terça-feira, janeiro 31


Liberdade, Igualdade, Fraternidade

O jornal dinamarquês Jyllands-Posten publicou uma série de cartoons sobre Maomé. O objectivo não é gozar o profeta do Corão mas apenas lembrar que é preciso furar a barreira de auto censura que foi consolidada com o affaire Rushdie e os assassinatos de Theo van Gogh e Pim Fortuyn. O Diário Ateísta conta as reacções dos fundamentalistas muçulmanos à publicação dos cartoons.
Para que ninguém se fique a rir, vamos equilibrar as coisas com dois cartoons tirados daqui.

sábado, janeiro 28

Lembram-se do Souto Moura?

A urgência absoluta da substituição de Souto Moura desapareceu. Digeridos os resultados das eleições, seria de esperar que voltassem os ataques. Tal não aconteceu. Será esta a razão?

quinta-feira, janeiro 26

A vida é espessa

Aquilo que parece nem sempre é. Não existem só bons e maus. Os bons não são assim tão bons. Os maus não são tão maus assim. Espanta-me que tantas pessoas inteligentes produzam blogues onde há bons e maus. Os bons são sempre bons e os maus são sempre maus. Depois os leitores X e Y criticam tudo e o Z está sempre de acordo. Não é estranho que assim seja? Ás vezes é pior. Estão todos sempre de acordo...
A melhor vacina que conheço para esse mal, embora nem sempre resulte, é ler o Quarteto de Alexandria. Neste tour de force excepcional Lawrence Durrell conta a mesma história de quatro pontos de vista diferentes. Cada novo volume vai mais fundo, contradizendo o anterior. No quarto volume, a história avança um pouco mais. O Quarteto foi a minha referência enquanto escrevia a blogonovela. Não se nota nada.
PS: O Setúbal acha que o link do Quarteto de Alexandria conta a história. Pelo sim pelo não, evitem ler esse. Se põem hipoteses de vir a ler o livro, claro.
FOTO: Jamb

Como se dirige um bordel?

É mais complicado do que parece...

quarta-feira, janeiro 25

Caridade (6): um conto científico

I'm sorry. Não posso aceitar o teu convite, não tenho a certeza de viver o suficiente para poder terminar o artigo. O Luís só percebeu as palavras do John quando finalmente reparou nos seus olhos cavados e baços.
Quando me despedi do Lino em Lisboa, tomei a liberdade de insistir com ele para que continuasse os seus trabalhos sobre pequenos divisores. Tenho a certeza que ele te pode ajudar a resolver o problema, Luís.
"O Lino? Depois de todas as humilhações que me fez passar durante o último ano? Nem pensar."
John percebeu que o Luís estava a ser dilacerado por algum conflito. Vocês em Lisboa não discutem matemática uns com os outros?
A farpa do John acertou na mouche. Mas nem isso o convencia. Mawhinsky resolveu recorrer aos grandes meios. Sabes que Arnold esteve a semana passada em Cambridge? Disse-me ao almoço que tinha dois alunos a trabalhar nesse problema. Se eu fosse a ti, despachava-me...
Uma pequena mentira, por uma boa causa. O John nem esperou pela resposta do Luís. Lino, will you join us? E encaminhou-se para o confortavel sofá ao pé da lareira.

A Matilde ensaboava as pernas. Que sensações estranhas tinham percorrido o seu corpo quando descobrira que o John vinha a Lisboa. Ir ao seminário daria muito nas vistas. Arrastou as duas amigas até ao refeitório dos professores. Ele viu-me! Como pode ignorar-me? Finalmente os seus olhos encontraram-se no café. Ela desviou os olhos daquele olhar enigmático. A semana que ela passou na cama dele fora um simples divertimento? Será que ela nunca o saberia? Afogara as mágoas no TóZé.

Aquele convite do Porto dera ao John o pretexto. Telefonou ao Lino e combinou uma passagem por Lisboa. Quem sabe, talvez pudesse entrever a Matilde. Uma última vez.
O John recebeu a noticia da sua doença durante um check-up de rotina, algumas semanas depois da estadia da Matilde em Cambridge. Acabou por esboçar um sorriso. Era a primeira vez que tinha desflorado uma aluna. Sabia agora que seria a última. Se fosse supersticioso, não poderia deixar de acreditar no castigo divino.
Quando viu a Matilde no restaurante, refugiou-se no Luís. Só a conversa com o Luís lhe permitiu evitar de correr para a Matilde e beijá-la. A conversa com o Luís e a vergonha daquela barriga de grávida que os malditos medicamentos lhe tinham feito nascer. Agarrou no Lino e fugiu para a gare do Oriente. Antes que a vergonha abrandasse.
Lá longe, o Lino e o Luís riam como dois miúdos a quem o Pai Natal tinha acabado de encher de presentes. Os comprimidos começavam a fazer efeito. Finalmente, um momento de paz. O sono aproximava-se e como ele a Matilde vinha mais uma vez envolvê-lo no longo beijo daquela manhã de Agosto.

terça-feira, janeiro 24

Lobo Antunes

O sopro do coração, no Blog se vê.

Mariano Gago e o Ensino Superior

Os exames ad-hoc são exames nacionais que permitem a alguém com mais de vinte e cinco anos entrar na universidade sem ter de completar o décimo segundo ano. Estão longe de ser exames de sucesso. Só um em cada cinco alunos passa. O Expresso informa-nos que Mariano Gago prepara um diploma que descentraliza estes exames. O Processo de Bolonha é mais uma vez a desculpa. A experiência profissional e uma entrevista terão um papel importante na decisão de admitir ou não um candidato. Terá de haver uma fiscalização muito apertada para não corrermos o risco de admitir alunos sem habilitações, diz o presidente do Conselho dos Politécnicos.
Não tenhamos ilusões. As instituições do ensino superior são financiadas em função do numero de alunos que conseguem colectar, independentemente de qualquer outro critério. A continuidade de muitos cursos superiores está em risco. Confrontados com a opção entre a eliminação da licenciatura e aceitar alunos sem quaisquer conhecimentos, nenhuma escola terá dúvidas sobre a opção a tomar.
À tutela não interessa a qualidade do curso, o seu interesse que para o desenvolvimento do país, a percentagem de licenciados que arranjam um emprego compatível com as habilitações supostamente obtidas. Até agora exigia-se aos alunos um mínimo de conhecimentos. Agora nem isso. Se não forem bons chumbam. Quem sabe como funcionam as coisas, sabe que não é bem assim.
A década de noventa foi um período de vagas gordas. Os fundos europeus pareciam não ter fim, os jovens lutavam para conseguir um lugar numa universidade. Sabia-se muito bem como iria evoluir a piramide demografica durante a década seguinte. Não havia necessidade de muito mais instituições de ensino superior. As pressões dos autarcas e a leviandade dos políticos levaram em poucos anos à sua multiplicação obscena.
Uma universidade passou a ser um edificio com alunos interessados em obter um diploma. As instituições de ensino superior deixaram de ser entendidas como instrumento de desenvolvimento do país. Passaram a ser uma mais uma forma de satisfazer as clientelas regionais.
O abandono escolar provocado pelos erros grosseiros das políticas de "ensino" desenvolvidas no ensino secundário e a evolução demográfica levaram a que o custo per capita da formação de um aluno tenha pelo menos duplicado. A crise económica tornou esta situação insustentavel. O estado tem baixado os financiamentos do ensino superior de uma forma drástica, asfixiando grande parte das universidades. Em especial as que possuem um corpo docente mais qualificado, onde a percentagem do orçamento gasta em salários é maior.
O governo anunciou medidas duras. Entre elas a avaliação das universidades e o encerramento dos cursos com poucos alunos ou de qualidade duvidosa. A partir de agora haveria um critério de qualidade...
O diploma referido no Público deixa muitas dúvidas.
O MIT? fica para uma próxima oportunidade.

