terça-feira, maio 31

Palavras: Cibernética e Ciberespaço

Ao contrário do que poderia parecer, este post e o anterior não são tanto sobre cibernética mas sobre os significados das palavras. As reacções dos leitores ao desafio andam muito próximas do significado mais técnico.

Cibernética é uma palavra com origem no grego (kubernêtês significa piloto, dirigente) e o seu uso actual foi introduzido pelo título de um livro publicado em 1948: "Cybernetics, or control and communication in the animal and machine", de Norbert Wiener (Cibernética, ou controlo e comunicação no animal e na máquina). Já antes de Wiener a palavra tinha sido usada com o sentido de arte ou ciência do governo, da condução da sociedade. Também a nossa palavra governo vem, através do latim, da mesma origem grega.

Actualmente a palavra cibernética tem a ver com o estudo do funcionamento de sistemas complexos que usam a informação e acções de controlo para atingirem determinados objectivos. A cibernética não chegou a afirmar-se como uma disciplina autónoma mas aparece frequentemente ligada a campos um pouco diferentes como a robótica (que usa técnicas associadas à cibernética mas não se resume a ela) e a informática (que contribui para a cibernética).

Mas porque é que se usa o prefixo ciber e a palavra cibernética em assuntos relacionados com a Internet, como nesta notícia e nesta?

A ligação parece passar pela palavra ciberespaço (cibernética + espaço). Esta palavra foi criada pelo escritor de ficção científica William Gibson no início dos anos 80 do século XX e foi popularizada pelo seu romance Neuromancer (1984), onde alguém se encontra
"(...) jacked into a customized cyberspace deck that projected his disembodied consciousness into the consensual hallucination known as the matrix.

"(...) ligado a uma plataforma de ciberespaço adaptada que projectava a sua consciência descorporizada numa alucinação consensual conhecida como a matriz."

"Cyberspace. A consensual hallucination experienced daily by billions of legitimate operators, in every nation, by children being taught mathematical concepts...A graphic representation of data abstracted from the banks of every computer in the human system. Unthinkable complexity. Lines of light ranged in the nonspace of the mind, clusters and constellations of data. Like city lights, receding..."

"Ciberespaço. Uma alucinação consensual, experimentada diariamente por biliões de operadores legais, em todas as nações, por crianças a quem são ensinados conceitos matemáticos... Uma representação gráfica de dados abstraídos das bases de dados de todos os computadores no sistema humano. Complexidade inimaginável. Linhas de luz dispostas no não-espaço da mente, aglomerados e constelações de dados. Como luzes de uma cidade, afastando-se..."

Embora a Internet não tenha as características de ligação directa ao cérebro que o ciberespaço de Gibson tem, foi-lhe sendo aplicado o nome, de modo que se tornaram naturais palavras como cibercafé, cibernauta, cibercultura ou cibersexo. Até que ponto é o ciberespaço o espaço ou domínio de controlo, de governo? E quem é que controla ou governa o quê?

Hoje usamos "ciber" com todos estes significados e com os que ficaram nos comentários ao post anterior. Será "cibernética" uma palavra interessante para a poesia? Que vos parece?

Já temos a resposta do A.:

Rã Cibernética
Charco de promessas
Splash!

Bash-O

segunda-feira, maio 30

De que falamos quando falamos do deficit?

O dinheiro não é tudo, mas a falta dele pode envenenar a nossa vida. Uma avaria no automovel, uma infiltração no tecto, um problema dentário, podem afectar o nosso equilíbrio durante meses ou anos. O primeiro luxo é poder reduzir estes problemas a operações aritméticas. É o luxo de que eu não gostaria de abdicar. É um luxo que hoje em dia está ao alcance dos membros da classe média relativamente imunes ao consumismo e com real falta de tempo para gastar dinheiro. Eu até consigo ouvir facilmente a minha colecção completa de cd´s em menos de uma semana. Os oferecidos não contam...

A esmagadora maioria das pessoas que eu conheço pertencem à classe média. Às vezes lembro-me de que para a maioria das pessoas o meu primeiro luxo não é uma opção. Menos vezes do que aquelas que me deveria lembrar.

Estou eu acima da problemática do deficit? Os reformados da classe média reduzidos pela inflacção da década de setenta a uma pobreza envergonhada também achavam que não tinham nada a temer...
Os problemas económicos ainda nem começaram. Os babyboomers reformam-se a partir de 2008. É nessa altura que que a percentagem dos trabalhadores activos vai começar a diminuir rapidamente em todo o mundo desenvolvido. O deficit da década de 20 tomará o papel da inflação da década de setenta? O grande drama começa no dia em que deixamos de ter falta de tempo. Quando falta a energia para fazer coisas. Nessa altura um pouco mais de dinheiro pode ajudar a que nos sintamos vivos. Sentir falta de tempo é ter fome de vida. Espero trabalhar pelo menos até ao setenta e cinco, cheio de falta de tempo. Espero driblar este deficit...

Muitos jovens que consomem como respiram ficam em casa dos pais até aos trinta e cinco para manter o nível de vida. E depois? Foi-lhes prometido o paraíso e a maioria deles não tem convite para entrar. Não vão ficar à porta sem protestar. Pouco posso fazer. Pela parte que me toca, acho que me vou esquivar a este.

Entretanto a falta de coragem dos políticos para emendar os erros do passado vai provavelmente fazer erodir durante os próximos anos uma boa parte do ensino universitário português. A pretexto de Bolonha e por causa do deficit. Provavelmente há outras àreas em que se estão a passar fenómenos semelhantes, só que eu ainda não sei de nada. Este deficit eu já não consigo fintar. E não me apetece escrever sobre ele.

domingo, maio 29

One umbrella...

Um visitante habitual do Prozacland escolheu quatro traduções do haiku One umbrella.., podem lê-las aqui. Entretanto continuamos à espera dos vossos encadeamentos para Deitei fora o guarda chuva , o nosso primeiro Renku.

Da outra vez a vitória na Taça soube melhor

Há quarenta anos estava lá o Eusébio.

Que queremos comprar quando compramos o jornal?

