sexta-feira, maio 30

Não adianta

Durante séculos foi proibido dissecar cadáveres. Quantas vidas se perderam devido a este interdito idiota? Agora é sobre as células estaminais que se procura exercer um tabu. Não interessa se essa investigação podia vir a curar doenças como Parkinson e a diabetes. Outros valores mais altos se alevantam. Os líderes religiosos parecem não querer aprender nada com os erros do passado. Acontece que é impossível na sociedade globalizada de hoje brincar à inquisição por muito tempo, mesmo que a rebaptizemos com um nome mais apelativo. O supremo tribunal brasileiro autoriza a investigação utilizando células estaminais. Curiosamente, a igreja católica brasileira resolveu ter juízo. Os países que mantiverem o interdito vão abdicar de desenvolver esta nova e lucrativa indústria. A Grã-Bretanha já percebeu isso.
Repete-se esta rábula mais uma vez (via Que treta!).

terça-feira, maio 20

John William Waterhouse - Hylas and the Nymphs, 1896

segunda-feira, maio 19

O sr. Fritzl e os seus vizinhos

Referi aqui um artigo de um austríaco sobre a sociedade austríaca, que deu depois origem a uma longa polémica no quase em português. Será que a cativeiro de Elisabeth Fritzl podia ter sido evitado se os seus vizinhos prestassem um pouco mais de atenção ao que se passava? A Helena acha que não. É difícil provar que alguém tinha razões para suspeitar de que se passava algo estranho e se calou. É pouco provavel que essa pessoa o admita.
Podemos no entanto exercitar o nosso bom senso. A Elisabeth foi violada durante vários anos pelo seu pai. Nunca se queixou a ninguém? Nunca emitiu sinais que a permitissem identificar como sendo uma criança em perigo? Fugiu de casa. Ninguém se perguntou porquê? Ninguém falou com ela sobre o assunto? A mãe é apresentada como sendo uma mulher que viveu toda a vida aterrorizada pelo marido. Sabe-se agora que na semana em que a neta se deslocou ao hospital estava de férias em Itália. Passava todos os anos uma semana de férias sem o marido no estrangeiro. Ao que parece a sra. Fritzl gozava de um grau de autonomia pouco compatível com a imagem que temos dela.
Fala-se muito contra a bisbilhotice. Ao mesmo tempo que as vendas das revistas cor de rosa continuam a aumentar. Não são só os dentistas que as compram. Melhor seria que todos nós assumamos o nosso lado negro. Eu pratico sistematicamente uma certa forma de bisbilhotice. Gosto de andar informado somo como evoluem os meus sobrinhos adolescentes e outras pessoas em posições de mais fragilidade. Não suspeito de nenhum caso de pedofilia mas conheço bem demais uma série de padrões que se estabeleceram em gerações anteriores e a sua tendência para se reproduzir. Uma vez por outra intervenho. Umas vezes de forma directa e relativamente agressiva, para aí uma vez de três em três anos. Outras de formas mais subtis. Arrisco-me a cometer erros imperdoaveis, a contrair responsabilidades pesadas, a criar inimizades inconvenientes. Acho que não tenho o direito de não o fazer. So far so good. Se existisse algum senhor Fritzl na minha família, acho que ele não se safava.

domingo, maio 18

São Jorge e o Dragão

Os descendentes de Felix Klein

Faz agora 130 anos que Felix Klein completou a sua tese de doutoramento. Um acontecimento raro na época. Foi o único aluno de doutoramento dos ilustres Julius Plucker (coordenadas) e Rudolf Lipschitz (funções). Klein distingui-se pela sua célebre garrafa, pelo seu programa para relacionar a teoria dos grupos com a geometria e pelos seus 58 alunos de doutoramento. Um feito único. Eu sou um dos mais de 30.000 descendentes do sr Klein. Em média cada descendente do sr. Klein teve um pouco mais de três alunos de doutoramento. Ou seja: a cada duas gerações (de doutorandos) o número de descendentes do senhor Klein multiplicou-se por dez. Em 130 anos chegámos aos 30.000. Se os matemáticos se continuassem a reproduzir a esta velocidade dentro de 130 anos existiriam 1000 milhões de descendentes do sr. Klein. Como nem todos os matemáticos são descendentes do Felix, todos os habitantes da terra seriam matemáticos.
Sempre que o crescimento anual de uma grandeza é uma percentagem constante dessa grandeza estamos perante um crescimento exponencial. A certa altura torna-se explosivo. Não pode continuar. É a velha história do sábio que inventou o xadrez para ocupar as horas de tédio do seu marajá. O marajá ofereceu-se para lhe realizar um desejo. O sábio pediu-lhe que colocasse um grão de trigo na primeira casa do tabuleiro, dois na segunda, quatro na terceira e assim sucessivamente. O marajá perguntou-lhe por que não lhe pedia algo mais valioso. A verdade é que não existe trigo suficiente neste planeta para satisfazer este pedido.
Sendo assim, por que é que os matemáticos reagem tão mal quando o número de matemáticos para de crescer numa determinada parte do globo? Eles, mais do que ninguém, deviam compreender o crescimento exponencial. O que é que nos leva a querer sempre crescer ao nível da população, do produto nacional bruto, dos gastos de energia, apesar de sabermos que as coisas não podem continuar assim indefinidamente?

