson. O Nuno Gomes precisa de um ponta de lança mais avançado para combinar. O Liedson é demasiado leve para aguentar a luta de área sózinho.
Quando uma equipa mistura jogadores que não se encaixam todos no mesmo sistema, o treinador tem de fazer remendos, e a manta não consegue tapar os pés e a cabeça.
O Paulo Bento fez muito bem em sacrificar um excelente extremo, o Douala, em prol do rendimento da equipa. O elemento chave era o Liedson, como tal a equipa tinha de jogar em 442 para potenciar completamente o seu rendimento.
A selecção com a quantidade e qualidade de extremos puros que possui tem de jogar em 433. Para isso é necessário ter um ponta de lança completo para jogar no meio do ataque. Se o Pauleta baixar de forma não há ninguém para tomar o lugar dele e as coisas ficam muito complicadas.
Uma situação interessante é a do Manchester United. Esta equipa tem dois pontas de lança extraordinários, que podem jogar sózinhos num 433 ou juntos em 442. Ninguém quer meter um deles no banco, logo a opção natural é o 442. Mas está lá um génio chamado Cristiano Ronaldo, que é um jogador de 433. A certa altura Queirós recuou Wayne Rooney para o meio campo para implementar o 433. Rooney não se adaptou, como seria de esperar, e a equipa voltou ao 442. Quem perde é o Cristiano Ronaldo, que não tem mostrado tudo o que vale. Razão destes problema: a mania de coleccionar bons jogadores, sem olhar ao resto.

terça-feira, maio 23

Hokusai 3

Descarrilhamento

O menino Manuel Maria queixou-se aos pais do défice democrático vigente no jardim escola. Os outros meninos não gostam de brincar com ele.
Carrilho publicou um livro com as suas entrevistas enquanto ministro da cultura. Foi acusado por um dos jornalistas presentes num program da RTP de ter editado as entrevistas em centenas de passagens. Ao que parece modificou as respostas que deu, omitiu perguntas que lhe fizeram, inventou outas perguntas. Staline no seu melhor. Confrontado com estes factos, começou por negá-los. Depois passou a contrapor que nenhum jornalista se tinha queixado. Confrontado com os nomes dos jornalistas que se tinham queixado, amuou perante tal injustiça. Não só não se enfiou num buraco como continuou a dar lições de moral a todos os presentes.
De fogacho em fogacho até ao oblivio final.

segunda-feira, maio 22

Já em Português?

Sempre achei que o Lutz tinha horror aos lugares comuns.

Jogar o Jogo da Vida


é muito mais instrutivo do que discutir filosofia. Construa o seu próprio universo determinista aqui. Marque umas casas, a configuração inicial do seu universo. Carregue em step para ver a evolução passo a passo desse universo ou em auto para ver o universo a evoluir como na figura. Todos podemos ser Deus por quinze minutos.
As leis "físicas" que regem este universo são só quatro:
Uma celula com menos de dois vizinhos morre de solidão.
Uma celula com mais de três vizinhos morre com falta de ar.
Uma celula com dois ou três vizinhos sobrevive.
Nasce uma celula numa casa vazia com três vizinhos.
(É o chamado ménage a trois)
Antes de discutir o determinismo e o livre arbitrio, nada como ver como foi complicada a vida de Deus quando (se) criou um universo determinista. Não é uma tarefa fácil criar um universo interessante! Pode encontrar aqui algumas dicas sobre como construir configurações interessantes. A figura representa uma fábrica de deslizadores.

domingo, maio 21

Franco - Atiradores

Kurt Gödel (1906-1978)

Comemora-se este ano o centenário do nascimento de Kurt Gödel, o lógico que ficou famoso pelo seu teorema de incompletude. Já se disseram muitas asneiras sobre o assunto, não faz mal dizer mais algumas.
A matemática é composta das mais diversas teorias mas uma pequena parte dela já contem tudo. A parte que trata das contas de somar e de multiplicar os números 1,2,3... Todas as outras construções podem ser reduzidas em última instância a estas coisinhas elementares que todos nós conhecemos.
Considere-se o conjunto de todas as afirmações verdadeiras que se podem dizer sobre os números naturais. Será que podemos escrever um Livro com uma lista de afirmações sobre os números naturais a partir das quais todas as outras afirmações verdadeiras se podem deduzir?
Godel mostrou que não. Das duas uma: ou a lista seria infinita, não cabendo em nenhum livro, ou podíamos deduzir das afirmações do Livro uma afirmação e o seu contrário (uma contradição).
Por outras palavras, o livro seria obrigatóriamente incompleto ou contraditório.
Será razoavel extrapolar as conclusões de Godel para a Bíblia, o Corão e o Talmude?
Se podemos, temos de escolher entre duas opções:
--Admitir um conjunto de princípios minimalista, que não nos diz como agir em todas as situações. Nesse caso vamos ter que ir escrevendo o livro das regras em que acreditamos ao longo da vida. É como reparar um avião em voo.
--Admitir um conjunto de regras mais completo, que responde a tudo. Mas que às vezes nos pode dar duas respostas. E duas respostas contraditórias.
Para os cristãos existem as opções de acreditar literalmente em toda a Bíblia, guiar-se pelos Dez Mandamentos, guiar-se só pelo primeiro.
Todos nós temos de decidir seguir as opiniões de autoridades ou correr o risco de aprender à nossa custa. Gödel não nos propõe nenhuma solução para este dilema, apenas nos lembra que não há forma de o evitar.