domingo, janeiro 22

The Day After

Comecemos por salientar a vitória parcial do PS: Cavaco ganhou à primeira volta. Imaginem que Manuel Alegre passava à segunda. Aí sim, podiam tremer alguns alicerces do partido.
Alegre morreu na praia. Um por cento a mais e as coisas seriam um pouco diferentes. A sobreposição do discurso de Socrates ao de Manuel Alegre foi um truque sujo, mas ainda não viram nada. No futuro vai ser bem pior. Salgado Zenha ousou concorrer contra Soares em 86. Pagou bem cara essa ousadia. Alegre sabe o que o espera.
Bosch - O Inferno e o Paraíso

Artes & Letras

Caridade. Um Conto científico
Las Meninas
A minha Pátria

Mourinho em dia não

O fora de jogo mal assinalado não justifica tudo. Não fazia sentido substituir o Makelele para dar a volta ao resultado. Bastava tirar o Gudjohnsen e colocar o Maniche a desempenhar as funções habituais do Essien. Maniche mostrou o que vale. O Essien que se cuide.
As eleições? Votei Louçã.

sábado, janeiro 21

Picasso - Las Meninas

Confissões de um eleitor

Cavaco faz-me mal ao estomago. Nesta eleição comecei por apoiar Soares contra Cavaco. Entretanto surgiram novos ataques do PS à PGR. O comando da Polícia Judiciária queixou-se de falta de orçamento para manter a operacionalidade e a tutela assobiou para o ar. Sucederam-se as cambalhotas do Plano Tecnologico. Soares não se demarcou desta posições. Comecei a interrogar-me se fazia sentido dar um voto simbólico a Soares. Ninguém sabe como Manuel Alegre se comportaria na presidência. Nunca tendo desempenhado um cargo executivo, não possui o pragmatismo indispensavel ao desempenho do cargo. Sabemos o que esperar de Louçã e Jerónimo. Até pode ser que vote num deles, uma vez que não vão ganhar. Logo se vê.Uma vez que Cavaco tinha a vitoria assegurada, o meu voto era uma questão puramente académica. A última sondagem veio-me complicar a vida. Se houver segunda volta, vou deixar o aparelho do PS à solta?Se houver segunda volta, logo se vê...
PS: O momento de senilidade de Soares mostrou que a possibilidade de as suas capacidades se deteriorarem durante o mandato é não desprezível. É extraordinariamente grave que o video tenha passado uma vez na televisão e depois tenha sido censurado. É ainda mais grave que ninguém da oposição tenha denunciado este facto. A classe dirigente está lá para nos dar a ilusão que podemos escolher, mais nada. Até Garcia Pereira tem clientes do PSD Madeira e paga-lhes tributo indo à Madeira elogiar Jardim.

Confissões de um eleitor (2)

Soares mostrou o seu lado amargo durante os últimos meses do seu segundo mandato como primeiro ministro. Não gostei nada do que vi. Engoli um sapo para votar nele na segunda volta da sua primeira eleição. Soares retribuiu o meu voto ensinando aos portugueses como é que se desempenha o cargo de Presidente da República. Só então percebi que Eanes tinha sido um desastre. Bem mereceu ser enterrado em vida. O Eanes que eu detestava ante de ele chegar à presidência e que apoiei convictamente durante o segundo mandato.

No fim do mandato de Soares, achei que tinha aprendido o ofício de eleitor.
Embora soubesse à partida que Sampaio seria um presidente sem garra, cheguei a entusiasmar-me no dia da sua eleição. Depois de muitas hesitações, acabou por decidir bem nos dois momentos decisivos, ao admitir e demitir Santana Lopes. Não lhe perdoo as vezes que estica o pescoço para aparecer na fotografia, mostrando-se preocupado com problemas do país que muitas vezes não entende, nem se esforça por entender.
Começo a achar agora que ainda vou ter saudades dele.

sexta-feira, janeiro 20

Miss January

Velázquez - Vénus e o espelho

Caridade (5): um conto científico

(começou aqui) (continua daqui)

Enquanto aguarda a resposta do John, o Luís recorda a conversa que tiveram em Lisboa. Por um instante julgara ter encontrado no John o pai espiritual que tão desesperadamente procurava. Tinha sido um tremendo choque conceber meia hora mais tarde que o grande John Mawhinsky o estava a aldrabar. Seis meses depois, muita coisa tinha acontecido. Ali estava ele a pedir ao John para o ajudar no artigo. Tinha-se preparado para todas as possíveis respostas do John, menos para aquele interminavel silêncio displicente. O Luís tinha chegado ao limite das suas forças. Resolveu ser ouvido em confissão.
You know, John...
Contou-lhe a fúria que o tinha levado a cometer meia dúzia de infracções graves ao codigo da estrada, na esperança de o apanhar na Gare do Oriente. O John parecia não ter ouvido nada. Ele continuou.
O Luís continua a fazer o balanço dos últimos seis meses. Uma semana depois da conferência do John, a sua raiva já tinha acalmado. Começou a fazer uns calculos. Pouco a pouco foi compreendendo melhor o problema em que não tinha conseguido o mínimo progresso durante os três meses anteriores. Levou um mês a arquitectar uma estratégia para provar o teorema. Compreendeu então que tudo o que tinha feito tinha sido inspirado na conversa com o John. A ideia do John continha um erro trivial, mas era uma metáfora que apontava na direcção correcta. A série formal divergia, mas podíamos provar a existência de uma solução com um teorema de ponto fixo. Cada raciocínio algébrico elementar proposto pelo John tinha um equivalente topológico bastante mais sofisticado que fazia a estratégia funcionar!
Foi nessa altura que o Luís descobriu um buraco na prova. Tentou resolver o problema durante meses, sem sucesso. Estava certo que o teorema era verdadeiro, mas não sabia como prová-lo. O John saberia o que fazer.
Mawhinsky levantou os olhos e sorriu. Devias ter um pouco mais de caridade pelas ideias dos outros!
E voltou a ajeitar a meia direita.
O Lino desce as escadas e procura discretamente uma poltrona no canto oposto da sala.
Em Carcavelos, a Matilde entra no seu banho de espuma.