Clicando na figura vai-se parar ao Mathematics Genealogy Project. O matemáticos que por aqui passarem podem procurar lá a sua árvore genealógica. É mais do que uma simples curiosidade.

sábado, maio 17

Les Nymphes et le Satyre - William Bouguereau, 1873.

Medicina e globalização

Dezenas de milhares de portugueses perdem o emprego por causa das deslocalizações das fabricas de texteis, calçado e componentes automoveis. Nada se pode fazer, é o sacrossanto mercado. Quando os oftalmologistas perdem 0,005% da sua cota de mercado para a mesma globalização, um governo atento desvia verbas para garantir que tal não acontece. Mesmo que continue a ser mais barato ir a Cuba, com avião e tudo.
Ficamos agora à espera da Junta de Freguesia que envie para a India três senhoras à espera de uma prótese auditiva há dois anos e da Camara que pague a meia dúzia de municipes os tratamentos dentários a que nunca teriam direito cá no burgo. Por um terço do preço, na Costa Rica. Nesse dia acabam-se as listas de espera no Serviço Nacional de Saúde.
As ideias que expresso neste post parecem-me razoáveis e não especialmente originais. É possível encontrar nos artigos de opinião dos nossos jornais de referência as opiniões mais dispares. Por que é que ninguém manifestou até agora uma posção vagamente parecida com esta?

terça-feira, maio 13

Nota para o dia das eleições

As regras são para os outros...
Mais um ponta do iceberg. Por isso mesmo, não posso deixar que o Socrates tenha maioria absoluta pró ano.
Votar em quem? Talvez bloco de esquerda, se não estiverem com mais de 10%.

segunda-feira, maio 12

Manuela Ferreira Leite e os outros (2)

[...] esta semana houve a entrevista de Manuela Ferreira Leite a Judite de Sousa na RTP. Tudo foi bizarro no tratamento televisivo da entrevista, de tal maneira que todos se aperceberam de que havia qualquer coisa pouco habitual. Não me lembro de nenhuma [entrevista], nenhuma, que tivesse sido feita quase do princípio ao fim com um grande plano, um enorme plano do rosto de Manuela Ferreira Leite. Durante grande parte do tempo, o rosto nem cabia no ecrã, de tão próximo estava o olhar da câmara. Isto é objectivo; é só comparar as entrevistas.

Eu percebo muito bem a intenção do realizador. Não havia ruga, veia, movimento do olhar que não enchesse o ecrã, e o mais cruel dos planos escrutinava aquele rosto para lhe mostrar a fragilidade. É o mais violento dos olhares que a televisão é capaz, aquele que não permite que nada escape, que desapareça toda a reserva do corpo na sua parte mais exposta, a face. Aquele plano era todo um programa, tinha como objectivo mostrar uma mulher velha e cansada, com rugas, com o tempo na cara. Mostraria o mesmo em quase toda a gente, menos nos modelos de plástico que passam por homens e mulheres e que nasceram ontem com a pele limpa dos bebés. Mas não era toda a gente que estava ali, era Manuela Ferreira Leite. Aquele grande plano, excessivo e brutal, é todo um programa, insisto. Não há inocência.

Aquela face desprovida de qualquer defesa, exposta ao escrutínio quase incomodado dos espectadores, transmutou-se numa beleza muito especial, muito rara - a da verdade. É que debaixo daquela luz não há mentira que não se perceba, nem verdade que não se agigante.

Quando se lamenta muito a crise dos valores na nossa sociedade, aquela mulher frágil como todos nós, a quem chamam "de ferro", faz a melhor das pedagogias - a do exemplo.

Por tudo isto, agradeço aqui ao realizador da entrevista da RTP que não sei quem é. Fez a melhor das propagandas, mais rara, a mais difícil de fazer, a que não se encomenda, a que não se coreografa, a que não se imita. Fez da fragilidade uma força imensa. Não sei se chega para ganhar eleições no PSD, estou até mais convicto que chega mais facilmente para ganhar eleições no país, tão grande está o divórcio entre o partido e o país, mas estou de bem com esta maneira de ser. É o que mais faz falta.

quinta-feira, maio 8

Manuela Ferreira Leite e os outros

Pedro Passos Coelho lança uma frase e depois vê se pega. Será que ele acredita em alguma coisa? Santana Lopes já conhecemos, obrigado. Ontem Manuel Ferreira Leite lembrou-nos que ainda existem pessoas que fazem política e que têm convicções. Que até sabem do que falam. Que uma tal pessoa seja candidata à liderança do partido mais sem vergonha do nosso espectro político é uma daquelas ironias da vida que não sei explicar.

Californication

Às segundas na RTP2, pelas 23h10m.

quinta-feira, maio 1

A suspeita

Com aquele orçamento e aqueles jogadores, qualquer lateiro teria feito o que ele fez?
É claro que sim, meu caro João Pinto e Castro, desde que tivesse sido Mourinho a programar a pré-época e a estabelecer o modelo de jogo. Pró ano tiramos as dúvidas.

The Most IMPORTANT Video You'll Ever See

Oftalmologia e Globalização

Depois de a Globalização roubar ao Dr. Pedro Nunes, insigne bastonário da Ordem dos Médicos, umas dúzias de clientes, esta senhora resolveu invadir o Hospital do Barreiro.