Como muita gente, habituei-me durante anos e anos a comprar livros em livrarias e discos em "discotecas" (termo cujo significado sofreu entretanto uma translacção). Este conceito está em efervescente mudança, e não só por causa das grandes superfícies, os hipers, a que poderíamos chamar, puxando a brasa ao gosto pela geometria neste blog, "hipersuperfícies". Mesmo sem ir à procura de números para traduzir o fenómeno, não tenho dúvida de que a compra de livros e discos em edições distribuídas por jornais corrsponde hoje a uma fatia gigantesca no total do comércio nesta área. Há séries de livros, cds musicais e dvds com filmes para quase todos os gostos. As colecções do Público têm características diferentes das do DN ou das do 24 horas.
Um fenómeno semelhante, mas mais irritante, é o de os bancos terem entrado também a matar na actividade comercial com os clientes. Nas duas últimas vezes que tive de ir tratar de um assunto pessoalmente na agência, tentaram vender-me um computador portátil e um "cinema em casa" com um estendal de fios e colunas. Ainda por cima, tratando-se de brinquedos em que é enorme a concorrência dos fabricantes, só podia escolher entre dois modelos. Está-se mesmo a ver o que eles queriam. Felizmente posso executar quase todas as operações bancárias pela internet. Só porei os pés na agência em último caso.
Entretanto, cedi recentemente ao impulso consumista e acabei por adquirir um videogravador. Atravessei a época dos de cassetes sem comprar nenhum, mas agora que gravam em disco duro e com imagem de boa qualidade, fraquejei. O brinquedo é ínteressante, embora ainda um pouco maçador no que diz respeito a certas funções que nos obrigam a um constante recurso ao manual de instruções.
As gravações de canais tv exigem já (se quisermos vê-las, claro) um tempo disponível que não é fácil ter. Assim, comprar filmes em dvd parece supérfluo e inútil. E, dado o preço que custam nas lojas, compreendo muito bem o êxito das edições distribuidas por jornais. O que custa a compreender é como ainda há um vasto público que compra dvds por 25 ou 30 euros e cds audio por 19-20 euros.
Mas, mais angustiante do que a ideia de comprar caro, é fazer as contas ao tempo de que teríamos de dispôr para voltar a ouvir a colecção de cds (é fácil chegar aos 200...) ou, pior ainda porque exige mais disponibilidade, para voltar a ver a colecção de filmes que temos, ou podemos vir a ter, em casa. Apercebemo-nos então de como é curto o tempo que presumivelmente nos resta. Dito de outro modo: dos discos (e, já agora, dos livros) que guardamos, que associamos a uma parte da nossa vida e de que pensamos poder voltar a usufruir, é certo que não nos sobrará tempo para voltar a ouvir (ou reler) a maior parte. Gestos que gostaríamos de ter, não mais teremos.

Deitei fora o guarda chuva

Deitei fora o guarda chuva
que bom
molhar-me contigo
Samurai Zen
no lago azul
dos sonhos
m
entre algas que dançam
na maré do meu desejo
dou à costa
Calvin


Este renku continua num post mais recente. É nos comentários desse post que pode deixar as suas contribuições.

Renku

O apresentador (Luís Filipe Barros?) de um programa mítico da rádio portuguesa (Em Órbita?), fez durante anos um desafio aos seus ouvintes. Um ouvinte escolhia três músicas. Ele passava a série seleccionada pelo ouvinte e depois uma série escolhida por ele próprio. Os ouvintes votavam qual das duas sequências tinha sido mais agradável de ouvir. O apresentador ganhava sempre. Porquê?

Uma boa primeira sequência desperta na mente do ouvinte atento sensações e sentimentos profundos. Quando ainda ressoam nos seus ouvidos as notas das três primeiras escolhas, surgem novas músicas que constroem novos estados de alma sobre os alicerces deixados pelos anteriores. Quanto melhor a escolha do desafiador, maior a vantagem do apresentador. É a história do carro que ultrapassa o outro porque beneficia de não precisar de cortar o vento. Joyce não teria subido tão alto se não tivesse construido sobre o outro Ulisses.

Basho estabeleceu a forma definitiva do renku, tal como já tinha feito com o haiku. O renku é uma poesia feita em grupo. É um encadeado de pequenos poemas onde cada poema retoma um aspecto do anterior. O primeiro poema é o mote e é proposto pelo moderador. Compete também ao moderador seleccionar o poema que vai encadear no anterior de entre as propostas apresentadas pela audiência. O mote é um haiku. Para evitar a monotonia vai-se alternando poemas de duas e três linhas. Dois poemas consecutivos devem ter autores diferentes. Cada novo poema beneficia dos contextos criados pelos anteriores, o que lhe permite ir um pouco mais longe. O haiku começou por ser apenas o mote de um renku e só mais tarde ganhou autonomia.

O mote para o nosso primeiro renku é da autoria do samurai zen e foi involuntáriamente escolhido pelo Lutz Brückelmann do Quase em português. Esperamos encadear um novo poema quase todos os dias!
Já agora, Lutz, o samurai zen teve em relação ao autor do haiku a vantagem que o Luís Filipe Barros tinha...

sábado, maio 28

Quem criou o deficit?

O apresentador (Luís Filipe Barros?) de um programa mítico da rádio portuguesa (Em Órbita?), fez durante anos um desafio aos seus ouvintes. Um ouvinte escolhia três músicas. Ele passava a série seleccionada pelo ouvinte e depois uma série escolhida por ele próprio. Os ouvintes votavam qual das duas sequências tinha sido mais agradável de ouvir. O apresentador ganhava sempre. Porquê?
O deficit? Dói muito escrever sobre as coisas sérias.

sexta-feira, maio 27

Palavras: Cibernética

Que significado, que imagens evoca esta palavra: "cibernética"? Deixe a sua opinião nos comentários, antes de consultar qualquer fonte.

A forma da terra

Qual é a forma do universo?
Fico à espera das vossas respostas.
Por hoje vou discutir uma questão mais simples de uma forma muito complicada. Qual é a forma da Terra?


Qual é a concepção do espaço de um caçador/recolector que percorre a terra em busca de alimento? Vá para onde for, descontados os acidentes geográficos, vive num grande disco cujo centro é ele próprio e cujo limite é a linha do horizonte, aquilo a que um matemático chamaria uma carta ou um mapa. É nesse disco que ele representa as montanhas, os rios e os bosques. Quando ele se desloca o centro desse disco desloca-se como ele. Quando o caçador recolector passou a agricultor e acumulou riqueza suficiente para não depender do dia de amanhã pôde passar a pensar em questões menos imediatas. A superfície da terra é a colagem de muitos discos (muitos mapas). Qual é a sua forma global? Uma hipótese a considerar seria: a superfície da terra é plana e infinita em todas as direcções. Esta hipótese dificilmente passou pela cabeça de alguém.

Se a terra é plana e não é infinita, tem um bordo. Provavelmente um precipício! Alguns povos aceitaram essa ideia mas poucos se sentiam confortáveis com ela. Qual será então a forma da terra? A alternativa é encontrar superfícies finitas sem bordo. A solução mais simples do problema é a superfície esférica e parece não valer a pena pensar mais no assunto. Se queremos seguir a evolução das discussões sobre a forma do espaço até ao presente, convém apresentar outras possíveis soluções para o problema. A segunda solução mais simples é a superfície de um donut. Todas as soluções que podem ser construídas num espaço a três dimensões são do tipo considerado nas figuras anteriores ou na próxima figura. Trata-se apenas de iterar a construção "colar mais um donut".

Existem mais soluções para o problema. As outras soluções não podem ser construídas no espaço tridimensional em que vivemos sem se auto-intersectarem. A solução mais simples é a garrafa de Klein, que podem ver em duas perspectivas na figura abaixo.

Podem ver uma fita de Moebius na figura abaixo. A fita de Mobius tem um bordo. Quando nos deslocamos transversalmente à fita chegamos a um ponto onde não podemos continuar em frente. Um ponto do bordo. Quando nos deslocamos longitudinalmente ao longo da fita voltamos ao ponto inicial só que do outro lado da fita. A fita de Mobius tem uma só face. A garrafa de Klein só tem uma face.

Conhecemos todas as superfícies finitas sem bordo. A partir da garrafa de Klein podemos construir uma série infinita de exemplos "colando-lhe" donuts. Existe uma terceira família infinita de exemplos semelhante à anterior. Prova-se que não há mais superfícies finitas sem bordo. Catalogadas todas as superfícies possíveis poderíamos agora tentar descobrir qual delas é a forma da superfície da Terra. Pode parecer estúpido mas esta é uma abordagem para tentar descobrir qual é a forma do universo, desde que consigamos classificar todas as formas possíveis do universo. Será possível?
Mais imagens de superfícies aqui.

quinta-feira, maio 26

Haiku

Um visitante habitual do Prozacland escolheu seis traduções do haiku she lifts her head, podem lê-las aqui. Entretanto continuamos à espera das vossas traduções de One umbrella...