(continua aqui)

quarta-feira, janeiro 18

Evo Morales: a COCA cola e a folha de COCA

Evo Morales, o presidente eleito da Bolívia, afirmou que a folha de coca continua a ser um ingrediente da Coca Cola. Ao que parece a multinacional Monsanto compra a folha de coca e transforma-a em xarope, vendendo-a em seguida à Coca Cola. Soube desta notícia a semana passada. Fiquei à espera dos desenvolvimentos.
A Coca Cola nega os factos afirmando que:
- nunca comprou folha de coca
- não há cocaína no refrigerante.
Não ponho em dúvida as afirmações da Coca Cola. Mas a verdade é que não contradizem as de Evo Morales!
A formula inicial da Coca Cola incluía cocaína. A formula actual é um dos segredos mais bem guardados do mundo. Só três executivos da Coca Cola conhecem a lista completa dos ingredientes e o processo de produção na sua totalidade.
Que ingrediente dá à Coca Cola aquele gostinho especial que a distingue das outras colas?
O chá de folha de coca é essencial para resistir à altitude, como sabem todos os turistas que já foram a Machu-Pichu. É muito complicado sobreviver nos Andes sem a folha de coca. Evo Morales tem sido acusado de apoiar o narcotráfico por defender a continuação do cultivo desta planta, que os Estados Unidos querem ver proibida.
Se a folha de Coca é boa para a Coca Cola, é boa para todos nós...

Ver também este post.
Picasso Las meninas

Outros estudos do quadro de Velázquez, aqui.

Resmas e Resmas para Souto Moura

A sondagem Correio da Manhã/Aximage vem revelar que a maioria dos portugueses está do lado de Souto Moura. Com este procurador acontecem coisas. Com o anterior, nem por isso. É triste que haja uma clivagem direita/esquerda numa questão de regime. O Procurador é o arbitro, os clubes são os partidos e a maioria decide em função de ser ou não a sua cor a prejudicada pelo apito de Sousa Moura. Felizmente a classe média acaba por flutuar de forma sensata.
Penso que ainda vale a pena rebater uma das acusações que mais vezes tem sido repetida. A PGR tem culpa no caso da diskete:

Se me enviarem cartas que não me são destinadas, eu, como sei ler, percebo que não são para mim e devolvo-as.

À primeira vista é um sinal de grande incompetencia não reparar que uma file de Excel tem muito mais informações do que parece ter. Não sei se já repararam na complexidade de alguns processos em Portugal. A documentação reunida atinge por vezes muitas dezenas de milhares de documentos. Porquê? A defesa tenta submergir o ministério público em documentos. A defesa sabe quais são os documentos que enviou que são importantes. A acusação, não. A finitude dos meios do ministério público é explorada pelos réus com dinheiro até ao limite do possível. Quanto mais ricos e influentes são os acusados, mais incompetente será o ministério público. Se nós recebessemos cinco mil cartas por dia a tal tarefa elementar de examinar a correspondencia tornar-se-ia impossível.
Cabe-nos a cada um de nós escolher se vai ser mais um a gritar fora o arbitro, ou se vamos contribuir para que a reputação ( logo a eficiência) da PGR não seja ferida de morte.

Ver também: Souto Moura jogador de xadrez e O PGR e as marionetas.

terça-feira, janeiro 17

Teorias da Conspiração

Por que é que está associado um estigma ao rótulo teoria da conspiração?
Eu diria que quando se usa o termo teoria da conspiração a propósito de uma análise política se está a assumir pelo menos uma de duas hipóteses:
- A análise em questão baseia-se em factos nebulosos ou provenientes de fontes duvidosas.
- A análise está organizada de tal forma que qualquer facto que aconteça irá sempre poder ser apresentado como reforçando a teoria.
A minha análise da sucessão de ataques feita a Souto Moura baseia-se na edição do Público de sábado passado. Faço duas previsões:
- Esta semana os ataques vão aumentar (previsão obvia).
- Se o PGR não cair, para a semana os ataques começam a diminuir rapidamente (menos obvia).
Cá estaremos para a semana para ver se eu tinha razão ou não...
Agradecia por isso que me parassem de incluir entre os criadores de teorias da conspiração, se não se importam...

Os Albuquerques

O Padre Manuel Antunes foi um homem extraordinário e um professor de filosofia excepcional. Lamentava o Lino que um programa da TSF sobre este jesuíta se limitasse a discorrer sobre questões políticas menores, ignorando o seu pensamento e sua obra.
Por uma vez na vida, vou defender o José Barata Moura. Não se falou do pensamento de MA porque...
esse pensamento não existe. Mas então se ele era um homem extraordinário...
Não há contradição. A filosofia é uma flor muito frágil. Nenhum país onde a Inquisição prosperou teve uma tradição filosofica significativa. Um dos primeiros actos da República foi extinguir as faculdades de teologia das universidades portuguesas, integrando os seus professores nas faculdades de filosofia. Uma medida cosmética com consequencias trágicas.
O regime salazarista nunca estimulou ou sequer tolerou qualquer tipo de reflexão criativa. Bem aventurados eram os pobres de espírito (e só esses). Não existiam em Portugal até há umas décadas atrás cursos de Filosofia mas apenas cursos de Ciências Histórico-Filosóficas. Nestes cursos cultivava-se quando muito o comentário dos grandes autores, o pensamento original estava excluído à partida.
O Padre Manuel Antunes fez o melhor que pôde, e a mais não é obrigado. Perguntava um historiador durante um período menos bom da nossa história. Onde estão os Albuquerques? Deveria ele antes perguntar onde está a sociedade que permite aos melhores de entre nós serem novos Albuquerques.
Não pretendo com este post queixar-me seja do que for. Apenas fazer uma pequena contribuição para que olhemos para o nosso passado com lucidez e sem complexos.

segunda-feira, janeiro 16

domingo, janeiro 15

Querem este senhor de volta?

A Perfeição

Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa.
Pasmo e desolo-me.
O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar;
deveria inibir-me até de dar começo.

Do livro do desassossego
Bernardo Soares/Fernando Pessoa

Ciência &...


Caixas pretas
Os limites do diálogo
Supercordas: o novo paradigma?
Quantas dimensões?
Termodinâmica

Souto Moura, jogador de Xadrez

Souto Moura adia para sexta-feira as explicações na AR. Porquê? Porque assim será mais difícil demiti-lo até lá. Entretanto Cavaco ganha as eleições e Sampaio já não se sente com legitimidade para nomear o novo PGR. A partir daí, o PS deixa de ter interesse em demitir Souto Moura. Demitir Souto Moura uns meses antes do fim do mandato é tremendamente importante por um único motivo: permitir que a discussão do nome do PGR da cohabitação seja feita com Sampaio.
Vai uma aposta que a pressão sobre o PGR vai aumentar imenso nos próximos dias, mas o PS deixa cair o assunto no Day After?

