quinta-feira, março 31


Picasso, A pomba da Paz.

A questão do aborto

Começo por dizer que votei sim e que penso votar sim outra vez no próximo referendo sobre interrupção voluntária de gravidez. Como muitas outras pessoas, tenho dificuldade em compreender a outra parte. Então porquê convidar alguem a defender posições diferentes das minhas? como eu expliquei no post Tentações Totalitarias 2, embora tenha convicções fortes, sei que nao sou o detentor da verdade. O CA e uma pessoa lúcida e equilibrada com quem mantenho um dialogo frutífero há mais de uma década. Isto apesar de termos posições bem divergentes sobre vários assuntos.
Teremos brevemente as primeiras contribuições do Lino e do A. Os três trarão a este blog uma maior diversidade de pontos de vista e uma outra riqueza de conteúdos.
Aproveito para lembrar que o software dos comentários e muito lento. Se já estamos irritados ainda mais irritados ficamos. Por isso que tal abrir o comentário, começar por escrever o post num processador de texto e depois de o corrigir fazer copy/paste? Pode ser que assim se consiga ter uma discussão menos emocional.
Alguns comentários sobre o post do CA. Neste post discutem-se duas questões. A questão do aborto e a questão dos embriões. Vou-me limitar a tratar aqui a questão do aborto. As pessoas reagem de forma extremamente emocional e tudo o que se possa fazer para simplificar a discussão ajuda. Agradecia que os comentaristas mais emocionados relessem o post do CA. As posições defendidas pelo CA até nem são tão anti-aborto quanto se poderia deduzir dos seus comentários. Estou certo que muitos dos comentaristas já commpreenderam que o insulto não leva a lado nenhum. Espero que depois de termos descarregado as emoções estaremos agora em estado de discutir as coisas em termos racionais.
Parece-me que algumas pessoas ficaram chocadas por um post tão longo não reservar um parágrafo para discutir os dramas pessoais das pessoas que abortam. Acho que o post está dirigido a um leitor mais anti-aborto do que os leitores que protestaram. Eles tomaram isso como uma afirmação implícita de que a populacao portuguesa é anti-aborto. Nao me parece que seja essa a opiniao do CA. Nada justifica os excessos nos comentários.
Eu nao poria tanta enfâse como CA na discussao das situações ideais. Portugal continua sem uma politica de aumento de natalidade que seria excelente investimento no futuro e a melhor forma de diminuir os problemas da segurança social. O desemprego vai aumentar durante a próxima década. O aumento dos problemas sociais acaba sempre por agravar o problema do aborto. Nenhuma lei que permita a interrupção voluntária de gravidez resolve o problema do aborto. Apenas diminui o número de mulheres estropiadas por abortos feitos em más condições. De forma análoga, uma vitória do não não acabará com os abortos.
O novo referendo sobre o aborto vai dividir novamente a sociedade portuguesa. Espero que este blogue possa dar uma pequena contribuição para evitar excessos que não contribuem em nada para a resolução dos problemas.
on

Picasso, a Guernica.

quarta-feira, março 30

O aborto, quase em português

Num post do quase em português, Lutz apresenta algumas posições que raramente se têm visto neste debate e com as quais estou de acordo:
Há um estado, em que a vida humana (o espermatozoide é vida humana...) ainda não merece a nossa solidariedade e protecção, e há outro, em que ela a merece em todo o caso e a todo o custo. O que não vejo, é um ponto nítido e indiscutível entre estes dois estados que marca a fronteira categórica, e menos ainda que este tem de ser a fecundação.
Pessoalmente também penso que esse ponto não existe. E não é na bíblia ou na tradição cristã anterior ao século XIX que se vai encontrar essa revelação de Deus. A fixação desse ponto na concepção pela Igreja Católica é recente. É posterior ao conhecimento científico do processo de fecundação e parece resultar mais de uma necessidade filosófica do que teológica.
Só afirmo que para mim, a vida humana, representada por um espermatozoide, um embrião, uma criança, ou uma pessoa em coma, não é igual em todos os casos, se estou posto perante a questão se e quanto devo protegê-lo.
A prática geral tem sido esta. Apesar de todas as afirmações teóricas, quase ninguém se lembraria de propor que se penalizasse o aborto como homicídio premeditado. Também a nível de protecção médica, nem os mais radicais "pró-vida" parecem reparar que no convívio sexual de um casal se perdem naturalmente embriões. Se os considerassem como pessoas de pleno direito teriam que se preocupar com a investigação médica de modo a pôr termo a esta "mortalidade infantil". Se a procriação medicamente assistida vier, daqui a alguns anos, a conseguir gravidezes com menos perdas de embriões do que o processo natural, deverão ser os primeiros a proibir criminalmente a procriação natural e as relações sexuais desprotegidas.
uma pessoa que acha a decisão de abortar susceptível de ser ponderada em comparação com outros valores ou objectivos
Penso que se encararmos o valor da vida do embrião como algo que vai aumentando progressivamente podemos pensar em fazer este tipo de ponderações. E creio que nunca deveríamos esquecer a pessoa da mãe. Às vezes exagera-se absolutizando a mãe e esquecendo o feto. Outras vezes absolutiza-se o feto e esquece-se a mãe.
Há alguns aspectos que me parece que vejo de forma diferente do Lutz. Creio que uma criança após o nascimento deve ser defendida como pessoa humana de pleno direito, embora não tenha ainda muitas das características racionais que o Lutz enumera. E parece-me que deveríamos dar uma protecção muito elevada ao feto no fim da gravidez.
Entre a concepção e o fim da gravidez existem alguns marcos que podem ser usados para aumentar o estatuto da entidade que se desenvolve: nidação, desenvolvimento do sistema nervoso e viabilidade fora do útero. Falo de entidade porque nas primeiras duas semanas a entidade pode dividir-se ou fundir-se com outra e aí falta a individualidade para falar de pessoa ou mesmo de ser.
Para mim o ideal é que uma gravidez em que o embrião nidou chegue sempre ao nascimento de uma criança. E devo dizer que não me agrada a intercepção do processo depois da concepção. Penso que deveria ser sempre algo considerado como extraordinário, por haver conflito grave com outros valores. Acho normal que se percam embriões na procriação assistida porque há um objectivo superior (conseguir que algum dos embriões chegue a ser criança) e acho compreensível que haja abortos em fases mais avançadas por razões ponderosas. A partir de certo ponto parece-me que o único modo razoável de interromper uma gravidez é fazer nascer a criança.
Acho difícil que uma lei consiga caracterizar à priori equilíbrios tão delicados, mas a ideia de uma liberalização sem critérios, mesmo com um prazo definido (10 ou 12 semanas), não me parece boa. Por outro lado, a rigidez com que a lei actual tem sido interpretada também não contribui para que se aceite manter a lei.
Acho que o meio primordial de combate ao aborto devia ser a prevenção: estudar as razões que levam as mulheres a abortar e procurar combatê-las antes que o problema se ponha. De outro modo, mais do que defender a vida estaremos a combater a morte com mais morte.
CA

terça-feira, março 29


George Bush meets Tolkien

O blogue da semana

O blog da semana é o ...blogo existo. Chamo a atenção para dois artigos antigos que eu não me importaria nada de ter assinado: Maquiavel fotógrafo e Tolkien meets George Bush.