Músicas



Excertos musicais que o cinema utilizou nunca mais foram os mesmos. O tecimento das notas com as imagens alterou definitivamente o modo como percebemos a natureza daqueles sons. Antes, poderiam ser beleza abstracta ou evocar determinadas imagens. A passagem pelo cinema veio sobrepor-lhes outras imagens com um carácter impositivo.

Stanley Kubrick foi um dos grandes responsáveis pela transfiguração de músicas. O "Danúbio Azul" deixou de evocar o fausto kitsch dos salões vienenses para se converter no comentário sonoro ao voo de naves interplanetárias, lá onde nenhum outro som é audível. Esta alteração de significado aconteceu em 1968 com 2001, talvez o único filme de "ficção científica" para adultos. Também aí se popularizou o "Assim falou Zaratustra" a sublinhar a imensidão e os enigmas do universo. Em 1971, com Clockwork Orange , foi a vez de subverter Beethoven e até uma canção feliz de outros tempos do cinema, Singing in the rain, para ilustrar uma banalidade: os monstros mais abjectos podem, em determinados aspectos, ter "bom gosto".

Claro que há exemplos abundantes de outras músicas cinematograficamente modificadas em obras de outros autores. Também é notável que, depois de Visconti ter filmado Morte em Veneza, se tenha tornado difícil dissociar o adagietto da 5ª sinfonia de Mahler da entrada por mar na cidade mítica, tingida de rosa e cinzento, início de uma viagem de onde não haverá regresso.

Em anos muito mais recentes, e voltando a Kubrick, é surpreendente o uso que deu à enigmática Valsa nº2 da suite para jazz nº2 de Shostakovich. Na memória de que Eyes wide shut passou a fazer parte, não sabemos a que colar aquela música insinuante e obsessiva, mas há muito por onde escolher, desde a força visual do fugaz plano inicial em que Nicole Kidmann troca de roupa, até à evocação recorrente, abstracta, do ciúme que se apodera de Tom Cruise e o arrasta numa viagem delirante fora de horas.

quarta-feira, maio 25

Reforço

Finalmente conseguimos trazer o lino para o Prozacland, apesar da sua falta de tempo. Benvindo!

Haiku


One umbrella...

both of us getting

a little wet

Faça a sua tradução livre deste haiku.
Deixe-a nos comentários.

Não podemos ignorar

Ano após ano Portugal continua a figurar nos relatórios da Amnistia Internacional.

Os abusos das forças de segurança não se exercem apenas sobre "criminosos" mas são por vezes exercidos sobre cidadãos que estão no local errado à hora errada. Mais grave do que as denúncias é a falta de uma investigação completa e independente (com todas as consequências legais) quando há denúncias credíveis.

segunda-feira, maio 23

Revisitando a Wikipedia

Quando escrevi um post sobre a wikipedia na segunda-feira passada a versão inglesa tinha 561.763 artigos. Hoje tem 569.141. Foram introduzidos 7378 novos artigos, o que se traduz num aumento de 1,3% numa semana. A este ritmo, a wikipedia duplica o número de artigos a cada ano que passa.

Um pequeno teste: qual foi a guerra mais mortífera de sempre? Sim, foi essa. E qual foi a segunda guerra mais mortífera de sempre? Não, não foi essa. Foi esta. Nunca tinha ouvido falar? Eu também não...

domingo, maio 22

BonaMusica

Yoga e...

É normal entrar numa livraria e encontrar os livros de yoga misturados com os livros de astrologia, espiritismo e outras actividades do mesmo tipo. Isto porque os yogis são supostos reinvindicar capacidades sobrenaturais de vários tipos. Vamos então analisar algumas destas afirmações. O yogis são supostos ser capazes de fazer agir a sua vontade sobre orgãos do corpo humano que em príncipio não são controláveis pela nossa vontade. Será possível? Comecemos por um exemplo simples. A pupila dos olhos reage às variações da intensidade luminosa, contraindo-se e dilatando-se. Sabemos controlar a dilatação da pupila? Não. Podemos aprender a fazê-lo? Parece que sim. Como? Uma simples utilização dos reflexos condicionados de Pavlov.
Começa-se por soar uma campainha ao mesmo tempo que se acende uma luz intensa. Ao fim de algum tempo o simples soar da campainha provoca a contracção da pupila. A seguir pede-se ao aluno que faça tocar a campainha ao mesmo tempo que diz em voz baixa contrai. Ao fim de algum tempo condiciona-se a pupila a se contrair quando se pensa em contrair a pupila. Demasiado simples? Os métodos referidos acima foram usados das mais diversas formas para controlar o metabolismo e o funcionamento das vísceras.
Schultz, Professor de Medicina na universidade de Berlim, mostrou nos anos trinta que podemos aprender a contrair e dilatar os vasos sanguíneos da mão ou de qualquer parte do corpo pensando apenas ... a minha mão está quente. Consegue-se assim aumentar a temperatura da mão de um grau centígrado em alguns segundos. Tenho um amigo que sabe fazê-lo desde criança. Schultz desenvolveu técnicas que permitiam aos seus pacientes contrair e relaxar orgãos como o estomago e o útero. Estas técnicas foram desenvolvidas com fins terapeuticos. A medicina escolheu outras direcções de desenvolvimento, obtendo grandes sucessos. Talvez não tivesse sido necessário eliminar outros pontos de vista que olham para um ser humano como um todo e não como um conjunto de mecanismos mais ou menos interligados. Alguns médicos conseguiram num reduzido espaço de tempo e sem grandes meios tecnológicos obter resultados extraordinários. Será assim tão estranho que um trabalho sério de experimentação conduzido de forma sistemática ao longo de cinco mil anos por milhares de pessoas tenha chegado um pouco mais longe? Ao que parece a distinção entre actos voluntários e involuntários não é qualitativa mas apenas uma questão de grau.

Confesso que a literatura existente no mercado sobre as chakras, centros de energia colocados ao longo da coluna vertebral, sempre me deixou um pouco desconfortável. Até que um dia numa aula de yoga, depois de um período de meditação um pouco mais longo do que o habitual, nos foi pedido que nos concentrássemos no ponto entre as sobrancelhas e imaginássemos uma roda a girar. Senti que estava realmente uma roda a girar. A partir daí passou a ser normal depois do período de descontracção no fim da aula sentir outras rodas a girar. Pode ser só imaginação minha. Acontece porém que as rodas aparecem sempre nos sítios onde são supostas aparecer. Algumas pessoas sentem-nas, outras não. Não estou muito preocupado com estas rodas. Se elas me ajudarem a evoluir no yoga, optimo. Senão...
O que é que elas significam? Qual é a sua natureza? logo se vê...
Li alguma informação sobre o assunto. Ao que parece a localização das chakras está associada à localização das glandulas endócrinas. Nos livros associavam uma cor a cada chakra, sem explicações. Um dia perguntei à professora de yoga porque é que se fazia essa associação. Sempre queria ver como é que ela respondia. Antes que ela pudesse responder um colega meu, engenheiro mecânico, uma das pessoas mais terra a terra que eu conheço, explica-me rápidamente: oh pá, a cor associada ao chakra é a cor que a gente vê quando se concentra no chakra...
Elementar, meu caro Watson!
Eu não vejo cor nenhuma... Ele faz uma data de posturas complicadas que eu nem sonho em fazer nos tempos mais próximos. Se ele diz que vê, quem sou eu para o contrariar?

sábado, maio 21

Piece of silver moon revisitado

Um visitante habitual do Prozacland escolheu quatro traduções do haiku Piece of silver moon, podem lê-las aqui. Entretanto continuamos à espera das vossas traduções de She lifts her head.

sexta-feira, maio 20

Direito de resposta (actualizado)

Nesta polémica sobre educação sexual, Júlio Machado Vaz responde no seu blog.