Não percam o post sobre o PGR da Grande Loja do Queijo Limiano.

sábado, janeiro 14

O PGR e as marionetas

Sampaio ou substitui o PGR antes da eleição presidencial ou já não substitui. Como Cavaco vai ganhar à primeira volta, o PS só dispõe da próxima semana para exonerar Souto Moura. Exonerar ou não o PGR é irrelevante. De qualquer maneira, o seu mandato está a acabar. Não é bem assim. Se Sampaio aceitar a exoneração do PGR durante a próxima semana, terá legitimidade política para nomear o seu sucessor. Caso contrário, o PS terá que discutir com Cavaco a escolha do próximo arquivador.
Se as coisas correrem bem, SM é exonerado dois dias antes das presidenciais e nunca mais se fala nisso. O caso das facturas detalhadas surgiu portanto no momento certo. Foi pena que não tivesse sido um jornal mais reputado a lançar a notícia.
Diz-se que só a PGR podia lançar cá para fora as facturas. Mas, quem manda na Portugal Telecom?
Eu até costumo votar PS e votaria Soares contra Cavaco. Não faço parte das forças de bloqueio.
Serão os nossos opinion makers algo mais do que marionetas?

PS: Tinha acabado de escrever o post. Fiz uma busca no Google e encontrei a notícia parcialmente transcrita abaixo.

Resumindo: alguém da PT enviou para a PGR uma folha Excell onde estavam escondidos mais dados do que aqueles que se viam. Esses dados não foram pedidos pela PGR. Ninguém da PGR podia saber que eles estavam lá. No momento certo, esses dados foram enviados cá para fora. Foi repetido até à exaustão que o PGR os pediu, logo isso passa a ser verdade. Quem é que tem a ganhar com esta história? Não é certamente o PGR. Quando voltarmos aos tempos do Arquivador Geral, toda a gente vai ficar satisfeita. vai deixar de haver escandalos e o país volta à normalidade...

A Portugal Telecom (PT) assumiu um lapso na inclusão no processo da Casa Pia da facturação detalhada dos telefones fixos de algumas das mais altas individualidades do Estado, como Jorge Sampaio, Souto Moura, Mário Soares ou Almeida Santos, entre finais de 2001 e Maio de 2002, noticia hoje o Público.
...
Significa então que para além das folhas iniciais de ficheiros de Excel, acessíveis a quem abre o programa e onde só consta efectivamente o número do telefone fixo de ex-deputado socialista, existe outra informação que se encontra filtrada. É então aí que estão “escondidos” todos os registos telefónicos envolvendo individualidades como Jorge Sampaio, Souto Moura, Mária Soares ou Almeida Santos.
No entanto, segundo o jornal, alguma informação que suporta o envio desses registos continua sem fazer sentido. Por exemplo, existe um documento no processo, assinado por Maria de Lurdes Cunha, funcionária da PT, que dá conta do envio das disquetes, explicando que tal seria para satisfazer «o prometido na reunião no DIAP», no dia 29 de Abril de 2003. Não existe qualquer registo desse encontro nas milhares de folhas que constam nos autos.

Caridade (4): um conto científico

(começou aqui) (continua daqui)

Sábado à noite no Mathematisches Forschungsinstitut Oberwolfach. Chegou o último autocarro com participantes nos New Developments in KAM theory. A conferência começa na manhã seguinte.
Luís encontra Mawhinski na sala de estar. Hello John, lembra-se do problema de que lhe falei em Lisboa? Gostaria que trabalhasse comigo nele. Seria uma honra se aceitasse. John olha através dele com um ar cansado e fita a fivela da sandália durante um tempo infinito.
Em Carcavelos, a Matilde afasta a mão do TóZé. Sexo, só às terças-feiras, quando os pais do TóZé vão ao Bingo. No banco de trás do carro, não.

O TóZé era o ponta de lança dos juvenis do Estoril. Quando terminou a idade das ilusões, transferiu-se para o Talho Central de Carcavelos. As matronas da Linha desenvolveram rapidamente uma apetência especial pelos bifes cortados pelos seus biceps.
A Dona Laura, a colega da mãe da Matilde que morava ao pé da estação, disfarçava mal as expressões de ciúme que a assaltavam cada vez que a via.

A Matilde lidava com o mundo apaixonando-se. Quando os pais se mudaram de Viseu para Carcavelos a meio da sua adolescência, apaixonou-se pelo TóZé. O namoro durou três meses. O tempo de ela se adaptar à vida na Linha.
A universidade era um novo desafio. A Matilde apaixonou-se pelo Lino. Uma paixão platónica, que sublima energia sexual em dezanoves.
A ida a Cambridge mudou a sua vida. Já tinha intuido o abismo que separa uma boa aluna de uma boa investigadora. Em Cambridge, contemplou esse abismo. O Lino lembrava-a a cada momento do desafio que a esperava quando acabasse o curso. Nasceu assim uma branda paixão pelo Luís. Um modelo que ela podia compreender e emular.
Seis meses atrás uma nova perturbação tinha mudado a vida da Matilde. Quando se cruzou com o TóZé, o seu corpo quis o dele. Descobriu no sexo uma forma de lidar com o seu espírito.

O TóZé resigna-se a esperar por terça-feira. Deixa a Matilde em casa. Dobra a esquina e telefona à Dona Laura.
Mawhinski ajeita a meia direita.

(continua aqui)

sexta-feira, janeiro 13

Negociatas no país que temos

A recta final das presidenciais é o momento certo para fazer aquelas coisas que noutra altura dariam muito nas vistas. Ficamos a saber pelo DN que a Universidade Moderna pretende alienar os terrenos onde funcionam as suas instalações. Estes terrenos situam-se junto ao mar, a umas centenas de metros do CCB. Pretendem construir lá um condomínio de luxo. São provavelmente os melhores terrenos disponíveis para construção actualmente existentes em Lisboa.
O que o DN se esquece de referir é que estes terrenos foram cedidos à cooperativa Dinensino pelo estado português para ser usados pela universidade. Não para ser usados para este fim. Seria interessante saber os detalhes da cedência. Estão a mexer no nosso património. Nos nossos bolsos. Existem também uns probleminhas com o plano director municipal. Coisa sem importância. A notícia aparece a ver se pega. A ver se existe ou não opinião pública neste país. Será que existe?

A oração de sapiência

A oração de sapiência é uma tradição medieval. É amplamente cultivada por muitas instituições universitárias portuguesas. Em especial por aquelas cujas origens remontam pelo menos à última década do milénio passado. Na sessão solene de abertura do ano lectivo, um professor especialmente convidado para o efeito profere um discurso sobre um tema à sua escolha. O importante não é o tema ou as ideias que expressa mas sim a forma como fala, o seu domínio da oratória.
Na Idade Média era vulgar o primeiro capítulo de um livro ser destinado apenas a mostrar os dotes oratórios do autor, tendo pouca ou nenhuma relação com o resto da obra. Michel Foucault recuperou essa tradição em 1966 com Las Meninas.
Quatro anos antes tinha-se iniciado um dos grandes clássicos do cinema, a série 007. Todos os filmes desta série começam com uma cena que não tem nada a ver com o resto do filme. Esta cena destina-se apenas a realçar as extraordinárias capacidades de comandante Bond. Uma versão cinematográfica da oração de sapiência.
Humberto Eco, um medievalista famoso, elabora a síntese entre estas duas versões da oração de sapiência n'O Nome da Rosa. Na cena inicial o Abade Guilherme demonstra-nos as suas excepcionais capacidades intelectuais ao descrever um cavalo que nunca viu. Até descobre o seu nome.
Já tropeçaram nalguma oração de sapiência?

quinta-feira, janeiro 12

Alguém me esclarece?