Um mês de Prozacland

Um mês

O Prozacland durou um mês e chegou às mil visitas! Manter um blog é mais duro do que eu julgava, não pelo tempo que se leva a escrever os posts mas pela obrigatoriedade de o fazer regularmente. Aproveito esta data para lançar o anúncio. Estamos abertos a conversações para aumentar a equipa ou para uma fusão de blogs. Manter um blog a longo prazo só é possível para uma equipa de pelo menos quatro pessoas. Para mim o essencial não é a cor política das pessoas mas sim opções intelectuais e estéticas. Um exemplo: CA, que deu origem a uma animada discussão a propósito do último post pergunta na fotografia do polícia dos Simpsons porque é que eu não fiz um post sobre as perseguições aos homossexuais em Viseu. Não fiz porque não tinha nada de minimamente original a dizer sobre o assunto. Só faço um post puramente de opinião se o tema em questão tiver mexido comigo de alguma maneira especial. Convidei o CA a escrevê-lo. Ficam aqui convites para o A, o CA e o lino. Se não se quiserem comprometer podem começar com uma colaboração pontual e depois logo se vê.

sábado, março 26

sexta-feira, março 25

Segmentação de mercado

E continuam a morrer polícias...
Qual a solução para resolver o problema: mais dinheiro?
Acontece que existem meia dúzia de zonas problemáticas no país. Tudo o que temos de fazer é identificar essas zonas e dar-lhes um estatuto especial. Os polícias que trabalharem nessas zonas devem ter um subsidio de risco substancialmente maior, estar bem equipados e bem treinados. Serão escolhidos entre os voluntários mais capazes. Se se arranja voluntários para o Iraque não será difícil arranjar voluntários para a Amadora. Os custos de melhorar as condições de trabalho nestas zonas são infinitesimais, se comparados com os gastos totais da PSP. Não podemos é continuar a enviar para as zonas de perigo os agentes que não conseguem arranjar colocação noutro lado como se fossem carne para canhão.

quarta-feira, março 23

Quanto vale uma vida humana?

Um ministro da educação decidiu pedir um parecer sobre a substituição do amianto nas escolas primárias construídas numa certa época. O estudo analisou o preço da remoção do amianto e os riscos para a vida das crianças. Introduziu também aquele que considerou ser um preço razoável para a vida de uma criança e tirou daí conclusões.
Não sabiam os assessores do ministro que uma vida humana não tem preço? Parece ser um exercício gratuito de mesquinhez atribuir um valor em euros à vida de uma criança. Acontece porém que os recursos são escassos. Pode-se sempre fazer algo mais para evitar que se percam vidas humanas. Até onde é que vamos gastar? Como é que se compara a efectividade de duas medidas que possam ajudar a salvar vidas?
Todos os dias tomamos decisões que envolvem riscos para as nossas vidas. Quando compramos um automovel podemos comprar um motor com mais vinte cavalos de potência ou comprar mais um air-bag. Quando viajamos de avião escolhemos um bilhete mais barato num voo charter, onde a manutenção é um pouco mais espaçada, ou um bilhete mais caro numa companhia tradicional. Quando fazemos uma ultrapassagem para não perder o princípio do filme arriscamos a nossa vida. Estas decisões podem ser analisadas por métodos de econometria. Obtem-se assim um número que corresponde ao valor que implicitamente atribuímos às nossas vidas. Alguns de nós ficaríam admirados com o valor obtido. Se não aceitarmos este tipo de quantificação é impossível discutir racionalmente uma série de questões que serão decididas exclusivamente por critérios políticos.
Voltando à minha história (verídica). Os acessores concluíram que se devia realmente retirar o amianto das escolas. O ministro ficou ultrajado com a atribuição de um valor monetária à vida de uma criança. O parecer foi arquivado. O amianto ficou onde estava.

terça-feira, março 22


O dia do partido nazi. Clique na imagem.

Tentações totalitárias

Jerónimo de Sousa é simpático, mas os renovadores continuam a ser apeados do poder. Outro dia um militante do PCP refutava na TSF os argumentos dos renovadores. Dizia ele que o marxismo leninismo mostra que existe uma só geometria e como tal uma só verdade. Como tal os renovadores e os comunistas não podem ter simultâneamente razão. O PCP não pode estar errado porque é um partido altruista que apenas pretende estabelecer uma sociedade em que todos vivam em harmonia, produzindo segundo as suas possibilidades e recebendo segundo as suas necessidades. Logo os renovadores estão errados.
Dediquemos dois minutos a analisar o seu argumento. A geometria euclidiana foi o primeiro modelo científico do universo. Durante milénios foi encarada não como sendo um modelo mas sim como sendo a descrição do universo. Este ponto de vista foi conceptualizado por Kant de uma forma um pouco mais subtil do que a apresentada pelo militante do PC.
Um dos axiomas da geometria euclidiana é o axioma das paralelas. Este axioma postula que dada uma recta r e um ponto p existe uma e uma só recta paralela a r que passa por p. O axioma das paralelas sempre causou grande desconforto a matemáticos e a filósofos. Não era tão obvio como os outros. Vários matemáticos tentaram prová-lo a partir dos outros axiomas. Supunham que os outros axiomas eram verdadeiros e este era falso para daí chegarem a um absurdo. Nunca tiveram sucesso e acabaram por provar que existiam realmente geometrias não euclidianas, onde o axioma das paralelas era falso. A premissa do raciocínio do militante do PC estava errada.
A descoberta da existência de geometrias não euclidianas fez estremecer os fundamentos da ciência e da filosofia. Existirem duas geometrias incompatíveis era com existirem duas verdades que se contradiziam. Só alguns séculos mais tarde se compreendeu a necessidade de vários modelos para compreender a geometria do espaço a diferentes escalas. A geometria euclidiana é um bom modelo à escala humana. As geometrias de curvatura não nula são os modelos que permitem compreender a gravitação à escala das galáxias. Necessitamos de modelos geométricos discretos para compreender a geometria dos fenómenos que se passam á escala subatómica. Estes modelos apenas começaram agora a ser construidos.
A relatividade generalizada e a mecânica quântica modelam aspectos diferentes do universo. Desde o princípio do século passado que se tenta construir um modelo que englobe os dois, sem sucesso.

Goya, o Santo Ofício.