O Boss chamou a atenção para um artigo da Fernanda Câncio no DN que me parece que ajuda a perceber melhor o que se passa.

she lifts her head


she lifts her head

a tapping at the window
is only rain

Faça a sua tradução livre deste haiku tirado daqui. Deixe-a nos comentários.

quinta-feira, maio 19

Educação sexual

Uma notícia do Expresso sobre educação sexual nas escolas lançou o pânico geral, levando a que mais de 4000 pessoas tenham já assinado uma petição. Para já vale a pena ler a notícia e a petição e perguntar:
- Dada a gravidade das situações descritas, como é que ainda não houve reacções de pais e encarregados de educação dos jovens e crianças supostamente vítimas, sendo o assunto aparentemente levantado por um pai que faz sessões de esclarecimento pelo país, apenas com base no estudo do programa?
- Dada a gravidade do que é imputado à APF, aos ministérios da educação e da saúde e aos autores de manuais, não deveriam estes ter sido ouvidos sobre este assunto? Que tipo de jornalismo pratica hoje o Expresso?
- Porque é que a petição, apenas com base na notícia e sem ter sequer uma ideia sobre a aplicação ou efeitos de qualquer dos programas que quer pôr em causa, apresenta um extenso programa de exigências, tratando a APF e o estado como culpados e exigindo um pedido de desculpas?
- Porque é que a petição não pede um rigor equivalente para todas as entidades que colaboram com o ministério da educação, nomeadamente o MDV?

quarta-feira, maio 18

Nos próximos dias vamos ter mais algumas propostas de haikus para traduzir.

Encontrei ontem uma série de traduções para inglês do mais famoso haiku de Basho. Podem saboreá-las no post abaixo.

Before I can admire
the poppy's petals
The wind blows them away

Tradução livre:

Ganhar
a taça UEFA
gloria passageira

Furu ike ya

Basho foi um samurai do século xvii e provavelmente também um ninja. Transformou o hábito de escrever pequenos poemas cómicos de três linhas na arte subtil do haiku. Esta transformação foi fortemente influenciada pelo Budismo Zen. A meditação Zen foi-se tornando cada vez mais importante ao longo da sua vida.

Furu ike ya

kawazu tobikomu

mizu no oto


é o mais famoso haiku de Basho. Coitadas das crianca japonesas que tem de o decorar numa idade em que ainda não estão em condições de o saborear. A tradução oficial, de Lafcadio Hearn, é

Old pond

frogs jumped in

sound of water.


Temos uma tradução respeitosa de Nobuyuki Yuasa


Breaking the silence

Of an ancient pond,
A frog jumped into water —
A deep resonance.


e muitas traduções que são mais própriamente versões da tradução original. Duvido que os autores soubessem japonês.


An old pond —
The sound
Of a diving frog.

Kenneth Rexroth


The old pond, yes, and
A frog-jumping-in-the-
Water’s noise!

G.S. Fraser


There once was a curious frog
Who sat by a pond on a log
And, to see what resulted,
In the pond catapulted
With a water-noise heard round the bog.

Alfred H. Marks


The old pond,
A frog jumps in:

Plop!


Alan Watts


old pond
a frog in-leaping
water-note

Cana Maeda


Listen! a frog
Jumping into the stillness
Of an ancient pond!

Dorothy Britton


Finalmente a tradução minimalista de James Kirkup:

pond
frog
plop!

Mais traduções de Furu ike ya aqui.

terça-feira, maio 17

Todos iguais?

Manuel Maria Carrilho tem um programa: usar Lisboa para chegar mais alto. Tentará fazer boa figura, claro. Carmona Rodrigues parece ser um homem sério. Depois de ter seguido Santana em todas as suas trapalhadas falta-lhe credibilidade para por a casa em ordem. Nenhum dos dois fará a diferença. Nenhum dos dois será uma catástrofe.
Tinha ouvido José Sá Fernandes de passagem na televisão a propósito das suas acções populares contra as ilegalidades da camara de Lisboa. Olhava para ele com a simpatia que um excentrico bem intencionado me merece.
Segunda feira ouvi-o na RTP2 numa entrevista de fundo e fiquei impressionado. Conhece os dossiers e sabe o que quer.
Os políticos são todos iguais? Talvez ainda não...

segunda-feira, maio 16

wikiwiki

Jimmy Wales era um estudante de doutoramento em finanças nas universidades de Indiana e Alabama. Como entretanto ficou rico a jogar na bolsa não conseguiu acabar a tese de doutoramento. A partir daí dedicou-se a desenvolver os seus ideais. Fundou no ano 2000 a Nupedia, uma enciclopedia online desenvolvida gratuitamente por especialistas que se dispunham a colocá-la à disposição de toda a gente. Wales acreditou na generosidade humana mas não acreditou o suficiente. O projecto falhou, sendo encerrado em 2003. Entretanto um projecto louco iniciado em 2001 por Wales teve mais sucesso: a Wikipedia. Wikiwiki é uma palavra hawaiana que significa muito rápido. A Wikipedia é uma enciclopédia que pode ser escrita e reescrita por toda a gente. É um projecto utópico/anárquico que por milagre funciona. Que o diga Bill Gates. A Encarta, a enciclopedia da Microsoft, tem actualmente 64.000 artigos. A versão inglesa da Wikipedia tem só 561.763! A Wikipedia portuguesa tem 37.000. A versão inglesa é actualizada em real time. É vulgar encontrar lá uma notícia importante que tenha acontecido na véspera. Nenhuma enciclopedia comercial se poderia dar a esse luxo. Nunca mais ouvi falar da Encarta...



Quanto à qualidade dos artigos, consulte um tema que conheça bem e julgue por si.


Podemos não nos importar que seja Bill Gates a decidir o que nós devemos pensar sobre D. Afonso Henriques, a guerra do Vietnam ou as leis de copyright. Ou pode ser que achemos preferível ter acesso a uma fonte gratuita que não depende de interesses públicos ou privados. A wikipedia pode ser reescrita por toda a gente porque as versões anteriores não se perdem. Ficam registadas no link historia de cada página. As opiniões minoritárias não são ignoradas. Por vezes acontecem guerras mas as disputas acabam por se resolver rapidamente. Todos nós podemos contribuir para que este projecto se continue a desenvolver. Nós temos a sociedade que merecemos...

