quinta-feira, março 23

Oops! ...

... Nunca mais me lembrei de fazer um post!

quinta-feira, março 16

O canto do pássaro

Deus é o Desconhecido e o Incognoscível.
Toda a afirmação sobre Ele é uma distorção da verdade.

- Então porque falamos sobre Ele?

Porque é que o pássaro canta?
Não por que tem algo para dizer,
mas porque tem um canto para cantar.

A. Mello

quarta-feira, março 15

Uma lenda judia

Os judeus de uma aldeia russa esperavam avidamente a chegada de um rabi particularmente sábio. Era um acontecimento raro. Eles gastaram muito tempo a a preparar as perguntas que lhe iam fazer.
Quando o rabi chegou, sentiu demasiada tensão no ar. Olhou-os nos olhos e começou a murmurar uma melodia. Todos o acompanharam. Depois começou cantar e todos cantaram. Levantou-se e executou alguns passos solenes. Todos o seguiram. Finalmente todos se absorveram na dança, ignorando tudo o resto. Todos se uniram num só, ultrapassando as suas diferenças. Foi assim sarada a divisão que os separava da verdade.
Ao fim de uma hora a dança acalmou e finalmente todos se voltaram a sentar. O rabi disse então as únicas palavras da noite. Espero ter respondido a todas as vossas perguntas.
A. Mello

Uma dança muçulmana

Porque é que um dervishe venera Deus através da dança?

Venerar significa deixar morrer o ego.
Dançar mata o ego.
Quando o ego morre, os problemas morrem com ele.
Onde o ego não está, o amor está, Deus está.

Já ouviram rezar e disseram rezas, vejam agora uma:
A. Mello

terça-feira, março 14


Acordar

A espiritualidade tem a ver essencialmente com estar acordado. A maior parte das pessoas não sabe que está sempre a dormir. Nasceram a dormir, vivem a dormir, casam a dormir, criam os seus filhos a dormir, morrem sem nunca acordar. Nunca compreenderam o encanto e a beleza daquilo a que chamamos a existência humana. Todos os misticos, cristãos e não cristãos, estão de acordo: tudo está bem, tudo está bem! Embora tudo esteja mal, tudo está bem. Um paradoxo estranho, sem dúvida. Tragicamente, muitos nunca reparam que tudo está bem, porque estão a dormir. Estão a viver um pesadelo.

Outro dia ouvi a história de um pai que bate à porta do quarto do filho.
Jaime, acorda!
- Não me quero levantar!
Levanta-te, tens de ir para a escola.
- Não quero ir à escola.
Porquê?
- Por três razões: primeiro é chato, segundo, os miudos gozam comigo, terceiro, odeio a escola.
Então eu dou-te três razões para ires à escola: primeira: é o teu dever, segundo, tens quarenta e cinco anos, terceiro, és o Director.
Acorda. Já cresceste. Pára de te entreter com os teus brinquedos!

Muitas pessoas dizem que querem abandonar o jardim-escola. Não acreditem! O que eles querem é consertar os seus brinquedos partidos. Dêem-me a minha mulher de volta! Dêem-me o meu emprego de volta! Dêem-me a minha reputação de volta! O meu sucesso! É isto que eles querem: os brinquedos de volta. Os médicos e os psicólogos sabem muito bem o que as pessoas querem: querem o Alívio. A Cura, essa é dolorosa.

Anthony de Mello

Um jesuíta polémico

O Padre jesuíta Anthony de Mello nasceu em Goa em 1931. Dedicou-se à psicoterapia, orientou um grande número de retiros espirituais e escreveu mais de uma dezena de livros.
Em 1988, um ano depois da sua morte, foi "canonizado" pelo cardeal Ratzinger. Eu dificilmente lhe faria um maior elogio.
Podia ter escolhido um jesuíta menos polémico, mas a verdade é que não convém eu deixar o meu lado irreverente adormecido durante demasiado tempo. Apenas escrevi este post para que alguns dos frequentadores do blogue não deixem aqui um comentário de que se possam arrepender.

Parece que o Padre Mello afirmou que
Pensar que o Deus da própria religião é o único, é puro fanatismo.
Trata-se de uma questão que obviamente não me diz respeito. Mas, se existe o deus dos cristãos, não existirá o deus dos judeus? Será o mesmo? e o Deus dos muçulmanos. Não existe?