Tentações totalitárias II

Embora o militante do PCP fosse uma pessoa pacífica e bem intencionada, o seu argumento já justificou um número sem fim de atrocidades. O totalitarismo está sempre ligado de uma forma ou de outra à confusão entre o modelo e a realidade.
Todas as formas de totalitarismo religioso assentam na crença de que existe um modelo de socidedade ideal dado por um deus todo poderoso que todos devem seguir. Cristo ao separar aquilo que é de Deus daquilo que é de César negou a existência de um modelo que se possa aplicar a todos os aspectos da sociedade. O que não impediu a igreja cristã de embarcar em várias aventuras totalitárias. Os muçulmanos consideram que a introdução por Maomé de um sistema que abarca toda a sociedade é um grande aperfeiçoamento em relação ao cristianismo. É certamente um obstáculo ao desenvolvimento dos países muçulmanos.
Embora tenha sempre votado na esquerda moderada não me acho em poder de nenhuma verdade suprema. Por um lado estou a dizer uma banalidade, por outro nem tanto. Grande parte dos votantes do CDS, do PC e do bloco de esquerda comporta-se como se fossem os detentores da Verdade. Os outros ou são estúpidos ou são seres diabólicos. Os meus queridos colegas do Blafémias comportam-se muitas vezes como sacerdotes do Mercado. Muitos votantes do PS ou do PSD são mais moderados, talvez apenas porque tém uma atitude menos militante.
As nossas opções políticas estão associadas aos modelos que usamos para interpretar a realidade. Se todos pensassem como nós, viveríamos numa sociedade menos capaz de criar soluções para enfrentar novos desafios.

domingo, março 20

Jean-Paul Sartre

Durante o ano de 1968 a revolta de Maio em França, a luta contra a guerra do Vietname nos Estados Unidos, o movimento hippie um pouco por todo o lado e uma série de outras revoltas estudantis contribuiram decisivamente para criar a sociedade relativamente tolerante em que vivemos. Só depois de Maio de 68 começou a diminuir a discriminação contra os negros e os homossexuais. Só depois de Maio de 68 começou a ser legalizado o aborto e os namorados passaram a poder beijar-se na rua. Martin Luther King tinha sido assassinado em Abril de 68. Em Maio Salazar caíu da cadeira. As mudanças de Maio de 68 só chegaram a Portugal seis anos mais tarde.
Todas as revoluções são libertações gigantescas de energias acumuladas que produzem idiotices e injustiças sem fim. Maio de 68 não fugiu à regra. Sem os escritos de Sartre durante as décadas anteriores a energia libertada em Maio de 68 poderia ter-se dissipado de uma forma totalmente inconsequente. Hoje fala-se pouco de Sartre porque o essencial daquilo porque ele lutava já não se discute. Tornou-se um património de todos.
A guerra da Argélia, terminada em 62, provocou divisões terríveis na sociedade francesa. O único grupo organizado da oposição era o partido comunista. No auge da guerra da Argélia tanto o governo como o partido comunista eram implacáveis a esmagar qualquer grupo que propusesse uma alternativa. As liberdades individuais tal como as reconhecemos hoje não eram respeitadas. Foi Sartre que ousou conceber a ideia da terceira via entre uma direita musculada que defendia uma guerra colonial e o partido comunista. Hoje essa terceira via é maioritária. A sua filosofia e a sua obra romanesca assentam na ideia da liberdade da escolha. A sua luta política também. As pressões (intelectuais e físicas) a que as pessoas eram submetidas na época eram gigantescas. Sartre cometeu alguns erros políticos. Só não os comete que está sentado na bancada a ver a história passar. No essencial ele estava correcto.
Cem anos depois do seu nascimento os seus romances já não são tão lidos como o foram até à década de 70. A sua obra filosófica terá talvez caído num relativo esquecimento. No entanto o seu legado político foi incorporado nos pilares da nossa sociedade.

Napoleão

Wellington

Ninguém precisa de falar de Raymond Aron para chamar a atenção para Jean-Paul Sartre.
Por que é que eu perdi o meu tempo a falar do sr. Aron? Se por acaso lhe interessar saber, carregue aqui e aqui. Veja também isto.
Comparar é odioso. Alguém tão honesto como Raymond Aron não merece a maldade que lhe estão a fazer.

Cadeiras


As cadeiras começaram por ser um símbolo de poder: os tronos do reis e as cátedras universitárias. Com o passar do tempo tornaram-se tão indispensáveis que já práticamente não nos conseguimos sentar sem elas. Cada vez é mais difícil para uma mulher dar à luz por falta de mobilidade das ancas. Cada vez temos mais dores de costas e de pescoço. As cadeiras e os maples enfraquecem os músculos que são supostos sustentar o esqueleto. Depois de tal acontecer não há cadeira ou almofada que resolva os nossos problemas. Mas tudo se resolve com o exercício físico adequado.
Algumas sugestões. Melhor do que uma cadeira: um banco. A melhor solução para trabalhar no computador: uma bola. Experimente uma numa loja de desporto. Compre-a e encha-a numa bomba de gasolina. No fim da cada hora no computador estique-se uns instantes em cima da bola. As suas costas vão retribuir-lhe a gentileza.

O elogio do desconforto


É desconfortável para um farmacêutico perder oito por cento do seu monopólio. É desconfortável para cada um de nós ser questionado sobre o nosso trabalho. Não o podíamos fazer melhor, mais económicamente, mais rápido? É desconfortável quando a pergunta provém de um superior, de um subordinado ou mesmo de nós próprios.
É desconfortável andar uma hora a pé. É desconfortável levantar pesos. É desconfortável manter o equilíbrio numa posição menos comum. É desconfortável esticar o corpo para além daquilo a que estamos habituados. Se não testarmos os nossos limites todos os dias, estes limites vão-se encurtando e a dor que queríamos evitar acaba sempre por nos apanhar.
Vivemos numa sociedade que evita a dor. Evitamos a nossa dor, a dor dos outros, a ideia de dor. Quanto a própria ideia de dor se torna insuportável, a dor acaba por vir em nosso socorro e cura-nos da nossa doença.

sábado, março 19


Rafael, Escola de Atenas. Vaticano.

Anjos e demónios

Este livro foi o primeiro ensaio da receita que deu origem ao Código da Vinci. É difícil resistir a ajudar o Cardeal Bertone na sua tarefa de tornar Dan Brown ainda mais rico do que ele já é. As personagens centrais dos livros de Dan Brown são instituições e não pessoas. No Código da Vinci tudo gira em volta da Opus Dei e de uma sociedade secreta. Neste livro os principais intervenientes são o Vaticano e o CERN. O CERN é o centro de física que alberga o maior acelerador de partículas do mundo, com mais de vinte quilómetros de diâmetro.
Ao longo do livro vamos conhecendo em detalhe as duas instituições e cabe-nos descobrir qual das duas é a vilã. A minúcia com que as instituições são descritas contribui de forma essencial para dar credibilidade ao enredo. Antes de nos mostrar que a nota de um dólar está cheia de símbolos maçónicos no Código, Brown chama a atenção nos Anjos para o facto de o logótipo do CERN conter o símbolo da besta: 666. A grande inovação de Dan Brown na técnica de construir thrillers foi a introdução de mitos. O enredo do Código gira em volta do mito do Graal. O enredo de A&D resuscita uma sociedade secreta, os Illuminati, que é suposta lutar desde a renascença contra a igreja católica. Compre o livro como se compra uma embalagem de aspirinas. Fica lá em casa para quando for preciso. É um dos poucos medicamentos que já se vendem nos supermercados. Se pensa visitar Roma, então compre mesmo o livro. Revisitar os monumentos apresentados e discutidos em detalhe no livro é um atractivo suplementar para a sua viagem.

quinta-feira, março 17

Para quando?