Estimulados pelo sucesso da wikipedia outros projectos do mesmo tipo estão agora a desenvolver-se:
As
Wikinews são uma fonte de notícias que funcionam dentro da mesma filosofia. Bem precisamos de notícias independentes...
Os Wikibooks incluem livros em hipertexto sobre todos os assuntos, que podemos ler ou usar para construir um livro que nos interesse produzir, sem problemas de copyright. Os wikibooks estão agora a começar mas estão a desenvolver-se a um ritmo explosivo.
A Wikisource é outro projecto extremamente interessante. Podemos encontrar lá material de todo o tipo que podemos usar sem problemas de copyright. Mais importante do que parece.

Pode informar-se sobre estes e outros assuntos no fundo desta pagina.
Podem colaborar escrevendo sobre um assunto da sua especialidade na enciclopedia inglesa, reescrevendo um artigo sobre Portugal na enciclopedia de uma lingua que conheçam bem (existem wikipedias em todas as línguas!), escrevendo na enciclopedia portuguesa, ajudando a desenvolver o manual de reparações de automóveis, juntando fotografias de pássaros da sua região à wikisource. Pode também ajudar assinalando um tema que não foi tratado e que lhe interessa. Volte lá dois dias depois. Pode ter uma surpresa! Divirta-se e não deixe o seu destino fugir para as mãos dos outros.

Ensino superior: qual é mais frequente?

"Universidade: Falta de dinheiro leva 40 por cento dos estudantes a desistir dos cursos"

PUBLICO.PT 16/5/05


"Há muito tempo que o estudo anda a prejudicar a diversão dos alunos do ensino superior."

Miguel Góis, jornal Metro 13/5/05

domingo, maio 15

Piece of silver moon

Piece of silver moon
Suspended in the purple sky
Not so far away.

Faça a sua tradução livre deste haiku de um karateka. Deixe-a nos comentários.

sábado, maio 14

Fui ao bruxo

Dez anos atrás surgiu-me uma hérnia discal cervical. As dores foram aumentando progressivamente. A certa altura parei de trabalhar. Alguns dias não conseguia guiar. Uma operação na zona cervical é sempre um risco. Para além disso deixa sequelas. Em desespero de causa fui a um bruxo. Pelo menos era o que lhe chamavam algumas pessoas. Na verdade era um osteopata. As dores desapareceram em duas sessões. Durante algum tempo fui visitá-lo uma vez por ano. Um ano depois de começar a fazer aulas de alongamentos, quase me esqueci dos problemas no pescoço.
Entretanto a osteopatia, a homeotapia e outras disciplinas médicas
continuam a não ser reconhecidas em Portugal. Isto apesar da existência de uma directiva comunitária que o estado português está vinculado a transpor para a nossa lei. Em países como a Inglaterra e a França estas especialidades médicas são ensinadas na universidade e tratadas da mesma forma que as outras.
Porque é que em Portugal as coisas são diferentes?

Foto: Peter Hegre

sexta-feira, maio 13

Aborto e hierarquia católica

A alteração à lei sobre o aborto em Portugal ficou, em minha opinião, decidida em Março de 2004. A publicação pela Conferência Episcopal Portuguesa do documento intitulado "Meditação sobre a vida" marcava uma posição de obstinação total perante a realidade, que levará inevitavelmente a uma maior liberalização do aborto, salvo se os grupos pró-aborto conseguirem um nível de irracionalidade que compita com o dos bispos portugueses.

A "Meditação sobre a vida" insistiu em equiparar o embrião a uma pessoa humana desde a concepção: penso que se trata de uma posição que a médio prazo levará a um beco sem saída, donde será preciso retroceder. Além disso ignorou completamente a relação da mãe com o próprio corpo durante a gravidez e ignorou o impacto sobre a opinião pública dos julgamentos que têm decorrido.

Mesmo admitindo uma posição radicalmente contra o aborto, uma leitura minimamente atenta da sociedade portuguesa deveria ter deixado claro que já só era possível "minimizar os danos". A ocasião era propícia (pois a direita estava no poder) e a proposta de Freitas do Amaral pareceu-me, nessa perspectiva, o melhor "negócio" possível: nem sequer descriminalizava o aborto mas, ao inverter o ónus da prova, permitiria acabar com quase todos os julgamentos.

Perante este quadro a Conferência Episcopal resolveu insistir em que só se devia "considerar, em sede de julgamento, eventuais circunstâncias atenuantes". Quer dizer, tudo devia ficar como estava, incluindo a exposição em julgamento das mulheres que abortaram (note-se o contraste com a prática de proteger da exposição pública os padres pedófilos).

A partir de um radicalismo destes, muitas pessoas moderadas, incluindo católicos, deixaram de poder contar com a hierarquia para um debate sereno com aqueles que defendiam o aborto livre a pedido da mulher. Dentro da Igreja saíram reforçados os grupos religiosos radicais anti-aborto e, como consequência natural neste contexto, houve padres que levaram a sério o radicalismo: foi o caso do Pe. Nuno Serras Pereira e é agora o caso do Pe. Domingos Oliveira. Estes padres limitaram-se a levar até às últimas consequências a posição expressa pelos bispos e provam, pelo seu excesso, a desadequação da "Meditação sobre a vida". O aborto será um mal mas não se pode fazer dele o mal absoluto, sob pena de se dizerem as barbaridades que disse o pároco de Lordelo do Ouro.

Agora que a maioria política mudou, andam as deputadas católicas do PS a tentar sem sucesso salvar uma posição análoga àquela que, há um ano, a Conferência Episcopal se dava ao luxo de desprezar e andam os movimentos anti-aborto a ser desacreditados por declarações desligadas da realidade.

quinta-feira, maio 12

Regresso às origens

Jean Couch era instrutora de yoga na California e autora do best seller The Runners Yoga Book. Apesar de o yoga ter melhorado substancialmente a sua condição física e psicológica continuava a ter uma certa dificuldade em se descontrair e sofria regularmente de problemas de ciática. Jean procurou na Índia junto de BKS Iyengar a solução dos seus problemas. Acabou por encontrar o seu caminho com uma aluna de Iyengar, a antropologa francesa Noelle Perez. Podemos ver Noelle e Iyengar na foto abaixo.

Noelle começou a notar diferenças fundamentais de postura entre as populações dos países onde desenvolvia os seus estudos antropologicos e as populações dos países ditos desenvolvidos. Chegou à conclusão que por volta de 1920 se deu uma modificação radical na postura da maioria dos cidadãos dos países desenvolvidos.

Na figura da esquerda vê-se uma senhora do início do século XIX. A sua postura é a mesma do senhor do lado esquerdo do post sobre a dança Bharatanatyam. A partir de certa altura as pessoas passam a querer ter um ar cool, a pelvis desloca-se para a frente, as costas para trás, as pernas deixam se encontrar na vertical. As consequências mais obvias desta nova postura são as famosas dores de costas, um fenomeno desconhecido noutras civilizações. Mas esse problema é só a ponta do iceberg. As causas prováveis desta transformação são o sedentarismo, razões estéticas e a utilização cada vez mais frequente de cadeiras e sofás.

Em relação ao Yoga os nossos problemas de postura tem consequências exasperantes. Esticar um musculo durante um minuto dificilmente resultará em progresso se a nossa postura encurtar esse musculo dezasseis horas por dia. Muitas pessoas fazem alongamentos várias vezes por semana sem conseguirem resultados significativos. Acabam por se contentar com o facto de não perderem flexibilidade. Para progredir é preciso resolver um puzzle. Encontrar a cada momento os dois ou três exercícios que naquele momento podem fazer a diferença. Esses exercícios podem ser bastante diferentes dos exercícios que podem ajudar o nosso colega. Os conceitos aflorados acima são as linhas gerais do mapa que nos pode ajudar a resolver o puzzle. Pelo menos acho que tem funcionado comigo. Os problemas posturais de Jean são bem claros nesta foto. A pelvis está deslocada para a frente, as coxas estão constantemente em tensão, as costas compensam deslocando-se para trás, a cabeça está chegada para a frente, criando tensão no pescoço... A postura da rapariga do lado esquerdo não é muito melhor.