Recém-nascidos podem ser despertados para a fé.
Acham que sim? O que será o despertar religiosos de um recém nascido?
Velázquez A Infanta Margarita

Falemos então de Fé

Muito se tem falado de fé neste blog. Gosto de ler os posts da Maria da Conceição sobre o assunto. O CA até costuma dizer que para ser ateu é preciso ter muita fé. Chegou a vez de eu meter a minha colher. O que é a fé? o que não é?

Vamos a um exemplo. Um casal tem dificuldade em ter filhos. Infelizmente um problema cada vez mais actual. Não há nenhum impedimento claro, mas a verdade é que já tentaram várias técnicas e nenhuma resultou. Completaram recentemente trinta e cinco anos. O casal também enfrenta um desafio profissional sério. Acabaram os dois o mestrado e as suas universidades dão-lhes quatro anos para terminar o doutoramento. É a sua fonte de subsistência que está em jogo. Estes dois problemas interferem um com o outro. O stress resultante do desafio profissional interfere com o problema de fertilidade. O stress resultante de abandonar o desafio profissional também interferiria com o problema de fertilidade. O tempo e a atenção que gastaram a tratar do problema de infertilidade complicou-lhes a carreira académica.
Depois de uma longa meditação o casal conclui que o problema do doutoramento depende essencialmente deles, o problema da fertilidade não. Decidem deixar o problema da fertilidade nas mãos de Deus e dedicar todas as suas energias ao doutoramento durante dois anos. Nessa altura, reavaliarão a situação. Quem sabe, se se descontrairem um pouco até o problema se resolve por si próprio...
Será que vão conseguir seguir este plano? De que depende o seu sucesso? Eu diria que depende da intensidade da sua Fé. Só a sua Fé os pode salvar. Só a sua Fé os pode manter focados no objectivo e lhes pode manter a angústia a um nível suportável.
Esta Fé não tem de ser entendida no sentido cristão do termo. Pode-se ter esta Fé sendo ateu. Não é claro que todos os cristãos a tenham. Pode-se reescrever tudo o que eu disse até agora sem envolver qualquer terminologia religiosa.

Vamos a um segundo exemplo. Eu diria que é uma manifestação de Fé ser capaz de discutir abertamente todos os temas, sem fugir às questões. Ter a Fé de acreditar que nada de verdadeiramente importante em nós poderá ser destruido se abrirmos as defesas numa conversa sobre aquilo em que acreditamos. Quem não a tem também não é capaz de pensar livremente. Ser-lhe-á difícil encontrar soluções para os seus problemas. É um homem de pouca Fé...

Acreditar na virgindade da mãe de Jesus, na divindade de Jesus, ou no mistério da santíssima trindade são manifestações de Fé? Contribuem de alguma forma para que nos possamos ajudar a nós mesmos e ao próximo nos sentido de viver em maior harmonia as nossas vidas? Não serão manifestações do medo de sermos excluidos do grupo?
É preciso muita Fé para acreditar em algumas coisas racionais e ter força suficiente para as concretizar. Quando formos capazes de tratar destas, poderemos então preocupar-nos com as outras...
Ousar expressar a Fé de uma das duas maneiras referidas acima é perigoso. É preciso ter uma estrutura mental sólida e as ideias bem organizadas. É preciso ter uma Fé poderosa e entendê-La.

Como podemos fortalecer a nossa Fé?

quarta-feira, janeiro 11

Pois é, Lutz

São os candidatos que temos...

Diego Velázquez, Las Meninas

O Pintor fixa um ponto invisível mas que nós, espectadores podemos determinar facilmente, pois esse ponto somos nós mesmos: o nosso corpo, o nosso rosto, os nossos olhos. O espectáculo que ele observa é, portanto, duas vezes invisível, pois não está representado no espaço do quadro e se situa precisamente nesse ponto cego, nesse esconderijo essencial em que o nosso olhar se subtrai a nós mesmos no momento em que olhamos. O espectáculo é também duplo. Nós e o modelo que ele realmente observa.
Da direita, derrama-se por uma janela invísivel o puro volume de uma luz que torna visível toda a representação. O fluxo de luz que ela espalha banha com a mesma generosidade a superfície da tela e o volume real que o espectador ocupa (o sítio irreal do modelo).
Na parede que constitui o fundo da sala, o autor representou uma série de quadros. Entre todas essas telas suspensas, uma brilha com singular fulgor. Mas não é um quadro, é um espelho. O espelho nada mostra do que o quadro representa. O que nele se reflecte é o que todas as personagens da tela fixam nesse momento, olhando em frente, diante delas. As figuras que o pintor olha e representa na tela.
Ao lado do espelho recorta-se um rectangulo cuja luz dourada não irradia pela sala. O homem que nos fita é o contraponto do casal real reflectido no espelho. Tão próximos quando não podiam estar mais distantes.
O primeiro e o segundo plano do quadro representam oito personagens. O centro do grupo é ocupado pela pequena infanta, com o seu amplo vestido cinzento e rosa.
Uma linha que dividisse o quadro ao meio passaria entre os olhos da princesa. O seu rosto está a um terço da altura total do quadro. É ela o tema central da composição. À esquerda, uma aia de joelhos contempla-a. Tal como o anjo contemplando a Virgem nas composições clássicas, sublinha a sua importância. À direita, outra aia enquadra Margarita. Esta aia olha para o casal real, o outro centro organizador da composição, situado simultaneamente dentro e fora da tela. Na extrema direita, o anão da princesa ocupa mais ou menos o mesmo espaço de tela, sublinhando a sua elegância.
Perante a recusa de Margarita em posar mais uma vez, Velázquez convidada-a a assistir a uma sessão do retrato dos pais e subverte todos os canones da representação. O quadro representa aquele que representa, o pintor, e aqueles que assistem ao acto da representação. O modelo a ser representado está fora dela ou quase, remetido para um reflexo no espelho, e no entanto é o polo organizador de toda a cena.
Este post é baseado no texto dedicado por Michel Foucault à genial tela de Velasquez que podem ver aqui. Mais estudos sobre este quadro aqui, aqui, e aqui.

terça-feira, janeiro 10

Velázquez Maria da Austria

Caridade (3): Um conto científico

(começou aqui) (continua daqui)