Uma sondagem sobre as presidenciais.

Crisis, what crisis?

Durante três épocas o Futebol Clube do Porto perdeu três campeonatos para equipas que estavam longe de ser brilhantes. Depois saíu a lotaria a Pinto da Costa. Quando Mourinho partiu, as coisas voltaram ao normal.

Leonardo, o homem de Vitruvius.

O erro de casting

Durante quinze anos a Quadratura do círculo sobreviveu apesar de José Magalhães. Não fale por cima de mim, tenha ideias, repetiam enfadados Pacheco Pereira e Lopo Xavier. Surgida a oportunidade e tendo uma palavra a dizer, Pacheco Pereira escolheria certamente um igual, alguém independente que não fosse debitar a cassete de um partido. Ouvimos então da boca dos três intervenientes do programa que foram eles a escolher e a convidar Jorge Coelho. Realmente Coelho não falou por cima de ninguém. Não era o falar com interlocutores sem ideias que incomodava Pacheco Pereira?

Belmiro de Azevedo na Universidade

A excelência, na empresa e na escola. Belmiro em Coimbra, ao seu melhor nível.

António Borges e a Universidade

Um excelente artigo de António Borges sobre a situação actual das universidades em Portugal. Publicado no Diário Económico.

terça-feira, março 15


But I prefer to take revenge!

Sobreviver-lhes

Que fazer naqueles dias em que não acreditamos no sistema? Apetece fundar uma célula da Al-Qaeda. Alternativa a considerar: Inscreva-se num Health club. Depois do exercício passe meia hora no jacuzzi e vá para casa ler um bom livro. Faça um album com as caras dos seus políticos preferidos e veja-os definhar enquanto você fica cada vez mais jovem.
Santana, não podes com uma gata pelo rabo! Se andasses a mini maratona de Lisboa não chegavas ao outro lado da ponte. Deixa-te de brincadeiras com a câmara de Lisboa e pede umas dicas à Cinha.

Goya, modo de volar.

A pedofilia nunca existiu

Ao que parece grande parte das acusações contra os intervenientes no caso apito dourado vão cair porque a juíza não teve tempo de ouvir as gravações e autorizou a sua continuação, o que é ilegal. É assim que se passam as coisa num estado de direito democrático. Não troquemos porém o essencial pelo acessório. Como é possível encarregar uma juíza de um caso que envolve dezenas de pessoas e mantê-la em mais dois processos? Como é possível que Rui Teixeira estivesse sózinho a tratar de um processo extremamente complexo, enfrentando uma dúzia de advogados muito mais experientes e pagos a peso de ouro?
Como é possível que os polícias que despoletaram o caso apito dourado tenham sido enviados para o fim do mundo? Quando é que vão ser condecorados? Quando é que o estado português os indemniza e lhes pede desculpa?
Num estado de direito democrático todos temos direito à inocência até prova em contrário. Mas será que vivemos realmente num estado de direito democrático? Suponhamos que um político influente é acusado de um crime e não é condenado. Nas circunstâncias presentes, podemos daí deduzir que foi vítima de uma conspiração ou de um engano com tal certeza que arrisquemos voltar a votar nele? Infelizmente para o próprio, não estou certo que a resposta seja sim.

Mondrian, the gray tree.

Fazer bem as contas

No outro dia um conhecido economista lançava mais uma vez os números para a mesa: Os salários do funcionalismo público na Europa representam 10% do PIB. Em Portugal representam 15%. Sem pôr em causa que é necessário fazer uma reforma profunda da função pública, podemos no entanto ser sérios. A definição de funcionário público muda de país para país. Na Alemanha um funcionário público é um quadro altamente qualificado, que desempenha funções que implicam uma muito elevada lealdade ao estado. As outras funções que são desempenhadas em Portugal pelos funcionários públicos também existem na Alemanha, mas são contabilizadas à parte. Contra números, existem argumentos.

segunda-feira, março 14

domingo, março 13

Fazer as contas

Avelino Ferreira Torres, ex-presidente da câmara de Marco de Canavezes, é candidato à câmara de Amarante. Criou dois jornais gratuitos para apoiar a sua candidatura. Ofereceu viagens de helicóptero aos habitantes de Amarante. Quantos meses de ordenado é que já gastou nestas acções de propaganda?
E ainda agora a campanha não começou.

Habituem-se!

sábado, março 12

Aspirinas

Daqui a uns meses vamos poder comprar uma embalagem de aspirinas por um quarto do preço. Nesse dia muitos portugueses vão perguntar porque é que não podem comprar também os outros medicamentos num hipermercado. Nada impede um hipermercado de montar lá dentro uma farmácia que funcione em tão boas condições como qualquer outra. Para além da lei, claro.
Dizem que Sócrates lançou a ideia da liberalização parcial do comércio de medicamentos para desviar a atenção das questões mais quentes. É verdade. Mas não me parece má ideia aliviar os bolsos dos portugueses antes de lhes pedir sacrifícios. Especialmente se for à custa de um cartel que nada fez para merecer os previlégios de que tem gozado.

Não trabalho com intermediários.

So far

Acabar com um ridículo beija-mão de três horas a seguir à posse do governo é só por si um sinal positivo dado por Sócrates. Já agora, os boys que queiram beijar a mão ao primeiro ministro continuam a poder fazê-lo. Basta correr atrás dele amanhã na travessia da ponte. Se tiverem pernas para isso.

Governar um país já é suficientemente difícil. A Dra. Ana Gomes quer que o primeiro ministro governe o país ao pé coxinho, equilibrando uma bola no nariz. Quando ela ganhar umas eleições, mostra como é que se faz.

sexta-feira, março 11

Fazer as contas

Suponhamos que o governo decide aumentar o IVA. Que pensa um funcionário público desta hipótese? Pelo que eu tenho ouvido, está contra. Ninguém gosta de aumentos de impostos.
Durante os últimos dois anos os funcionários públicos perderam seis a sete por centro do seu salário real. Para todos os efeitos, isso equivale a terem-lhes mantido o salário real e aumentado os impostos em sete por cento. Os funcionários públicos suportaram assim grande parte dos custos da crise. Aumentado o IVA, diminuía a pressão sobre o orçamento. Haveria espaço para o aumentado nominal dos salários que lhes manteria o salário real. O aumento de impostos seria dividido por todos.
Antes de pensar no que está certo ou errado, moralmente ou economicamente, todos temos o direito a fazer as contas.