Como Noelle observou, o Yoga desenvolveu-se numa sociedade em que estes problemas de postura não existiam. Havia por isso que adaptá-lo aos novos problemas da nossa sociedade. Jean seguiu os passos de Noelle e visitou vários países exóticos procurando encontrar pessoas que mantinham essa postura natural. Podem encontrar aqui e aqui artigos de Jean Couch sobre os temas deste post. Podem encontrar aqui e aqui vários livros de Noelle Perez.
Jean Couch deslocou-se à Costa Rica ao Mali, e por três vezes a ... Portugal. Foi na sequência dessas viagens que resolveu os seus problemas posturais e desenvolveu o Yoga in Balance, a sua perspectiva pessoal sobre o ensino do yoga.

A leitura do artigo da Jean Couch lembrou-me um programa de televisão que eu tinha visto uns anos antes na RTP2. Tratava-se de uma entrevista com uma antropologa francesa que viveu durante vários anos com os moradores do bairro dos Quatro Caminhos, na minha cidade natal, Setúbal. Este bairro ficava situado entre o cruzamento que marca o fim da auto-estrada Lisboa-Setúbal e o hospital de São Bernardo. Até à década de cinquenta este bairro era uma aldeia nas proximidades da cidade. Confirmei antes de escrever o post que se tratava de Noelle Perez.
Noelle reparou que todos os habitantes do bairro tinham uma excelente postura. Os muitos carregadores de peixe da doca de Setúbal que aí habitavam tinham uma postura particularmente boa. O facto de terem de carregar à cabeça cargas enormes parecia não os afectar. Uma vez que à partida a sua postura era correcta, carregar o peixe funcionava como um exercício de consciencialização do seu corpo. Noelle vivia com um dos carregadores. Apesar de uma vida difícil cheia de fomes e outras privações este homem tinha uma saúde de ferro e uma alegria contagiante. Aceitava tudo o que a vida lhe dava com naturalidade e gratidão. O casal passava os verões em Setúbal e os invernos em Paris. Na cidade luz os nosso carregador de peixe dava aulas de postura a doutores, fazendo-os dançar as suas danças com uma canastra de peixe equilibrada na cabeça. Nas horas vagas dedicava-se à pintura e tornou-se num pintor naif muito bem sucedido.
A família da minha avó materna viveu nos Quatro Caminhos entre as décadas de vinte e de cinquenta. Alguns familiares meus continuaram no bairro até à década de oitenta. Era frequente as visitas lá de casa assinalarem o facto de a minha avó manter uma postura erecta perfeita apesar dos seus noventa anos.

June Stein tinha graves problemas de costas.

quarta-feira, maio 11

Objecção de consciência

A propósito do casamento homossexual em Espanha e seguindo uma sugestão pública do Vaticano, os bispos espanhóis exigiram aos católicos que se opusessem à nova lei invocando a objecção de consciência. Só que o argumento de que se deve seguir a própria consciência contra uma ordem injusta é muito poderoso e agora há um grupo de católicos espanhóis que invoca a própria objecção de consciência para se negar a obedecer aos bispos.

terça-feira, maio 10

Size matters

Se é certo que atirar dinheiro à educação não resolve problemas, também é certo que educar os alunos mais desfavorecidos é mais caro do que educar aqueles que têm uma boa base familiar. Um aspecto particular tem a ver com o tamanho das turmas: segundo este artigo as turmas pequenas ao longo de vários anos beneficiam os alunos, sobretudo os mais pobres.

(via Jaime C. Silva)

segunda-feira, maio 9

Nove valores para Marcelo

- Também foi seu aluno?
- Sim, era um bom aluno. Dei-lhe dezasseis. Não podia dar mais. Havia dois melhores do que ele. Só tiveram dezassete...

Foi mais ou menos assim. Esta semana calhou a vez a António Costa. Na outra semana falou do antigo assistente, antes do doutorando...

Comparar é odioso. Comparar alunos vinte anos depois já só revela alguma coisa sobre quem faz a comparação. Caro Marcelo Rebelo de Sousa, os professores não avaliam pessoas. Avaliam o trabalho produzido por um aluno, numa cadeira, num determinado momento. A média final da licenciatura é um bilhete para se entrar no jogo da vida. Vai para o lixo no dia em que conseguimos o primeiro emprego sério. António Costa é o número dois do governo. Bem ou mal toma regularmente decisões que afectam milhões de pessoas. Falar das suas notas escolares só apequena a quem o faz.

Você é uma das cabeças mais brilhantes deste país. Ainda não conseguiu transformar esse brilhantismo em algo que lhe sobreviva. Acredite em si, vá à luta, arrisque, faça alguma coisa que fique e que o orgulhe!


Entretanto, evite envergonhar os seus colegas.

Ainda a Igreja em Timor

O que se tem passado em Timor continua à espera de esclarecimento. Hoje no DN, uma opinião de alguém insuspeito de anticlericalismo.

domingo, maio 8

Dezassete por cento

Segundo a sondagem do Expresso de ontem, 40% dos portugueses estão desiludidos com a escolha do papa e só 17% dizem ter gostado da notícia.

O artigo sobre o papa da Wikipedia tem uma discussão bem documentada sobre as responsabilidades do Cardeal Ratzinger na condução da política do Vaticano em relação aos casos de pedofilia ocorridos no interior da igreja católica.

sábado, maio 7

O que é que falhou?


Mourinho atingiu hoje os 91 pontos quando ainda faltam duas jornadas para acabar o campeonato. O melhor resultado de sempre eram os 90 pontos do Arsenal na época passada. Mas nada disso contará no dia em que o Zé estiver a ver a final da Liga dos Campeões na televisão. Terá sido só falta de sorte? Se Joe Cole não tivesse falhado o remate no último minuto, se o arbitro não tivesse validado o golo que não entrou...
Neste fim de época os extremos e os laterais estavam lesionados, os avançados estavam exaustos. Lampard deu tudo para resolver o campeonato no sábado e não sobrou nada para terça-feira. Não foi só falta de sorte. O campeonato inglês é um pouco mais duro do que Mourinho pensava e a equipa deixou de dar garantias num momento chave. Ele próprio o admitiu implicitamente na véspera do primeiro jogo com o Liverpool. Agora já sabe como é. Para o ano há mais...

sexta-feira, maio 6

Bharatanatyam


é a dança clássica do sul da india. A mais antiga e mais conhecida. Nunca me agradou por aí além. Tem cores a mais. Faz-me lembrar os filmes indianos de Bollywood. O verão passado assisti a uma palestra introdutória a esta dança feita por umas das suas melhores executantes e fui conquistado. É uma espécie de yoga em movimento.
Muitas das esculturas religiosas hindus são baseadas em posturas desta dança. A postura da figura acima é a postura tradicional de Shiva, o dançarino, o poderoso deus da criação e da destruição, representado nesta estátua:


Como devem ter reparado, falta a Shiva um dos seus quatro braços. Manter esta postura durante alguns segundos que seja é um feito atlético não trivial. É necessário estar completamente descontraído e ter a coluna perfeitamente direita.