Quando o Luís saiu do carro deu de caras com o Lino. Agradeceu-lhe a cotovelada com um sorriso de circunstância. O Lino retribuiu a delicadeza não perguntando o que ele estava ali a fazer, completamente fora de si.
Uma hora antes o Lino não conseguia disfarçar a sua raiva perante a imbecilidade do Luís. A Matilde arrastava as duas amigas do restaurante para o café, perdida de amores pelo Luís, sem que este se apercebesse do que quer que fosse. Só tinha olhos para o John. O Lino estava irremediavelmente apaixonado pela Matilde, que o ignorava. Este paralelo irritava-o mais do que tudo o resto.
O Lino foi tutor da Matilde quando esta entrou na universidade. Empenhou-se a fundo, como era costume em tudo o que fazia. Arranjou-lhe uma bolsa para um curso de verão em Cambridge. Quando deu por isso, já estava irremediavelmente apaixonado. Aquelas pernas longas terminadas em olhos transparentes envolviam-no durante sonhos húmidos.
A Matilde voltou das férias com as marcas do bikini a sair das calças de cintura descaída. O Lino começou a baralhar definições, errar cálculos, empastelar demonstrações. Perfeccionista compulsivo, se algo corria mal tudo acabava por correr mal. Como sempre, foi a investigação que mais sofreu. Os colegas só murmuravam comentários nas suas costas mas tudo se lhes adivinhava no olhar. Não tinham coragem de lhe dizer nada. Com excepção do Luís, claro. Até isso o Lino tolerava. Sempre tinha achado graça ao feitio conflituoso do Luís, uma novidade refrescante no ambiente do departamento.
Até ao dia em que o Lino suspeitou que a Matilde estava interessada no Luís. Aí, as coisas complicaram-se. Sempre que o Luís iniciava uma cruzada contra algo ou alguém, o Lino desmontava o seu raciocínio, expunha as suas motivações ou ridicularizava as suas intenções. A plateia aplaudia. Vindo do Lino, uma dos poucos colegas que o Luís respeitava, estas palavras certeiras feriam como punhais. A escalada do conflito continuava e já se faziam apostas sobre o seu desenlace.
Quando a Matilde se sentou na mesa ao lado do Lino, a bandeja dos cafés descontrolou-se. Quando o seu cotovelo finalmente encontrou um apoio, as faces coradas da Matilde deram ao Lino a certeza de que ela finalmente descobrira a sua existência.

(continua aqui)

segunda-feira, janeiro 9

Diego Velázquez Moenippus

Ariel Sharon

O General António de Spínola era um ultraconservador. Era também um homem inteligente. Quando tomou conta das operações militares na Guiné entrou-lhe pelos olhos dentro que não havia possibilidade de ganhar a guerra ou controlar a situação. A solução tinha de ser política. Marcelo Caetano também apoiaria algumas mudanças nas antigas colónias portuguesas. Os outros, os que estão por detrás, os que não tem responsabilidades, negaram-se a aceitar a evidência. Spínola tirou daí as consequências. Demitiu-se do cargo e escreveu Portugal e o Futuro, um livro que ajudou a desencadear o 25 de Abril.
Rabin e Sharon eram dois falcões em muitos aspectos bem semelhantes a Spínola. Acabaram por compreender os dois à sua própria custa que as soluções em que acreditavam não iriam funcionar. O primeiro compreendeu-o antes de chegar a primeiro-ministro. O segundo depois de já lá estar. O primeiro só foi detido à bala. O segundo parece que nem a revolta do seu próprio partido o poderia deter.
Espero que ainda exista em Israel um falcão inteligente. Para bem dos israelitas. Nunca pensei vir a escrever meia dúzia de palavras simpáticas para com Ariel Sharon. Nunca acreditei que ele pudesse vir a tornar-se um novo Rabin. Nunca digas nunca.

sábado, janeiro 7

Caridade (2): Um conto científico

(começou aqui)

... And thats it! Terminava triunfante John Mawhinsky, enquanto esperava que o Lino Lopes trouxesse os cafés. A admiração, o espanto e a apreensão afunilavam-se na garganta do Luís, emudecendo-o, quando o cotovelo de um orangotango se insere entre as suas espáduas, esmagando a sua face contra a barriga flácida do John. Os óculos magoam-lhe as gengivas. Sorry, Luís! forgot your coffee! Na mesa em frente, duas alunas sorriem. A terceira cora intensamente. Aquela mão gorda e forte volta a agarrá-lo pelo cachaço, levantando-o.
O Luís foi buscar o café que lhe comprava o direito de se sentar à mesa. O Lino tinha-lhe deixado uma nesga para meter uma cadeira. A figura gigantesca do Lino eliminava qualquer hipótese de ele poder continuar a conversa com o Professor Mawhinsky. O John, desde há cinco minutos. E que grandiosos cinco minutos!
O John aterrou em Lisboa no domingo, de passagem para o Porto. O Lino convidou-o para dar um seminário. As más línguas dizem que o Lino apenas pretendia impressionar os colegas. Agora parece que já nem aulas de jeito consegue dar.
A conversa com o John correu muito bem ao Luís. Mawhinsky foi logo direito ao assunto: are you still interested in the stability problem? O Luís aproveitou logo para lhe explicar a dificuldade que o preocupava. Estava grato por não ter que mendigar uma ajuda ao John e saboreava as expressões de ódio e desespero que se iam alternando na face do Lino. Quando chegaram à porta do café, já o John tinha percebido o problema e contemplado o atacador do sapato direito durante trinta segundos. Enquanto o Lino foi buscar os cafés, o John explicou-lhe que this is not really like KAM theory, you know, but...
...And thats it!

O John não só tinha encontrado um caminho para resolver o problema como tinha proposto uma vasta generalização do mesmo. A generalização era fundamental para compreender o quadro natural em que o problema se punha.
Vou ter de o convidar para co-assinar o artigo? Se não o convido...
A ideia não lhe agradava mesmo nada. O Luís foi salvo do seu dilema pelo cotovelo do Lino.
Acabaram todos de tomar o café. O Lino, visivelmente mais bem disposto, foi levar o John à Gare do Oriente. O Luís ficou no café a rever exaustivamente a ideia do John. Tudo batia certo. Havia que transcrever a ideia no papel!
Quando meteu a chave na fechadura do gabinete foi atravessado por uma acesso de raiva. Correu para o carro, passou três sinais vermelhos e dirigiu-se para a Expo. Aquele sacana vai pagá-las! Só a admiração que sentia pelo Mawhinsky podia explicar como é que ele tinha caído na aldrabice. Era obvio que a série inicial não convergia. A sugestão do John não valia um chavo. Se o Lino não lhe tivesse dado a cotovelada, ele teria proposto ao Mawhinsky que fizessem juntos o artigo. À frente de toda a gente. Depois não podia voltar atrás. Era assim que o velhadas mantinha a reputação, arranjando maneira de jovens brilhantes como ele lhe fazerem artigos.
Quando saiu do carro, deu de caras com o Lino. Chegou atrasado.

(continua)

sexta-feira, janeiro 6

Politicamente Correcto

A dra Mary Galinski, presidente da Associação Internacional da Malária acusou o treinador do Manchester United de fazer comentários inapropriados e ofensivos. Sir Alex admitiu que o Chelsea seria campeão a menos que grassasse uma epidemia de malária entre a equipa de Mourinho.