Goya, contra el bien

Pactos com o Diabo II

Um período de ditadura. estagnação e repressão de quarenta e oito anos, mesmo tendo alguns períodos de desenvolvimento, deixa muitas marcas. Para além disso cria necessáriamente convulsões nos anos seguintes que deixam também feridas profundas. Algumas dessas feridas não estão completamente saradas mas apenas esquecidas. Porquê lembrá-las? Porque este foi o período formativo da democracia portuguesa. Além disso as pessoas que tinham vinte anos nessa altura estão agora no poder. Só compreendendo o que se passava na cabeça das pessoas nesta altura se pode compreender a sociedade de hoje, em particular a sua classe dirigente.
Durão Barroso repetia contínuamente palavras de ordem do MRPP durante os seus discursos (não nos desviarão da linha correcta...). Isso era apenas um dos indícios de que o seu pensamento estratégico era modelado pela suas experiências durante os anos em que se formou a sua personalidade.
Guterres frequentou o IST no tempo em que os gorilas da PIDE controlavam o edifício. A sua geração jurou que nunca havia de decidir as coisas pela força mas sim pela persuasão. O excessivo pendor para o diálogo de Guterres não era uma falha de carácter mas sim uma quase fatalidade histórica.
Sócrates tem a minha idade. Somos de uma geração de transição. Costumava criticar as gerações antes da minha por um certo idealismo lamechas à Ferro Rodrigues. A seguir à minha geração vem a primeira geração que já não viveu o 25 de Abril. Nasceu para a política com a primeira AD e ainda hoje vota PSD. Fala muito na família. Detesto estes tipos. Eles acham que o idealista sou eu. Expoente típico desta geração: José Mourinho. Se apanharmos um primeiro ministro tão eficiente como ele conseguimos dar a volta por cima...
No post anterior falo mais do que eu acho que se passava na cabeça das pessoas do que de factos, o que é bastante arriscado. Espero que os leitores deste blogue que já eram nascidos na altura contribuam com as suas visões sobre estes acontecimentos.

Goya, Filho de Saturno

Pactos com o Diabo I

Normalmente nunca participava em manifestações. Limitava-me a discutir política com os amigos. Naquele dia era diferente. Passei a tarde em frente a um quartel entoando canções revolucionárias e exortando os soldados a saltarem o muro. Um esteve quase. Felizmente para ele, teve juízo. Ao fim da tarde fomos todos para casa. Era claro que a maré tinha mudado. Nada seria igual depois daquela tarde de 25 de Novembro de 1975. Tudo aquilo em que acreditávamos se desmoronava.
A explosão de energia despoletada pelo 25 de Abril não tinha só a ver com a política partidária. Milhares de pessoas entregaram-se frenéticamente a explorar o sexo, a filosofia, as artes marciais ou a cozinha macrobiótica. Quem assistia de fora a este extâse dionísiaco tinha necessidade de lhe pôr cobro para poder voltar às suas certezas. Agora tinha chegado a sua oportunidade de acabar com a festa. Não iam perdê-la e iam cobrar caro a quem nela participou.
Voltei para casa a pé. Andar três quilómetros ajudou-me a ver as coisas de outro prisma. Pouco a pouco foi-se impondo na minha cabeça uma idéia que me assustava, porque me transformava num traidor de todas as pessoas que tinham estado comigo em frente ao quartel. Dalí a dois anos ia para a universidade, queria aprender como se faz ciência. Sabia que a ciência se faz na ordem e não no caos. A festa não podia durar sempre. Esta idéia não afectou o meu desânimo nem o olímpico desdém com que enfrentei os outros, os vencedores, quando no dia seguinte os encontrei nas aulas.
Nessa noite muitas pessoas rangeram os dentes na cama e juraram que nunca na vida iriam aceitar as regras e os valores dos outros. O diabo nunca aparece com chifres, cauda e com o seu cheiro nauseabundo. Aparece sempre disfarçado, alimentando-se da nossa raiva. Nessa noite muitas pessoas perderam um pedaço das suas almas.
Algumas dessas pessoas generosas e boas dedicaram-se à educação. Aquilo que lhes interessava era construir uma
escola diferente daquela que tinham tido, onde os professores sorrissem e fossem mais tolerantes. Algumas, ao negarem os princípios rígidos dos outros acabaram muitas vezes por deitar fora quase todos os valores que os outros defendiam. Acabaram por confundir autoritarismo com autoridade, prepotência com exigência. Acreditaram que a escola devia ser sempre agradável e fizeram todas a concessões necessárias para o conseguir. Dois anos depois de sair do fascismo era fácil acreditar que se podia voltar a ir para a prisão por delito de opinião, como alguns sugeriam à boca pequena. Num clima destes é difícil desenvolver os mecanismos de autocrítica que contrabalançam escolhas feitas num momento de raiva. Os anos passam, cometemos erros que são difíceis de assumir. Passamos a defender situações que são indefensáveis e e estamos apanhados na armadilha. Penso que os factos referidos atrás ajudam a compreender o estado actual do ensino em Portugal.

quinta-feira, março 10


É hoje que vou tratar do meu blog.

A minha pátria

O aparecimento da internet parecia ser a machadada final na língua portuguesa. Cada vez mais as pessoas passariam a ler só inglês e passariam a comunicar preferencialmente nesta língua. Depois apareceram os blogues. De um dia para o outro redescobrimos o prazer de escrever em português. Os mapas Geoloc desenham em cada blogue a aldeia global de Fernando Pessoa.

quarta-feira, março 9

terça-feira, março 8

Poirot Probabilista 2

Discuti o case study seguinte na Escola. Os detalhes são inventados porque já passaram muitos anos mas penso que consegui reconstituir o essencial desta história verídica. Embora a estatística seja uma ciência exacta a sua aplicação na prática pode ter aspectos extremamente subtis. Mesmo para um especialista.

Um casal pára um carro descapotável de cor salmão perto de um indivíduo que está a passear o cão. O homem sai do carro e dispara dois tiros à queima roupa. Em seguida partem a grande velocidade. Uma senhora observa tudo da janela da sua casa e telefona à polícia. Descreveu as roupas do casal de forma bastante precisa e conseguiu fixar as três primeiras letras da matrícula. Não viu a cara dos criminosos. A polícia de Los Angeles lançou um alerta geral e conseguiu deter três horas mais tarde um casal que correspondia exactamente á descrição, guiando um carro da mesma côr, com as primeiras três letras da matrícula iguais. Decide acusá-los. Na falta de melhores argumentos contrata um estatístico. Este demonstra em tribunal que a probabilidade de existirem em Los Angeles naquele dia dois casais verificando todas aquelas condições era superior a um em quatro milhões. O júri condena o casal.

O advogado de defesa apresenta recurso e contrata um estatístico. Este admite que todo o raciocínio do seu colega estava correcto. Acontece porém que a probabilidade de haver dois casais naquelas circunstâncias, dado que havia um, era de um em mil e novecentos. Foi considerado que havia dúvida razoável e como tal o casal não foi condenado.


so desu ka?

Poirot Probabilista

Joao Pinto e Castro pergunta no Blogoexisto qual é a probabilidade de o Benfica nos últimos nove sorteios da Taça de Portugal ter jogado sete vezes em casa, ser isento uma vez e ter jogado uma só vez fora? É certamente muito baixa. Pelas suas contas é de cerca de um por cento. Lembro que esta série de coincidências já ajudou o ano passado o Benfica a ganhar uma taça de Portugal e deixou-o este ano bastante bem colocado para ganhar outra.

