segunda-feira, janeiro 28

sábado, janeiro 26

O fim dos certificados de aforro

Com a mania do deficit, cortaram nos juros dos certificados para poupar uns tostões. Julgam que eu sou parvo? Já comecei a transferir o dinheiro para o meu banco. O Sócrates que se lixe.

Será que o Sócrates se importa? Ao contrário do que parece, esta medida não vai poupar dinheiro ao estado, que vai ter de pedir emprestado a um juro mais alto o dinheiro que até agora obtinha ao preço da chuva. Qual é então a sua motivação?
O negócio dos bancos é essencialmente emprestar dinheiro. É aí que ganham comissões. Não se preocupavam por aí além em assegurar depósitos. Como foi discutido aqui noutros posts, os bancos podem emprestar o dinheiro que não possuem. A recente crise financeira veio complicar as coisas. Existe muito crédito mal parado. Os bancos têm necessidade da entrada de dinheiro fresco. O BPI está a discutir a realização de um aumento de capital a fim de melhorar o seu ratio. Está a pedir dinheiro aos accionistas, porque têm falta dele. Todos os bancos estão a enfrentar esse tipo de problemas. Precisam de captar dinheiro rápido, o mais barato possível, para que os lucros não caiam muito e os bónus dos administradores não se percam. Sócrates está a tratar dos interesses dos bancos, à nossa custa.

Porque é que o governo toma uma medida que prejudica os cidadãos, custa dinheiro ao estado e só beneficia os bancos?

Fariseus

As liberdades são normalmente invocadas para defender os mais fracos e não para facilitar ainda mais a vida dos mais fortes. Jesus não foi tolerante para com os vendilhões do templo ou os fariseus mas para com as prostitutas e os pobres.

Wendy, 54

sexta-feira, janeiro 25

A Dona Elisa passa a vida a dizer mal do marido, mas ai de quem concordar com ela

Dois anos e meio depois da eleição, os católicos progressistas interiorizaram finalmente o facto incontornável: o cardeal Ratzinger é o Papa Bento XVI.

quinta-feira, janeiro 24

La Sapienza (2)

O caso do Papa na La Sapienza tocou, inesperadamente, nalgum nervo: de outra forma não consigo explicar-me que tantas pessoas, até umas de cujo juízo e boa fé normalmente não duvido, julgam estar perante um escândalo, um ataque vil contra a Igreja Católica e a liberdade de expressão dos crentes.

Não é estranho que também pessoas não católicas reconhecem ao Papa um tal estatuto que ele estaria, à partida, sempre bem vindo para discursar nos seus eventos. Mas a ideia de que todos têm obrigação de lhe reconhecer esse estatuto, é obviamente inadmissível e viola, ao querer impor um privilégio de um, a liberdade de expressão de outros.

Em 1990 Ratzinger citou Feyerabend para dizer que «A igreja na altura de Galileu foi muito mais fiel à razão que o próprio Galileu, e também considerou as consequências éticas e sociais da doutrina de Galileu. O seu veredicto contra Galileu foi racional e justo». Cientificamente, Galileu devia ter esperado por mais evidências antes de defender com tanto afinco o modelo de Copérnico. Cientificamente, isso justificava que o revisor do seu primeiro trabalho lhe pedisse que apresentasse mais dados. Mas não há nada de racional, científico, ou sequer minimamente aceitável em pôr o homem na prisão por causa disso. É isto que Ratzinger e os Católicos que o defendem varrem para debaixo do tapete, mas é isto que importa. A Igreja Católica tinha o direito de discordar de Galileu mas não tinha o direito de o prender por isso.
Ninguém quer fazer o mesmo ao Papa. O espírito académico de abertura e diálogo faz-me opor que ponham Ratzinger na prisão ou o torturem pelas tretas que diz. Mas é um disparate que o representante de uma religião inaugure o ano académico de uma universidade séria. A universidade não tem nada a ver com religião, não deve ter, e tinha-se poupado muito sofrimento a muita gente se nunca tivesse tido.

Já agora, leiam os posts do Luís M. Jorge sobre O Templo.

sábado, janeiro 19

La Sapienza

Da próxima vez que alguém contestar uma reunião dos G7, Bush e os seus colegas cancelam a reunião ultrajados perante o ataque à liberdade de expressão. Nunca mais ninguém vai ter a coragem de repetir a graça.

domingo, janeiro 6

Luiz Pacheco (1925-2008)




Tenho um subsídio de 120 contos, graças ao Alçada Batista. E também ao Balsemão que teve a feliz ideia de inventar o decreto do mérito cultural. O Santana despachou um decreto que favorece pessoas que estão na minha situação. Mas não é por isso que gosto do rapaz. O tipo sabe o que é bom. O que é bom para mim são umas garotas, que vêm cá de manhã para me fazerem a higiene. Não é mau.


Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor.

sábado, janeiro 5

A estrela de Mandelbrot


Udo de Aachen foi o monge beneditino do século XIII que escreveu o poema Fortuna Imperatrix Mundi, onde antecipou uma parte do trabalho pioneiro de Pascal sobre a teoria das probabilidades e os jogos de azar. No seu tempo era mais conhecido pelos seus trabalhos de teologia.

Udo teve direito aos seus quinze minutos de fama no dia em que Bob Schipke visitou a catedral de Aachen e passou os seus olhos pela iluminura ao lado, que se encontra num manuscrito obscuro que nesse dia de reis era exibido em lugar de destaque. A estrela dos reis magos era demasiado parecida com o conjunto de Mandelbrot para que se tratasse de uma coincidência.

De volta a Harvard Schipke contactou um medievalista seu conhecido. Cerca de um ano depois conseguiu reconstruir o trajecto intelectual de Udo, que durante oito anos executou religiosamente os penosos calculos que lhe permitiram esboçar o conjunto de Mandelbrot. Um milagre da paciência impensavel antes da descoberta dos computadores. Tendo sido completamente ignorado pelos homens do seu tempo, Udo decidiu gravar a sua descoberta em duas iluminuras. Esta foi a única que chegou aos nossos dias.

Quando li pela primeira vez esta historia passaram-me pela cabeça duas ou três ideias. Os números complexos só foram descobertos uma par de séculos mais tarde. A interpretação geométrica dos números complexos só surgiu no século XIX. No entanto só no dia seguinte pus verdadeiramente em causa esta página da internet. Uma rápida consulta à Wikipedia permitiu rapidamente tirar tudo a limpo.

A verdade é que a nossa confiança na internet está a crescer. Felizmente, há boas razões para que assim seja. Convém no entanto praticar o cepticismo metódico. Este foi outro caso em que me deixei levar por umas horas. Mais uma vez, a Wikipedia esclareceu as dúvidas.

Caridade: um conto científico

Luís Rodriguez acordou bem cedo naquela manhã de segunda feira. A aula estava preparada, a roupa escolhida de véspera. Comeu à pressa. Não estava atrasado mas era como se o tempo lhe faltasse. O seminário do Mawhinsky acabava ao meio dia. Depois havia cinco minutos de perguntas e respostas e iam todos almoçar. Ele acabava a teórica de Equações Diferenciais à mesma hora. Tinha de atravessar o campus à pressa para conseguir uma lugar na mesa do conferencista. De preferência bem perto. Era uma manobra delicada.
Ele estava no EQUADIF o ano passado, mas passou a hora a fazer contas. Nem levantou a cabeça enquanto eu dava o meu seminário. Não se lembra de mim, de certeza. Ainda por cima, nem vou ao seminário dele...
Rodriguez tinha completado a sua tese dois anos atrás. A passagem a Professor definitivo costumava ser uma formalidade mas as coisas estão a mudar rapidamente. E o Luís era demasiado orgulhoso e perfeccionista. Quatro artigos, um deles no Journal of Differential Equations era o mínimo para que ele pudesse andar de cabeça levantada. Uma meta ambiciosa, mas o Luís não fazia as coisas por menos. Já tinha dois aceites. Fazer mais dois a tempo não seria difícil. O problema era fazer um suficientemente bom para o JDF. Tinha uma boa ideia mas há três meses que não conseguia avançar. Uma conversa de dois minutos com o Mawhinsky podia ajudar a desbloquear o problema.
Quando a aula acabou a Matilde barrou-lhe o caminho para a porta. Não tinha percebido a terceira passagem da segunda demonstração. Até era agradavel ter uma aluna que prestava atenção à aulas. Mas naquele dia! Não teve coragem de a despachar.
Ficou sózinho noutra mesa, a ouvir as conversas. Quando se convida um colega para dar uma conferência, esta é mais um pretexto para justificar a viagem do que outra coisa. O importante são as discussões nos gabinetes e durante o almoço. E ali estavam os colegas dele a gastar o tempo do Mawhinsky com graçolas e trivialidades. No fim combinaram ir tomar café do outro lado da rua. Por timidez ou orgulho, o Luís nem tentou arranjar maneira de se fazer convidar para os acompanhar. Quando tentava engolir a sua frustração juntamente com os ultimos pedaços do arroz de pato, sentiu uma mão gorda e pesada no cachaço. Helloouh Rodriguezz! That trick you performed with the Hamiltonian at EQUADIFF was very funny indeed! AhAhAhAh. Join us for a coffeeeh?
(continua)