sábado, março 23

2

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)

quinta-feira, março 21

Sócrates na TV

As autárquicas estão à porta e os portugueses vão adorar penalizar o PSD (e o CDS, já agora). As autarquias são a base da estrutura dos partidos e os resultados vão deixar marcas nos partidos do poder durante pelo menos uma década. Nesta situação vale tudo. Lembrar os portugueses que os "sócios" do PS achavam Sócrates o máximo e nunca se demarcaram dele é uma jogada genial. Fazê-lo na televisão pública é uma sem-vergonhice que ultrapassa todos os limites, e é um problema de saúde pública. Não tenho de aturar a cara do Sócrates a seguir ao jantar.
Vendam a RTP, mas vendam mesmo! Amanhã.

Coitados dos Cipriotas?

A banca cipriota é treze vezes maior do que o resto da economia. Ou seja, a economia real da ilha representa 7% da sua economia. Chama-se a isto viver no fio da navalha. Se os bancos cipriotas fizerem uma asneira, não há maneira de a economia cipriota resolver o problema.
O povo cipriota escolheu este caminho? Sabia dos perigos que estavam a correr?  Não escolheu, mas sabia o que se estava a passar: o afluxo de dinheiro lavado e de dinheiro que não paga impostos deu aos cipriotas durante décadas uma vida bem mais confortável do que que eles poderiam esperar. Não existem almoços grátis... Nunca se perguntaram como era possível? Não havia lá nenhum Medina Carreira a avisá-los? Provavelmente até havia.
E agora? Se os cipriotas não são capazes de resolver o problema, quem tem obrigação de o resolver? É agradável imaginar que todas as pessoas, países e instituições possuem um anjo da guarda ou um pai que lhes resolve os problemas. No mínimo, podemos usá-lo como bode expiatório quando as coisas correm mal. A União Europeia tem a obrigação de pagar? Bem, tem alguma obrigação de ajudar...
A economia cipriota pode esperar que os outros paguem para resolver as complicações que eles arranjaram? Sendo a economia real 7%, onde é que se pode ir buscar o dinheiro?
Provavelmente não me apercebi de algum aspecto do problema. Agradeço qualquer esclarecimento que me possam prestar.

Chipre não é caso único. O Luxemburgo tem o nível de vida mais elevado da Europa. Em grande parte à custa do dinheiro que para lá fugiu para não pagar impostos, do dinheiro que por lá é lavado. O peso da banca na economia do Luxemburgo é dez vezes o da economia real, cem, mil?
Felizmente a Suiça não faz parte da União Europeia. Mas a Bélgica faz. Qual é a cota parte do sector financeiro no milagre económico belga?  Os islandeses não gostaram nada da brincadeira que lhes aconteceu, mas beneficiaram durante décadas da sua banca sobredesenvolvida.
A senhora Tatcher livrou os ingleses das industrias antiquadas, criando o mito de que um país pode sobreviver à custa do sector de serviços. Estamos agora a ver como isso é verdade. A Inglaterra sobrevive à custa da dos bancos da City, o maior centro financeiro do mundo. Quando Bush resolveu atacar o Iraque, Tony Blair nem pestanejou. Seguiu todas as ordens de Bush, sabendo perfeitamente que estava a destruir a sua carreira e comprometer para sempre a sua reputação. A verdade é que meia dúzia de telefonemas de um presidente dos estados unidos podem destruir numa semana a City e arruinar a economia inglesa durante várias décadas. Nenhum inglês educado pode dizer em consciência que ignora este facto.

quarta-feira, março 20

1

A maior parte de nós não tem mais do que uma vaga ideia do que seja “pensar”, transformar em “pensamento” o bric-à-brac, o refugo e o lixo da nossa corrente mental. Adequadamente concebida – quando paramos para pensar no assunto? -, a instauração de um pensamento de primeira ordem é tão rara como a composição de um soneto de Shakespeare ou de uma fuga de Bach. Talvez na breve história da nossa evolução, não tenhamos ainda aprendido a pensar. Excepto para um punhado entre nós, talvez a designação de homo sapiens não passe de uma vanglória injustificada. 

sexta-feira, março 15

Contos de Fadas

Todos nós assistimos ao aparecimento dos telemóveis. Agora a nossa vida é muito mais cómoda. Por outro lado tornou-se mais difícil estarmos sós. Ter uma tarde para executar uma tarefa mais profunda, sem interrupções. Estamos mais longe de nós próprios.
O miúdos não entendem muito bem do que estamos a falar. Não conheceram uma sociedade sem telemóveis. Era bom haver uma maneira de lhes explicar estas mudanças. Os ganhos e as perdas. Não ter telemóvel não é grande solução. Ter consciência das mudanças que estes instrumentos provocam nas nossas vidas e tentar minimizar os seus inconvenientes, talvez valha a pena.
Só tive televisão em casa a partir dos sete anos. Tenho uma vaga ideia dos tempos antes da caixa que mudou o mundo. A vida era por vezes mais enfadonha mas havia mais tempo para ler um livro, falar com os outros, estar a sós com a nossa pessoa. A telefonia não se apoderava de nós com tanta facilidade. Acontece ir a casa de alguém e a televisão estar sempre ligada, mesmo sem ninguém a estar a ver. Serve para evitar o silêncio e espantar algum pensamento ligeiramente perturbador.
A nossa sociedade muda continuamente fruto de mudanças tecnológicas e sociológicas. A um ritmo cada vez mais vertiginoso. A nossa vida é agora mais cómoda e segura, pelo menos enquanto não acabarmos de destruir o planeta.
A historia da donzela sem braços foi criada por alguém que presenciou o primeiro moleiro a ter um moinho de vento e as mudanças que esse moinho provocou na sua vida e na vida dos que o rodeavam. Exprimiu-se da única forma ao seu alcance, uma forma simbólica. Podemos aprender alguma coisa com ela. O senhores Fernando Ulrich e António Borges passaram a maior parte da vida a olhar o mundo como um objecto que tinham de manipular. Acabaram por deixar a parte mais terna do seu ego perder as mãos. A parte que dá valor às coisas, a todas as pequenas e grandes coisas. O autor da historia viu acontecer algo de semelhante ao moleiro. A outra escala. Estes senhores não são capazes de saborear aquilo que ganharam bem ou mal.
Só conseguem sentir-se bem a ganhar mais dinheiro ou a tirar o dinheiro aos outros. Quando conseguem que os outros se sintam miseráveis, conseguem sentir-se um pouco miseráveis eles próprios. Pelo menos melhor durante algum tempo.
A Donzela que perdeu as mãos pode ser interpretada de várias formas: fala sobre as mudanças que ocorreram numa sociedade, sobre as mudanças que ocorreram numa mulher, sobre as mudanças que ocorreram na parte feminina de um homem. Podemos aprender algo com ela se a relacionarmos de alguma forma com a nossa vida.