Até que ponto é que podemos considerar este facto um eventual indício de corrupção? É possível tratar este assunto com rigor científico? Analisemos um caso que foi tratado nos termos propostos por João Poirot Castro. Quando eu vivia no Japão durante os anos oitenta toda a gente sabia que se fazia batota no Sumo. Num torneio de Sumo cada lutador luta uma vez por dia durante quinze dias. Se já chegou ao prestigioso e lucrativo posto de Ozeki (campeão) tem de uma vez em cada dois torneios obter Kashikoshi (ganhar oito das quinze lutas) para se manter no posto. Quando um lutador precisava de vencer no último dia para obter Kashikoshi era quase garantido que vencia. Normalmente quando encontrava o mesmo lutador no torneio seguinte, perdia.

Recentemente um senhor chamado Steve Levitt resolveu investigar o assunto e comprovou sem margem para dúvidas aquilo que toda a gente sabia. Podem ver na sua
página web o resumo das suas conclusões. Lewit mostra por exemplo que quando os jornais começavam a falar muito no assunto o número de combates combinados diminuía...
O Economist de 10 de Janeiro de 2004 tem um excelente artigo sobre o sr. Lewitt. Ele é professor de economia em Chicago e acabou de ganhar a medalha John Bates Clark, o mais importante prémio para economistas de menos de quarenta anos. Está na calha para um Nobel daqui por mais umas décadas.

Não sei se os métodos usados por João Castro são suficientemente poderosos ou não. Para além do mais a quantidade de dados ao dispôr de Lewit é considerávelmente maior. A questão que levanta faz porém todo o sentido. Gostaria de saber detalhes sobre a metodologia utilizada no sorteio.

Aproveito para lembrar uma regra existente na taça Davis que evita estes problemas. Quando dois países se encontram pela primeira vez sorteia-se quem joga em casa. A partir daí vão alternando quem joga em casa cada vez que o sorteio os junta.

O Blog da semana 2

O Blasfémias publica mais um artigo de JBM: A propósito de Bolonha (III). As modificações que estão a ocorrer nas universidades portuguesas afectarão a nossa competitividade de forma decisiva e ninguém as pode ignorar.

segunda-feira, março 7

Estatísticas para o povo

O Blasfémias destaca hoje com grande relevo uma notícia do Portugal Digital: o facto de já terem morrido este ano 206 pessoas em acidentes de viação. A morte de uma só pessoa é razão de preocupação. Pergunto-me porém qual seria o número mínimo de mortos a partir do qual deveríamos dar este relevo à notícia. Porque é que 206 é um número alto? Compararam com os números de outro país? Compararam com os anos anteriores? Nada disso é dito na notícia. Será que com Sócrates o país está a ficar muito morno, não havia nada para noticiar e foi a primeira coisa que apareceu? Se fizessem uma análise dos dados se calhar até concluíam que estavam em presença de uma não notícia. Era uma chatice, tinham de começar puxar pela cabeça para escrever alguma coisa...
Embora exista uma cadeira de métodos quantitativos no curso de comunicação social da universidade nova nunca vi nenhum jornalista que desse sinais de a ter frequentado.
Caros blasfemos, ser liberal não significa só benzer-se três vezes por dia invocando as leis de mercado. Também é preciso saber interpretar o funcionamento do mercado. Isso faz-se através dos números, das estatísticas. Não é liberal quem quer...
Haverá algum liberal no Blasfémias?
Deixemo-nos de provocações baratas...
Dar um número fora de contexto é apenas uma das incompetências tipicas dos jornalistas portugueses. Quando se fala dos acidentes de trânsito no período do Natal ou da Páscoa é da praxe comparar o número de acidentes desse ano com o número do ano anterior. Se baixou está tudo bem, se subiu está tudo mal e as culpas vão para os automobilistas que guiaram pior este ano. Ninguém se lembra de referir que o número de carros que existem no país aumentou. Ninguém se lembra de comparar as condições metereológicas desse ano com o ano anterior. Devia-se fazer a comparação com o último ano com condições atmosféricas semelhantes.
Ninguém se lembra que existem variações que são completamente aleatórias. Comparar dois números tem um valor muito reduzido. Se se fizer um gráfico dos ultimos dez anos vê-se claramente qual é a tendência dominante. Se em 2005 o número de mortos aumentar em relação a 2004 mas fôr substancialmente inferior aos números de 2001, 2002 e 2003 o número de mortos de 2005 é um sinal positivo que confirma a tendencia de baixa. Se só olharmos para 2004 e 2005 tiramos a conclusão contrária. Um gráfico é uma imagem para mostrar na televisão. As pessoas gostam de imagens.
Porque é que as coisas não são feitas como deve ser? Uma das possíveis razões é porque dava muito trabalho. Melhorar a qualidade da informação quantitativa nas notícias seria um serviço público altamente significativo para o país. Os cidadãos passariam a compreender melhor o país em que vivem e seriam melhores cidadãos. Aceitariam melhor os sacrifícios quando eles fizessem sentido e seriam capazes de detectar mais fácilmente os demagogos.
Perguntei a um estatístico que encontrei alguns anos atrás no comboio para o Porto porque é que não organizava um curso de estatística aplicada para jornalistas. Ele arregalou os olhos e contou-me esta história.
Outro dia um pivot de telejornal bem conhecido anunciou que o tabaco ia aumentar em vinte por cento. Explicou em seguida o significado deste número: cada cigarro iria aumentar um por cento.

domingo, março 6


politicamente incorrecto Posted by Hello

Atiradores furtivos

Por vezes quando um exército perde uma batalha e abandona uma cidade deixa no topo de alguns edifícios atiradores que esperam pela passagem de pequenos grupos para os alvejar. Esperam assim atrasar o adversário e baixar-lhe o moral.
O equivalente político de um atirador furtivo é alguém que, perante uma derrota da sua área política não comenta o acontecimento central, concentrando-se em atacar aspectos secundários da actuação do adversário político e os comentários menos bem conseguidos dos apoiantes dos seus adversários. Os seus amigos podem errar. Os seus adversários devem-lhe a perfeição.
Vamos a um exemplo concreto: o acontecimento central da vida política recente foi o descalabro total da actuação do primeiro ministro. O sniper é alguém políticamente próximo de Santana Lopes, que comenta o menos possível a sua actuação enquanto primeiro ministro e se concentra no acessório, a forma como Sampaio lidou com a questão. Sempre que pode, concentra-se nas posições assumidas pelo mais desastrado dos apoiantes de Sampaio.
Como lidar com um sniper: se não pudermos ignorá-lo, pelo menos devemos impedi-lo de fazer o seu jogo: concentrar a discussão no essencial e evitar o acessório. Algum sniper nas redondezas?