A jovem dançarina japonesa da figura acima executa a mesma postura. A fotografia foi tirada de outro angulo. Trata-se de uma principiante que ainda não dobra a perna direita como manda a tradição. Experimentem as duas versões e vejam a diferença. Como podem ver todo o peso repousa sobre o osso talar, o osso que fica por cima do estribo quando se anda a cavalo. Só alguém com uma postura perfeita pode executar esta postura de forma a podermos reconhecer nela a graciosidade e a força que são os atributos tradicionais de Shiva. Mesmo que o nosso objectivo não seja ganhar a vida como bailarinos, temos muito a ganhar em sermos mais parecidos com o senhor da esquerda.


O esqueleto do lado esquerdo está em equilíbrio. O senhor da esquerda quase que não necessita de utilisar os seus musculos para se aguentar de pé. Usa-os apenas para se mover. Quando um musculo que devia ser usado para nos movermos passa a ser usado para nos sustentar, encurta e começa a causar problemas. Um dos problemas são as famosas dores de costas.
O nosso corpo guarda na sua memória muscular todas as tensões do dia a dia. Se já tivermos uma má postura essas tensões gravam-se com mais facilidade. Depois transformam-se em dores de cabeça, depressões...
Dançar Bharatanatyam é certamente uma alternativa ao Prozac
. O yoga é outra. Será que somos capazes de encontrar nas nossas tradições alternativas ao Prozac, sem ser preciso ir beber nas culturas alheias?
Podem ver aqui um conjunto de fotografias e videos de Bharatanatyam. Reparem na postura em cada posição de equilíbrio e na graciosidade com que a dançarina se move. Todos nós ajudaremos a tornar este mundo um pouco melhor se conseguirmos captar uma parte infima dessa graciosidade.

quinta-feira, maio 5

Bartoon


Hoje, no Público:
- O Presidente da República diz que é errada a atitude ... de achar que a culpa é sempre dos outros.
- Concordo, eles têm de mudar de atitude.
- Eles! Quem?

- Os outros, esses que acham que a responsabilidade é sempre dos outros.

Mercado da fé


Dois artigos que aplicam as leis da economia e do mercado à eleição do Papa Bento XVI.

Por mim tenho a impressão que a Igreja não quer começar a disponibilizar no mercado europeu (o mais exigente) uma versão do produto que dê ao utilizador mais possibilidades de configuração e quer apenas convencer o mercado de que a linha mais simples, que tem vendido até agora em todo o mundo, é a única adequada. Ora os clientes europeus têm pouca paciência para quem, habituado ao monopólio, não se preocupa com as suas necessidades. Depois há uns clientes que também são accionistas e que continuam a pressionar no sentido de que lhes forneçam um produto mais configurável.

Este novo CEO, depois de anos no departamento de controlo de qualidade, sempre a arranjar maneira de atrapalhar a vida a todo o departamento de inovação que propunha alterações aos produtos, pode vir ter muitas dificuldades em evitar a decadência se não alterar a sua postura.

(via Insurgente)
Foto: cota de armas do papa Bento XVI, desenho preliminar.

terça-feira, maio 3

Supercordas: o novo paradigma?

No princípio da década de 70 um recém-licenciado em História telefona à mãe para meter uma cunha ao pai. Os seus pais eram divorciados e ele não falava com o pai desde a adolescência. Ele pretendia que o pai, um físico teórico famoso, lhe arranjasse um lugar como aluno de doutoramento em física na universidade de Princeton. Como poderia um licenciado em História fazer em doutoramento em Física? Vinte anos depois Edward Witten ocupava o lugar de Einstein como a superestrela do Institute for Advanced Studies. Witten é oconsiderado por muita gente como o único candidato sério a ombrear com Newton e Einstein na lista dos grandes génios da Física. No entanto ainda não ganhou o prémio Nobel da Física. Nem é provável que o ganhe durante as próximas décadas. A maioria dos físicos não está certa sequer que aquilo que ele faz é Física. Os jovens que procuram explorar as suas ideias tem muito mais dificuldades em arranjar emprego do que os seus colegas que trabalham em àreas menos prometedoras. Porquê? É este fenómeno sociológico que procurarei explicar neste post. Não ponho sequer a hipótese de estar a decorrer alguma caixa às bruxas ou que alguém esteja a ser menos honesto.
Aqui fica o link da Wikipedia sobre Witten. Aqui, aqui e aqui encontram-se escritos de Witten relativamente acessíveis sobre o seu trabalho.

O mais interessante problema da física moderna é o de unificar a teoria da gravitação de Einstein, uma teoria essencialmente contínua, com a mecânica quântica, uma teoria essencialmente descontínua. Einstein procurou resolvê-lo durante décadas sem chegar a nenhum resultado. Vejamos algumas ideias para conseguir ultrapassar este impasse:

1. É preciso ter uma visão histórica das leis da Física. O universo começou pelo BigBang. Esta ideia proposta por uma padre católico, o abade George Lemaitre, reconcilia a Física com o Génesis e tornou-se agora mais ou menos consensual. Quando o universo começou o seu nível de energia é muito alto. A este nível de energia as leis da física deveriam ser mais simples. Conforme o universo se vai expandindo e arrefecendo a queda do nível de energia vai produzindo quebras de simetria nas leis da física, que se tornam mais complicadas. É outra vez a Alegoria da Caverna de Platão.
2. Exemplo de quebras de simetria: enquanto a força electromagnética pode ser atractora e repulsiva a força da gravitação é sempre atractora.
3. Outro exemplo de quebra de simetria, mais difícil de aceitar. Nós não vivemos num universo a três dimensões de espaço e uma de tempo. Existem mais do que três dimensões de espaço, só que as restantes encolheram. Quer isto dizer que não devemos olhar para um ponto como sendo um ponto mas sim como sendo um pequeno círculo de um diâmetro muito mais pequeno do que o diâmetro de um electrão. Um electrão deve ser imaginado como sendo um pequeno anel a vibrar.
4. Estratégia para resolver o problema: Começar por estabelecer uma teoria física que funcione bem a altas energias. Essa teoria deve ser relativamente simples. Uma vez estabelecida essa teoria vamos procurar deduzir dela outras teorias suficientemente mais complexas que funcionam a níveis de energia mais baixos até chegarmos ao nível energético actualmente existente no nosso universo.
5. O grande problema desta teoria é que só pode ser testada em experiências que necessitam de níveis energéticos muito acima do que somos capazes de produzir. O acelerador do CERN tem alguns quilómetros de diâmetro. Necessitaríamos de uma acelerador com o diâmetro do sistema solar.

A Física ignorou a Matemática durante os últimos oitenta anos. Chegou o momento da Física pagar um preço por isso. Witten e outros concluíram que para compreender a geometria da natureza a nível subatómico era necessário saber tudo o que os matemáticos tinham descoberto sobre geometria durante o último século e progredir pelo menos outro tanto. Os físicos clássicos não estão em condições de entender as novas teorias porque não compreendem os instrumentos matemáticos necessários. Os novos físicos não estão em condições de forçar os físicos clássicos a aceitar as novas teorias porque não conseguem arranjar provas experimentais. Os novos físicos tem por isso muita dificuldade em arranjar emprego num departamento de física. Estamos perante um choque de paradigmas.