Miss January

quinta-feira, janeiro 5

Berardo e a Caixa

Só quem nunca visitou uma grande capital da Europa é que não se apercebeu da reduzido espólio museológico existente em Lisboa. Eu não sou capaz de sugerir a um colega que me visite que vá ao Museu de Arte Antiga ver o Bosch. Só um? Se queremos que os espanhóis continuem a vir cá devolver uma parte do dinheiro que nós mandamos para lá todos os dias, convém arranjar-lhes umas entretengas.
Muito se tem falado sobre a colocação da colecção Joe Berardo no CCB. Esta polémica fez-me lembrar a história da sede da Caixa Geral de Depósitos. Um dos mais belos edifícios da cidade de Lisboa. Extraordinariamente bem enquadrado na área que o circunda. Cheio de detalhes deliciosos, como se pode ver aqui. Os nossos velhos do Restelo criaram um alarido completamente despropositado contra a construção da sede da CGD. Uma das consequências desse alarido foi o recuo cobarde na decisão de construir a nova sede do Banco de Portugal na Praça de Espanha. Que continua a parecer uma praça do terceiro mundo. Isso já não incomoda as nossas cabeças bem pensantes. Uma vez construida a Caixa Geral de Depósitos, nunca mais ninguém falou contra o edifício. Veremos o que acontece com a colecção Berardo.
Acham que tenho uma visão utilitária da arte? Não gostam do gosto do Berardo?
Meus senhores: se gostam de pintura, vão aprender a pintar para a Sociedade Nacional de Belas Artes, vão desenhar para o blogue do OMWO, vão ver exposições temporárias. Os museus não devem ser feitos a pensar em vocês. Custam demasiado dinheiro. Devem pagar-se a si próprios atraindo turistas, como o Prado e o Louvre fazem. É para isso que eles servem em primeiro lugar.
Espero que alguém tenha feito as contas a propósito da colecção Berardo. Mas não vi ninguém a criticar o aspecto económico do negócio...
(Foto dos Candeeiros da autoria de Jaime Olhares sobre Lisboa)

Em busca do Bolero perdido: Um conto biónico

Caridade: um conto paramédico

quarta-feira, janeiro 4

Teatro Chinês

Na Wired, a fascinante história da ascensão e queda de Randolph Hobson Guthrie III, perigoso vendedor internacional de...DVDs piratas.
Enquanto a MPAA não passa uma lei que nos obrigue a ir ao cinema contra a nossa vontade, prossegue na sua luta heroica contra os bucaneiros dos sete mares.

Guthrie não passa de um bode expiatório, meio concessão meio insulto do governo ditatorial Chinês à pressão ditatorial Americana. Uma troca entre padrinhos de mafias distintas/indistinguíveis.

O mais fascinante é que a MPAA, para conseguir impôr leis cada vez mais draconianas, joga também ela a carta universal do terrorismo. É preciso deter a pirataria de filmes pois há grupos terroristas que se financiam com os lucros da pirataria!

Eu pergunto: Se os grupos terroristas passarem depois a viver de plantações de bananas, teremos também de ilegalizar as bananas?

O mesmo argumento falacioso poderá ser usado para passar leis cada vez mais duras contra qualquer actividade vagamente ilegal, mero crime económico que poderá passar a ser tratado com ferocidade desmedida.

Todas as actividades situadas "na fronteira" são facilmente atacadas por este argumento. Recentemente o combate à pornografia tornou-se uma prioridade do FBI. Quanto tempo até que alguém se lembre de dizer que há grupos terroristas a financiarem-se com produção de pornografia?

Assim se faz avançar, à sombra da luta contra o terrorismo, as mais variadas agendas de grupos económicos como a MPAA e políticos como a direita religiosa Americana, cansados, respectivamente, das regras enfadonhas do capitalismo verdadeiro e da democracia.

Pois é

Circulou durante algum tempo na net a história do artigo do Miguel Sousa Tavares sobre a Ota. Ele supostamente acusou Mario Soares de ser o dono dos terrenos do aeroporto. Essa história é falsa.
Parece que o Mário Soares deu uma entrevista a uma televisão onde disse uma série de coisas sem nexo. A peça passou em dois telejornais de pequena audiência mas depois desapareceu. Será verdade, ou só mais um boato? Não levei demasiado a sério a história da entrevista. Até que passei pelo blogue do Calvin.

Uma Conversa animada com o Lutz

Caridade: um conto científico

Luís Rodriguez acordou bem cedo naquela manhã de segunda feira. A aula estava preparada, a roupa escolhida de véspera. Comeu à pressa. Não estava atrasado mas era como se o tempo lhe faltasse. O seminário do Mawhinsky acabava ao meio dia. Depois havia cinco minutos de perguntas e respostas e iam todos almoçar. Ele acabava a teórica de Equações Diferenciais à mesma hora. Tinha de atravessar o campus à pressa para conseguir uma lugar na mesa do conferencista. De preferência bem perto. Era uma manobra delicada.
Ele estava no EQUADIF o ano passado, mas passou a hora a fazer contas. Nem levantou a cabeça enquanto eu dava o meu seminário. Não se lembra de mim, de certeza. Ainda por cima, nem vou ao seminário dele...
Rodriguez tinha completado a sua tese dois anos atrás. A passagem a Professor definitivo costumava ser uma formalidade mas as coisas estão a mudar rapidamente. E o Luís era demasiado orgulhoso e perfeccionista. Quatro artigos, um deles no Journal of Differential Equations era o mínimo para que ele pudesse andar de cabeça levantada. Uma meta ambiciosa, mas o Luís não fazia as coisas por menos. Já tinha dois aceites. Fazer mais dois a tempo não seria difícil. O problema era fazer um suficientemente bom para o JDF. Tinha uma boa ideia mas há três meses que não conseguia avançar. Uma conversa de dois minutos com o Mawhinsky podia ajudar a desbloquear o problema.
Quando a aula acabou a Matilde barrou-lhe o caminho para a porta. Não tinha percebido a terceira passagem da segunda demonstração. Até era agradavel ter uma aluna que prestava atenção à aulas. Mas naquele dia! Não teve coragem de a despachar.
Ficou sózinho noutra mesa, a ouvir as conversas. Quando se convida um colega para dar uma conferência, esta é mais um pretexto para justificar a viagem do que outra coisa. O importante são as discussões nos gabinetes e durante o almoço. E ali estavam os colegas dele a gastar o tempo do Mawhinsky com graçolas e trivialidades. No fim combinaram ir tomar café do outro lado da rua. Por timidez ou orgulho, o Luís nem tentou arranjar maneira de se fazer convidar para os acompanhar. Quando tentava engolir a sua frustração juntamente com os ultimos pedaços do arroz de pato, sentiu uma mão gorda e pesada no cachaço. Helloouh Rodriguezz! That trick you performed with the Hamiltonian at EQUADIFF was very funny indeed! AhAhAhAh. Join us for a coffeeeh?
(continua)