Arquivo Sampaio

Este post destina-se apenas as arquivar as minhas opiniões sobre as decisões recentes do Presidente da República. Ficarei assim muito mais à vontade para falar no futuro.
Sampaio cometeu um erro grave ao deixar Durão Barroso pisgar-se. Depois tinha que aceitar Santana Lopes. Porque tinha dado a sua palavra a Durão e porque de qualquer maneira Ferro Rodrigues não era opção. Pode-se acusar Sampaio do que se quiser mas não de ter uma mente maquiavelica. Não passou pela cabeça de ninguém que Santana conseguisse ser tão incompetente a ponto de o Presidente ter de o demitir. Sampaio devia ter assumido que demitiu Santana por incompetência e consultado o Conselho de Estado sobre a dissolução da Assembleia da República. O PSD devia ter tido a oportunidade de propor uma alternativa, que caberia ao presidente aceitar ou não. Santana nunca a proporia.
O presidente cometeu um erro na forma como lidou com o problema. A sua decisão de dissolver a Assembleia e manter o governo em funções é indefensável. Fê-lo porque estava fragilizado pela aceitação precipitada da demissão de Barroso e porque não teve coragem de pegar o boi pelos cornos. No entanto fez o que era preciso fazer e defendeu o interesse nacional.

sábado, março 5


velho, eu? Posted by Hello

O logótipo da BMW

A Renault e a Fiat actualizaram o seu logótipo várias vezes nas última décadas. A BMW e a Audi não o fizeram. O número de mudanças de logótipo de uma marca de automóveis é proporcional ao número de crises por que a marca passou. Nenhum especialista de marketing seria capaz de impingir o emblema da BMW a uma empresa: está completamente desactualizado. No entanto isso não afecta a imagem de BMW. A estética em sentido estrito subordina-se aqui à imagem da marca. Como aquele emblema aparece naqueles carros, o emblema passa a ter classe. A FIAT não mudou de emblema por o anterior ser feio. O anterior ficou gasto porque foi usado em carros que não vingaram.
Vem isto a propósito do artigo A nossa língua e a língua dos outros publicado no
Alerta Amarelo. Refere MJL que a IKEA, multinacional sueca do mobiliário, não hesita em utilizar a lingua sueca nos produtos que vende em Portugal. Pergunta porque é que as empresas portuguesas não usam o português nos produtos que exportam. Porque é que usamos tantas expressões inglesas that sound much better?
Não me parece que seja uma questão de falta de segurança ou de falta de vontade de afirmação que nos leva a comportar desta forma. Acho que agimos da forma mais racional possível.
Uma empresa portuguesa que queira exportar, se tiver um produto líder de mercado pode usar um nome português. São exemplos disso os Madre Deus e o Mateus Rosé, que fizeram subir a cotação da língua portuguesa nas suas áreas de influência. Uma empresa portuguesa que queira vender um produto de qualidade média numa área em que o nosso país ainda não se afirmou terá tudo a ganhar se se informar primeiro sobre quais são as línguas que estão a facturar no seu ramo de actividade.
Nós estamos a vender-nos todos os dias: as nossas personalidades, os nossos talentos, os nossos blogs... Usamos termos da língua que dá mais jeito na altura e não há que ter complexos com isso. Se formos bons naquilo que fazemos a nossa língua vai ganhar terreno, caso contrário...
O filho do sr. Encarnação, emigrante português na Alemanha, teve de ir estudar informática para os Estados Unidos. O seu pai tornou o nome Encarnação tão prestigioso no mundo da informática alemã que o filho preferiu ir para uma universidade onde pudesse ser um ilustre desconhecido.

A minha escola primária

Acordei impaciente na manhã do meu primeiro dia de aulas. Finalmente a vida a sério ia começar! Entrámos na sala de aula e sentámo-nos. O professor Bernardo entrou depois de nós. Sentou-se na sua secretária em silêncio e iniciou uma estranha tarefa: cortou uma folha de papel almaço em tiras e escreveu qualquer coisa em cada uma delas. Entregou a cada um de nós uma tira. Usou então pela primeira vez da palavra: naquelas tiras estavam escritos os nossos nomes. Se no dia seguinte não soubéssemos escrever o nosso nome completo levaríamos uma reguada. Levaríamos uma reguada todos os dias até ao dia em que o tivéssemos aprendido. Foi o meu primeiro contacto com os seus famosos métodos pedagógicos. Eu tinha alguma dificuldade a escrever um dos meus apelidos, um pouco mais longo do que o habitual. Aprendi a escrevê-lo no preciso instante em que o professor Bernardo acabou de falar. Alguns dos meus colegas levaram reguadas durante meses.
A seguir ao Natal as coisas começaram a organizar-se. Os alunos foram divididos por três filas: a fila dos bons, a fila dos médios e a fila dos burros. Foram escolhidos os três melhores alunos, apelidados carinhosamente pelo professor de cócó, ranheta e facada, os três da vida airada. Nunca soube se era o cócó, o ranheta ou o facada.
Quando a aula começava colocávamos os nossos cadernos na secretária do professor. Enquanto o professor corrigia os trabalhos de casa nós fazíamos uma cópia. Depois o cócó, o ranheta e o facada distribuiam os cadernos pelas três filas. Éramos supostos dizer ao professor quais eram os alunos que não tinham entregado o caderno, para apanharem reguadas. A mim esta tarefa nunca me afectou grandemente. As regras do jogo eram claras, eu só tinha que as seguir. Um dos meus colegas de distribuição, ainda hoje meu amigo, suava litros de suor enquanto distribuia os cadernos e os outros alunos lhe imploravam que ele não os denunciasse.
O professor tinha corrigido os trabalhos e sabia perfeitamente quem é que tinha entregado os cadernos. As nossas hesitações matinais sobre denunciar ou não denunciar os colegas eram obviamente o complemento ideal para o seu café da manhã. Para mim o fascismo era algo muito concreto: a minha escola primária.

sexta-feira, março 4

Escolaridade obrigatória I

Inicialmente a escolaridade obrigatória foi criada para garantir que toda a população activa de um país atingisse um certo nível de educação. Esse nível de educação mínimo era o requerido pelas necessidades de competitividade do país. A escolaridade obrigatória foi um motor de desenvolvimento essencial no Japão e nos países nórdicos durante o final do século XIX. A partir daí o número de anos de escolaridade obrigatória de um país passou a ser encarado como um indíce de desenvolvimento.
Recentemente é possível que alguns países tenham elevado o número de anos da escolaridade obrigatória por razões mais prosaicas: enquanto os jovens estavam na escola estavam ocupados, não consumiam tantas drogas, não roubavam, não estavam no desemprego.
Finalmente surgiu uma terceira razão para aumentar o número de anos da escolaridade obrigatória: Bastava decretar o aumento desta para melhorar este indíce de desenvolvimento e o país em questão julgar fazer boa figura junto dos colegas mais desenvolvidos.
Obviamente o decreto não resolvia todos os problemas. Um jovem para conseguir atingir um nível intelectual superior ao nível do seu agregado familiar tem em média de fazer um esforço suplementar: Numa sociedade onde o valor do esforço individual esteja descreditado é muito difícil convencer os jovens a trabalhar mais. Surgiram então alguns iluminados que descobriram a solução para o problema: bastava baixar um nadinha a fasquia, ninguém reparava, e os resultados melhoravam. Muitos pais acharam bem. Uns não tinham conhecimentos suficientes para ajudar os filhos. Outros não tinham tempo. Outros gostavam de ver televisão. Foi assim que Portugal conseguiu em tempo record aumentar a escolaridade obrigatória até aos nove anos com um esforço mínimo.
Recentemente começou-se a achar que para fazermos mesmo boa figura lá fora tínhamos de aumentar a escolaridade obrigatória para doze anos. Reparou-se então que, por razões altamente misteriosas, muitos alunos abandonavam a escola imediatamente após o nono ano! Como desvendar este mistério?