A primeira tentativa séria de desenvolver uma teoria deste tipo ocorreu nos anos oitenta. Quando se compreendeu que a teoria da supergravidade tinha falhado uma geração inteira de novos doutores perdeu qualquer hipótese de arranjar um emprego na universidade. Muitos deles trabalham agora em bancos e empresas de software. Ganham bastante bem mas passaram ao lado do sonho das suas vidas. Quando a primeira geração das supercordas falhou as pessoas foram um pouco mais diplomáticas a anunciar o falhanço. O aparecimento de Witten e outros permitiu a muitos dos novos físicos arranjar emprego em departamentos de matemática. Não é sequer claro que eles sejam físicos ou matemáticos. As supercordas usam muita matemática extremamente sofisticada e tem consequências a nível matemático. A matemática tornou-se o campo experimental da nova física. Todos os meses algum físico propõe uma conjectura matemática completamente louca e extremamente precisa com base na teoria das supercordas. Muitas vezes essa conjectura revela-se verdadeira!

Veremos como evolui esta luta entre os dois paradigmas. Note-se que no dia em que se venha a conseguir a comprovação experimental da teoria das supercordas é de esperar que tenhamos acesso a fontes de energia que transformarão a bomba de hidrogénio numa brincadeira de crianças. Teremos também novos problemas com que nos preocupar. Como sempre...

segunda-feira, maio 2

Eça, o relativista moral


E Afonso da Maia respondia com bom humor:
- Então que lhe ensinava você, abade, se eu lhe entregasse o rapaz? Que não se deve roubar o dinheiro das algibeiras, nem mentir, nem maltratar os inferiores, porque isso é contra os mandamentos da lei de Deus, e leva ao inferno, hem? É isso?...

- Há mais alguma coisa...
- Bem sei. Mas tudo isso que você lhe ensinaria que não se deve fazer, por ser pecado que ofende a Deus, já ele sabe que não deve praticar, porque é indigno de um cavalheiro e de um homem de bem...
- Mas, meu senhor...
- Ouça, abade. Toda a diferença é essa. Eu quero que o rapaz seja virtuoso por amor da virtude e honrado por amor da honra, mas não pelo medo das caldeiras de Pero Botelho, nem com o engodo de ir para o Reino do Céu...
- Mas o verdadeiro dever de um homem de bem, abade, é quando vem, depois de semanas de chuva, um dia destes, ir respirar pelos campos e não estar aqui a discutir moral. Portanto arriba! E se o Vilaça não está muito cansado, vamos dar aí um giro pelas redondezas.
O abade suspirou como um santo que vê a negra impiedade dos tempos de Belzebu arrebatando as melhores reses do rebanho; depois olhou para a chávena e sorveu com delícia o resto do seu café.

Eça de Queirós, Os Maias, Capítulo III

domingo, maio 1

Aulas de religião imoral católica

1. Em Timor há grupos de cidadãos que nas ruas agridem, detêm, levam para interrogatórios privados e julgam em tribunais populares outros cidadãos. Isto sucedeu com dois portugueses mas tem sucedido com timorenses. Tudo isto põe radicalmente em causa os direitos humanos e o estado de direito.

2. Como se não bastasse o facto de tudo isto ser feito por grupos ligados à Igreja Católica, os "tribunais populares" funcionam na casa do Bispo de Díli. Enquanto nos preocupamos com a violência do fundamentalismo religioso islâmico, somos surpreendidos com a violência organizada apoiada por Bispos da Igreja Católica.

3. Tão graves acontecimentos poderiam levar-nos a pensar que as manifestações se destinavam a proteger direitos essenciais do povo de Timor. Afinal, ainda recentemente, Timor estava sujeito a um regime ditatorial estrangeiro que massacrava pessoas apenas por se manifestarem. Mas aí percebemos que o que está em causa é saber se as aulas de religião e moral católicas são ou não obrigatórias.

Recapitulando: os timorenses estão preocupados com a formação e o futuro dos jovens, pelo que começam por querer obrigá-los a todos a ter aulas de religião e moral, mesmo que os seus pais não estejam de acordo, de modo a que eles entendam o respeito pelos outros e pelo papel das famílias na educação dos seus filhos. Para continuar a garantir um futuro assim risonho e moral põem em causa o estado de direito e a democracia de modo a que os jovens se vão treinando para respeitarem as suas próprias instituições. Finalmente aproveitam para algum exercício de violência e desrespeito pelos direitos humanos, também altamente formativo. O Bispo de Díli empresta a sua casa para estas actividades e explica-lhes que quando os fins justificam os meios e quando por coisas pequenas fazemos grandes guerras estamos a construir a paz e a concórdia.

Será que no Vaticano ou entre os bispos católicos não há ninguém que ajude os bispos de Timor a perceberem o que estão a fazer? Alguém conhece um endereço de e-mail ou site onde se possa dar uma sugestão aos bispos de Timor ou ao Vaticano sobre este assunto?

O meu amigo Mehmet


O Mehmet era um doutorando em robótica. Vivíamos na mesma residência de estudantes. Os seus olhos brilhavam no dia em que comeu umas farófias tipicamente portuguesas: são iguaizinhas às da minha mãe! Fez uma rotura de ligamentos no primeiro dia de sky. Eu costumava ir visitá-lo ao hospital.
Foi nessa altura que rebentou o affaire Rushdie. Memhet era um muçulmano devoto. Aprovava os movimentos islâmicos mais radicais, embora não fosse capaz de fazer mal a uma mosca. Não se vai ao hospital insultar um doente. Talvez não tenha tomado a atitude mais correcta. A verdade é que não fui capaz de lá voltar.
Quando nos encontrámos outra vez puxou imediatamente pelo assunto. Perguntou-me o que é que se passava. Queria ouvir a história da minha boca. Expliquei-lhe a minha posição. Não havia grande coisa para dizer. Cada um de nós sabia muito bem o que o outro pensava sobre a fatwa a Salman Rushdie. O problema é que nós gostamos mais de vocês do que vocês gostam de nós. Vocês querem que nós entremos para a Comunidade europeia para destruir a nossa cultura. Disse-lhe que não me parecia que isso fosse verdade. Para além do mais, eu não queria que a Turquia entrasse na Comunidade Europeia. Vocês não tem o direito de recusar a nossa entrada! Perguntei-lhe se afinal ele queria entrar e porquê. Porque em compensação vamos destruir a vossa! Com o passar do tempo as nossas relações voltaram a uma certa normalidade, embora nunca mais fossem como antes.
A Comunidade Europeia vai escolhendo lideres cada vez mais imbecis: Delors-Prodi-Barroso, é sempre a descer. Na falta de ideias para fazer avançar o projecto europeu, aumenta-se o número de países. Com a entrada da Turquia será extremamente difícil desenvolver uma política externa comum. A CE nunca será muito mais do que uma zona de comércio livre. A hegemonia americana nunca será posta em causa. A Turquia merece um estatuto de membro associado com vantagens comerciais substanciais. Ir para além disso é dizer adeus ao projecto europeu.
Afinal para que é que se vai fazer um referendo sobre a Europa? Caso se diga não a única consequência é levarmos um puxão de orelhas do Presidente da República e do Primeiro Ministro e termos direito a corrigir o nosso voto no referendo seguinte. Mais vale poupar o dinheiro.