sexta-feira, maio 19

Hokusai 2 (1831)

"Uma criança tem direito a um pai e uma mãe"

Este slogan tem sido usado para retirar às mães solteiras o direito de recorrer a um banco de esperma ou a um dador anónimo. Vamos perder um momento a analisá-lo? O que é que subentende? Se a mãe solteira recorre a um dador anónimo, está a retirar ao seu filho o direito a conhecer o pai? Será mesmo assim? Se ela não recorrer, não há filho!
Este slogan atribui subrepticiamente uma pseudoexistência a algo que ainda não existe. O slogan só faz sentido se acreditarmos que uma criança já existe sobre a forma de uma "alma" ou "proto-alma" antes de ser concebida, estando à espera num limbo que um casal o "adopte". Alguns até acreditarão em algo assim, suponho eu. Mas não tém o hábito de o explicitar...
Existe uma hipótese de a criança vir mais tarde a sentir-se incompleta por nunca vir a conhecer o pai? É possível. Temos de ultrapassar tantos traumas na vida... Vamos então legislar que não podem nascer crianças com malformações de qualquer tipo, obrigando as mães a abortar? Não me parece a melhor opção.
Se perdermos um momento a analisar os slogans com que somos confrontados todos os dias, na publicidade, na política, nos blogues, acabamos por notar até que ponto eles nos enredam em suposições que uma vez explicitadas nos fazem sorrir. Vale sempre a pena parar para pensar.

quinta-feira, maio 18

O Patriarca e as maternidades

Um rei português que não sabia o que fazer ao dinheiro trocou uma fortuna gigantesca por mais um cognome para o bispo de Lisboa. Socrates vai retirar ao patriarca o seu lugar no protocolo de estado. Vai assim calar por uns tempos a ala esquerda do PS, que não gosta do aperto do cinto. O CDS estrebucha pela perda de terreno. São umas bandeiras que avançam e outras que recuam, mais um episódio do Jogo. Nada de essencial está em causa para nenhum dos lados.
Ter um filho numa maternidade onde se faz um parto por dia é um perigo. Os médicos e os enfermeiros necessitam de prática. É infinitamente mais seguro apanhar uma ambulância para uma maternidade a vinte quilómetros de distância. Acontece que aceitar a partida da maternidade é aceitar que a vila em que vivemos já não é o que era, é perder terreno para a vila do lado, é perder terreno no Jogo.

quarta-feira, maio 17

Contra Factos

Frank Rijkaard entrou para a história do Barcelona ao ganhar hoje a liga dos campeões contra o Arsenal. Se lhe juntarmos os três campeonatos de Espanha que ganhou em três anos, Rijkaard pode agora pedir meças a Johan Cruyff no imaginário blaugrana. Alguém interessado em criar uma grande equipa de futebol, tomaria a decisão acertada ao convidar Rijkaard para treinador? Quando se tem de tomar decisões é crucial saber distinguir o essencial do aleatório.
Olhemos para Lazlo Boloni, o homem que treinou o Sporting da ultima vez que este clube foi campeão. Vários comentadores tentaram descobrir quais as suas qualidades que se revelaram decisivas. Eu apenas encontrei a sorte. No ano seguinte Jardel foi-se embora e foi o que se viu. Boloni comparou-se ao dono de um restaurante que perdeu o seu cozinheiro fora de série. Não tinha culpa de ter perdido o cozinheiro. Também não tinha tido nenhum mérito nos pratos que o cozinheiro preparava e que deram a fama ao restaurante, esqueceu-se ele de acrescentar.
Rijkaard é também o homem de sorte no lugar certo. Mais nada. Não o queria nem a treinar os juniores. Veremos o que acontece quando mudar de clube ou quando a conjuntura actual do Barcelona se modificar.
Um dos grandes atractivos do futebol é ser um modelo em miniatura do mundo em que vivemos. Um modelo onde o tempo corre mais depressa e podemos testar a nossa capacidade de analisar uma situação. É pena que tão pouca gente o aproveite para este fim.

Hokusai 1