Nunca percebi porque é que alguns sportinguistas não querem que o Benfica ganhe ao Barcelona. Mas, em questões clubísticas, também sou ateu.

segunda-feira, março 13

O tempo do corpo?


Duas gerações atrás não havia transportes públicos. Era normal uma pessoa fazer uma dúzia de quilómetros a pé por dia só para ir trabalhar. Essa caminhada proporcionava ao caminhante um momento de meditação. O efeito calmante desta actividade equipara-se a uma dose de Prozac, sem efeitos secundários.
No tempo da segunda guerra mundial, e não só, a comida não abundava. O que se poupava na Quaresma, ajudava a celebrar melhor a Páscoa. O jejum, nem sempre voluntário, era uma oportunidade de renovação espiritual. Usávamos o corpo todos os dias.
No dia em que passei a ter um carro só para mim, perdi um pouco mais de contacto com o meu corpo. Para o recuperar, tive de pagar bem caro para andar na passadeira do Health Club os quilómetros que deixei de andar a pé.

Não será a explosão de corporeidade de que fala o Manuel a soma das diversas tentativas de evitar os efeitos nefastos da diminuição da nossa actividade corporal no dia a dia? Esta diminuição levanta também novos problemas de natureza religiosa. É necessário encontrar formas alternativas de utilizar o corpo que nos ajudem a manter o equilíbrio espiritual.
Quando se tem de lutar pela sobrevivência, muita coisa é clara. Quando já não temos de o fazer, a vida complica-se sobremaneira. Até é preciso descobrir-lhe um sentido!
Muitos grupos religiosos descobriram que unir as palmas das mãos ajuda a atingir uma certa paz interior. O cristianismo também. Mas este acto é apenas o grau zero da interacção corpo-espírito.
Alguns grupos protestantes redescobriram a longa experiência do Zen nestas questões. Dentro da igreja católica quase só os jesuitas, herdeiros dos exercícios de Loyola, lhe dão a importância que merecem. Vale a pena que nos debrucemos um pouco mais sobre elas. Fica para breve.

sábado, março 11

O ritmo

Manter um blogue passa por ganhar um ritmo. O ritmo do número de posts que escrevemos por semana. Um ritmo respiratório: suspensão do sentido crítico, recuperação da capacidade de auto crítica. Um blogue é ao mesmo tempo tão efémero como um jornal tabloide e tão eterno quanto a saúde económica do Google. Com a baixa constante da memória dos servidores, arriscamosmo-nos a permanecer na blogosfera para além do fim das nossas vidas.
Normalmente começamos muito depressa. Queremos ganhar público. Ter um blogue de competição. Ser quase famosos, embora incógnitos. Depois percebemos que o melhor é ter juízo. Afinal, ainda existe vida fora da blogosfera. Vem a primeira pausa e com ela um reajustar dos ritmos de publicação (e do nosso sentido crítico).
Alguns não querem desistir da corrida e querem passar a fazer parte de uma estafeta. Arranjamos mais uns tipos e assim fazemos um blogue do caraças. As dinâmicas de grupo são complicadas. Muitas vezes correm todos ao mesmo tempo e depois tiram todos férias na mesma semana. O blogue oscila entre entupido e vazio. Já é bom se não andam à pancada. O que até pode ser uma actividade bem salutar.
Depois descobre-se que o melhor de tudo são as pessoas. Vale a pena manter o blogue para furar as duas ou três crisalidas onde vivemos, cheias de pessoas que pensam mais ou menos como nós. Mantemos o blogue para ir falando com os novos amigos blogosféricos, muitos dos quais só conhecemos pelo nick.
De vez em quando mais um blogue se fina. E o outro que parecia ter acabado, volta a actividade. Continuo surpreendido por este blogue ainda existir. Quando diminui a velocidade de publicação, desafinei o ritmo.Vamos a ver se o recuperei outra vez.
A semana passada coloquei o meu primeiro comentário no Espectro. Já não vale apena colocar um link porque entretanto se finou. Não percebia a ritmo frenético de publicação do VPV e da CCS. Porque é que alguém há-de fazer cinco posts por dia à borla, quando costuma fazer um por dia, sendo pago por isso? Quando fiz o primeiro comentário, alguém tinha acabado de referir que o Espectro tinha batido pela primeira vez as audiências do Abrupto. Bem, já podem fechar a loja, pensei eu. Não durou nem vinte e quatro horas.