O blog da semana

O Blasfémias já foi aqui citado a propósito das presidenciais. O artigo A propósito de Bolonha (II) de JBM lida com um problema cuja gravidade só tem paralelo no grau de ignorância da sociedade portuguesa em relação a estes assuntos. Três décadas de facilitismo e incompetência das pessoas que estiveram à frente do nosso ensino deixaram a nossa competitividade económica chegar ao estado em que está. Se discordo de JBM é por ser mais pessimista do que ele. A àrea da engenharia, a que JBM conhece melhor, é das àreas onde as coisas ainda não funcionam muito mal. Na maior parte das outras a situação é bem pior.

So far so good

Já temos governo. Não há tralha Guterrista. Os ministros que conheço são bons, os outros merecem o benefício da dúvida. O PP vai ter uma certa dificuldade em convencer o seu eleitorado de que Freitas é uma ameaça para a NATO proveniente das franjas do Bloco. Agora vamos arregaçar as mangas e começar a discutir os problemas que realmente interessam.


quinta-feira, março 3

Blasfémias sobre as presidenciais II

José Pedro L. Nunes considera que um candidato para poder ganhar as presidênciais terá de se comprometer formalmente no sentido de não dissolver a Assembleia da República durante a totalidade do mandato. Não estou de acordo. O único poder efectivo do presidente consiste precisamente em demitir um governo se considerar que a sua continuação será prejudicial para o país (e dissolver a assembleia caso considere que esta não está em condições de apresentar uma alternativa credível). A opinião da generalidades dos políticos sobre os poderes presidenciais rege-se pelas leis do catavento: os poderes devem ser tanto maiores quando mais perto eles estiverem das posições políticas do actual presidente ou de quem eles pensam que será o próximo presidente.
Santana quando se imaginava em Belém defendia um presidente absoluto. Quando se descobriu em São Bento passou a querer que Sampaio vestisse as saias da rainha de Inglaterra. Ao que parece no Blasfémias já não se acredita por aí além na hipótese de um candidato da direita vir a ganhar as presidenciais...
A votação das legislativas foi bem clara. O povo compreendeu que Sampaio despediu Santana com justa causa e reza para que não seja necessário a outro presidente tomar a mesma decisão. Os candidatos a presidente sabem o preço que Eanes continua a pagar pelos erros que cometeu e ninguém se atreverá durante as próximas décadas a dissolver uma Assembleia sem ter muito boas razões para o fazer.


Blasfémias sobre as Presidênciais I

Alguns comentários às afirmações de José Pedro L. Nunes no Blasfémias hoje. [http://ablasfemia.blogspot.com/ ]
É verdade que a vitória de Jorge Sampaio se ficou a dever em parte à sua decisão de se antecipar a outras candidaturas às presidenciais. Não me parece no entanto que desta vez algum dos candidatos de peso anuncie a candidatura antes do Verão. Não me parece também que tivessem alguma coisa a ganhar com isso. Embora hoje Cavaco Silva seja reconhecido por quase toda a população portuguesa como sendo uma pessoa honesta e competente, a verdade é que continuam intactas as suas capacidades de gerar anticorpos fora do PSD. Cavaco sabe que quanto mais tarde apresentar a sua candidatura melhor. Cada intervenção que fizer depois do anúncio da sua candidatura enviará alguns milhares de indecisos para o campo de Guterres. Santana Lopes percebeu este facto e toda a sua estratégia de empurrar Cavaco para a valeta passava por tentar obrigá-lo a escolher entre não se candidatar e candidatar-se demasiado cedo. Guterres está ainda muito afectado pela sua saída após as autárquicas. Se Guterres pudesse apresentar a sua candidatura dois meses depois de Cavaco ganharia as eleições sem dificuldades. Muitos portugueses (os suficientes) ficariam à espera do homem providencial que os libertaria de alguém que apesar de tudo continua a pensar que nunca se engana e raramente tem dúvidas. Cavaco não vai dar a Guterres esses dois meses.
Marcelo gostaria de ser candidato mas tem de esperar pela decisão de Cavaco. Freitas vai ter de esperar pelas decisões dos outros todos. Os outro candidatos podem-se candidatar já amanhã. De qualquer forma não tem nenhuma hipótese.
O candidato ganhador serà alguém suficientemente forte para poder decidir resistir às pressões dos média até ao momento certo. A forma como Sócrates está formar o governo está a marcar pontos. Decidir não comunicar a decisão que se tomou ou pura e simplesmente decidir não decidir é uma prova de força. .



quarta-feira, março 2

Delgado & Magalhães

Como é possível um suposto comentador independente defender invariavelmente as posições de Pedro Santana Lopes, mesmo quando este já tinha sido demitido por incompetência das funções de primeiro ministro e todo o país esperava pacientemente o dia das eleições para o mandar para casa?
Na última sexta-feira antes das eleições, quando já não lhe restava nenhum argumento, Luís Delgado explicou-nos do alto da sua indignação que não só os partidos iam a votos mas também as empresas de sondagens e os comentadores. Domingo se veria quem tinha razão. Como é que ainda se atreve a aparecer em público ou escrever para os jornais? Por quando tempo é que vamos continuar a tolerar pseudo-comentadores que se limitam a defender as posições de alguém? Qual o interesse de ouvir Delgado falar quando já sabemos o que vai dizer? A Sic Notícias não compreende isto?
Neste momento Delgado está completamente desnorteado com a crise do PSD: quem é que ele vai ter de defender depois do congresso? quem é que ele vai defender agora? Poupem a Luís Delgado este tormento. Porque é que a Sic Notícias não oferece a este esforçado comentador umas férias em Porto Galinhas com volta nunca antes do final do congresso do PSD?
Muito do que acabo de dizer aplica-se também a José Magalhães. Tem a ligeira atenuante de aparecer na Quadratura do Círculo enquanto membro de um partido. De qualquer forma Magalhães podia já ter aprendido alguma coisa com Pacheco Pereira. Se não tem nada para dizer para além de recitar a cassete o que é que está lá a fazer? Para além disso fala por cima do Pacheco, uma dos poucos comentadores com que se aprende alguma coisa. Ainda não percebeu as indirectas dos outros membros do painel no sentido de deixar de falar por cima e passar a ter idéías?