terça-feira, janeiro 3

The perfect husband

Termodinâmica


O post Voltando ao Reiki degenerou numa discussão sobre a Lei da Conservação da Energia. É muito feio andar a discutir à frente dos outros sem explicar o que está em causa. Não é habitual discutir as leis da mecânica clássica fora dos bancos da escola. Porque é que com esta lei da termodinamica as coisas funcionam de outra forma? Talvez porque esta lei não é tão bem compreendida como as outras. Eu não percebo nada disto a ando a picar a Madi sobre o assunto, que é uma profissional. Lá vou eu ser ridicularizado em público mais uma vez...
Não se intimidem! Dêem um salto à Wikipedia e entrem na discussão. Sofia, cinco comentários é a penitência mínima para quem compra um livro do Parvalhoti...
As leis da termodinâmica são algo tão básico como a Mona Lisa, a Nona Sinfonia e o Guardador de Rebanhos. Depois de as comprender, passamos a olhar para o universo que nos rodeia de outra forma. Até pode ser que deixemos de opinar levianamente sobre os embriões e outras coisas do género.
A ideia básica é: There is no free lunch! Como disse Lavoisier: Nada se perde, nada se ganha, tudo se transforma. Quando se faz uma experiencia de quimica, se a soma dos pesos dos componentes no fim da experiencia é inferior à soma dos pesos antes da experiencia é porque entretanto se libertou uma gás. Se aumentou é porque o oxigénio que se encontrava na atmosfera entrou na reacção. Esta é a lei da conservação da massa.
A Lei da conservação da energia diz que a energia também se conserva. O problema é que existem várias formas de energia: o calor, a energia que é libertada nas reacções quimicas, a energia cinética, a energia potencial, a energia elétrica. Estas formas de energia transformam-se umas nas outras mas a quantidade de energia é suposta conservar-se.
Se sabemos algo sobre as leis da física, sabemos que qualquer lei de conservação acaba por ser quebrada em condições suficientemente extremas, sendo então válida uma lei de conservação mais geral: quando uma bomba atómica explode, uma pequena quantidade de massa é destruida e é transformada numa grande quantidade de energia. As duas leis de conservação que referimos atrás são violadas mas verifica-se a lei de conservação da massa-energia. A transformação da massa em energia faz-se segundo a única lei da física em que toda a gente já ouviu falar.

d'O Guardador de Rebanhos

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.


Só a natureza é divina, e ela não é divina...
Se às vezes falo dela como de um ente
É que para falar dela preciso usar da linguagem dos homens
Que dá personalidade às cousas,
E impõe nomes às cousas.
Mas as cousas não têm nome nem personalidade:
Existem, e o céu é grande e a terra larga,
E o nosso coração do tamanho de um punho fechado...
Bendito seja eu por tudo quanto não sei.
É isso tudo que verdadeiramente sou.
Gozo tudo isso como quem está aqui ao sol.

Alberto Caeiro

Quantas dimensões?

MaDi said...
Vivemos num espaço a 3 dimensões (ou com a 4ª dimensão de tempo) e para nós é conceptualmente complexo imaginar um espaço do género cartesiano com mais do que 3 dimensões.
Imaginei noutro dia que o espaço em que vivemos poderia ser uma projecção de um hiperespaço (dimensão n). E que nesse hiperespaço estaria Deus.
Como a partir de uma projecção é impossível saber o que foi projectado sem condições iniciais sabidas, daí viria toda a nossa incompreensão sobre estas coisas.
Um tanto rebuscado, eu sei. O que acham?
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Platão pede-nos na República que imaginemos um grupo de prisioneiros atados por correntes numa caverna, virados de costas para a saída, que só vêem as sombras do mundo real projectadas na parede. Para Platão o mundo real é o Mundo das Ideias, do qual o nosso mundo é uma pálida sombra. A alegoria da Madi é mais uma versão da Alegoria da caverna.
A alegoria da Madi tem alguma coisa a ver com a realidade? Tem mais do que parece. O mais interessante problema da física moderna é o de unificar a teoria da gravitação de Einstein, uma teoria essencialmente contínua, com a mecânica quântica, uma teoria essencialmente descontínua. Einstein procurou resolvê-lo durante décadas sem chegar a nenhum resultado. Actualmente começa-se a conseguir vislumbrar como será possível unificar as duas teorias. Os primeiros modelos bem sucedidos em que se consegue compatibilizar as teorias são modelos em que só existem duas dimensões, uma de espaço e uma de tempo. Esses modelos só permitem descrever fenómenos muito simples, como o movimento de um objecto em linha recta.
Quando se tentou aumentar o número de dimensões para dois ou três surgiram problemas matemáticos insolúveis. Mais tarde reparou-se que os modelos funcionavam bem se aumentássemos o número de dimensões para certos valores como onze ou vinte e seis...
Actualmente este facto é interpretado da seguinte forma: uns milisegundos depois do BigBang o nível de energia do universo baixou drásticamente e daí resultaram várias quebras de simetria. A maior dessa quebras de simetria foi o facto de o espaço encurvar em certas direcções: digamos que certas rectas se transformaram em circulos de diametro muito inferior ao diametro de um atomo. Para nós é como se essas rectas se transformassem em pontos e algumas dimensões deixassem de existir. Estes conceitos não tém nada de esóterico para um matemático ou um físico teórico.
O nosso universo é qualquer coisa semelhante a uma projecção de um universo a muitas dimensões (a alegoria da Madi). As leis que regem o nosso universo são mais dificeis de perceber do que as leis simples que regem o universo quando o nível de energia é mais elevado (A alegoria do Platão).
Madi, parece que até vivemos na projecção de um universo a muitas dimensões. Apesar de tudo, continuamos a entender o que se passa. E não precisamos de um deus para explicar as coisas!

segunda-feira, janeiro 2

As três Virtudes Teologais

As Virtudes Cristãs mais importantes são as Virtudes Teologais: A Fé, a Esperança e a Caridade. São estas as qualidades indispensáveis a qualquer investigador. Sem elas, a criatividade é impossível. A importância da Fé e da Esperança são por demais evidentes. Vou falar sobre a Caridade. A vertente intelectual da Caridade.

Quando ouvimos o Outro não devemos proceder como um advogado em tribunal. Não devemos enfiar-lhe pela garganta a baixo a primeira contradição em que caiu. Devemos procurar encontrar um sentido nas suas palavras, mesmo que mal expressas.
Isto se acharmos que a pessoa não está naquele momento de má fé. Mais que não seja para se proteger de uma pressão exterior. Também não podemos dar dinheiro a alguém cada vez que paramos num sinal luminoso.

Se não tivermos Caridade para com os outros, vamos acabar por interiorizar essa atitude. Vamos deixar de ser capazes de ouvir as ideias que Deus sopra baixinho ao nosso ouvido, de as acarinhar até elas terem pernas para andar. Deus acaba por nos condenar à esterilidade intelectual.

O filósofo ateu Carrilho Guimarães conspurca a Caridade regularmente falando desta virtude com o fim de ridicularizar os seus oponentes políticos. Mostra-se caridoso em relação a uma frase de um adversário político, tenta encontrar-lhe algum sentido. Conclui pesarosamente que não conseguiu encontrá-lo. Vai arder no inferno da irrelevancia intelectual até ao dia em que ninguém lhe inveje a Barbara. Depois, nem isso.

Vou juntar alguns exemplos numa próxima oportunidade.
Peço-vos alguma Caridade para com este post, que bem precisado está dela.

Inquietações

Como é possível eu escrever num blogue com um tipo que pensa exactamente como eu? Finalmente tornei-me sócio de um clube? Estarei a ficar velho? As dúvidas perseguem-me dia e noite.