quinta-feira, março 9

O tempo do corpo


Diz o Manuel do Adro: Uma das características definitórias da cultura contemporânea é a ideia de ter superado o antropocentrismo renascentista ou moderno, para passarmos ao que Miguel Ibañez chama somatocentrismo pós-moderno. O corpo é a estrela de uma sociedade ultraviolenta, supertecnificada e hipersexual. Esta explosão de corporeidade pode envernizar-se e aparecer requintada e complexa. Mas disfarça mal a animalidade a que nos reduz.

Caro Manuel, este blogue ultimamente mais parece uma exposição de corpos nus. É verdade que vivemos numa sociedade hiperconsumista que se apercebeu das consequências do hiperconsumismo a nivel da alimentação. Num mundo com cada vez mais obesos, só o culto do corpo permite equilibrar os efeitos da publicidade aos chocolates. É a guerra das calorias. Mas não é desta guerra que eu queria falar.
Este seu post levanta uma série de questões interessantes. O CA já opinou sobre os adjectivos empregados pelo Manuel, e muito bem. Deixe-me tratar de outro aspecto da questão. O que é que a igreja católica pode fazer a propósito deste problema? Parece que muito pouco. Porquê?
Quando tinha treze anos tentei juntar-me à equipa de basquetebol do clube da minha terra. Fui lá com um amigo, católico praticante. No fim do treino fui tomar duche nu, com toda a gente. Depois de duas horas de exercício violento num dia de verão, estavamos mesmo a precisar de um duche. O meu amigo tentou escapar-se discretamente. Alguns colegas mais velhos avisaram o meu amigo: Oh pá, homens com homens não há vergonhas! Se na próxima tentas escapar-te outra vez, vais para o duche vestido. Uma atitude extrema sem dúvida. Apesar de o meu amigo estar muito interessado em jogar basquete, nunca mais lá apareceu.
Toda a vida se intrigou esta falta de à vontade com o corpo tão vulgar entre os católicos praticantes. O corpo parece ser um envolucro descartável da alma. Algo imperfeito de que nos devemos envergonhar. Só serve para pecar.
Algumas tradições têm coisas muito mais interessantes para nos dizer sobre o corpo. Ensinam-nos a usar o corpo como uma meio para chegar ao nosso lado mais espiritual. É o caso do yoga e do zen. O post do Manuel é apenas e só um grito de impotência. Não será possível encontrar na tradição cristã algo que nos ajude a lidar com o nosso corpo de uma forma mais saudavel?

quarta-feira, março 1

Liberalismo de esquerda

O que é que isso quer dizer? Aqui fica o desafio a todos aqueles que já alguma vez se auto proclamaram tal coisa. À primeira vista é uma contradição: ser liberal significa (na Europa) que se defende que o estado intervenha tão pouco quanto possível na economia. (Muitos liberais são liberais em parte time. Defendem a liberdade das empresas fazerem o que quiserem. Depois vão pedir os subsídios do costume.) Ser de esquerda significa achar que o estado tem apesar de tudo de intervir em defesa dos mais fracos. Significa também defender a importância de várias liberdades. Já não existem liberais puros com ambições políticas. Todos os liberais proclamam o apoio aos mais desfavorecidos. Na prática isso significa meia dúzia de acções demagógicas para ganhar votos e um argumento para estrangular a classe média. Ouvimos muitos argumentos deste tipo ultimamente. Não é por aí que vamos encontrar o liberalismo de esquerda. Então, onde está ele?
Algumas perguntas complementares:
Reconhecem a alguém o estatuto de teórico do liberalismo de esquerda?
Existe algum partido em algum país do mundo que se aproxime dos ideias do liberalismo de esquerda?
Se não existe, será o liberalismo de esquerda apenas mais uma tentativa idiota de fazer uma síntese entre duas perspectivas que se auto-excluem uma à outra?